Aposta
Ganhei uma aposta que fiz com um grande amigo. Apostei que haveria segundo turno nas eleições presidenciais. Uma aposta simbólica, apenas para arranjar assunto para a nossa conversa de mais de três décadas e muitas eleições.
A aposta foi modesta, um simples pedaço de queijo. Na verdade, peguei carona na discussão que se formou na saída do prédio e tratei de entrar na aposta que dois amigos acabavam de fazer, tendo por prêmio duas garrafas de um bom vinho. Achei por bem casar um pedaço de queijo. Assim, poderíamos saborear a vitória com mais satisfação, qualquer que fosse o vencedor.
Tenho gosto pela análise do quadro político. Divirto-me acompanhando os acontecimentos que se sucedem no mundo dos homens e das coisas da política, do que se move pela força das conveniências e convicções pessoais e das oportunidades que surgem. Gosto de juntar fragmentos de notícias, palavras ditas, gestos fotografados e reuniões anunciadas. Tento entender o que dizem os jornais diários e as televisões abertas e fechadas, que estão sempre querendo distrair as minhas atenções e dissipar o meu cansaço.
Vejo pouco o que circula na internet, o suficiente para ter noção da movimentação de pessoas agindo em favor do que acreditam, totalmente fora do encalço de quem pretenda controlar as suas idéias, ligações e palavras.
Minha caixa de mensagens anda abarrotada de manifestos e denúncias de todo tipo, além de maldades engraçadas e deboches para todo gosto. Um perigo para qualquer candidato feio, careca, cabeça dura e para qualquer candidata dentuça, inventada, mãe disso e daquilo. A caricatura desnuda as características cuidadosamente escondidas pelos marqueteiros. A graça da piada dissolve a sisudez dos textos raivosos e dá cor às denúncias e cobranças que circulam na rede. O riso continua sendo uma arma mortífera.
Chegam, também, mensagens relembrando declarações, gestos e discursos acontecidos em outros tempos quem infernizam a vida dos candidatos. Não há como escapar do impacto de uma imagem verdadeira.
Curioso, tenho pedido a opinião de pessoas que encontro no elevador, na fila do restaurante, na barraca da feira sobre os resultados do segundo turno. Vencida a desconfiança, recebo respostas que expressam estados de alma consistentes, fonte de voto convicto. As justificativas são variadas, mas quase sempre expressam a força da propaganda, o poder do marketing, os interesses de igrejas. Quase nada sobre programas de governo.
O que parecia ser uma vitória líquida e certa se transformou em algo imprevisível. Eu bem que gostei de ter um segundo turno. Abre espaço para embates mais verdadeiros entre os candidatos e força a revisão de acordos entre forças políticas. Aos eleitores, ele oferece chance para avaliações mais ponderadas.
Na véspera do feriado, em volta de uma grande mesa, comemos o queijo e bebemos o vinho da tal aposta entre amigos. Riu-se muito das opiniões sinceras e dos desejos inconfessos, das análises tendenciosas e, sobretudo, das controvérsias. Sem qualquer possibilidade de acordo sobre os resultados da eleição, decidiu-se abrir nova rodada de apostas, embora não tenha sido possível fixar o percentual de votos de quem vai perder a chance de ser presidente do Brasil.
Alvaro Abreu
Vitória, 13 de Outubro de 2010
Escrita para A GAZETA
