Repique
Esta semana, um amigo de longa data mostrou no jornal, mais uma vez, a palma da mão direita suja do pó preto vindo lá da ponta de Tubarão. A foto ilustrava matéria sobre a ação que o Ministério Público Federal está movendo contra uma empresa que polui a cidade e, também, contra o órgão que deve cuidar da questão ambiental no Estado.
Fiquei animado com a notícia, que fez lembrar um amigo e ecologista ativo que perdemos. Cláudio Noé foi quem usou pela primeira vez a imagem da palma da mão cheia de pó de minério para denunciar a poluição na campanha para vereador de Vitória. Era um vídeo curtinho, mas de grande impacto emocional. Mesmo assim, ele perdeu a eleição. Muito pouca gente achou que ele merecia um simples voto. Isso foi a mais de 15 anos.
Hoje, a tirar pelos muitos comentários que recebi sobre a crônica dos grandes empreendimentos que estão chegando, ele seria muito bem votado. Cada alma, uma atitude; cada olhar, uma emoção. Compartilho com o leitor o tanto que cabe neste espaço:
“Praia das Neves não!!! Tudo bem que já têm um montão de anos que não volto lá, mas aquela praia azuli com espuma super branca com um porto? Ah, que me desculpe o progresso, mas um porto ali não combina mesmo. Que noticia mais triste! E Anchieta também, que é um cantinho maravilhoso! ”
“Perdemos todas essas batalhas. O ES fez a sua escolha. Vamos virar um mega pólo de petróleo, aço, celulose, gás, granito e mármore. Feridas na terra que nunca vão cicatrizar. Tudo ao mesmo tempo e agora mesmo. Esses três empreendimentos por si só já vão atrair milhares de pessoas e grandes bolsões de miséria se formarão no entorno deles. É o fim do bucolismo nas praias do sul.” ”Enquanto isso, os caras do pó preto fingem que nem viram, né?”
“Há duas opções: transformá-lo portenhamente em nostalgia ou preparar o terreno para os tempos de eco bonança: espiritossantos duelando com espiritosdeporcos…” “Estou muito impressionada com o impacto das intervenções drásticas no litoral capixaba, com uma paisagem tão rica.” “Louvo os esforços contra a maré. A questão é muito séria e merece atenção. A guerra parece perdida, mas quem sabe… ”
“Parece que as pessoas continuarão a esquecer dos pés, enquanto os sapatos não apertarem demais…” “É verdade, são muitas pessoas para estragar e poucos para conservar”. “Tem horas que tenho vontade de fugir deste mundo!”
“Leio com indescritível incômodo o que anda acontecendo nas “costas” dos capixabas. O que fazer? A quem pedir as informações corretas sobre as novas usinas no ES? Quem é isento neste processo? A quem beneficia essas implantações? O Ministério Público está se mexendo? Vamos acionar o pessoal do Greenpeace? Vamos chamar Marina Silva para um debate sobre estes impactos? Qual instituto ou ONG pode se mexer para questionar essas instalações? Estas perguntas têm respostas? Se acontece uma coisa dessas na Europa, todo mundo se mexe.”
“Entendo a sua preocupação, Alvareto, mas você ainda não viu nada. Espere até chegarem as refinarias, os complexos químicos e as usinas nucleares. Vamos sentir saudades dos tempos em que poluição eram só partículas de pó preto no ar.” Quem viver, verá. Mas, por enquanto e oportuno, torço para que a justiça se faça e que vigore a lei.
Vitória, 24 de Março de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
