Para sempre
Os últimos dias foram determinantes para o Espírito Santo e talvez muita gente nem tenha se dado conta disso. Soube-se pelos jornais que foram aprovados mais três mega empreendimentos ao longo da costa capixaba: um porto na Praia das Neves , um estaleiro em Aracruz e uma siderúrgica enorme disso, foi anunciado o início da construção de mais uma usina de pelotização, bem ali no planalto de Carapina. É muita coisa.
Li também que as obras do aeroporto devem ser retomadas no segundo semestre deste ano, embora ninguém garanta. Essa novela já virou questão militar: o Exército está encarregado de elaborar os projetos executivos que deveriam ter sido feitos obrigatoriamente antes, para fundamentar a concorrência pública. Contratar uma obra dessas sem ter as informações técnicas detalhadas é como pretender fazer um hospital sem conhecer as especificações das fundações, sem saber a quantidade de apartamentos nem a posição do centro cirúrgico. É entregar a faca, o queijo e a goiabada para a festa da bandidagem.
As notícias sobre os projetos disputaram espaço com as do carnaval, com fotografias de mulheres saradas na passarela. A siderúrgica ganhou página inteira, recheada de declarações cuidadosas, enquanto os outros projetos mereceram apenas umas poucas linhas, com informações superficiais e truncadas. A proibição do jogo de frescobol na praia ganhou mais espaço na imprensa e atenção dos leitores.
A fotografia do auditório onde se decidia a sorte da siderúrgica mostrava homens ansiosos. Estavam em jogo um intrincado conjunto de interesses e muito dinheiro. Bem posso imaginar a esperança dos donos de empresas de engenharia e de imobiliárias que vendem terrenos e apartamentos, dos proprietários de postos de gasolina, dos gerentes de supermercado, das pessoas que precisam trabalhar e até dos vendedores de caranguejo. Todos a favor da aprovação. Objetivos e pragmáticos, os homens se movem por suas expectativas de curto prazo. Os responsáveis pelo empreendimento devem ter realçado seus benefícios econômicos para reforçar posições junto à população e aos governos.
Por lei, as questões ambientais foram obrigatoriamente consideradas pelo plenário. Mesmo porque tem gente sendo muito bem paga pelo empreendedor para identificar os impactos potenciais da obra e, sobretudo, para minimizar o que deve ser feito para prevenir tragédias, compensar os estragos e consertar o que será detonado. São os tais negócios ambientais.
Bem posso imaginar as dificuldades técnicas e a impotência de uns poucos abnegados ao pretenderem discutir os resultados dos estudos apresentados. Nessas situações, apontar fragilidades e imperfeições no trabalho alheio é sempre visto como algo inoportuno. Exigir que o responsável assuma a conta inteira do conserto, mais ainda.
O fato é que o colegiado decidiu pela autorização da construção de uma usina que vai funcionar para sempre o bem e para o mal. E é justamente aqui onde mora o perigo da conjugação do poder de compra das grandes empresas com os interesses imediatos dos homens, o beneplácito do poder público e a desinformação coletiva. Uma siderúrgica é uma indústria muito incômoda. Quem mora perto de uma delas, como eu, sabe muito bem disso.
Vitória, 09 de Março de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
