Sob pressão
Na semana passada fui visitar um casal que acabara de se mudar para uma rua perto da nossa e encontrei o amigo em meio a muitas caixas de papelão, terminando de arrumar os livros na estante da sala. Quando cheguei, o que era considerado relevante já estava no devido lugar. Restava agora a pior parte: selecionar o que continuaria a guardar por mais uns tempos. Restaram pilhas de publicações diversas, incluindo uma enciclopédia, catálogos, dicionários de capa dura, mapas desatualizados, manuais de instruções, uma bela coleção de revistas em inglês e muito, muito mais.
Perguntei se os meninos da casa gostavam de livros como ele. Com um olhar resignado, ele confessou que os dois preferem o computador. Disparado. Deu dó de ver aquele professor cinqüentão constatando a inutilidade de muitas das coisas que acumulou durante anos, pensando nos filhos. Um serviço feito com parcimônia e generosidade, seguindo o exemplo do próprio pai. Tristonho, ele estava diante da verdade dos fatos: muito do que guardou havia perdido, de repente, a razão de ser. Na internet, a busca pelo que se quer é bem mais rápida, certeira e cômoda do que procurar em uma estante entulhada.
Aquela cena me fez lembrar de quando comprei um computador pra nossa casa. A filharada ficou eufórica, sobretudo o mais velho, que agora me lembrar que era um 386 com processador de 25 MegaHertz, 1 MB de memória RAM e monitor colorido. Tecnologia de última geração, em pleno ano de 1993. Fiz a compra por telefone. O vendedor veio de avião do Rio de Janeiro, especialmente para fazer a instalação e nos repassar as instruções de uso. Lembro-me que fiquei incomodado com a truculência com que ele conectava os cabos e batia os dedos nas teclas. Aquele homem enorme demonstrava pressa e nervosismo, talvez por saber que fazia algo fora da lei. Soube depois que o recheio dos computadores era trazidos dos EUA na bagagem de turistas.
Aquilo era uma grande novidade e fazia sucesso com os amigos e com os colegas dos meninos. Muito pouca gente tinha computador em casa. A internet era usada apenas para a troca de e-mails e a conexão ocupava a linha de telefone, provocando muita discussão. Havia fila para jogar Tetris, um jogo russo. Era fascinante remendar o texto, cortar e colar, trocar o corpo das letras, eletronicamente. Um amigo emprestou uma impressora matricial que imprimia as letras com nove agulhas. Fazia barulho, porém facilitava a vida.
Pois bem, estes últimos dias foram de grande inovação na vida familiar e no ambiente de trabalho. É que chegaram, depois de ansiosa espera, os iPhone 4, aparelhos que, acionados com a ponta de um ou, no máximo, dois dedos, permitem ao cidadão comum acessar praticamente tudo o que está disponível no mundo digital. Inclusive coisas que ele não imaginava existirem e das quais nem precisava. De fora, pude observar a excitação individual e o frenesi de pequenos grupos em torno dos aparelhos brancos, esfregando, mostrando, exclamando, experimentando, tocando, ouvindo, fotografando, enviando e recebendo, contando, pedindo, mostrando, telefonando… Tábua de maré, condições metereológicas, conta de banco, GPS, mapas e itinerários, chegadas de aviões, compra de ingresso, posição dos astros, rádio, telefonema de graça, música, lanterna, medidor de batimento cardíaco e muito mais.
Definitivamente, o futuro chegou por aqui. Confesso que estou me sentindo imprensado pela tecnologia da informação e acho que vou acabar tendo que começar a usar celular, nem que seja um daqueles já ultrapassados.
Vitória, 05.09.2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
