Oportunidade
Quando novo, vivi os tempos de euforia do milagre brasileiro, do país grande que vai pra frente, ouvindo uma mensagem impositiva dos poderosos de então: ame-o ou deixe-o. Não havia meio termo nem espaço para contestações. Para completar, o governo militar lançou campanha em favor da saúde do cidadão brasileiro. A mensagem era quase uma ordem: mexa-se.
Na contramão, Gilberto Gil sugeria atitudes e dava outras referências para quem estivesse meio sem rumo: Se oriente, rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul… pela constatação de que a aranha vive do que tece… Considere, rapaz, a possibilidade de ir pro Japão, num cargueiro do Lloyd lavando o porão, pela curiosidade de ver onde o sol se esconde…Vê se compreende, pela simples razão de que tudo depende de determinação…Determine, rapaz onde vai ser seu curso de pós-graduação…
Hoje, olhando TV, lendo jornais, conversando com gente mais nova, percebo que a vida está sob pressão de mensagens que tentam induzir comportamentos, criar novas necessidades e impor a busca de satisfação pela conquista do sucesso pessoal. Pelo que vejo, a tão criticada Lei do Gerson, que prometia vantagem para quem passasse a consumir os produtos que ele anunciava, foi repaginada para fundamentar discursos políticos e campanhas de marketing.
Tem gente dizendo que agora é a vez do Espírito Santo e fazendo crer que o futuro é nosso. Fico com a sensação de estar vivendo um novo tempo de euforia induzida. Desta vez, são os interesses empresariais que se valem da força de encantamento e convencimento da mídia para preparar ambiente para seus empreendimentos industriais, imobiliários ou comerciais.
Curioso, passei a listar os chavões desse processo que empareda a vida e interfere nas decisões de pessoas e empresas. Na verdade, não são muitos, mas seu uso é intenso e sistemático. Basta prestar atenção nas mensagens alardeando que os diferenciais competitivos do nosso estado potencializam o surgimentos de novos negócios, promovem inclusão social e geram ótimas oportunidades para quem esteja atento e focado.
Relembram diariamente que estão previstos projetos de investimentos colossais nos diferentes segmentos da cadeia produtiva de petróleo e gás, em função da exploração do pré-sal, em especial os de logística e suprimento de plataformas, todos com ótimas expectativas de resultados. Destacam que os portos e mais portos, inclusive com estaleiros, que estão na pauta de investimentos de grandes empresas, proporcionarão qualidade de vida para a população. Embora não sejam sustentáveis nem ecologicamente corretos.
Repetem sistematicamente que as nossas vantagens competitivas farão surgir grande quantidade de novos empregos, aumentando a dinâmica da nossa economia. E que isso garante sucesso para quem tiver competência, souber trabalhar em equipe e tiver espírito empreendedor. Insistem que o crescimento vertiginoso da demanda por profissionais qualificados estimulará a oferta de cursos de graduação e pós-graduação, nas mais diferentes especialidades. Anunciam concursos e inscrições para programas de trainee.
Ainda que a contra gosto, reconhecem que as balas perdidas matam de vergonha e que realmente não são bonitas as nossas estatísticas de assassinatos, assaltos, sequestros relâmpagos e usuários de crack. Mas já tem gente encarando a insegurança da população como um nicho de mercado para negócios e parcerias no segmento de vigilância privada e de sistemas de segurança. Inclusive para os fornecedores locais de tabuletas “sorria, você está sendo filmado”.
Vitória, 23 de Julho de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
