O bom velhinho!
Não sou daqueles que vão às compras regularmente ou por compulsão. Quando muito, ajudo no abastecimento de frutas, legumes e hortaliças, de preferência, nas feiras livres. Das lojas que vendem ferramentas, parafusos e utensílios de cozinha mantenho distância, por pura precaução. Raramente sou visto comprando camisa ou bermuda, mas sapato, não tem jeito, tenho que ir experimentar. Visto-me com roupas que compram pra mim e que ganho nas festas de aniversário e de fim de ano.
Nos anos 60 era difícil de encontrar roupa pronta em Vitória. Quem podia, ia comprar nos magazines em Copacabana ou nas butiques de Ipanema, no Rio. Aqui, roupa de homem só existia em algumas lojas na Avenida Jerônimo Monteiro, no centro. A saída era comprar os tecidos para calça na casa Huddersfield – que era difícil de pronunciar, mas fácil de encontrar – e os panos para camisa nas Pernambucanas e na Santa Terezinha e, em seguida, entregá-los para algum alfaiate conhecido ou na casa da costureira mais próxima. Nesse tempo, muitas mulheres costuravam pra fora e cansei de ver mães de amigos meus sentadas diante da máquina, fazendo roupa para os filhos.
Por sorte, ao lado da nossa casa morava uma costureira de mão cheia, que vestia muitas senhoras e senhoritas para os casamentos de gente importante e as festas de debutantes, que aconteciam nos clubes da cidade. Dona Antenisca era de origem italiana, dessas bem reforçadas, que falava alto e dava boas gargalhadas quando estava de bom humor. A sala de costura dela ficava nos fundos do terreno e tinha uma janela virada para o nosso lado, que permitia ouvir as broncas frequentes que dava nas suas ajudantes.
Pois saibam que durante muitos anos usei camisas de cambraia de linho feitas por ela, sempre cinco ou seis a cada vez, quando eu vinha passar as férias na cidade. Teve até quem me achasse um sujeito sofisticado por usar aquelas benditas camisas amarrotadas, mal sabendo que dona Antenisca, por ser aparentada com gente da Braspérola, comprava peças dos melhores linhos com um bom desconto, que repassava aos fregueses.
Ela era casada com um simpático nordestino contador de histórias. Aposentado, seu Firmino era chofer de carro de praça e fazia ponto na praça Costa Pereira. Tinha um Dodge verde claro, que mantinha lustroso, cuja placa era 2636. Lembro-me muito bem disso porque deixei de ganhar um bom dinheiro no jogo do bicho por falta de experiência na interpretação de sonhos. É que tendo sonhado com aquele carro enorme vindo, de marcha a ré, na minha direção, tratei de apostar sua placa na milhar. Deu 6362 na cabeça. Invertido, como tão bem indicava a mensagem recebida enquanto dormia. Isso, só fui saber na hora de conferir a pule, pela boca do apontador do jogo, no bar do seu Frontini.
Em plena véspera do Natal, fui desafiado por minhas filhas a fazer o que não fazia há muito tempo: entrar em um shopping inteiramente lotado. Aceitei a provocação ao me lembrar que poderia comer quibe com tabule enquanto elas batiam perna em busca de brinquedos para os netos da casa e de presentes para o Amigo X. Nem bem sentei para comer, dei de cara com o par de olhos arregalados do garotinho de uns três anos que estava na mesa ao lado. Estarrecido, boquiaberto, ele havia parado de mastigar e de piscar. Pensei que ele começaria a chorar imediatamente, como acontece com boa parte das crianças que me vê de perto. Mas não foi o que aconteceu. Do nada, o moleque abriu o maior sorrisão e, apontando para mim, disse pra mãe: Papai Noel, Papai Noel!
Vitória, 07 de Janeiro de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
