Parquímetros e cancelas
Sexta passada atravessei a ponte para ir a uma consulta em Vila Velha. Com o tráfego fluindo bem, consegui chegar na hora. Escolhi uma vaga bem diante do prédio, ao lado do parquímetro do estacionamento rotativo. Depois de revirar a bolsa e procurar no carro juntei um real e vinte centavos em moedas. Precisava de dois. Atravessei a rua e fui pedir ao dono do bar que trocasse uma nota de cinco reais, mas ele disse que eu era o primeiro freguês do dia. Como a máquina não aceitava pagamento em notas nem cartão, para não me atrasar resolvi arriscar e pagar só meia hora.
Enquanto esperava minha vez, comentei o fato com a fiscal da prefeitura que fazia a inspeção da clínica para a revalidação do seu alvará de funcionamento. Para minha surpresa, a mulher disse que rasgava todos os autos de advertência que lhe apresentassem. E mais, que a prefeitura não tinha órgão competente para cobrar multa de quem não pagasse o estacionamento. Achei aquilo razoável e fiquei mais tranquilo, embora torcendo para que ninguém aparecesse para conferir o tíquete que deixara no console do carro.
Mas não deu outra. Lá estava, preso pelo limpador do parabrisas, um auto de cobrança complementar de quase dez vezes o valor que eu deixara de pagar por falta de moedas. Fui conversar com a funcionária da empresa do outro lado da rua que se apresentou como supervisora, em inspeção rotineira. Muito atenciosa, vestia uniforme no estilo polícia militar, com bate-bute e tudo. Bem treinada, ouviu minhas ponderações sobre a falta de troco. Sobre a inexistência de um tempo de tolerância, ela disse que todo mundo vem reclamando disso e que alguns vereadores querem aprovar um período de quinze minutos. Ao perguntar o que aconteceria se eu não quitasse aquela cobrança adicional, ela falou, meio sem graça, que a papeleta seria enviada para a prefeitura, que a repassaria ao Detran, que cobraria multa de uns cinquenta reais e lançaria uns três pontos na minha carteira. Uma arapuca moderna, pensei eu.
Acuado, só me restava pagar. Como ela não tinha troco, localizou pelo walktalk a fiscal da área, que ajudava uma senhora de idade no parquímetro da outra quadra, e fomos até lá. Curioso, eu quis saber se era verdade que apenas sete por cento do dinheiro arrecadado ficava com a prefeitura, como eu tinha ouvido falar. Constrangida, com os olhos fixos no chão, a fiscal não me respondeu. Com a chegada de um homem esbaforido querendo usar o parquímetro a calçada lotou. Simpático, tratei de comentar com ele o acontecido e reclamar dos tais percentuais usados na partilha das receitas, lembrando que a rua é um bem do município. Para minha surpresa, o rapaz foi dizendo que não era bem assim e coisa e tal. Diante de tamanha convicção, tive ímpetos de perguntar se ele era vereador. Fecha o pano.
No começo da semana, eu havia participado de audiência pública com o Prefeito de Vitória, onde se debateu a implantação de um projeto piloto de estacionamento pago na Praia do Canto que, se aprovado, seria levado para outros bairros da capital. Como os contratos devem ser honrados, fiquei pensando com os meus botões que a experiência de Vila Velha e a peleja em torno do pedágio da Terceira Ponte recomendam total rigor, transparência e adequação na definição dos termos de todos os processos de concessão, a começar por prazos de validade curtos e preços inversamente proporcionais à quantidade de usuários. Pelo que sei, isso não foi adotado no caso da BR 262, deixando autoridades de cabelos em pé e eu com minhas barbas brancas de molho.
Vitória, 20 de Agosto de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
