Semana agitada
Com a chegada das duas filhas que moram em São Paulo, a família viveu uma semana movimentada e cheia de boas emoções. A mais velha veio trazendo uma bela e expressiva barriguinha de cinco meses para ser exibida e festejada pelos amigos e parentes daqui. Um concorrido chá de fraldas encheu a nossa casa de gente falando alto, rindo de tudo, comendo esfiha profissional, bebendo suco natural, suspirando com a palha italiana feita por tia querida. Passada a canseira da festa, resolvida a compra de dólares em tempos de câmbio nervoso, viveu-se a correria da preparação das malas para filha e mãe, animadíssimas, irem passear em Nova York.
A filha do meio, por sua vez, veio trazendo na bagagem dezenas de desenhos originais que ilustraram capas de livrinhos de aventura, para a exposição As Mulheres de Benicio. Neles, sempre em poses sensuais, Brigitte, uma belíssima morena de olhos azuis, aparece enrolada em um enorme serpente, deitada na areia da praia sem a parte de cima do biquíni, segurando uma pistola esfumaçante ou subindo uma escada em vestido longo de decote generoso e grande abertura lateral. Acho que eram dela as únicas imagens de mulheres semi-nuas disponíveis nas bancas de revista de todas as cidades brasileiras nos anos sessenta e setenta, quando não existia a atual fartura de revistas de mulher pelada, sempre expostas na altura dos olhos de quem passa pela calçada. A tirar pelo que se viu na abertura da mostra, a figura daquela heroína insinuante frequentou os sonhos de juventude de muitos dos marmanjos sessentões de hoje.
Sem alternativa, tive que aceitar a intimação familiar para participar de um workshop sobre criatividade, tendo como mote de instigação a construção de um tal diário gráfico. Foram duas tardes inteiras do fim de semana fazendo colagens com pedaços de revista, pintando sem qualquer rigor o que havia feito, cortando tudo em formato de página dupla, montando pequenos cadernos para serem furados no dorso e costurados à mão. No início, fiquei constrangido em meio a tanta gente muito mais nova do que eu, inclusive um filho e uma neta, mas acabei entrando na brincadeira, sob estímulos do ilustrador Renato Alarcão, de Niterói. Terminada a oficina com papeis, já noite do domingo, fui direto para a cozinha para, sob luz de vela, finalizar o arroz de polvo que havia começado a preparar na parte da manhã. Era a peça de resistência das comemorações dos aniversários da filha do meio e da minha irmã caçula. Haja boca para rir e falar, haja boca para beber e comer.
Aprendi, na prática, que as dúvidas bloqueiam as providências e as incertezas atrasam os acontecimentos. Preparar uma exposição sempre dá frio na barriga e muita canseira. Pois foi em meio à agitação de casa cheia, que consegui juntar mãe e filhas para definirmos os detalhes do projeto da exposição das colheres de bambu que montaremos no mais antigo museu de design que existe, agora em novembro, em Winterthur, pertinho de Zurique. Resolvido isso, foi possível começar a selecionar as centenas de peças que levaremos na bagagem.
Para relaxar, passei as manhãs da semana tentando amansar de vez o casal de sabiás da praia e os seus dois filhotes que nasceram no buganvília que cobre o muro. Acreditando no sentimento de proteção próprio das mães, fui trazendo, progressivamente, os pedaços de mamão madurinho pra perto de mim. Em três dias, os esfomeados já estavam comendo o mamão colocado em cima da mesa, enquanto eu fazia de conta que lia o meu jornal. Tenho fotos que comprovam a nossa amizade.
Vitória, 01 de outubro de 2014
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
