Emoções eleitorais

Emoções eleitorais

Tenho passado por boas emoções nestas eleições. Já escrevi sobre algumas delas, inclusive sobre expectativas de resultados. Gosto de acompanhar a evolução das pesquisas, o jogo do pessoal de campanha. Divirto-me querendo decifrar o que passa pela cabeça dos formuladores de estratégias que tentam criar candidatos sob-medida para eleitores mais distraídos. Tenho preferido não entrar no tiroteio que acontece nas redes, mas sou forçado a dizer que tenho visto muita coisa engraçada sobre os candidatos. Tem gente realmente criativa e muito debochada. Desisti de ficar lendo acusações em geral e defesas em particular sobre candidatos e seus governos. Papel aceita tudo, era o que se dizia antigamente para anular argumentos escritos. Isso vale também pra tela do computador.

Mantenho uma troca de mensagens com um amigo distante que acredita em verdades diferentes das que eu acredito, sobretudo aquelas que se referem a candidaturas à presidência. Ultimamente ele tem dito que pesquisas eleitorais são sempre tendenciosas e que, portanto, não podem ser levadas a sério, principalmente as que constatam tendência de queda nos índices da sua candidata. Temos tido um bate-teclas amistoso, praticando um jogo de cena nem de longe parecido com o que rola na internet, onde se usa linguagem contundente e bem menos gentil.

Percebo que os ataques na rede são razoavelmente sincronizados, como que obedecendo a uma espécie de orquestração centralizada sobre o que deve ser dito a cada momento. Vejo pessoas queridas e conhecidos meus envolvidos em uma espécie de roteiro tramado lá longe. Tenho lembrado de uma frase do poeta americano Allen Ginsberg em uma tabuleta pregada atrás da porta da casa de um amigo, em João Pessoa, que dizia alguma coisa mais ou menos assim: ” Vi as melhores cabeças de meu tempo serem consumidas pela loucura…”. São os versos iniciais de um longo poema sobre a geração beat, dos anos sessenta do século passado. Bem sei que não se trata de comparar ao que esteja acontecendo por aqui, mas volta e meia me vem a sensação de que, mais uma vez, tem gente se desvairando com verdades ditadas por terceiros.

Há muito me entristeço com as atitudes de Lula no seu embate político com quem discorde de suas opiniões, critique atos desabonadores, denuncie o jogo sujo feito em proveito de interesses políticos, partidários, empresariais e tudo o mais. Nessas horas, o que se vê é negativa cabal dos fatos e, sobretudo, a desqualificação da opinião e de quem a tenha emitido. Não viu, não sabe, não existe, não aconteceu… Culpa a imprensa, as elites de olhos azuis, a oligarquia, os empresários gananciosos, a oposição reacionária e vai por aí a fora, sempre minimizando o ocorrido, negando relações de amizade e convergências de interesses. Não é necessário ser sociólogo para entender que esse tipo de atitude empobreceu substancialmente a qualidade das conversas sobre os rumos do país, gerou antagonismos entre pessoas queridas, quebrou o encanto e as expectativas de muita gente. O Mensalão resultou em prisões relevantes e a operação Lava Jato vai produzindo informações sobre fatos de extrema gravidade, capazes mesmo de provocar mudanças no quadro nacional. Lula perdeu de lavada em São Paulo, sua base política, e, no segundo turno, pode perder feio em sua terra natal, marcando o fim de um ciclo.

É bem verdade que o país deu grandes saltos em muitas áreas nas últimas décadas, mas será muito bom poder viver os próximos tempos sem sentir que tem gente poderosa tentando, sistematicamente, fazer você de bobo.

Vitória, 15 de outubro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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