Cidade maravilhosa

Cidade maravilhosa

A lei que criou o PDU – Plano Diretor Urbano de Vitória, para regular e orientar a ocupação do seu território, estabelece que ele será atualizado a cada dez anos. A Prefeitura deu partida ao processo de revisão, soltando campanha informativa e criando um cronograma de reuniões para consultas por região e outras para debate de temas de interesse comum. A intenção é ouvir a população para conhecer expectativas gerais e específicas que deverão resultar em propostas a serem levadas à Câmara de Vereadores no início de 2016.

Tenho acompanhado o desenvolvimento de Vitória desde que cheguei aqui, em 1958, quando me deslumbrei com a recém-inaugurada Avenida César Hilal, com uns seis prédios (que me pareceram grandes e altos). Aos olhos de menino do interior, aquela era a própria imagem do progresso. De lá pra cá, presenciei enormes transformações no cenário urbano, incluindo o aterro de vastas áreas de manguezal e do mar para receber grandes avenidas e bairros inteiros. Com olhos ingênuos, vi acontecer a degradação do Centro da cidade e, com grande pesar, a desconfiguração dos conceitos expressos no projeto Novo Arrabalde. Assisti o inchaço do trânsito e o surgimento dos semáforos por todo lado, a verticalização das construções, o emparedamento de vistas e lugares, a ocupação desordenada de encostas e muito mais. Mudanças radicais, que aconteceram em ritmo alucinado, estimuladas, sobretudo, pela oportunidade de obter bons lucros com metros quadrados de construção.

Localizada no centro de uma região em crescimento vertiginoso, Vitória é obrigada a funcionar como lugar de passagem, o que impacta fortemente a vida de muita gente. Antes cantada como Cidade Presépio, Vitória se transformou em uma minimetrópole e até ganhou fama de bonita, o que dá uma pontinha de orgulho até mesmo em cachoeirenses como eu. Colorida e envidraçada, a cidade brilha e reluz emitindo sinais de elegância e bons modos. O vigor, a pressa e a afobação ficam por conta dos seus usuários.

Em uma dessas reuniões de consulta ouvi muitas das expectativas de moradores e de entidades ou grupos organizados. Todos seguros quanto à necessidade de garantir conquistas já alcançadas, de avançar com melhorias nos padrões de ocupação dos espaços urbanos e, principalmente, empenhados em não deixar estragar o que esteja funcionando bem. Defendeu-se a mobilidade, a criação de praças e áreas de lazer, a proibição de atividades poluidoras e, com destaque, a valorização da paisagem urbana. Ninguém defendeu adensamento e verticalização a qualquer custo, talvez em razão da crise do mercado imobiliário.

Da minha parte, considerando suas características geográficas e ressaltando suas vantagens competitivas, defendi que Vitória se estruture para abrigar, de forma crescente e em bases vigorosas, atividades produtivas inovadoras e de alto valor agregado, intensivas em conhecimento técnico-científico e que incorporem a inteligência das pessoas. Trata-se de uma providência para acelerar o surgimento de empregos de salários médios elevados e propiciar a geração de renda e de impostos em grande escala. Digo isso com boa convicção, por entender que se trata de uma alternativa para melhor aproveitamento das potencialidades de um já expressivo contingente de pessoas altamente qualificadas, das muitas instituições de ensino e pesquisa e das empresas de base tecnológica presentes na cidade. Vitória tem tudo para ser um lugar maravilhoso para se viver e para se ganhar muito dinheiro com ideias brilhantes e cabeças a mil.

Vitória, 15 de abril de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sobre emoções cidadãs

Sobre emoções cidadãs

Só consegui chegar na manifestação de domingo no final da tarde, justo na hora em que o pessoal de Vila Velha começava a subir a ponte de volta pra casa. Uma cena simpática: famílias inteiras, grupo de amigos, casais de namorados, avós animados carregando netos, fortões sem camisa, estudantes de todas as idades, e muitos mais. Quase todos em verde e amarelo, andando rápido e com um grande sorriso no rosto. Parecia que estavam saindo de uma festa animada. Ninguém com cara feia, de ódio ou má vontade. Também não tinha ninguém com cara de arrependimento ou de vergonha por estar ali, muito embora fosse possível imaginar que alguns pudessem estar pensando na distância que haveriam de percorrer ladeira acima, ladeira abaixo, até pisar em terra firme do outro lado do canal. Por certo, a visão lá de cima da ponte ajudaria a enfrentar o cansaço, a dor nas pernas e o tênis novo. Tinha muita gente feliz da vida em poder participar, pela primeira vez, de manifestação tão numerosa, carregando cartazes ou usando camisetas com palavras de ordem contra o governo, a presidente, a roubalheira e tudo o mais que anda irritando tanta gente.

Andando a pé, passamos pela praça do pedágio e caminhamos, no contra-fluxo, até a Praça do Papa, que já encontramos quase que inteiramente vazia, pois os moradores de Vitória já tinham caçado o caminho de casa. Depois de comprar uma garrafa d’água no único ambulante que ainda estava por lá, conversei com o pessoal que acabara de desmontar o sistema de som e se preparava para ir embora. Dava pra ver que estavam satisfeitos por terem feito muita gente cantar no sol quente.

Tanto na ida, como na volta, passamos por ruas e lugares predominantemente usados pelos carros. Só ali me dei conta que, ao volante, nunca percebera a falta de árvores e a aridez das calçadas e das paredes impregnadas de sujeira. É provável que só uns poucos manifestantes tenham reparado nisso também. Andando em grupo, no meio da multidão, ninguém se sente fraco nem enxerga direito o que esteja em volta.

Já em casa, vi a entrevista de dois ministros atônitos, porém convictos das suas verdades e cientes de suas obrigações políticas e funcionais. Alguma coisa haveria de ser dita, obrigatoriamente. Algo que ajudasse a contrapor os fatos, a minimizar a relevância dos acontecimentos. Os dois tiveram tempo de sobra sob os holofotes, na mira das câmeras, mas é certo que tenham sido aplaudidos apenas pelos que ainda permanecem a favor. Fui dormir cedo, tentando imaginar os desdobramentos do que tinha visto nas ruas e na TV.

Nem bem acordei na segunda-feira, fui tomando conhecimento da prisão do ex-diretor da Petrobras indicado pela cúpula do partido da presidente e de pessoas que operavam o esquema de propina em posição de mando. Adorei o nome da nova operação da Polícia Federal: “Que País é Esse?”. Leve e sarcástico, indica que algo muito relevante vai, progressivamente, tomando forma e ganhando expressão. Sou dos que sempre acreditaram nos impactos positivos do Mensalão, por demonstrar de forma cabal que é possível enfrentar a lógica e as práticas dos poderosos e dos fortes. Pelo que estou vendo, o país já está mudando de cara e muita gente ainda não se deu conta disso. O fato de estarem presos dirigentes e donos das maiores empreiteiras do país, diretores da maior empresa brasileira e operadores oficiais da roubalheira faz acreditar que começa a se mostrar viável fazer política de outro modo: mais limpo, mais certo, melhor. Que venham as mudanças nas verdades, nas atitudes e nas leis!

Vitória, 18 de março de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sevá

Sevá

Não está nada fácil definir um tema de crônica que possa ser lida até o final por leitores de todos os tipos e interesses. Depois de passar um fim de semana espetacular ao lado de três casais de amigos à beira mar, em despedida do verão, a semana começou bem tristonha e sem graça.

Pelo telefone, recebi o chamamento para dar sequencia à obrigatória e extremamente penosa tarefa de distribuir os objetos da casa de mamãe. Pela internet, em poucas palavras, a notícia da morte de um velho amigo, desses que são difíceis de ser encontrados durante a vida. Ele passara os últimos meses às voltas com cirurgias, hospitais, remédios, respiradores, e tais. Relatos esparsos de familiares davam contam das dificuldades de toda ordem, desconfortáveis e dolorosas, que iam se impondo de forma progressiva, impiedosamente. As informações sobre a saúde sempre vinham juntas com as que diziam da sua maneira serena de enfrentar os fatos sem reclamar. No começo, ele mesmo escrevia sobre a evolução do quadro, sempre de forma positiva, apesar dos pesares. Estive com ele em Campinas, pela última vez, há mais de um ano. Depois de nos olharmos em silêncio por um bom tempo, meio que passando em revista as coisas boas que vivenciamos lado a lado e os perrengues que enfrentamos frente a frente, instalou-se um ambiente fraterno inteiramente livre de incômodos e desconfortos. Diante de realidade tão dura, do prenúncio da morte, sentimos juntos minutos de tristeza intensa pelas lembranças das perdas acontecidas no passado e a certeza de outras que aconteceriam dali por diante.

Ele não era uma dessas pessoas que estão sempre alegres e de bem com a vida, com participação ativa nas redes sociais. Fazia rir e fazia chorar, com convicção, pela forma limpa e direta de tratar de assuntos do cotidiano, de se relacionar com as pessoas, de defender suas posições, de enfrentar os que causavam danos e os que defendiam interesses escusos. Acima de tudo, Sevá, esse era o nome dele, Arsênio Osvaldo Sevá Filho fazia pensar: os amigos, os alunos, os colegas de universidade, os chefes da vez, as autoridades constituídas e, sobretudo, os opositores de suas teses e os seus desafetos. Ninguém passava imune ou distraído por uma conversa com ele, por uma palestra ou uma aula sua.

Vejo, agora, que ele passou a vida como pouca gente, muito pouca mesmo, passa: brigando por melhores condições de vida para os homens. Há uns três anos ele me escreveu pedindo sugestões para organizar o site que criara, onde ele tinha colocado uma parte importante de tudo o que havia produzido. Fui lá conferir e me vi diante de um mundaréu de textos, artigos, projetos, anotações, planos de curso, aulas inteiras e muito mais. Ali estava apenas o que havia sido digitado, diria que do começo dos anos noventa prá cá. Apenas uns poucos vestígios do que ele havia escrito nos vinte anos anteriores, em papel. Confesso que cheguei a achar graça. Sugeri que ele tentasse fazer uma grande triagem do que considerasse mais relevante e oportuno. Que classificasse aquela espécie de tesouro por tema, época, briga, lugar, finalidade, enfim, por critérios que permitissem localizar o que ele tinha produzido sobre impactos ambientais, econômicos e políticos provocados por usinas hidrelétricas, barragens, fábricas, portos, minas, pela indústria pesqueira e por aí a fora.

Nas conversas do fim de semana entre amigos de boa idade, havíamos concordado que os homens são mais lembrados pelo que produziram durante a vida do que pelo que conseguiram acumular.

Vitória, 04 de março de 2015-03-04

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Calor, pó preto e sorvete

Calor, pó preto e sorvete

Em busca de tema, entre uma cerveja e outra, ouvi amigos e parentes. Como desconfiava, deu pó preto na cabeça por grande maioria dos votos válidos. O assunto foi destaque nos blocos de carnaval em Manguinhos, no centro de Vitória e na Barra do Jucu, e inspirou a fantasia de muitos foliões debochados.

Durante a semana aconteceram manobras para a criação da CPI do Pó Preto na Assembleia Legislativa, com deputados disputando vaga na comissão. Ao lado disso, este jornal publicou tabela mostrando que uma metade dos deputados eleitos recebeu, oficialmente, doações de campanha das empresas proprietárias do pó preto que cai do céu diariamente sobre a cidade. Longe de mim afirmar que se trata de uma compra de silêncio parlamentar ou de uma espécie de parceria para defesa de interesses em comum. Mesmo porque, feitas as contas, o valor investido pelas empresas nos partidos e candidatos é quase nada se comparado à dinheirama com os salários e facilidades a que cada um deles terá direito nos próximos quatro anos, saída diretamente do bolso dos eleitores que sofrem com o pó preto.

Sugeriram também que eu escrevesse sobre o medo das blitz na volta da folia. Pudera! Tem muita gente com carteira de motorista apreendida por ter acumulado uns tantos pontos por infrações de trânsito. Algumas bem graves e outras nem tanto, como ser flagrado em velocidade minimamente superior a dez por cento da permitida, estacionar com uma roda na calçada ou sobre a demarcação de uma entrada de garagem. Paga-se multa pesada e fica-se sem carteira por meses. Nessa mesma linha, prefeituras penalizam quem suje e não limpe, quem faça barulho, quem pode árvores e muito mais. E as multas aumentam bastante em casos de reincidência. Agora, em tempos de escassez, tem gente pretendendo multar quem for pego lavando carro ou calçada com jato d’água.

Como um bom pagador de multas municipais, estaduais e federais em geral, me pergunto quando será que esse tipo de ação civilizatória vai atingir também, e com a indispensável contundência, as poderosas empresas que lançam sobre a cidade toneladas de poeiras que sujam as coisas e envenenam as pessoas. Faltam leis e normas que fundamentem o controle e assegurem as punições. Sou dos que defendem que os poluidores sejam sistematicamente penalizados com pagamento de multas de valores progressivos e exponenciais, inclusive com paralisação da produção. Só assim as penalidades serão indutoras de investimentos e providências urgentes para adequar suas instalações.

Essa minha convicção só aumentou com o que vi na festa de aniversário de cinco anos da minha neta Alice, na quinta feira passada, ali na Enseada do Suá. A grande maioria das crianças convidadas veio direto da escola, andando a pé em fila indiana, de mãozinhas dadas e animadíssimas. Todas de uniforme, cabelos despenteados, sem qualquer salamaleque. Depois de uma tarde inteira no colégio, algumas já estavam bem encardidinhas. Assim que chegaram, foram levadas por recreadores profissionais para a quadra do prédio, deixando os sapatos no canto do salão. Só as vi de novo quando formaram filas para ganhar sorvete na casquinha. Notei que estavam imundas, da sola dos pés até as bochechas. Mas foi na hora de cantar o parabéns que a coisa ficou literalmente preta e chocante. Suadas pela correria no calor infernal e batendo palmas de olhos nos doces, quase todas tinham pernas e braços lambuzados de sorvete coberto com pó preto, coisa de matar mãe de vergonha. Uma boa fotografia daquela cena sensibilizaria qualquer deputado.

Vitória, 18 de fevereiro de 2015-02-18

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Já passou da hora

Já passou da hora

O nascimento do neto Joaquim me fez passar uns vinte dias em São Paulo, em viagem de interesse estritamente familiar. O moleque é do tipo tranquilo e bem comportado: nem de longe é daqueles que golfam o leite que tirou da mãe ou dos que têm cólica que os fazem chorar até ficarem roxinhos a ponto de desesperar quem estiver por perto. Trata-se, ao menos por enquanto, de uma dessas crianças da categoria “mama-e-dorme”, daquelas que defendem seus direitos com grito forte e que pegam logo no sono quando estão de barriga cheia.

Como não seguro criança novinha no colo, passei os dias fazendo serviços de apoio à mãe e pequenas melhorias na casa. Aproveitei para me alienar geral, longe das fontes de informações. Li apenas um único jornal, assim mesmo sem prestar muita atenção nas notícias sobre atentados, roubalheiras petrolíferas e mesmices de começo de governo. Foi pelo telefone que fiquei sabendo do descalabro do pó preto que assolava Vitória. A falta de chuvas e a força dos ventos neste começo de ano fizeram voar longe partículas de minério de ferro, de carvão e fuligens das chaminés como há muito tempo não se via. Pelo que me disseram, foram muitas e muitas toneladas de pó que caíam do céu durante semanas seguidas, tirando muita gente do sério a ponto de protestar nas redes, pela imprensa e em pleno sol quente de Camburi.

Pelo jeito, parece que desta vez o processo atingiu o chamado ponto de não retorno, marcando o fim dos tempos de transgressões e desrespeitos impunes. Daqui pra frente não mais haverá trégua ou condescendência com as empresas que poluem o ar, com órgãos de governo que não as controlam nem penalizam e com dirigentes públicos que fazem de conta que estão tomando providências. Também parece que se esgotou a paciência coletiva com as desculpas esfarrapadas e as soluções meia-boca. O descalabro da sujeira foi de tal ordem que tem muita gente defendendo a necessidade de encapsular totalmente as pilhas de minério e de carvão e as esteiras transportadoras, exatamente como se faz lá no estrangeiro. Incluo-me na turma dos que acham que já passou da hora de impor medidas que civilizem o progresso e livrem a população dos seus incômodos e males. O bom senso indica que é preciso agir prontamente e em bases definitivas, pois as indústrias sediadas na Ponta do Tubarão deverão continuar funcionando ali por muito tempo, desgraçadamente.

Tudo isso me fez lembrar de quando cheguei de volta a Vitória em meados de 1987. Embora fosse necessário limpar a casa duas vezes ao dia, os nossos comentários não encontravam eco junto a parentes e amigos. Parecia reinar por aqui um amplo acordo tácito em favor das grandes empresas porque ofereciam empregos, geravam renda e impostos e tudo o mais, ainda que sujando tudo com um pó fininho e fazendo a cidade feder no começo das noites de vento nordeste. Quem não se lembra da catinga que vinha lá das bandas de Coqueiral de Aracruz? Naquela época, por várias vezes tive vontade de pedir audiência aos dirigentes do porto de minério, das usinas de pelotização e da usina siderúrgica, muitos deles conhecidos meus de juventude, para devolver o material recolhido dentro de casa. A minha vingança seria assoprar uma boa quantidade de pó sobre a mesa de trabalho de cada um deles e espalhar o resto pelos móveis da sala, com a melhor cara deste mundo. Por certo, o meu protesto solitário não provocaria qualquer mudança relevante nas condições ambientais da região, mas eu teria uma história sensacional para contar pros meus netos.

Vitória, 27 de Janeiro de 2015.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

erdadeira

Lamacento

Lamacento

Nesta semana estamos vendo fotos da lama da Samarco invadindo o Oceano Atlântico na foz do Rio Doce. O embate das águas gerou imagens de grande impacto, com o mar dando clara demonstração de resistência contra um poderoso inimigo. Visto de cima, o amarelo escuro da lama de minério de ferro ao lado do verde claro do mar mais parece um pedaço da bandeira brasileira. A alteração das cores me fez pensar que já entregamos o nosso ouro e já derrubamos as nossas matas e que, faz tempo, estamos deixando que levem nossos minérios, contaminem nossas águas e poluam o nosso ar, impunemente.

Aprendi que a lama tóxica, em contato com a água salgada, sofre um processo de espessamento da sua densidade, criando uma espécie de película muito resistente, uma parede de cima a baixo, que funciona como um verdadeiro divisor de mundos. É um fenômeno natural denominado de floculação, similar ao que é induzido, com o uso de cloro e outros produtos, para acelerar a decantação em piscinas e estações de tratamento de água e de esgoto. Por ação dos ventos e das correntezas, a barreira vai se expandindo e o que for mais pesado vai se depositando sobre uma lama rica que existe no fundo, própria das áreas próximas às bocas de rio, sendo que a da Rio Doce tem uns quarenta quilômetros mar a dentro e quase cem, ao longo da costa. Só Deus sabe por quanto tempo esse material tóxico ficará lá embaixo e quais os danos que trará para a vida marinha naquela região. De uma coisa eu sei: é exatamente ali que vivem os camarões da nossa moqueca.

Vinte dias após o rompimento da barragem da Samarco, ainda estamos sem informações confiáveis sobre seus reais impactos. Pior do que isso, me preocupa ver gente qualificada emitindo opiniões que minimizam a amplitude da tragédia e as obrigações dos seus responsáveis, forjando versões que confundem e enganam a população e alimentam os conformistas e os aduladores de plantão. Cito alguns fatos que foram noticiados pela imprensa: um professor da UFES afirmou que a lama não é tóxica, podendo ser tratada normalmente para consumo; um cientista da UFRJ se apressou em dizer que a mancha de lama tóxica não ultrapassaria quatro quilômetros ao norte da foz do Rio Doce e outros seis ao sul, conclusão prontamente alardeada pela ministra do Meio Ambiente; fotógrafo famoso, enaltecendo a preocupação ecológica das mineradoras, tem insistido que é possível salvar o Rio Doce a partir da recuperação das nascentes, tese já incorporada ao discurso do presidente da Samarco; o presidente da Assembleia Legislativa disse que a Samarco deve ser vista também como uma vítima da tragédia.

A realidade vem derrubando muitas das teses convenientes e oportunistas como essas, sejam elas de interesse político, financeiro ou do marketing pessoal ou empresarial: em Colatina, o Ministério Público confiscou as análises que fundamentaram a captação da água do Rio Doce; após três dias de despejo, a mancha de lama já tem quase quarenta quilômetros ao longo da costa e uns dez na direção leste, fazendo crer que poderá atingir as franjas de Abrolhos, no mar de São Mateus; bom seria que o fotógrafo tivesse registrado essa tragédia com suas lentes poderosas, mas não se falou na complexidade e nos custos da dragagem da lama nos seiscentos quilômetros de rio nem na limpeza das suas margens; vitimar a Samarco me fez relembrar do julgamento de um facínora que havia assassinado a própria mãe, no qual o advogado de defesa, com a voz embargada, implorou aos jurados: “ Senhores, tenham pena deste pobre órfão!”.

Vitória, 25 de novembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Bolsa de pescaria

Bolsa de pescaria

Para que não surjam eventuais reclamações, informo que esta crônica é uma continuação da anterior, na qual comecei a contar uma história verdadeira de pescador, de um avô impelido a levar seus netos para pescar. Nela, relatei a saída para comprar varinhas de bambu e as dificuldades em encontrar a minha velha bolsa de pescaria, pela qual tenho estima equivalente àquela que dedico ao armário onde guardo ferramentas e bagulheira em geral e à gaveta da mesinha de cabeceira, onde vou guardando, instintivamente, passagens de avião, tickets de show, moedas estrangeiras e coisas afins, próprias para servirem de ativadores de memória. A tal bolsa não chega a ser algo de valor, mas posso garantir que teve grande serventia em dezenas de pescarias em praias e rios.

Contei que, depois de muita procura, fomos achá-la dentro de um baú de madeira, junto de duas cordas de couro que nunca foram usadas, um arreio de cavalo da herança de família e caixas de livros sobre as colheres de bambu. Pois lá estava ela, de prontidão, repleta de objetos com os quais tenho total familiaridade, sobretudo os meus molinetes: um Paoli azul, o mais robusto, um japonês que recolhe a linha com muita rapidez, além de dois bem pequenos, próprios para pegar beré na arrebentação. Quase um troféu, protegida por uma sacola feita de perna de calça Lee, a velha carretilha Pen 250 que papai trouxera dos Estados Unidos em 1953 e que está comigo desde 1962, quando ele morreu. Afonso ficou com uma outra, maior, que também funciona perfeitamente até hoje. Os molinetes franceses aposentaram as carretilhas de eixo horizontal. São bem mais fáceis de usar, porque a linha não embaraça quando o lançamento é feito sem a devida maestria. Posso garantir, por experiência própria, que desembaraçar uma “cabeleira” de linha fina exige muita paciência, mas era o preço para poder continuar pescando.

Fui colocando sobre a mesa, tudo o que tirava: um pedaço de pano para limpar os dedos, linha e agulha (enferrujada) para costurar, cordinhas de sisal, pavios de lamparina, rolinho de fio de tucum (fortíssimo), dois pedaços de cano de PVC, usados para sustentar as varas na areia, chumbadas de todos os tamanhos, pedaços de arame de alumínio e uns pouco metros de fio de aço inox bem fino para fazer cabresto para baiacu, cujos dentes cortam qualquer linha de nylon. Em uma sacola de pano amarrada na boca, o material para pegar robalos e tucunarés graúdos: colheres de metal com anzol no centro e algumas rapalas dotadas de garateias mortíferas.

No fundo da bolsa, no lugar de sempre, a caixinha de alumínio, daquelas usadas como marmita, ainda amarrada com uma tira de câmara de ar. Dentro dela, anzóis e destorcedores grandes, fio de aço bem grosso, passadeiras para vara de arremesso e o meu velho canivete de escoteiro, que além de lâmina, serrinha, abridor de garrafa e sacarrolha, tem também garfo e colher. Em uma das bolsas laterais, por baixo de um sabonete já quase no fim, encontrei uma caixinha com duas bisnaguinhas de Noscote, com que protegi do sol as primeiras manchas do meu vitiligo. Funcionava perfeitamente mas, oleoso, era difícil de limpar. Os anzóis pequenos de que precisava estavam na caixa de plástico enfiada em um daqueles saquinhos de leite, para não abrir e esparramar tudo. Escolhi quatro anzóis mosquitos de aço inox, e um maiorzinho por puro otimismo, passei a mão no rolo de linha 50 e fui preparar as varinhas lá na fresca da varanda. A magia da pescaria começava a ganhar forma, sob os olhos atentos dos netos.

Vitória, 23 de dezembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Preparando a pescaria

Preparando a pescaria

Na quinta feira passada recebi mensagem de Cláudio, meu irmão mais novo, informando a data de sua chegada em Vitória e dizendo que gostaria de fazer uma pescaria com os irmãos, coisa que há muito não acontece. Afonso deve ter gostado da proposição e pensado que, desta vez, eu não teria escapatória. Faz tempo que ele reclama do fato de eu ter parado de pescar, de ter abandonado a nossa pequena turma de pescaria, espécie de confraria semi-aberta.

Na manhã de sábado, foi a vez de receber, ainda no portão, uma convocação irrecusável de Theo, meu neto mais velho: “vamos pescar?”. Ele disse isso com a melhor cara deste mundo, com os olhinhos brilhando e saltitando de emoção. Imagino que tenha vindo no carro pensando nisso desde soube que viria pra cá. Se, em outras ocasiões, eu tinha conseguido me safar, agora só me restou concordar e ir lá dentro apanhar a chave do carro para ir comprar varinhas de pescar. Vida de avô, como muita gente sabe, é cheia de emoções e de algumas doces obrigações.

Lá fomos nós, Manu também, para a Praia do Suá, lugar de pescadores, barcos e peixes, onde sempre se pode encontrar material de pesca. Nem bem chegamos e Theo já foi logo anunciando que foi ali que ele havia pegado um peixe, o primeiro da vida dele. Isso aconteceu quando fomos passear no pequeno atracadouro para barcos de pesca que existe perto e que, imagino, pouca gente conhece. Vendo o interesse do menino, um senhor que pescava lhe emprestou a sua varinha sobressalente. Nem bem a linha afundou, uma caratinga mordeu a isca e puxou pro fundo, até quebrar a vara. Tirar aquele peixe do mar deu um bom trabalho, um verdadeiro alvoroço, garantindo lembrança pro resto da vida.

Foi preciso entrar em três lojas para encontrar as tais varinhas de bambu. Na duas primeiras, só havia varas industrializadas, inclusive umas de fibra de carbono, caríssimas, para avós de maior poder aquisitivo e pescadores iniciantes do tipo consumidores vorazes. Usei da minha vasta experiência para escolher cinco varinhas firmes e de cabo grosso, o que facilita a pega e a sua identificação. Não sei se é do conhecimento geral, mas vara boa tem dono determinado e é de seu uso exclusivo. Pescar com vara alheia dá azar e pode até acabar em briga. Aproveitei para comprar um pouco de camarão pequeno que, sendo sábado, estava com preço de camarão VG. De volta pra casa, tentei ensinar os netos a preparar a isca: tirar a cabeça, descascar e cortar em pedacinhos, providência básica para ganhar tempo na pescaria. Só Manu se interessou.

Resolvido isso, era chegada a hora de encastoar as varas. Precisava de linha, chumbinhos e anzóis pequenos, próprios para pegar berés. E cadê que achava a minha velha bolsa de pescaria, totalmente fora de uso há uns bons dez anos? Não estava no armário do corredor, seu lugar de sempre, nem no maleiro do quarto dos meninos, espécie de arquivo morto da casa. Depois de muito bater cabeça, fomos encontrá-la dentro de um dos baús de madeira que trouxera da Paraíba. Ela me foi dada de presente por minha irmã Beatriz, para substituir uma outra, que estava literalmente no fim, de fazer vergonha. Feita de lona vermelha bem resistente, tem duas bolsinhas laterais para coisas menores e de uso mais intenso. De bom tamanho, comporta de tudo um pouco, inclusive utensílios para sobrevivência e emergências eventuais. Ela está bem surrada e nenhum dos três fechos-éclair funciona mais. Remexer o seu conteúdo foi uma viagem no tempo, o que bem merece crônica específica.

Vitória, 09 de dezembro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Passarinhos, cachorro e eleiç╞o

Passarinhos, cachorro e eleição

Depois de conseguir que o filhote de sabiá da praia comesse mamão bem pertinho do meu jornal, foi a vez de fazer com que ele, agora já taludinho, pousasse no meu chapéu sobre a mesa para comer o pedaço de mamão colocado lá como um atrativo especial. Depois de algumas tentativas bem sucedidas, resolvi colocar o chapéu na cabeça e esperar que ele ganhasse confiança. Logo depois, com boa facilidade, dei uns sete ou oito passos antes que ele se espantasse com a minha filha que filmava a cena com o seu celular.

Dia desses apanhei no chão da garagem um filhote de bem-te-vi ainda sem rabo e com a plumagem incompleta. Ele deve ter caído do ninho ou, o mais provável, fez um pouso forçado, para descansar do esforço que anda fazendo para aprender a voar. Não foi nada difícil pegá-lo. Bastou enxotá-lo para um canto de parede e usar as duas mãos com bastante cuidado. A providência se fazia necessária para livrá-lo da boca de um dos três cachorros da casa, que fatalmente o pegaria entre um pulinho e outro. Com certeza, seria um gesto natural, sem qualquer maldade, por puro interesse em brincar com algo que se move e que pia. Por segurança, deixei o filhote em um canteiro alto que existe do outro lado da rua, sob a supervisão aflita do pai e da mãe dele.

Isso me fez lembrar de Auê, um enorme fila brasileiro de uns poucos meses de idade, ainda completamente bobão e estabanado, olhando pra mim com cara de cachorro arrependido,  tão logo desci do carro. Ele parecia que nos aguardava para pedir desculpas sinceras pelo ocorrido trágico: um dos dois paturis que ganhei de presente não resistira às brincadeiras daquele cachorrão tigrado da língua enorme e olhar amistoso. Desconfiado, constatei que somente a fêmea estava no cercadinho que fizemos no canto do quintal, aproveitando a mureta da garagem. A expressão dela era de tristeza pela perda do companheiro, que só fui encontrar lá do outro lado da casa, seguindo os passos de Auê, que ia olhando pra trás enquanto caminhava em direção ao lugar em que a brincadeira com o patinho havia terminado.

Pois bem, há alguns dias vi uma sabiá voando com frequência para o fundo do quintal e, ao fazer uma rápida averiguação, dei de cara com um ninho, bem defronte da janela do meu quarto. Ele está em um galho do pé de graxa, a pouco mais de um metro do chão e a um tanto desse da parede da casa. Nele, dois filhotes esfomeados, ainda totalmente sem penas e de bico enorme, completamente desproporcional ao tamanho do corpo. Os bichos eram tão esquisitos que um dos meus netos ficou espantado e chorou quando os viu de pertinho. Para facilitar o trabalho da mãe sabiá, passei a colocar mamão na soleira da janela, bem na frente do ninho. Imagino que ela tenha apreciado a colaboração e que isso possa facilitar os meus entendimentos futuros com os seus filhotes.

Bom seria se os sanhaços, de porte parecido com o dos azulões e dos bicudos também fossem menos ariscos. De plumagem azul acinzentado, eles estão sempre em casais, em voos rápidos e mudanças bruscas de direção. Eles estão fregueses do pé de mamão papaia do vizinho, mas não permitem qualquer aproximação ou intimidade, como acontece com os canários da terra, as rolinhas e os cardeais, branquinhos de cabeça vermelha, que no nordeste são tratados por galos de campina.

Escrevi sobre passarinhos e cachorro para não falar da eleição, da qual saio com as mesmas emoções que senti quando a maioria dos brasileiros elegeu Fernando Collor de Mello para presidente do Brasil.

Vitória, 29 de outubro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Emoções eleitorais

Emoções eleitorais

Tenho passado por boas emoções nestas eleições. Já escrevi sobre algumas delas, inclusive sobre expectativas de resultados. Gosto de acompanhar a evolução das pesquisas, o jogo do pessoal de campanha. Divirto-me querendo decifrar o que passa pela cabeça dos formuladores de estratégias que tentam criar candidatos sob-medida para eleitores mais distraídos. Tenho preferido não entrar no tiroteio que acontece nas redes, mas sou forçado a dizer que tenho visto muita coisa engraçada sobre os candidatos. Tem gente realmente criativa e muito debochada. Desisti de ficar lendo acusações em geral e defesas em particular sobre candidatos e seus governos. Papel aceita tudo, era o que se dizia antigamente para anular argumentos escritos. Isso vale também pra tela do computador.

Mantenho uma troca de mensagens com um amigo distante que acredita em verdades diferentes das que eu acredito, sobretudo aquelas que se referem a candidaturas à presidência. Ultimamente ele tem dito que pesquisas eleitorais são sempre tendenciosas e que, portanto, não podem ser levadas a sério, principalmente as que constatam tendência de queda nos índices da sua candidata. Temos tido um bate-teclas amistoso, praticando um jogo de cena nem de longe parecido com o que rola na internet, onde se usa linguagem contundente e bem menos gentil.

Percebo que os ataques na rede são razoavelmente sincronizados, como que obedecendo a uma espécie de orquestração centralizada sobre o que deve ser dito a cada momento. Vejo pessoas queridas e conhecidos meus envolvidos em uma espécie de roteiro tramado lá longe. Tenho lembrado de uma frase do poeta americano Allen Ginsberg em uma tabuleta pregada atrás da porta da casa de um amigo, em João Pessoa, que dizia alguma coisa mais ou menos assim: ” Vi as melhores cabeças de meu tempo serem consumidas pela loucura…”. São os versos iniciais de um longo poema sobre a geração beat, dos anos sessenta do século passado. Bem sei que não se trata de comparar ao que esteja acontecendo por aqui, mas volta e meia me vem a sensação de que, mais uma vez, tem gente se desvairando com verdades ditadas por terceiros.

Há muito me entristeço com as atitudes de Lula no seu embate político com quem discorde de suas opiniões, critique atos desabonadores, denuncie o jogo sujo feito em proveito de interesses políticos, partidários, empresariais e tudo o mais. Nessas horas, o que se vê é negativa cabal dos fatos e, sobretudo, a desqualificação da opinião e de quem a tenha emitido. Não viu, não sabe, não existe, não aconteceu… Culpa a imprensa, as elites de olhos azuis, a oligarquia, os empresários gananciosos, a oposição reacionária e vai por aí a fora, sempre minimizando o ocorrido, negando relações de amizade e convergências de interesses. Não é necessário ser sociólogo para entender que esse tipo de atitude empobreceu substancialmente a qualidade das conversas sobre os rumos do país, gerou antagonismos entre pessoas queridas, quebrou o encanto e as expectativas de muita gente. O Mensalão resultou em prisões relevantes e a operação Lava Jato vai produzindo informações sobre fatos de extrema gravidade, capazes mesmo de provocar mudanças no quadro nacional. Lula perdeu de lavada em São Paulo, sua base política, e, no segundo turno, pode perder feio em sua terra natal, marcando o fim de um ciclo.

É bem verdade que o país deu grandes saltos em muitas áreas nas últimas décadas, mas será muito bom poder viver os próximos tempos sem sentir que tem gente poderosa tentando, sistematicamente, fazer você de bobo.

Vitória, 15 de outubro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA