Bolsa de pescaria

Bolsa de pescaria

Para que não surjam eventuais reclamações, informo que esta crônica é uma continuação da anterior, na qual comecei a contar uma história verdadeira de pescador, de um avô impelido a levar seus netos para pescar. Nela, relatei a saída para comprar varinhas de bambu e as dificuldades em encontrar a minha velha bolsa de pescaria, pela qual tenho estima equivalente àquela que dedico ao armário onde guardo ferramentas e bagulheira em geral e à gaveta da mesinha de cabeceira, onde vou guardando, instintivamente, passagens de avião, tickets de show, moedas estrangeiras e coisas afins, próprias para servirem de ativadores de memória. A tal bolsa não chega a ser algo de valor, mas posso garantir que teve grande serventia em dezenas de pescarias em praias e rios.

Contei que, depois de muita procura, fomos achá-la dentro de um baú de madeira, junto de duas cordas de couro que nunca foram usadas, um arreio de cavalo da herança de família e caixas de livros sobre as colheres de bambu. Pois lá estava ela, de prontidão, repleta de objetos com os quais tenho total familiaridade, sobretudo os meus molinetes: um Paoli azul, o mais robusto, um japonês que recolhe a linha com muita rapidez, além de dois bem pequenos, próprios para pegar beré na arrebentação. Quase um troféu, protegida por uma sacola feita de perna de calça Lee, a velha carretilha Pen 250 que papai trouxera dos Estados Unidos em 1953 e que está comigo desde 1962, quando ele morreu. Afonso ficou com uma outra, maior, que também funciona perfeitamente até hoje. Os molinetes franceses aposentaram as carretilhas de eixo horizontal. São bem mais fáceis de usar, porque a linha não embaraça quando o lançamento é feito sem a devida maestria. Posso garantir, por experiência própria, que desembaraçar uma “cabeleira” de linha fina exige muita paciência, mas era o preço para poder continuar pescando.

Fui colocando sobre a mesa, tudo o que tirava: um pedaço de pano para limpar os dedos, linha e agulha (enferrujada) para costurar, cordinhas de sisal, pavios de lamparina, rolinho de fio de tucum (fortíssimo), dois pedaços de cano de PVC, usados para sustentar as varas na areia, chumbadas de todos os tamanhos, pedaços de arame de alumínio e uns pouco metros de fio de aço inox bem fino para fazer cabresto para baiacu, cujos dentes cortam qualquer linha de nylon. Em uma sacola de pano amarrada na boca, o material para pegar robalos e tucunarés graúdos: colheres de metal com anzol no centro e algumas rapalas dotadas de garateias mortíferas.

No fundo da bolsa, no lugar de sempre, a caixinha de alumínio, daquelas usadas como marmita, ainda amarrada com uma tira de câmara de ar. Dentro dela, anzóis e destorcedores grandes, fio de aço bem grosso, passadeiras para vara de arremesso e o meu velho canivete de escoteiro, que além de lâmina, serrinha, abridor de garrafa e sacarrolha, tem também garfo e colher. Em uma das bolsas laterais, por baixo de um sabonete já quase no fim, encontrei uma caixinha com duas bisnaguinhas de Noscote, com que protegi do sol as primeiras manchas do meu vitiligo. Funcionava perfeitamente mas, oleoso, era difícil de limpar. Os anzóis pequenos de que precisava estavam na caixa de plástico enfiada em um daqueles saquinhos de leite, para não abrir e esparramar tudo. Escolhi quatro anzóis mosquitos de aço inox, e um maiorzinho por puro otimismo, passei a mão no rolo de linha 50 e fui preparar as varinhas lá na fresca da varanda. A magia da pescaria começava a ganhar forma, sob os olhos atentos dos netos.

Vitória, 23 de dezembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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