Nas franjas do Caparaó

Nas franjas do Caparaó

Saímos em comboio, com o dia amanhecendo, em direção ao Caparaó. Pegamos a estrada bem vazia e como passamos por Iconha ainda muito cedo, ninguém comeu o tradicional sanduiche de pernil do bar do Almeida. Ao entrarmos no contorno de Cachoeiro, demos de cara com o pico do Itabira, em sua imponência eterna. Fiquei meio decepcionado e entristecido com o que vi pelas janelas do carro, depois de Celina: muito morro coberto com capim baixo para alimentar rebanhos pequenos, pouquíssimas roças de café e praticamente nenhuma plantação expressiva de fruta e de hortaliça. Localizei raríssimas áreas de mata nativa e muitos plantios de eucalipto, já em fase de corte. Parece ser uma região onde predominam fazendas maiores, um tipo de ocupação bem diferente do de outras regiões do Estado, sobretudo aquelas onde se instalaram os imigrantes europeus, dividida em pequenas glebas, muitas delas com aproveitamento intensivo do solo e produção bem diversificada.

O motivo da viagem era dos mais nobres: plantar espécies frutíferas no lote que uma das amigas preferidas de Diana, nossa caçula, comprara em Pedra Roxa, no pé da serra do Caparaó. O terreno fica no topo de um morrinho, com um rio passando lá embaixo. Ele expressa o desejo de possuir um pedaço de chão naquela região, que esconde belezas quase intocadas e vem atraindo a atenção de pessoas cansadas da correria e da violência nas cidades. Se as mudas vingarem, Lídia terá um pomar bem sortido: laranja, limão, goiaba, manga, cereja, abacate, maçã, pera, uva, pêssego, cajá e uma espécie de sapoti americano. Da minha parte, plantei um pé de romã roxo nascido de semente de fruta importada, comprada em São Paulo. De quebra, levei uma muda viçosa que brotou na sombra da nossa jabuticabeira e um galho reforçado da dama da noite que nos acompanha desde os idos de 1970. O pessoal mais disposto da empreitada tratou de cavar covas fundas e de colocar quantidade generosa de esterco de boi e de calcário, para corrigir a acidez do solo.

Sou homem de uma única supertição. É coisa bem antiga, surgida e confirmada na prática: pescaria marcada com muita antecedência nunca dá certo. É mar ressacado, vento sul e chuva na certa. Como a expedição fora marcada com mais de dois meses de antecedência, não deu outra: depois de longa estiagem, começou a chover nas franjas do Parque Nacional do Caparaó, justamente na véspera da nossa chegada. Foram três dias com céu encoberto, alternando mormaço abafado, garoa fininha e pé d’água violento.

Como mais uma comprovação de que há males que vêm para o bem, as chuvas que atrapalham o turismo rural são as mesmas que irrigam a plantação. Como nem tudo são flores e a alegria não é algo permanente, como limo é coisa que escorrega e tem muita gente que não está acostumada a andar em pedra molhada, um escorregão de pai nos fez levar menino pequeno a hospital em Alegre para confirmar que o galo que cresceu na cabeça dele não era nada sério. As comemorações foram animadíssimas, com a parentada bebendo, comendo e falando alto ao lado de um fogão a lenha queimando os pedaços de eucalipto que recolhemos na estrada, na volta.

Patrimônio da Penha, onde alugamos uma casinha muito simples, é um lugar especial. Não sei exatamente a origem e as razões, mas por lá vive e circula gente que optou por padrões alternativos de vida. Ainda que o resto da nossa turma nada tivesse de parecido com os hippies de antigamente, fiquei com a impressão de que a minha barba branca e os meus cabelos compridos facilitaram a minha ambientação.

Vitória, 16 de setembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casa dos Braga, Cachoeiro de Itapemirim

Casa dos Braga, Cachoeiro de Itapemirim

A notícia de que a Casa dos Braga vai ser restaurada trouxe uma doce saudade de mamãe. Meu avô comprou aquele chalé em 1913 para abrigar a família que crescia e os parentes e amigos que, morando nas fazendas próximas, precisassem de apoio na cidade para se tratar, estudar, fazer compras ou participar de festa animada. Espaçoso, com pé direito alto e um grande porão no térreo, também garantia pouso seco para vizinhos cujas moradias tivessem sido invadidas pelo rio Itapemirim. Para mamãe, aquela casa era o lugar mais importante do mundo. Digo isso com convicção, sabendo que ela era uma pessoa lida e viajada, com perfeita noção do valor e do mérito das coisas. Era seu marco de referência. Foi ali que ela nasceu, em 1922, casou-se e viveu até os trinta e cinco anos, já mãe de uma prole.

Quando viemos para Vitória, a casa ficou aos cuidados de uma família amiga. Depois, para ajudar nas despesas, abrigou uma escola e, em seguida, um restaurante, o que fez tio Rubem reclamar que não tinha gostado de ver um pessoal bebendo e falando alto bem no quarto da mãe dele. O fato é que mamãe só sossegou quando a casa foi desapropriada pela Prefeitura de Cachoeiro. Até então, ela ficava apreensiva sempre que chovia pesado e muitas vezes tivemos que levá-la para conferir os estragos de perto. Em solenidade inesquecível, no meio da rua, com a presença do Ministro da Cultura Celso Furtado e de muitos amigos de infância dela, foi inaugurada a Casa dos Braga, como centro cultural. Por duas décadas sediou também a biblioteca municipal. Ficou desocupada nos últimos anos, à espera de providências para transformá-la numa espécie de museu-casa. Restaurada, receberá de volta seu antigo acervo e os móveis originais do quarto do casal e da sala de jantar e objetos decorativos de época, que compunham a casa de mamãe, em Vitória, além de documentos, fotografias, livros, desenhos e pinturas produzidos por membros da família. A ideia é recompor parte do ambiente da moradia dos Braga, cuja história está fortemente vinculada à vida de Cachoeiro.

Chico Braga veio de São Paulo visitar sua tia Graça Guardia, educadora destacada na formação dos cachoeirenses. Apaixonou-se por Rachel Coelho, da Fazenda do Frade, e resolveu ficar. Homem bem formado, foi nomeado tabelião. Sério, de poucas e certeiras palavras, foi o primeiro prefeito da cidade. Criou seus filhos respeitando a personalidade de cada um. Mamãe dizia que tia Carmosina era pessoa à frente do seu tempo: foi a primeira cachoeirense a tirar carteira de motorista. Armando, com talento para as finanças, foi de dono de banco a Secretário da Fazenda. Jerônimo, jornalista, fundou o Correio do Sul em 1929, onde foram publicados os primeiros textos enviados por Rubem, aos quinze anos, estudante no Rio de Janeiro: ele recebera apoio do pai para não mais voltar ao Liceu depois de ter brigado com o professor de matemática que o chamara de burro. Newton, formado em Direito, retornou de Belo Horizonte para assumir o cartório da família, criou a primeira agencia de propaganda e inventou a Festa de Cachoeiro. Poeta de primeira, era pessoa muito querida. Yedda encantou um jovem advogado carioca e logo se casou, indo viver no Rio em meio a artistas e intelectuais, amigos do já consagrado irmão cronista. Gracinha, a caçula, casou-se com o sanitarista Bolívar de Abreu, homem público de muitas realizações. Para sua glória, aos 89 anos, justamente no ano do centenário de Newton, foi escolhida Cachoeirense Ausente. Nas nuvens, dançou a noite inteira no baile de gala da Cidade.

Vitória, 02 de setembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempo de sinal

Tempo de sinal

Bem que andei tentando encontrar um assunto leve pra fazer a crônica desta semana mas foi difícil, muito difícil. É que, como deve estar acontecendo com muita gente, as minhas atenções andam concentradas nas coisas da política federal. Tenho acompanhado de perto a evolução dos fatos pela imprensa e tentado entender e interpretar os acontecimentos em conversas com amigos. A cada dia surgem fatos relevantes, muitos deles inesperados. Em meio a uma enorme crise de confiança, a busca por espaço e poder aquece o jogo de forças, alterando as condições de equilíbrio do conjunto. Vive-se um ambiente de tensão e incertezas como há muito não se via por aqui, que estarrece e desanima toda e qualquer pessoa livre da obrigação pragmática de justificar bandidagens e safadezas com dinheiro público. Tudo agravado pela retração da economia.

Falando nisso, faz tempo que acompanho o vigoroso comércio de sacos de algodão grosso, trazidos de Minas, que se estabeleceu nas esquinas movimentadas, em plena luz do dia. Não cabem afirmativas categóricas, mas é bem provável que a falta de dinheiro também tenha afetado esse tipo de negócio: no começo, eram três sacos por dez reais, depois quatro e, de uns tempos pra cá, estão em promoção de cinco por dez. A promoção tem sido praticada por todos os vendedores de sacos e anunciada nas tabuletas que eles mostram aos motoristas. Pelo que se vê, ou uma única empresa monopoliza a distribuição de sacos para fazer pano de chão – produto indispensável para limpar o pó preto nosso de todos os dias – ou alguns comerciantes mais espertos se organizaram em cartel para dominar o mercado, atuando em parceria com as grandes empresas que lançam o pó sobre todos nós, diariamente, garantindo a demanda.

No começo da semana consegui observar um artesão magrinho que estava no canteiro central esperando o sinal abrir para atravessar a avenida congestionada. Apoiado na alça de um carrinho de duas rodas, equipado com uma dessas caixas de despachar animais em aeroporto, ele segurava um mostruário dos produtos que faz pra vender: pulseiras, colares e brincos de metal. De roupa escura e sandálias de couro cru levava na cabeça uma boina dos que amam o reggae e adoram Bob Marley. Sua barba e seus cabelos eram bem maiores do que os meus. Ao seu lado, um cachorrinho de pelos longos e também desgrenhados vinha preso ao carrinho por uma corda encardida em volta do pescoço. Paciente, ele demonstrava saber esperar o sinal abrir para seguir em frente. Vistos de longe, aqueles dois davam a impressão de estarem nas estradas da vida há um bom tempo. Imaginei que em situações de perigo potencial e, sobretudo, em viagens, o homem enfiaria o cachorrinho na caixa, junto com o material e as ferramentas, e sairia puxando o carrinho tranquilamente, em busca de novos mercados.

Pude acompanhar, agora pela janela do carro, uma mocinha elegante em seus trajes de ginástica brincando com um labrador amarelado muito simpático, bem no centro da quadra para aeromodelismo. A brincadeira era jogar longe uma bolinha de tênis para o cachorro trazer de volta, para ser novamente arremessada. Depois de duas jogadas, para o completo desconsolo do cachorrão, a bola foi guardada numa bolsa, de onde surgiu uma guia colorida que foi engatada na sua coleira reforçada. Perfeitamente adestrado, ele parecia saber que a brincadeira havia chegado ao fim e que era hora de ir pra casa. Isso me fez pensar na dificuldade que muita gente tem de perceber a hora de parar tudo, pedir pra sair e voltar pra casa.

Vitória, 19 de agosto de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Carros

Carros

Tenho uma fotografia de tia Carmosina, a primeira mulher a tirar carteira em Cachoeiro, ao volante de um Ford 29 novinho, com mamãe e tia Yedda, ainda pequenas, no banco de trás. Todas de chapéu e vestido de festa. Numa outra, de calça curta, os três meninos do Dr. Bolivar estão encostados na camionete preta de para-lamas arredondados que ele usava no serviço. Dos tempos em La Paz, guardo uma foto do passeio para ver neve pela primeira vez. Estamos ao lado do Chevrolet 56 que, para tristeza geral, não conseguiu encarar as íngremes ladeiras no ar rarefeito dos Andes. Em Bogotá, a família tinha uma Mercedes Benz, de portas que se fechavam silenciosamente. Quando viemos pra Vitória, papai comprou um Chevrolet 53 azul, que ele gostava de dirigir com só um dedo na direção, para mostrar como era levinha. Viúva, mamãe ganhou do irmão um Fusca 63 verde claro para que os filhos, ainda sem carteira de motorista, a levassem para trabalhar lá no Centro. Nos horários vagos, o famoso “6 37 00” era usado no transporte dos primeiros roqueiros da cidade e nas idas a Guarapari, sempre com gasolina rateada.

Nos anos sessenta, as ruas da Praia do Canto eram desertas e os automóveis, pouquíssimos e identificáveis. Tanto que havia um rapaz que sabia de cor a placa, de cinco números, e o telefone, de quatro dígitos, do dono de cada carro que circulasse no bairro. Na verdade, era fácil saber que o Chevrolet Bel Air que rodava devagar era de Seu Anacleto e que a camionete Ford cabine dupla azul, que passava em alta velocidade, era de Dona Arlete Vivacqua. O DKW de tração dianteira e portas que abriam pra frente era de Barrica, que adorava dar cavalo de pau no barro do pré-asfalto. O Candango, um jipinho fantástico, devia ser de Jayme e Carlinhos Larica ou de um dos meus irmãos. O Fusca com o motorista curvado sobre o volante, na certa era de Marco Murad e o Gordini novinho, de tio Cristalino, comprado com os primeiros salários de desembargador. Uma Rural Willys seria, provavelmente, de algum engenheiro da CVRD como Dr. Duarte que, distraído, tombou a dele ao subir num monte de areia na Avenida Beira Mar. A do Dr. Bley, a Jaqueline, se acabou na curva do DNER, numa capotada espetacular, por imperícia de Paulo Bley, que vinha da farra com os amigos.

Aurora Gorda, cafetina de grande prestígio, cliente preferencial das concessionárias de carros de luxo, era sempre a primeira a adquirir os últimos lançamentos para ficar passeando pela cidade, sentada no banco de trás, acenando para os conhecidos. Imagino que ela se sentia gente muito importante a bordo de um Galaxy, uma “banheira” macia e super confortável. O irmão de Jorginho Saade tinha um Dodge Dart, o top de linha dos semi-esportivos nacionais da época, que dirigia bem devagarzinho, fazendo pose para as morenas. Gute Santos Neves vivia pra lá e pra cá no Simca Chambord do pai até ganhar um Karman Guia bege. Neném, meu cunhado, circulava num Puma branco que dizia ser um carro anti-sogra, porque o banco de trás era apertadíssimo. Charmoso mesmo era o Interlagos conversível vermelho que Zezé Turquetto escolheu para passear por aqui nas tardes de verão. Mas nada se comparava ao Thunderbird de Jair Coser que eu vi cantando pneu, quase sem sair do lugar, no barro duro da Rua Madeira de Freitas. O adesivo Powered by Tommasi me faz lembrar da paixão que Paulo César tinha pelos motores. Para espanto de alguns, ele decidiu, ainda moleque, virar mecânico de automóvel, fazendo a alegria dos que queriam “envenenar” seus carros.

Vitória, 05 de agosto de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cachorrada

Cachorrada

Há mais de vinte anos que temos sempre em casa dois ou três cachorros da raça basset, ideal para brincar com criança e acompanhar adulto. A dinastia começou com Guimba, descendente direto de Artur, da Mata da Praia, que foi roubado quando vagabundava pelo bairro. Do cruzamento dele com Sacha, a dama do pedaço, nasceu Bingo, que viveu dezessete anos sem estranhar uma pessoa sequer e que, ao envelhecer, ganhou o apelido de Vovô Garoto, porque assumia porte atlético e jovial quando estava na rua. Nunca adoeceu e foi morrer lá na praia. De um amigo criador de basset ganhamos a Gigi do Grotes e, do cruzamento dela com Bingo, nasceu Reggae, cor de chocolate, o mais bonito que conheci. Viveu uns dez anos. Para compensar a sua perda, Diana e Bento foram até Paul comprar Kill e Bill, que estão aqui até hoje. Um é caramelo, pequeno e desconfiado; o outro é preto, parrudo e simpático. Foi difícil convencer Carol a aceitar Pingo Lingo Django, filhote de Kill e da vizinha Luma, filha da Sacha. Era o maior da ninhada e o único com pernas compridas e manchas brancas, por obra de genética traiçoeira. Brincalhão e sedutor, ele ganhou a preferência de todos, inclusive de visitas e entregadores.

Cachorro também ajuda a puxar pela memória. Dos meus tempos de adolescente, guardo lembranças de Braine, um alegre pastor alemão que frequentava a Praia do Barracão e adorava nadar para pegar o pedaço de pau que alguém jogasse no mar. Saído da água, sacudia o corpo, molhando quem estivesse por perto. O casal de dobermann da casa de Paulo Bley assustava, com latidos inesperados, quem viesse andando pela calçada, rente ao muro. O portão era de grade e eles ficavam ali, de plantão, como convém aos cães de guarda. Até hoje não sei o motivo da mordida no dedo que levei do collie da casa de Marcelo, onde eu estudava para o vestibular. Com a maior dor no coração, tivemos que sacrificar Juridal, um afável setter irlandês, de pelos longos avermelhados, que me fora dado por um caçador que desistira de tentar ensiná-lo a ir buscar as marrecas que abatia com tiro de espingarda. Zorro era um vira-lata enorme que Afonso, meu irmão, garantia ser o pai da maioria dos cachorros da cidade. Dormia na varanda e impunha respeito com latido grave. Mais pro fim da vida, já meio cansado, apenas abanava o rabo para saudar quem passasse por perto. Foi aí que arranjaram um desses cachorrinhos neuróticos, para acordá-lo em situações de ameaça iminente. Não me esqueço de Faruk, o vira-lata dos Ananias, o valente defensor da rua Eugênio Netto que odiava as motocicletas barulhentas dos filhos do Dr. Dido Fontes. Isso até o dia em que Renan tirou um fino no poste no meio da rua, fazendo com que Faruk, que vinha no galope latindo do lado das suas pernas, se estatelasse no tubo de aço, bem diante dos nossos olhos.

Mamãe ficava com os olhinhos brilhando ao contar histórias de Zig Braga, um cachorrão enorme da sua adolescência. Malandro, dormia no piso fresco da igreja ao lado de vovó Neném, durante a missa inteira. Conhecidíssimo em Cachoeiro, Zig virou personagem de crônica, onde está dito que ele detestava homem fardado, inclusive carteiros. Antigamente, muitos cachorros viviam soltos na rua e os mais bravos imponham restrições a quem invadisse seu território. O jeito era levantar as pernas ao passar de bicicleta ou, por via das dúvidas, fingir que se estava pegando uma pedra no chão. Meu tio Newton descreveu, com grande propriedade, um encontro de um homem e um cachorro em rua deserta, cada qual morrendo de medo do outro. Posso apostar que ele era o tal medroso.

Vitória, 22 de Julho de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Em terra e no mar

Em terra e no mar

Pelo que pude ver, muita gente sente saudades dos tempos que os apelidos não eram bullyng. É que recebi reclamações por não ter mencionado Abelha Rainha, Baianinho, Bebeu, Bibelô, Bibinha, Biriba, Bitiza, Boca de Velha, Boião, Boquinha, Bororô, Bossa Nova, Bridadeiro, Brigite Barbante, Bruaca, Brucutú, Bustrica, Cação, Cachaça, Caluca, Canário Belga, Capoteiro, Caranguejo, Careca, Caticôco, Catita, Chico Banha, Coelhinho, Dadau, Deixa que eu Chuto, Dr. Bezerro, Escambau, Esperança, Narigão, Gasolina, Hortelino Trocaletra, Ico Penico, Jagolê, Japira, Jiboia, Kinkas, Leléo, Macarrão, Maneco, Tomba-Homem, Marreta, Melau, Memente, Miluth, Monovo, Muito Pesado, Nena, Neneu, Neneua, Corôa, Chôco, Sabiá, Tora, Pelota, Peroal, Pica, Piloto, Piluta, Pipila, Pipoca, Pirica, Poró, Pulú, Quadrado, Queixo de Velha, Robeci, Ronaldo Beleza, Seis e Meia na Praça, Sobrado Velho, Squiff, Suvaco Ilustrado, Tobinha, Tuzoca, Zé Pequeno e Zé Queca.

Devo dizer que também guardo na memória nomes de barcos de cenas antigas de bairro à beira mar: Nega Maluca, Bacanau, Canadense, Tan Tan, Aspirante, e Cavalo Doido. Foi com eles que velejei, pesquei e remei, sempre em companhia de gente amiga. Essas lembranças chegaram com mais força ao tomar coragem para remar canoa havaiana, depois de acompanhar, sempre com inveja receosa, amigos e parentes fazendo alongamento na areia da praia, empurrando canoas para o mar, embarcando nelas quando começam a flutuar e dando as primeiras remadas sob a orientação de profissional satisfeito com o trabalho que escolheu para viver.

Já fui remar três vezes. Na primeira, mais aprendendo do que fazendo força, fomos até a Gaeta de Fora, com mar revolto. Na segunda, em águas calmas, contornamos a ilha do Frade sem qualquer dificuldade. Na outra, seguimos rente à Ponta Formosa, até a ilhota de pedra em Camburi. A nossa canoa entra no mar lá pelas seis e meia da manhã. Nestes tempos de inverno, o sol está bem baixo e os ventos nem começaram a soprar, deixando as águas espelhadas. A paisagem enche a vista e anima o espírito do remador.

As canoas havaianas têm uma mística. Talvez porque vêm sendo usadas há milênios pelos povos da Polinésia para ir de uma ilha a outra e enfrentar grandes distancias por mares desconhecidos. Elas surgiram na cidade há uns sete anos, logo depois que chegaram ao Brasil. Seu casco é longo e estreito. As maiores têm 6 bancos. Para garantir estabilidade, um flutuador sustentado por duas peças curvas de madeira é acoplado à canoa. É comum amarrarem duas delas, formando um catamarã. Na proa, um remador experiente dita o ritmo das remadas e quem está no banco três comanda as mudanças de bordo. Sentado na popa, o responsável pelo rumo da embarcação, usa o remo como leme e vai repetindo palavras de ordem como mantra: vai canoa; rema junto; canoa remo lá na frente; agora seis passadas fortes; potencia e cadência … Com os movimentos em sincronia, a canoa navega suavemente e em boa velocidade.

Ainda não me acostumei com as remadas curtas e rápidas usadas nesse tipo de embarcação que, dizem, têm maior eficácia. No Canadense as remadas eram longas. Tenho prática em fazer exercício respeitando os meus limites, que mudam de dia para dia. Para quem, como eu, tem coração prejudicado, o esforço deve ser moderado e progressivo. Na canoa, a variação na intensidade das remadas e a alternância sistemática do bordo de ataque proporcionam boa distribuição da carga do exercício, tanto que até agora a musculatura não reclamou nem sento o peito doer.

Vitória, 08 de julho de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Passeios de família grande

Passeios de família grande

Hoje em dia falar em ter muitos filhos espanta os mais novos. Talvez pela trabalheira que dá, pelo preço das coisas, pelo tamanho dos apartamentos, pela vida que os pais levam, ocupadíssimos com estudos e muito trabalho. Sou de um tempo em que as famílias, sobretudo as do interior, eram numerosas. As minhas duas avós tiveram um total de vinte e três filhos, dos quais uns quinze chegaram à idade adulta. Lá em casa somos cinco irmãos e aqui temos três meninas e dois meninos, já bem criados. Pai de tantos, nos anos oitenta achei por bem comprar um ônibus, desses bem grandes, para passear com a família por esse Brasil afora. Montamos uma espécie de moto-home caseiro, com cama para mais de dez, cozinha, banheiro, sofá, duas mesas, poltronas para dezesseis e poleiro para Aurora, a arara da família. Deu muito certo. O pessoal tem ótimas lembranças e, vez por outra, alguém pergunta quando vou comprar outro, para levar a família inteira para viajar.

Quando voltávamos da Paraíba, marcamos com três casais de amigos de nos encontrarmos em Cumuruxatiba, na Bahia, recém-descoberta pelo mundo do turismo. Fizemos um acampamento à beira mar, pra marmanjo nem menino algum botar defeito. Vinte anos depois voltamos lá, em três carros lotados. Alugamos uma casa enorme, do tipo sede de fazenda, com muitos quartos, salão central, cozinha grande, varanda em três dos lados, gramado diante do mar, coqueiros e mangueiras. Isso, sem contar com as goiabeiras e os pés de cana caiana do vizinho. Foi um tempo de comer peixe frito e camarão no bafo, tomar água de coco, chupar manga espada docinha, tirar soneca na rede, curtir fogueira, caminhar na areia dura da praia, beber cerveja, além de fazer muita colher. Foi lá que Manu, ainda bebê, forçou o aprendizado materno, paterno, de tios e avós.

Neste último fim de semana gordo, conseguimos juntar quatro dos filhos, dois genros, duas noras e seis netos. Só faltou Bebel, cheia de compromissos, morrendo de inveja. A convite de família amiga, passamos quatro dias num sítio de uma capixaba que vive longe, mas mantém, por sabedoria, um pé na região do Alto Caxixe. Da parte elevada do terreno, vê-se de um lado o Forno Grande, com seu formato de vulcão silencioso e, de outro, um lagarto tentando subir a encosta quase vertical de um enorme maciço rochoso. Céu azul, muita luz e pouco vento garantem a sensação de se estar pertinho do céu. Na parte baixa do terreno, uma casa muito peculiar, com um salão aberto, convida ao ócio e à realização de atividades variadas, inclusive a de fazer colher sem se preocupar com as lascas de bambu. Na parte da frente, diante de um laguinho vigiado por dois gansos atentíssimos, instalaram uma mesa enorme de madeira grossa, que comporta quatorze pessoas comendo, falando alto, rindo de bobagens, como convém nessas ocasiões.

Uma friaca danada demandou roupa pesada e estimulou goles fartos de vinho, de rum caribenho que ganhei de presente, de cachaça sem rótulo que levei. Um forninho serviu de lareira enquanto assava pizzas noite adentro. Os nossos seis netos fizeram festa à parte. Manu, a mais velha, praticou seu grande interessa pelas plantas e bichos, Theo desenhou tubarões de todos os tamanhos, Alice dançou balé, Gael, sempre de boné, chutou bola para todo lado, Gabriel não parou de jogar pedrinhas no lago, para o desassossego da mãe e Joaquim, o nosso Quinquim, olhava tudo com olhos esbugalhados, distribuindo sorrisos de criatura feliz. Posso garantir que tudo está registrado nos celulares da família.

Vitória, 10 de junho de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Utilidades do apêndice

Utilidades do apêndice

Passei os últimos dias por conta de um apêndice. Desses inflamados, que precisam ser retirados o mais breve possível para evitar complicações. Depois de noite mal dormida e de ter acordado com uma dorzinha persistente no lado direito da parte baixa da barriga, achei prudente procurar por socorro da medicina. O incômodo que sentia não era alarmante, mas uma indicação segura de que alguma coisa não estava indo bem. Nessas alturas da vida, tenho acumuladas algumas experiências nessa área: uma inesquecível aventura coronariana, uma retirada, a toque de caixa, em plena madrugada, de vesícula cheia de pedrinhas e uma operação, postergada ao máximo, para acabar com uma hérnia inguinal. Lá na infância, tomei anestesia para engessar um braço quebrado por imprudência e, em pleno verão de juventude, tive que ir a um pronto socorro para costurar um talho no queixo, aberto por uma raquetada de frescobol.

Tem muita gente que vai ao médico como quem vai ao cinema. Basta uma simples desconfiança de uma não conformidade e lá estão eles esperando a vez de serem atendidos, dando o braço para tirar sangue, abrindo a camisa para o exame de ultrassom. Confesso que ao tempo que os critico, sinto certa dose de inveja da coragem com que buscam respostas para suas suspeitas eventuais. Não estou me referindo aos hipocondríacos e maníacos por saúde perfeita, que são poucos e, portanto, pontos fora da curva. Falo das pessoas que procuram um profissional da medicina com naturalidade, ao menor sinal de disfunção na barriga, nas pernas, braços e ombros, nas costas ou na pele. Os planos de saúde facilitaram o acesso aos mais diversos e sofisticados recursos de diagnóstico, de avaliação e de cura. Paga-se o preço, mas é muito bom saber que as facilidades existam e que estejam ao alcance.

Marcada a consulta para o comecinho da tarde, fui atendido por profissional recomendado, coberto de simpatias e cheio de certezas, tão logo apalpou a minha barriga com grande prática em diagnosticar apêndices problemáticos. O método é bem simples: aperta-se a região dolorida, aos pouquinhos, até bem fundo, e solta-se a pressão repentinamente. O que até então era uma dor difusa e perfeitamente suportável se transforma em uma dor aguda, muito forte, que rapidamente se dissipa. Repetindo o teste, a confirmação do problema é praticamente infalível. Um exame de ultrassom garantiu a prova formal da situação, indicando a próxima providência: retirada obrigatória do apêndice inflamado, com relativa urgência.

Assim, no início da noite, lá estava eu na recepção de um grande hospital em busca de atendimento, tendo uma malinha com roupa e escova de dente no porta-malas do carro. Daí pra frente, a coisa seguiu um processo rotineiro, etapa por etapa, sempre adiante, passando por registro, exames de sangue, internação e confirmação da cirurgia para a manhã seguinte. Dito e feito. Ali pelas duas da tarde, voltei de maca pro quarto com dois furinhos na barriga e umbigo refeito e no dia seguinte já estava em casa para o almoço. Nada de voo cego nem de correrias.

Acumulei um pouco mais de experiências com períodos de convalescência, incluindo momentos de euforia, arrependimentos por imprudências cometidas, dores novas e incômodos difusos, compressas com toalha aquecida no forno micro-ondas, comidinha de doente, muitos remédios, além da curiosidade receosa dos netos, da solidariedade de amigos e de muito dengo do pessoal de casa. Confirmei que esse é um tempo propício para rever o filme da vida e para refazer contas inteiras.

Vitória, 13 de maio de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vai, que dá!

Vai, que dá!

A manchete de terça feira deste jornal alardeia um fato histórico: “Morador ganha indenização por causa do pó preto”. O lead detalha o acontecido: “Justiça deu ganho de causa a uma família de Anchieta que processou a Samarco. Valor passa de R$ 14mil”. A matéria informa que, em 2003, um morador do balneário de Ubu conseguiu um acordo com a empresa para que ela pagasse a pintura da sua casa, suja pelo pó de minério de ferro. Dinheiro pouco, mas extremamente significativo. Segundo o advogado da família, a empresa alegou que a liberação do pó preto teria sido um caso esporádico, o que sabemos todos se tratar de uma tremenda balela, uma conversa para boi dormir. Imagino que, depois de conseguir o reconhecimento de responsabilidade, ao advogado restou comprovar que o pó preto voa diariamente, seja em direção ao norte, quando o vento vem do sul, e ao sul, quando o velho nordeste se instala, vigoroso. Sem vento, fica na empresa.

Da minha parte, digo que fiquei entusiasmado com a notícia. Como já andei escrevendo por aqui, trata-se de um sonho antigo de consumo: quem sujou tem que pagar para limpar. Simples assim, como se diz diante de situações óbvias e naturais. Aos olhos de alguns, essa emoção pode parecer entusiasmo juvenil ou ingenuidade descabida para um senhor de idade. Pode ser, mas gosto de acreditar em possibilidades remotas, quando sustentadas pela força da lógica. Para mim, é uma demonstração clara da Justiça se impondo, o que pode animar muitos e desanimar outros, sobretudo quem vem praticando o cinismo pela imprensa, com boa desenvoltura.

Isso começou com o mensalão, ao condenar muita gente, em última instância, contra a expectativa da grande maioria dos brasileiros aptos a serem presos por falcatruas e delitos diversos. A prisão de gente poderosa coloca água no caldo de cultura que tolera a corrupção desenfreada e os crimes de quem usa colarinho branco e sapato de grife. Na Lava Jato, as primeiras condenações já aconteceram, e em tempo recorde, a ponto de contaminar positivamente a alma dos crédulos tendentes a bom comportamento.

É muito animador ver que uma empresa que emite pó preto foi legalmente responsabilizada pelos danos que provocou na residência de uma família que escolheu viver em um balneário aprazível, situado nas redondezas do seu parque industrial. Preto no branco, isso aconteceu por ela ter economizado dinheiros próprios na melhoria dos seus processos de produção e sistemas de controle, para não prejudicar quem esteja à sua volta. É bem provável que seus advogados já tenham sido orientados a recorrer à justiça dos desembargadores para tentar anular a justiça feita por um juiz em primeira instância. Por certo, precisarão contratar profissionais e empresas para produzir laudos e demonstrativos livres de subterfúgios e vícios, capazes de embasar decisões de juízes e de plenários, agora sob o olhar cada vez mais atento da população. Imagino que a expectativa da empresa em ver reformada a decisão do juiz seja altíssima, diretamente proporcional à probabilidade de ocorrer uma enxurrada de processos judiciais similares.

Deixo aqui meus aplausos para a família que entrou na justiça por seus direitos, para o advogado Marcos Piumbini, que embasou o processo, e para o juiz Marcelo Coutinho, que condenou a empresa poluidora acolhendo os fundamentos jurídicos e as provas apresentadas. E por último, reconhecendo sua equivalente importância, parabenizo os técnicos do IEMA que fizeram a perícia técnica que possibilitou a aplicação das leis vigentes.

Vitória, 29 de abril de 2015-04-29

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA