Casa dos Braga, Cachoeiro de Itapemirim

Casa dos Braga, Cachoeiro de Itapemirim

A notícia de que a Casa dos Braga vai ser restaurada trouxe uma doce saudade de mamãe. Meu avô comprou aquele chalé em 1913 para abrigar a família que crescia e os parentes e amigos que, morando nas fazendas próximas, precisassem de apoio na cidade para se tratar, estudar, fazer compras ou participar de festa animada. Espaçoso, com pé direito alto e um grande porão no térreo, também garantia pouso seco para vizinhos cujas moradias tivessem sido invadidas pelo rio Itapemirim. Para mamãe, aquela casa era o lugar mais importante do mundo. Digo isso com convicção, sabendo que ela era uma pessoa lida e viajada, com perfeita noção do valor e do mérito das coisas. Era seu marco de referência. Foi ali que ela nasceu, em 1922, casou-se e viveu até os trinta e cinco anos, já mãe de uma prole.

Quando viemos para Vitória, a casa ficou aos cuidados de uma família amiga. Depois, para ajudar nas despesas, abrigou uma escola e, em seguida, um restaurante, o que fez tio Rubem reclamar que não tinha gostado de ver um pessoal bebendo e falando alto bem no quarto da mãe dele. O fato é que mamãe só sossegou quando a casa foi desapropriada pela Prefeitura de Cachoeiro. Até então, ela ficava apreensiva sempre que chovia pesado e muitas vezes tivemos que levá-la para conferir os estragos de perto. Em solenidade inesquecível, no meio da rua, com a presença do Ministro da Cultura Celso Furtado e de muitos amigos de infância dela, foi inaugurada a Casa dos Braga, como centro cultural. Por duas décadas sediou também a biblioteca municipal. Ficou desocupada nos últimos anos, à espera de providências para transformá-la numa espécie de museu-casa. Restaurada, receberá de volta seu antigo acervo e os móveis originais do quarto do casal e da sala de jantar e objetos decorativos de época, que compunham a casa de mamãe, em Vitória, além de documentos, fotografias, livros, desenhos e pinturas produzidos por membros da família. A ideia é recompor parte do ambiente da moradia dos Braga, cuja história está fortemente vinculada à vida de Cachoeiro.

Chico Braga veio de São Paulo visitar sua tia Graça Guardia, educadora destacada na formação dos cachoeirenses. Apaixonou-se por Rachel Coelho, da Fazenda do Frade, e resolveu ficar. Homem bem formado, foi nomeado tabelião. Sério, de poucas e certeiras palavras, foi o primeiro prefeito da cidade. Criou seus filhos respeitando a personalidade de cada um. Mamãe dizia que tia Carmosina era pessoa à frente do seu tempo: foi a primeira cachoeirense a tirar carteira de motorista. Armando, com talento para as finanças, foi de dono de banco a Secretário da Fazenda. Jerônimo, jornalista, fundou o Correio do Sul em 1929, onde foram publicados os primeiros textos enviados por Rubem, aos quinze anos, estudante no Rio de Janeiro: ele recebera apoio do pai para não mais voltar ao Liceu depois de ter brigado com o professor de matemática que o chamara de burro. Newton, formado em Direito, retornou de Belo Horizonte para assumir o cartório da família, criou a primeira agencia de propaganda e inventou a Festa de Cachoeiro. Poeta de primeira, era pessoa muito querida. Yedda encantou um jovem advogado carioca e logo se casou, indo viver no Rio em meio a artistas e intelectuais, amigos do já consagrado irmão cronista. Gracinha, a caçula, casou-se com o sanitarista Bolívar de Abreu, homem público de muitas realizações. Para sua glória, aos 89 anos, justamente no ano do centenário de Newton, foi escolhida Cachoeirense Ausente. Nas nuvens, dançou a noite inteira no baile de gala da Cidade.

Vitória, 02 de setembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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