Cachorrada

Cachorrada

Há mais de vinte anos que temos sempre em casa dois ou três cachorros da raça basset, ideal para brincar com criança e acompanhar adulto. A dinastia começou com Guimba, descendente direto de Artur, da Mata da Praia, que foi roubado quando vagabundava pelo bairro. Do cruzamento dele com Sacha, a dama do pedaço, nasceu Bingo, que viveu dezessete anos sem estranhar uma pessoa sequer e que, ao envelhecer, ganhou o apelido de Vovô Garoto, porque assumia porte atlético e jovial quando estava na rua. Nunca adoeceu e foi morrer lá na praia. De um amigo criador de basset ganhamos a Gigi do Grotes e, do cruzamento dela com Bingo, nasceu Reggae, cor de chocolate, o mais bonito que conheci. Viveu uns dez anos. Para compensar a sua perda, Diana e Bento foram até Paul comprar Kill e Bill, que estão aqui até hoje. Um é caramelo, pequeno e desconfiado; o outro é preto, parrudo e simpático. Foi difícil convencer Carol a aceitar Pingo Lingo Django, filhote de Kill e da vizinha Luma, filha da Sacha. Era o maior da ninhada e o único com pernas compridas e manchas brancas, por obra de genética traiçoeira. Brincalhão e sedutor, ele ganhou a preferência de todos, inclusive de visitas e entregadores.

Cachorro também ajuda a puxar pela memória. Dos meus tempos de adolescente, guardo lembranças de Braine, um alegre pastor alemão que frequentava a Praia do Barracão e adorava nadar para pegar o pedaço de pau que alguém jogasse no mar. Saído da água, sacudia o corpo, molhando quem estivesse por perto. O casal de dobermann da casa de Paulo Bley assustava, com latidos inesperados, quem viesse andando pela calçada, rente ao muro. O portão era de grade e eles ficavam ali, de plantão, como convém aos cães de guarda. Até hoje não sei o motivo da mordida no dedo que levei do collie da casa de Marcelo, onde eu estudava para o vestibular. Com a maior dor no coração, tivemos que sacrificar Juridal, um afável setter irlandês, de pelos longos avermelhados, que me fora dado por um caçador que desistira de tentar ensiná-lo a ir buscar as marrecas que abatia com tiro de espingarda. Zorro era um vira-lata enorme que Afonso, meu irmão, garantia ser o pai da maioria dos cachorros da cidade. Dormia na varanda e impunha respeito com latido grave. Mais pro fim da vida, já meio cansado, apenas abanava o rabo para saudar quem passasse por perto. Foi aí que arranjaram um desses cachorrinhos neuróticos, para acordá-lo em situações de ameaça iminente. Não me esqueço de Faruk, o vira-lata dos Ananias, o valente defensor da rua Eugênio Netto que odiava as motocicletas barulhentas dos filhos do Dr. Dido Fontes. Isso até o dia em que Renan tirou um fino no poste no meio da rua, fazendo com que Faruk, que vinha no galope latindo do lado das suas pernas, se estatelasse no tubo de aço, bem diante dos nossos olhos.

Mamãe ficava com os olhinhos brilhando ao contar histórias de Zig Braga, um cachorrão enorme da sua adolescência. Malandro, dormia no piso fresco da igreja ao lado de vovó Neném, durante a missa inteira. Conhecidíssimo em Cachoeiro, Zig virou personagem de crônica, onde está dito que ele detestava homem fardado, inclusive carteiros. Antigamente, muitos cachorros viviam soltos na rua e os mais bravos imponham restrições a quem invadisse seu território. O jeito era levantar as pernas ao passar de bicicleta ou, por via das dúvidas, fingir que se estava pegando uma pedra no chão. Meu tio Newton descreveu, com grande propriedade, um encontro de um homem e um cachorro em rua deserta, cada qual morrendo de medo do outro. Posso apostar que ele era o tal medroso.

Vitória, 22 de Julho de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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