Carros

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Tenho uma fotografia de tia Carmosina, a primeira mulher a tirar carteira em Cachoeiro, ao volante de um Ford 29 novinho, com mamãe e tia Yedda, ainda pequenas, no banco de trás. Todas de chapéu e vestido de festa. Numa outra, de calça curta, os três meninos do Dr. Bolivar estão encostados na camionete preta de para-lamas arredondados que ele usava no serviço. Dos tempos em La Paz, guardo uma foto do passeio para ver neve pela primeira vez. Estamos ao lado do Chevrolet 56 que, para tristeza geral, não conseguiu encarar as íngremes ladeiras no ar rarefeito dos Andes. Em Bogotá, a família tinha uma Mercedes Benz, de portas que se fechavam silenciosamente. Quando viemos pra Vitória, papai comprou um Chevrolet 53 azul, que ele gostava de dirigir com só um dedo na direção, para mostrar como era levinha. Viúva, mamãe ganhou do irmão um Fusca 63 verde claro para que os filhos, ainda sem carteira de motorista, a levassem para trabalhar lá no Centro. Nos horários vagos, o famoso “6 37 00” era usado no transporte dos primeiros roqueiros da cidade e nas idas a Guarapari, sempre com gasolina rateada.

Nos anos sessenta, as ruas da Praia do Canto eram desertas e os automóveis, pouquíssimos e identificáveis. Tanto que havia um rapaz que sabia de cor a placa, de cinco números, e o telefone, de quatro dígitos, do dono de cada carro que circulasse no bairro. Na verdade, era fácil saber que o Chevrolet Bel Air que rodava devagar era de Seu Anacleto e que a camionete Ford cabine dupla azul, que passava em alta velocidade, era de Dona Arlete Vivacqua. O DKW de tração dianteira e portas que abriam pra frente era de Barrica, que adorava dar cavalo de pau no barro do pré-asfalto. O Candango, um jipinho fantástico, devia ser de Jayme e Carlinhos Larica ou de um dos meus irmãos. O Fusca com o motorista curvado sobre o volante, na certa era de Marco Murad e o Gordini novinho, de tio Cristalino, comprado com os primeiros salários de desembargador. Uma Rural Willys seria, provavelmente, de algum engenheiro da CVRD como Dr. Duarte que, distraído, tombou a dele ao subir num monte de areia na Avenida Beira Mar. A do Dr. Bley, a Jaqueline, se acabou na curva do DNER, numa capotada espetacular, por imperícia de Paulo Bley, que vinha da farra com os amigos.

Aurora Gorda, cafetina de grande prestígio, cliente preferencial das concessionárias de carros de luxo, era sempre a primeira a adquirir os últimos lançamentos para ficar passeando pela cidade, sentada no banco de trás, acenando para os conhecidos. Imagino que ela se sentia gente muito importante a bordo de um Galaxy, uma “banheira” macia e super confortável. O irmão de Jorginho Saade tinha um Dodge Dart, o top de linha dos semi-esportivos nacionais da época, que dirigia bem devagarzinho, fazendo pose para as morenas. Gute Santos Neves vivia pra lá e pra cá no Simca Chambord do pai até ganhar um Karman Guia bege. Neném, meu cunhado, circulava num Puma branco que dizia ser um carro anti-sogra, porque o banco de trás era apertadíssimo. Charmoso mesmo era o Interlagos conversível vermelho que Zezé Turquetto escolheu para passear por aqui nas tardes de verão. Mas nada se comparava ao Thunderbird de Jair Coser que eu vi cantando pneu, quase sem sair do lugar, no barro duro da Rua Madeira de Freitas. O adesivo Powered by Tommasi me faz lembrar da paixão que Paulo César tinha pelos motores. Para espanto de alguns, ele decidiu, ainda moleque, virar mecânico de automóvel, fazendo a alegria dos que queriam “envenenar” seus carros.

Vitória, 05 de agosto de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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