Motorista infrator

Motorista infrator

Na semana passada, fiz o curso de reabilitação de motoristas infratores. Foram trinta horas de aula sobre assuntos relevantes e outros nem tanto, sob um rigoroso sistema de controle de presença on line, via internet. Diariamente coloquei o indicador direito em uma leitora ótica varias vezes: ao entrar na sala, a qualquer tempo antes do recreio, na volta do recreio, a qualquer tempo durante a aula e ao final da aula. Ao todo, foram cinco noites da semana e uma manhã de sábado. Ainda me resta fazer uma prova.

Posso dizer que fui um aluno aplicado: prestei atenção no que diziam os professores e nos vídeos projetados no telão, mostrando consequências das irresponsabilidades e desatenções no trânsito, quase sempre associadas a excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas, bebedeiras e coisas do gênero. Posso dizer que aprendi coisas que nunca soube sobre pneus, que incorporei informações valiosas sobre primeiros socorros, que aprimorei o meu bom senso como motorista e, sobretudo, como proprietário de veículo emprestado para amigos. Conheci pessoas infratoras de vários tipos, incluindo as totalmente resignadas, as relativamente envergonhadas e as parcialmente revoltadas por terem sido penalizadas pelas infrações que cometeram.

As aulas me fizeram refletir bastante sobre leis, direitos e deveres, sistemas de controle social, função educativa das penalidades e por aí afora. Tudo isso reforçado pelo que acontecia no mundo da política durante toda a semana: abertura de processos disciplinares contra autoridades, prisões de suspeitos estratégicos, divulgação de denúncia amiga, invasões autorizadas de domicílios e sedes, condução obrigatória para depoimento, bate boca e pancadaria, discursos inflamados, xingamento, ameaças veladas e outras nem tanto.

Sempre soube que o trânsito reflete de forma escancarada os valores adotados pela sociedade, em um dado momento. O que preocupa é perceber que, a cada dia, estamos mais competitivos, egoístas, nervosos e intolerantes.

Vitória, 08 de março de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Eleições sem investimentos privados

Eleições sem investimentos privados

As eleições deste ano estarão livres dos dinheiros oficialmente vindos de empresas. Em setembro passado o STF tornou ilegal a prática de doações empresariais nas campanhas eleitorais. Neste caso, o termo doação carrega em si uma boa dose de cinismo e de má intenção. Todos nós sabemos que não existe almoço grátis, nem jantar. Para ser mais exata e efetiva, a legislação deveria tratá-las como investimentos.

Tal proibição deverá provocar impactos positivos no processo de escolha dos vereadores e prefeitos Brasil a fora, ainda mais porque o futuro presidente do STE prometeu uma espécie de guerra santa contra o caixa dois. Em tempos de Lava Jato, sou forçado a acreditar que teremos uma eleição atípica: mais barata e com menor influência do poder econômico, sobretudo das grandes empresas.

Lembro-me de ter lido sobre o uso da palavra “obrigado” em sinal de agradecimento a quem proporcione algo que nos agrade ou favoreça. O autor mostrava as diferenças entre o nosso modo de verbalizar tais emoções e os de outros povos latinos. Nós e os portugueses dizemos obrigado, vindo do latim obligare, que expressa dívida, obrigação, compromisso moral em retribuir o que foi recebido. Outros usam gracias, grazie, grácies, tudo saído de gratias, da mesma fonte, que expressa tão somente agradecimento.

Tem sido prática corrente entre empresas poderosas investir em candidatos que apresentem maiores chances de vitória, sobretudo naqueles com maior potencial de manter fidelidade aos interesses delas. A expectativa de retorno desses investimentos se materializa de duas formas distintas: favorecimento nas contratações de obras e serviços e aquisições de bens de consumo e na garantia para realizar suas atividades inteiramente livres da interferência restritiva do poder público. Aqui, elas investem mais pesadamente nos candidatos que aprovariam leis compensadoras e naqueles que seriam propositadamente negligentes na responsabilização por danos às pessoas e ao meio ambiente. As obrigações dos eleitos serão só com seus eleitores.

Vitória, 24 fevereiro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita pra A GAZETA

Não passarão

Não passarão

2016 promete fortes emoções republicanas. Além das operações da policia federal, merece atenção a demanda da Câmara dos Deputados para que o STF reveja suas decisões sobre o rito do impeachment, baseadas em argumentação tendenciosa do ministro Barroso. Digo isso por que assisti ao julgamento pela TV e vi a reação contundente de vários ministros às suas interpretações e, por que não dizer, seus blefes. Senti raiva e vergonha, afinal aquela é a última instância da justiça brasileira, onde não deveriam caber cinismos e afrontas à lei. Imagino que após conhecer a argumentação dos advogados da Câmara, a ministra Carmem Lúcia, próxima presidente do Tribunal, se sentirá traída na sua boa fé. Ela acompanhou o voto do colega Barroso, elogiando o seu brilhantismo. A decisão foi por diferença mínima e colocou o Supremo em posição muito vulnerável. Mais de trezentos deputados já pediram, por escrito, a cabeça do ministro.

Acompanho, quase sem informações, a peleja do pó preto no âmbito da Segunda Vara da Justiça Federal no Rio. Depois de perder o recurso feito a um juiz carioca para anular a decisão de um juiz capixaba, a VALE agora tenta convencer desembargadores. O primeiro se declarou impedido, o que me pareceu um bom sinal. O processo foi redistribuído para uma desembargadora que, quero crer, reconhecerá o pó preto como uma afronta à população.

Ridícula a argumentação dos advogados de que as adequações nos sistemas de controle do pó seriam muito custosas, como se tais investimentos não fossem obrigatórios, típicos desse negócio, de lucros tão comemorados. Por certo, eles desconsideram o quanto a população gasta com tratamentos de saúde e com a limpeza permanente de suas casas. Uma coisa é certa: o prazo de 60 dias está correndo e eu ainda não soube das providências da empresa para atender as exigências do juiz federal carioca. Se a desembargadora mantiver a linha de decisão, uma nova paralisação dos portos será da inteira responsabilidade dos dirigentes da mineradora.

Vitória, 10 de fevereiro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para a GAZETA

Agora vai!

Agora vai!

O pó preto tem frequentado minhas crônicas com boa insistência. Tenho reclamado dos incômodos que provoca e mostrado que ele expressa grande desrespeito aos que vivem aqui. Por total descrença na disposição dos dirigentes municipais, estaduais e federais, assim como da nossa justiça, em equacionar o assunto, já cheguei a pedir ajuda a Papai Noel para tentar acabar com a sujeira diária. O mundo dá voltas e a saturação produz reações. A roubalheira na Petrobras e a tragédia provocada pela SAMARCO em Mariana ajudaram a engrossar reações convictas da população capixaba contra a liberdade da VALE em continuar lançando grandes quantidades de pó preto sobre a Grande Vitória.

Por isso mesmo, confesso que os últimos acontecimentos me animaram. Como muita gente, estou batendo palmas para o juiz federal Marcus Vinícius Costa, espécie de Sérgio Moro capixaba, que determinou a interrupção das atividades na Ponta do Tubarão por crime ambiental federal. Acompanho com atenção os desdobramentos na Justiça Federal no Rio de Janeiro, onde o juiz Vigdor Teitel, nome de super-herói, estabeleceu prazo de 60 dias para que a VALE apresente proposta para sanar de vez o problema. Li que a empresa contratou uma banca de advocacia caríssima, formada por mais de noventa advogados e uns tantos especialistas, para tentar reverter a decisão da justiça que tanto nos interessa. Dinheirão jogado fora.

O fato promissor é que a tolerância de muita gente séria acabou e isso faz a coisa ganhar outro rumo. A nota oficial que a empresa fez publicar neste jornal sobre o assunto afronta a inteligência e o bom senso de pessoas tolerantes e experientes como eu. Daqui pra frente, não restará à VALE alternativa que não seja a de encapsular seus pátios de minério e suas correias transportadoras, como é feito nos lugares onde a população não admite ser tratada como sendo de quinta categoria. Além de sujar, a VALE não paga as multas que recebe e, segundo a Receita Federal, é a maior devedora de impostos do país. Deve algo como R$ 42 bilhões.

Vitória, 27 de janeiro de 2016.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Seria bem melhor

Seria bem melhor

Vitória é ilha de poucas praias. Poucas e pequenas, pra ser exato. Não fosse Camburí, que fica lá no continente, a cidade contaria com pouquíssimos metros de areia para o pessoal se esbaldar sob o sol quente e se refrescar em águas protegidas. Ilha de formação rochosa situada dentro de um estuário, as suas áreas à beira d´água eram quase todas ocupadas por manguezais. Bem diferente da ilha de Florianópolis, em mar aberto, com quilômetros de areias brancas e águas cristalinas.

As praias originais da nossa ilha são contadas nos dedos. Tirando uma ou outra, lá nos fundos da baia, todas elas eram viradas para o leste: a praia do Suá, onde hoje estão as peixarias; a de Santa Helena, onde está a praça do pedágio; a do Barracão, onde está o edifício Paulo VI e, por fim, a Praia do Canto, que começava no McDonald’s e terminava no pé da ladeira do colégio das freiras. Imagino que essas duas últimas eram uma só, até que se construiu um paredão de pedras, de uns novecentos metros de extensão, para suportar a Avenida Saturnino de Brito e embelezar o lugar. Nas suas calçadas, foram plantadas sessenta e duas castanheiras que sombrearam as pescarias e os passeios de muita gente. Hoje elas marcam o contorno da orla antiga.

No início dos anos setenta, aquele cenário foi radicalmente alterado por um grande aterro, fazendo surgir duas praias entre o Iate Club e a Ilha do Boi que, anexada à ilha maior, ganhou caminho para as duas nela existentes. Uma ponte viabilizou o acesso às quatro praias da Ilha do Frade. O aterro fez surgir ainda outras três, viradas para o canal: embaixo da Terceira Ponte, na Praça do Papa e outra, atrás do Shopping, que tem sido frequentada por Fred, um pacato elefante marinho. E é só.

Lugar de lazer gratuito e democrático, as praias são usadas o dia inteiro no verão. No começo da manhã, pelas famílias e crianças pequenas, depois por farofeiros de todos os quilates e pela moçada saudável e procurante. Seria um programa perfeito se a água do mar estivesse sempre limpa, própria ao mergulho restaurador.

Vitória, 11 de janeiro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

.

Lamaceira de minério de ferro

Lama de Minério de Ferro

Escrevo esta crônica, em São Paulo, entre as atividades de um evento internacional sobre o que o design pode fazer para tornar as cidades mais funcionais e amistosas e para melhorar a vida das pessoas. Os temas são instigantes, relacionados com questões urbanas, com a natureza, com a cultura tratada em perspectiva. A conferência What Design Can Do? surgiu em Amsterdã há cinco anos e esta é a primeira edição que se realiza no Brasil. A turma de palestrantes era formada por profissionais de primeira linha que realizam trabalhos que extrapolam, em muito, a busca de formas funcionais e do uso de traços e cores para gerar beleza e comunicação de impacto.

Sentado em cadeira confortável, usando fone de ouvido para tradução simultânea, vendo imagens projetadas em telões enormes eu me dei conta de como é bom ficar assistindo o pessoas talentosas e lúcidas têm a mostrar.

A jornalista americana Tracy Metz, que vive na Holanda, subiu ao palco para falar sobre os esforços que os holandeses têm feito para domar e, sobretudo, para melhor aproveitar as águas do mar, tema de meu interesse.

Antes de começar a palestra pediu licença para demonstrar a sua indignação com o tragédia ambiental provocada pela mineradora Samarco/VALE/BHP. O auditório bateu palmas, com a convicção de quem se solidariza com as vítimas da tragèdia, reconhece as suas dimensões e reclama providências urgentes para tentar minimizar seus impactos.

Ao final da apresentação, anunciou que havia uma pequena exposição, montada por alunos e professores interessados em recolher sugestões sobre como o design poderia ajudar a amenizar a tragédia que começa em terras de Minas Gerais e segue por mares do Espírito Santo. Era algo bem simples: três grandes fotos ao lado de um pequeno texto: que dizia: “Isto poderia ser a introdução de um filme pós-apocalíptico. Mas não é. Trata-se uma situação tão surreal e absurda que pede soluções de iguais proporções.”

Vendo aquilo me veio a ideia de propor que se faça dos escombros intactos da cidade de Bento Rodrigues um grande museu a céu aberto para servir de marco de referência, de um contundente registro histórico do quanto pode ser danosa a ação de homens subalternos e irresponsáveis, de empresas de segunda categoria e de governos comprometidos com a lógica de poderosos. Um memorial para ser visitado sobretudo por crianças e jovens, do país inteiro.

Em exposição, os restos da cidade devastada pela lama tóxica, em meio à terra estéril, marrom, cor da qual não gosto. No alto de um morro, uma edificação abrigaria e disponibilizaria aos visitantes documentos oficiais que podem explicar a tragédia, incluindo legislações ambientais, projetos de engenharia, licenças e autorizações, relatórios de inspeção, comprovantes de adequação, intimações, multas e respectivos recursos, decisões da justiça, trabalhos técnicos sérios e encomendados, análises da lama e das águas. Lá também estariam obras produzidas por artistas, poemas e textos escritos por pensadores, depoimentos de especialistas, cartazes de manifestações populares, matérias jornalísticas do mundo inteiro, muitas fotos e vídeos, campanhas de mobilização nas redes e tudo o mais. Em ambiente reservado e solene, os testemunhos e as lembranças dos antigos moradores e as homenagens aos mortos e aos que desapareceram na lama dos rejeitos de uma mineração predadora.

São Paulo, 09 de dezembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Lamaçal

Lamaçal

Apresso-me a avisar ao leitor que esta não é uma crônica leve. Seu tom grave reflete a minha total indignação com a tragédia absurda provocada pela Samarco lá em Minas e que se desdobra aqui no estado. É mais um acontecimento que expressa os tempos que vivemos: descaso total do governo federal, indulgência conveniente do governo mineiro e descaramento da Samarco e da Vale, controladora da metade das suas cotas, preocupadas em minimizar suas responsabilidades e seus prejuízos.

As informações que colhi, mesmo que incompletas e imprecisas, atestam a escala gigantesca da tragédia, que se estenderá para muito além das lamentáveis mortes dos moradores e funcionários da empresa. Tudo indica que a Samarco matou o Rio Doce. A lama com os rejeitos, rica em minerais pesados, vai exaurir as populações de peixes, pitus, tartarugas e de tudo o mais que habita suas águas e os barrancos e, mais do que isso, extinguir as chances de repovoá-lo em décadas. Não imagino o que precisará ser feito para permitir o consumo da água por humanos e animais e seu uso seguro na agricultura. As primeiras previsões dos impactos sobre a vida em nossos mares também são alarmantes. Nos próximos dias, a mancha escura estará visível na boca do rio em Regência e, em seguida, ao longo da costa.

Li que a Samarco aumentou a sua produção em torno de um terço há pouco tempo, o que demandaria a ampliação da capacidade de armazenamento de seus resíduos industriais, providência de que não tive notícia. Sei que existem documentos oficiais que lhe impuseram medidas de acompanhamento rigoroso das condições de segurança de suas barragens. Barragens se rompem por vários motivos, sobretudo quando o limite da capacidade é atingido, situação que pode ser controlada a olho nu. Tudo faz supor que a empresa passou a operar sob risco elevado, deliberadamente. A divulgação da ocorrência de sismos de baixíssima intensidade na região, antes do rompimento das barragens, foi providencial para fazer crer que a tragédia teria sido provocada por um evento natural, incontrolável pela empresa. Tem gente acreditando nisso até hoje, porque ninguém explicou que terremotos de magnitude dois na escala Richter, muito frequentes por todo lado, são imperceptíveis aos homens, não derrubam prédios e, muito menos, destroem barragens. Sendo assim, a responsabilidade pelo rompimento é exclusiva dos homens poderosos, estejam eles na Samarco ou nos órgãos públicos responsáveis pela aprovação dos projetos e pelo controle das condições de funcionamento.

É mais do que sabido que empresas de mineração financiam campanhas políticas e de marketing que, em última instância, viabilizam suas operações a custos bem menores. São “investimentos estratégicos” que lhes asseguram o direito de fazer o que jamais poderia ser feito contra a natureza e, em especial, contra as populações de seu entorno. São de altíssima rentabilidade. Nessa batida, o governo de Minas debochou de todos nós ao anunciar que suspendeu as operações da Samarco, como se ela ainda tivesse condição de funcionar sem os seus reservatórios de rejeitos industriais. Aqui em Vitória, temos vivido sob o pó preto do descaramento político-empresarial que se instalou há décadas e que se renova a cada eleição. Torço para que a tragédia que começou na semana passada sirva para dar um fim ao jogo cínico que vigora por aqui, incluindo o minério de ferro lançado no mar de Camburi pela Vale. Que os prejuízos e constrangimentos da Samarco sirvam para demonstrar que crime ambiental não compensa.

Vitória, 11 de novembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Presentes de aniversário

Presentes de aniversário

Aniversariei no último dia 23, sexta feira, junto com Pelé, Santos Dumont e Ronaldo Barbosa. As comemorações começaram com a arrumação da casa, consertos em geral, idas às compras e muita agitação na cozinha para conseguirmos almoçar ao lado de amigos em pleno dia útil. Mais uma vez, mantivemos o padrão do “quase tudo feito em casa”, com a valiosa colaboração de uma das filhas que vivem em São Paulo, uma grande amiga que veio de Brasília e uma irmã que cuida com gosto da decoração. Ganhei muitos presentes inteiramente compatíveis com as manias, os hábitos, as dimensões e a idade atuais, o que demonstra carinho e atenção na escolha.

Da minha parte, tenho dado dois tipos de presente: colheres feitas especialmente para as pessoas homenageadas e exemplares do livro de Vitor Nogueira de fotografias sobre o Espírito Santo, que sempre agrada, independentemente de renda, idade, sexo, cor e religião.

O primeiro presente do dia veio cedo, junto com um sorriso muito simpático: um pote para colocar as colheres de madeira da cozinha. Peça esmaltada, de cores azuladas, feita à mão por uma colega de remadas matinais, em retribuição à colher que eu havia feito pra ela. Na hora do almoço, ganhei duas camisetas e um chapéu com protetor de orelha e de cangote, feitos com tecido UV line, uma grande descoberta para quem, como eu, tem pele muito sensível ao sol. Recebi tudo isso como bom estímulo pra quem rema canoa havaiana nessa altura da vida. Ganhei também uma camiseta de marca, que me fará elegante em ambientes descontraídos, e uma bela camisa de linho azul claro que me fez lembrar das camisas de cambraia da Braspérola que dona Antenisca, nossa vizinha, fazia pra mim, de seis em seis.

Ganhei uma colher de metal com o cabo dobrado formando uma alça que, engastada na borda da molheira, garante que ela não vai escorregar e mergulhar no molho, uma pequena tragédia em jantares de alguma cerimônia. Veio junto com um canivete gaúcho, de lâmina curva, cujo uso específico ainda vou descobrir. Tratei de passar uma lixinha no cabo e nas bordas do metal para propiciar uma pega mais cômoda, como convém às ferramentas. Nessa linha, inclui-se a pasta para proteger computador, que me foi entregue com um beijo acompanhado da autorização para usá-la como sacola para levar faquinhas e bambus em viagens. Por hora, vou dependurá-la no cabide de design original, que pretendo fixar na parede do meu quarto. Na mesinha da sala já está a lupa de lente grande e cabo bonito, que me deixou encasquetado, por ser a sexta que ganhei na vida.

Avô que sou, ganhei uma foto emoldurada muito expressiva: meu neto Joaquim, sentadinho no chão, ao lado de um grande aviãozinho de papel dobrado, na exposição de Hilal em São Paulo. Inspirado no nascimento do primeiro neto, o artista fez um avião de um pedaço de céu muito azul com nuvens branquinhas. Do amigo interessado em história contemporânea ganhei um livro com as conversas entre dois renomados pensadores sobre o que andou acontecendo na Europa no século passado. Para alegrar e distrair o aniversariante, um vinho do Porto, três garrafas de cachaça da melhor procedência, um belo livro de poemas gráficos com curiosas sacações, além de uma caixa de lápis de cor e um bloquinho de desenho.

Para completar as comemorações, presente de Carol, um show de Paulinho da Viola, assistido de mesa pertinho do palco. Dá gosto de ver a figura gentil daquele carioca elegante e muito competente, tocando e cantando nestes tempos de arranca rabo, de quero o meu e pouca vergonha.

Vitória, 28 de Outubro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cadê o futuro que estava aqui

Cadê o futuro que estava aqui?

Acabo de passar uma semana de férias em família, de frente para o mar das Alagoas, e mais três dias respirando o ar das montanhas capixabas ao lado de amigos risonhos. Foram dez dias sem ao menos olhar uma televisão funcionando, abrir uma revista semanal ou folhear um único exemplar de jornal. Só na noite de segunda feira feriado foi que resolvi me inteirar um pouco das novidades do que estava se passando na política.

Gosto de acompanhar a movimentação dos que já estão e daqueles que estão pretendendo chegar ao poder. Os últimos tempos, como se sabe, têm sido um prato cheio para quem se distrai observando as mudanças no ambiente político e o jogo bruto pelo poder. Confesso que não me recordo de tempos tão férteis em situações e fatos tão expressivos como os que surgem a cada edição de jornal, a cada noticiário da TV.

A falta de liderança, paciência e competência em dosagens adequadas para o exercício do cargo de presidente em meio a uma guerra de foice entre partidos supostamente aliados e a atuação de servidores públicos determinados a detectar e comprovar safadezas destinadas a sustentar um projeto de poder são ingredientes mais do que suficientes para abastecer as emoções e segurar a audiência. De uma hora para outra, como que por um passe de mágica, denúncias fundamentadas detonam a suposta honradez de gente do governo, de líderes da oposição e de empresários articulados com mandatários do dia. Comprovações oficiais de pagamentos de propina para familiares de líderes políticos devem ter gerado muita raiva e quebrado certezas da impunidade. Ao lado disso, os descalabros na economia justificam e reforçam a queda abissal nos índices de popularidade de governantes desastrados e prepotentes.

Qualquer olhar atento consegue perceber o desespero do governo praticando o troca-troca de favores com políticos de menor envergadura para barrar a movimentação de políticos ameaçadores de maior envergadura. São visíveis as tensões nas reuniões sucessivas para tentar encontrar saídas para os impasses da semana e acessos a zonas de segurança para tomar fôlego. Salta aos olhos a felicidade incontida dos que conseguem extrair da governante desidratada nomeações de aliados e passam a cantar de galo em terreiro alheio, bem como a cara dura dos que entregam mais uns dedos e outros anéis para continuar as barganhas por apoio. É notória a substituição da tristeza de cada apenado por uma alegria chocha, encabulada, ao voltar pra casa de tornozeleira eletrônica por ter entregue à polícia um pouco do que sabe sobre as falcatruas de que participou. Nestes tempos, valiosa é a esperteza política para mobilizar adesões e armar arapucas que ajudem a neutralizar jogadas brutas de pretendentes ao poder, assim como a criatividade e a sofisticação das demandas por pronunciamento das instâncias da justiça com base no rigor da lei e na sua adequada interpretação.

O fato é que ando preocupado com a situação que se estabeleceu no país. Nada que possa ser explicado por razões ideológicas ou compromissos político-partidários: o meu desassossego fica por conta do crescimento vertiginoso dos crimes contra a vida e do desprezo aos valores mais nobres dos homens, do emperramento da economia e dos delitos em larga escala contra a coisa pública. Lamentavelmente, como deve estar acontecendo com muita gente, experimento uma sensação de impotência diante do desgoverno e, sobretudo, da falta de perspectivas. Logo eu, que tantas vezes fui taxado de otimista inveterado.

Vitória, 14 de outubro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Dentro e fora de padrões

Dentro e fora de padrões

No sábado combinamos com amigos de almoçar lá nas bandas da Pedra Azul, em restaurante que funciona numa das primeiras casas construídas na região. Aproveitaríamos para comprar cogumelos frescos, linguiça de porco e queijo no caminho para Vargem Alta, conhecer a lojinha de um grande amigo em Aracê e, por fim, visitar uma família alegre e festeira, cuja matriarca aniversariava naquele dia. Como o carro deles estava com problemas, sugeri que fôssemos no meu, com a condição de dividirmos o valor das inevitáveis multas por excesso de velocidade na BR 262. Sei de gente que ganhou quatro delas em uma única viagem, todas por rodar um pouquinho só acima da velocidade permitida. A estrada está repleta de equipamentos de radar e câmeras para flagrar transgressões, inclusive as cometidas em trechos com placas de cinquenta quilômetros por hora. Um conhecido meu diz que elas expressam um excesso de precisão dos que regulam as condições de uso das nossas estradas. Ele argumenta que, na prática, cinquenta e sessenta quilômetros por hora são velocidades tecnicamente equivalentes e defende que as placas de cinquenta deveriam ser substituídas pelas velhas conhecidas de quarenta ou de sessenta, acabando com a pegadinha geradora de multas injustas, por razões duvidosas.

Dia desses, bem na primeira fila de carros que esperavam o sinal abrir, confirmei que o novo desenho da Avenida Leitão da Silva vai acabar definitivamente com o meu conforto de estacionar bem em frente da lojinha que vende reparos para todo tipo de torneira, registro de água, caixa de descarga e tudo o que um dia começa a pingar, vazar e entupir. Em breve também não poderei parar para comprar tintas, fios, interruptores, mangueiras, cordas, escadas e muito mais. Como muita gente, tenho aquela avenida como o meu principal ponto de suprimento de itens indispensáveis ao bom funcionamento da casa. Com a implantação do tal meio fio padrão, que impede o acesso inclusive aos recuos além das calçadas, várias lojas vão minguar ou até fechar por falta de clientes. Muitas serão obrigadas a se mudar, como vem acontecendo com as das avenidas Vitória e Adalberto Simão Nader. É o preço imposto pelos novos padrões de civilidade que estão sendo incorporados, sobretudo os que estabelecem que a calçada é de uso exclusivo dos pedestres, afastando qualquer possibilidade de compartilhamento, mesmo nas ruas em que circulam pouquíssimos cidadãos a pé.

Ontem cedinho, como de costume, fui com Carol caminhar na areia da praia, ainda deserta. Como lua grande, a maré fica baixa no começo da manhã. Uma única mulher se exercitava na lá outra ponta da praia. Ela não era habitual daquele lugar, àquela hora do dia. Tendo começado a andar quase ao mesmo tempo, nos encontraríamos a meio caminho. Notei que a moça foi traçando uma rota que a afastaria da gente no momento do encontro. Confesso que achei graça do esforço para evitar qualquer possibilidade de ganhar um bom dia de um casal de certa idade, merecedor de toda a confiança, mesmo que o homem estivesse com uma faquinha pequena que usa para cortar bambu. Não foi possível dar um simples bom dia para aquela moça, nem na ida nem na volta, quando ela preferiu desviar o olhar para o lado do mar. Fiquei imaginando o tipo de “meio fio” que ela adotou para si.

Em compensação, logo depois, em pleno sol quente, no centro de Vila Velha, por um simples comentário que fiz para a mocinha que agora oferecia seis sacos de chão por dez reais, ganhei um inesperado sorriso seguido de uma gostosa risada de cumplicidade.
 
Vitória, 30 de setembro de 2015
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA