Dentro e fora de padrões

Dentro e fora de padrões

No sábado combinamos com amigos de almoçar lá nas bandas da Pedra Azul, em restaurante que funciona numa das primeiras casas construídas na região. Aproveitaríamos para comprar cogumelos frescos, linguiça de porco e queijo no caminho para Vargem Alta, conhecer a lojinha de um grande amigo em Aracê e, por fim, visitar uma família alegre e festeira, cuja matriarca aniversariava naquele dia. Como o carro deles estava com problemas, sugeri que fôssemos no meu, com a condição de dividirmos o valor das inevitáveis multas por excesso de velocidade na BR 262. Sei de gente que ganhou quatro delas em uma única viagem, todas por rodar um pouquinho só acima da velocidade permitida. A estrada está repleta de equipamentos de radar e câmeras para flagrar transgressões, inclusive as cometidas em trechos com placas de cinquenta quilômetros por hora. Um conhecido meu diz que elas expressam um excesso de precisão dos que regulam as condições de uso das nossas estradas. Ele argumenta que, na prática, cinquenta e sessenta quilômetros por hora são velocidades tecnicamente equivalentes e defende que as placas de cinquenta deveriam ser substituídas pelas velhas conhecidas de quarenta ou de sessenta, acabando com a pegadinha geradora de multas injustas, por razões duvidosas.

Dia desses, bem na primeira fila de carros que esperavam o sinal abrir, confirmei que o novo desenho da Avenida Leitão da Silva vai acabar definitivamente com o meu conforto de estacionar bem em frente da lojinha que vende reparos para todo tipo de torneira, registro de água, caixa de descarga e tudo o que um dia começa a pingar, vazar e entupir. Em breve também não poderei parar para comprar tintas, fios, interruptores, mangueiras, cordas, escadas e muito mais. Como muita gente, tenho aquela avenida como o meu principal ponto de suprimento de itens indispensáveis ao bom funcionamento da casa. Com a implantação do tal meio fio padrão, que impede o acesso inclusive aos recuos além das calçadas, várias lojas vão minguar ou até fechar por falta de clientes. Muitas serão obrigadas a se mudar, como vem acontecendo com as das avenidas Vitória e Adalberto Simão Nader. É o preço imposto pelos novos padrões de civilidade que estão sendo incorporados, sobretudo os que estabelecem que a calçada é de uso exclusivo dos pedestres, afastando qualquer possibilidade de compartilhamento, mesmo nas ruas em que circulam pouquíssimos cidadãos a pé.

Ontem cedinho, como de costume, fui com Carol caminhar na areia da praia, ainda deserta. Como lua grande, a maré fica baixa no começo da manhã. Uma única mulher se exercitava na lá outra ponta da praia. Ela não era habitual daquele lugar, àquela hora do dia. Tendo começado a andar quase ao mesmo tempo, nos encontraríamos a meio caminho. Notei que a moça foi traçando uma rota que a afastaria da gente no momento do encontro. Confesso que achei graça do esforço para evitar qualquer possibilidade de ganhar um bom dia de um casal de certa idade, merecedor de toda a confiança, mesmo que o homem estivesse com uma faquinha pequena que usa para cortar bambu. Não foi possível dar um simples bom dia para aquela moça, nem na ida nem na volta, quando ela preferiu desviar o olhar para o lado do mar. Fiquei imaginando o tipo de “meio fio” que ela adotou para si.

Em compensação, logo depois, em pleno sol quente, no centro de Vila Velha, por um simples comentário que fiz para a mocinha que agora oferecia seis sacos de chão por dez reais, ganhei um inesperado sorriso seguido de uma gostosa risada de cumplicidade.
 
Vitória, 30 de setembro de 2015
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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