Lamaceira de minério de ferro

Lama de Minério de Ferro

Escrevo esta crônica, em São Paulo, entre as atividades de um evento internacional sobre o que o design pode fazer para tornar as cidades mais funcionais e amistosas e para melhorar a vida das pessoas. Os temas são instigantes, relacionados com questões urbanas, com a natureza, com a cultura tratada em perspectiva. A conferência What Design Can Do? surgiu em Amsterdã há cinco anos e esta é a primeira edição que se realiza no Brasil. A turma de palestrantes era formada por profissionais de primeira linha que realizam trabalhos que extrapolam, em muito, a busca de formas funcionais e do uso de traços e cores para gerar beleza e comunicação de impacto.

Sentado em cadeira confortável, usando fone de ouvido para tradução simultânea, vendo imagens projetadas em telões enormes eu me dei conta de como é bom ficar assistindo o pessoas talentosas e lúcidas têm a mostrar.

A jornalista americana Tracy Metz, que vive na Holanda, subiu ao palco para falar sobre os esforços que os holandeses têm feito para domar e, sobretudo, para melhor aproveitar as águas do mar, tema de meu interesse.

Antes de começar a palestra pediu licença para demonstrar a sua indignação com o tragédia ambiental provocada pela mineradora Samarco/VALE/BHP. O auditório bateu palmas, com a convicção de quem se solidariza com as vítimas da tragèdia, reconhece as suas dimensões e reclama providências urgentes para tentar minimizar seus impactos.

Ao final da apresentação, anunciou que havia uma pequena exposição, montada por alunos e professores interessados em recolher sugestões sobre como o design poderia ajudar a amenizar a tragédia que começa em terras de Minas Gerais e segue por mares do Espírito Santo. Era algo bem simples: três grandes fotos ao lado de um pequeno texto: que dizia: “Isto poderia ser a introdução de um filme pós-apocalíptico. Mas não é. Trata-se uma situação tão surreal e absurda que pede soluções de iguais proporções.”

Vendo aquilo me veio a ideia de propor que se faça dos escombros intactos da cidade de Bento Rodrigues um grande museu a céu aberto para servir de marco de referência, de um contundente registro histórico do quanto pode ser danosa a ação de homens subalternos e irresponsáveis, de empresas de segunda categoria e de governos comprometidos com a lógica de poderosos. Um memorial para ser visitado sobretudo por crianças e jovens, do país inteiro.

Em exposição, os restos da cidade devastada pela lama tóxica, em meio à terra estéril, marrom, cor da qual não gosto. No alto de um morro, uma edificação abrigaria e disponibilizaria aos visitantes documentos oficiais que podem explicar a tragédia, incluindo legislações ambientais, projetos de engenharia, licenças e autorizações, relatórios de inspeção, comprovantes de adequação, intimações, multas e respectivos recursos, decisões da justiça, trabalhos técnicos sérios e encomendados, análises da lama e das águas. Lá também estariam obras produzidas por artistas, poemas e textos escritos por pensadores, depoimentos de especialistas, cartazes de manifestações populares, matérias jornalísticas do mundo inteiro, muitas fotos e vídeos, campanhas de mobilização nas redes e tudo o mais. Em ambiente reservado e solene, os testemunhos e as lembranças dos antigos moradores e as homenagens aos mortos e aos que desapareceram na lama dos rejeitos de uma mineração predadora.

São Paulo, 09 de dezembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *