Três tempos

Três tempos

Nessas últimas semanas estive às voltas com emoções fortes, todas tendo Vitória como pano de fundo. Vou por partes. Ao participar de uma solenidade concorridíssima, na qual a Prefeitura tratava do futuro da cidade, senti uma mistura de satisfação profissional com uma nostalgia qualquer. Na pauta, a PPP de iluminação pública, a lei municipal de inovação e, o que mais me emocionou, a licitação das primeiras obras no Parque Tecnológico de Vitória, em Goiabeiras, um instrumento para estimular a geração de emprego, renda e impostos, com base no uso intensivo de conhecimentos técnico-científicos.

O Parque foi idealizado há mais de duas décadas. Acredito que ele vá

cumprir papel parecido com o da guarderia para barcos, pranchas e canoas, de uso público, que mudou definitivamente a paisagem da cidade, ao estimular e viabilizar atividades desportivas ligadas ao mar, ampliando o uso de um recurso natural até então muito pouco explorado pela população. No último fim de semana, Camburi era uma festa só. Dezenas de remadores vindos de muitos estados disputavam provas de canoa havaiana. Na areia, um conhecido me contou, orgulhoso, que o filho dele e alguns amigos já construíram três canoas das grandes e estão animadíssimos em seguir adiante.

Mas também andei abatido com a perda de três personagens da cidade. O primeiro a partir foi Milson Henriques, que ancorou aqui no início dos anos sessenta. Inquieto, criativo e agitador cultural incansável, Milson produziu muitos fatos marcantes na vida artística de uma Vitória ainda pacata e bem comportada. Em seguida, sem avisar, Detinha Son se foi sem que tivesse conseguido viver, totalmente realizada, sua cidade repleta de bicicletas. Tive muita pena. Em conversa sobre a vida, eu lhe prometera meu voto. Detinha seria uma ótima vereadora. Agora foi a vez de Ester Mazzi nos deixar. Sua voz grave me traz de volta cenas de um passado distante, quando Os Mamíferos tocavam, Carmélia escrevia, Milson encenava, Alaerte agitava e o Britz Bar ficava lotado de gente alegre e convicta.

Vitória, 13 de julho de 2016.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Basta lembrar que ajudei a montar a iluminação da sua peça Setembro a Setembrino, encenada por, veja só, estudantes de engenharia.

Parque Tecnológico – futuro está na porta. Muita gente das antigas no auditório – Contei ume versão da história das ações e das ideias.

Visita ao CEASA – nunca tinha ido – saco de maracujá 35 reais – na feira é 5 e 7 no supermercado

Tragédia da Samarco depõe contra o homem. Direção temerária, irresponsável

Tempo de Casamento – alvoroço, muito trabalho manual, , movimentação conhecida, inventação de moda, família completa

Acompanhando a política de longe, quase desatento, cansado do mesmo. Um tempo para respirar, vendo a Lava Jato sob uma pressão difusa, disfarçada, objetivamente perigosa.

Resolvi passar um tempo acompanhando a política mais de longe. Praticamente, abandonei os noticiários da TV e os programas de entrevista e de debate. Na internet, tenho dado preferência aos post sobre música, pescarias e bobagens variadas. Já consigo não ler opiniões sinceras, reflexões profundas, denúncias comprometedoras. Na mesa do café da manhã, quando muito, passo os olhos nas manchetes. Raras vezes leio as matérias sobre as coisas da política profissional. Acho que se trata de uma simples saturação, que o tempo ajudará a sanar.

Atiçando o bairrismo

Atiçando o bairrismo

Na semana passada estivemos em Cachoeiro para as primeiras homenagens ao Cachoeirense Ausente Número Um deste ano, o engenheiro José Eduardo Moreira, Zédu, meu amigo de infância. Esperamos por ele no trevo da Safra e, em carreata, seguimos até o horto municipal, na beira da estrada, pouco antes de entrar na cidade. Seguindo a tradição, lá estavam o prefeito, vereadores, familiares, amigos, gente da imprensa e meninos uniformizados tocando tambor em ritmo animado, além de ativos fogueteiros. Felizes e orgulhosos, também o aguardavam cabos eleitorais da campanha para sua escolha. Todos saudando o filho ilustre no seu retorno à terrinha.

De lá, num grande cortejo liderado pela guarda de trânsito, fomos até o Centro Operário e de Proteção Mútua. A instituição, criada no começo do século passado para atender os trabalhadores das primeiras fábricas que se instalaram na cidade, abrigou também a escola da professora Palmira, que alfabetizou muita gente, inclusive os irmãos Newton e Rubem Braga. Falando manso, o homenageado atestou que Cachoeiro é sinônimo de amizade fraterna e duradoura e que ele, por ter sempre estudado nas boas escolas públicas da cidade, tem amigos de todas as origens e condições.

À noite, fomos à sessão especial da Câmara para homenagear os Cachoeirenses Ausente e Presente de 2016 e conferir títulos de cidadania cachoeirense a quem mereça. Festa pra quase mil, com comes e bebes pagos por empresas locais. No dia seguinte visitamos a Casa dos Braga, onde nasci, agora restaurada, pronta para receber o acervo da família e funcionar como espaço cultural e de referência da história da cidade. Na sequencia, participei da inauguração de um centro de atendimento a portadores de deficiência e, como testemunha, assinei ato do prefeito autorizando a reforma do Centro de Saúde Bolívar de Abreu, meu pai, que o dirigiu durante muitos anos e onde criou fama de profissional enérgico e competente. Como se tudo isso não bastasse, voltamos pra casa com minha Carol toda prosa com a sua nova cidadania.

Vitória, 29 de junho de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Na paulicéia

Na Paulicéia (Não foi publicada na sexta 17.06 – entrou texto de PH)

Estive em São Paulo por uns bons cinco dias, incluindo o final de semana. Desta vez, com a mesma sensação que meus ancestrais deviam ficar quando saiam da Fazenda do Frade para ir, a cavalo, a Cachoeiro, distante umas tantas léguas. Imagino que as viagens, preparadas com alguma antecedência e sob muitas expectativas, eram vitais para reencontrar amigos e parentes da cidade, fazer compras, dançar em festa animada e, quem sabe, começar um namoro promissor. O motivo principal da minha viagem era tirar visto para entrar nos Estados Unidos, boa desculpa para rever o pedaço da família que vive por lá. Por opção, ficaria longe da internet, noticiários de TV e dos jornais.

Resolvida a obrigação, foi a vez de bater perna no comércio, algo que quase não pratico por aqui. Como acompanhante, entrei em lojas pequenas. Por conta própria, entrei em dois shoppings em busca de um bom paletó e em lojas no Centro, à procura de chapéu panamá. Aproveitei para fazer turismo barato: comer sanduiche de churrasco grego em pé na calçada, atravessar o Viaduto do Chá repleto de camelôs e comprar uma luminária de papel na Liberdade.

Sempre gostei de conversar com motoristas de taxi. Desta vez, entrevistei motoristas do Uber, para entender melhor suas motivações pessoais e as condições de operação do sistema. Pelo que pude ver, muitos deles estão dirigindo pelas ruas da cidade como solução para a perda do emprego, para aproveitar o carro da família na geração de renda e, também, para se livrar de patrões e de donos de frota de taxi. Simpáticos e donos de si, sabem que participam de algo inovador, que veio para ficar. Trata-se de novo modelo de negócio que lança mão de tecnologias disponíveis e de refinado bom senso para atender demandas e propiciar bons resultados para seus operadores e clientes. Tudo isso sem envolver a mão pesada do poder público que concede as placas e direitos correlatos. No avião, na volta, li no jornal que o sistema começa a disponibilizar o uso de helicópteros em condições acessíveis.

Vitória, 15 de junho de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Repercussão

Repercussão

É sempre bom receber comentários sobre o que se escreve. Cada cabeça uma sentença, a cada texto muitas reações diferentes. Uma crônica pode não dizer nada para um leitor e impactar um outro de forma até surpreendente. Quando o assunto é passarinho, pescaria ou festa de casamento os comentários são leves e positivos. Quando tratam de fatos políticos, as opiniões, concordantes ou não, ganham cores fortes. Nestes tempos de política solta e nervosa, as reações ao que escrevo, mesmo quando trato dos assuntos sem paixões nem cores partidárias, têm subido de tom. Isso também deve estar acontecendo com quem emita juízo e, sobretudo, expresse preferências, ainda que nas entrelinhas. Não tenho conseguido escapar dos temas da política e pago um preço.

Para ficar só no âmbito das amizades, constato que muita gente parou de comentar o que escrevo enquanto que outros, sabendo que receberei com bom humor as críticas, reclamam sem cerimônia. Ainda hoje, há quem me mande textos escritos por gente séria para comprovar que “foi golpe”. Dia desses, um grande amigo me parou na rua querendo saber o que me faz otimista com a interinidade da presidência. Dei detalhes das minhas avaliações, mas, sabendo que não pararíamos de rir juntos, de nós mesmos e de terceiros, não chegamos a um acordo. Em compensação, recebi, de outro, um e-mail gentil sobre o teor de crônicas antigas que havia lhe mandado recentemente, em defesa da nossa amizade. Elas falam da indicação e dos primeiros anos da presidente afastada e atestam que a minha descrença é bem antiga e isenta de raiva.

Tenho acompanhado a movimentação do presidente interino dando chutes por baixo da mesa, tentando sobreviver ao fogo cruzado, aproveitando as deixas para corrigir erros cometidos por conta própria ou em função de pressões e gulodices de gente poderosa. Tendo a acreditar que, por sua fama de habilidoso, tentará usar os protestos das ruas, estradas e edifícios como um recurso para ganhar força e prestígio. Nada como uma boa democracia.

Vitória, 01 de junho de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sinuca de bico

Sinuca de bico

Votei em Lula três vezes, com boa convicção. Ainda mais convicto, não votei em Dilma. Por duas razões elementares: prefiro a alternância de poder e sei que não convém eleger postes nem pilastras para governar um país. Lembro-me que cheguei a tratar desse assunto numa crônica, ressaltando o risco de soluções artificiais como aquela. Ponderei que, se a cachaça revela a alma do bêbado, o poder deixa livre de amarras os traços de personalidade, inclusive um eventual espírito autoritário de quem vira chefe. A história está repleta de exemplos de mandatários nefastos.

Na época, achei perigoso quando Lula inventou Dilma como sua candidata a presidente e a apresentou como uma baita gerente, mãe disso e daquilo. Milhões de brasileiros acreditaram na palavra dele e elegeram uma mulher convicta de si, cheia de opiniões, brava que só. Em pouco tempo, ela já dava demonstrações de prepotência no trato pessoal, de desprezo pela realidade dos fatos, de total impaciência com as coisas da política, enfim, de sua incapacidade para presidir o país. Deu no que deu e multidões insatisfeitas encheram as ruas. Que mentira tem perna curta todo mundo sabe, mas ainda não aprendemos que marketing político é instrumento poderoso para engambelar multidões. Tanto que algumas mentiras e jogos de cena tornaram possível a proeza de viabilizar uma reeleição improvável.

A expressão de total alienação no rosto de Lula, sob o sol quente, na frente do Palácio do Planalto, ouvindo Dilma repetir bordões de guerra para um pequeno grupo de seguidores, retrata a sinuca de bico em que ele nos botou. Estamos, todos, diante de uma situação complexa e delicada, submetidos a convicções acirradas. Pode-se dizer que nunca se viu tanta gente com opinião formada e com boa disposição para enfrentamentos. Otimista, acredito que com os resultados dos desdobramentos das operações Lava Jato e afins estarão criadas condições excepcionais que podem favorecer o surgimento de um estadista para liderar mudanças inadiáveis na política brasileira. Temer sabe disso muito bem.

Vitória, 18 de maio de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pescaria em tempos de crise

Pescaria em tempos de crise

Avô pescador experiente que sou e sabendo que no sábado à tarde a maré estaria enchendo e meio morta, achei por bem levar os dois netos mais velhos para pescar lá no píer da Praia do Suá. Sem muita paciência, venho tentado repassar para Theo e Manu os segredos que acumulei em centenas de pescarias ao longo da vida. Não sei se é do conhecimento de todos, mas a arte da pesca exige muita paciência, algumas habilidades especiais, além de boa dose de malandragem, sobretudo quando a intenção é pegar peixes miúdos, extremamente ariscos. Depois de algumas tentativas, os dois já dominam as atividades básicas do esporte: colocar camarão no anzol, jogar a linha na água com categoria e, o que é mais difícil, esperar que os peixes mordam a isca. Com a prática, eles vão adquirir as manhas das fisgadas mortíferas, que exigem reflexos bem condicionados e são fundamentais para a obtenção de elevados níveis de produtividade.

No outro lado do píer, virado para o Convento, uma senhora de seus sessenta anos, metida numa roupa esportiva espalhafatosa, pescava com seriedade. Concentrada e em perfeito silêncio, ela ia fisgando um peixe após outro, para inveja dos membros da nossa equipe. Bem que tentei fazer dela uma pescadora de referência, mas ninguém deu bola para algo fundamental que tentei ensinar: a inveja é fator determinante nos resultados, tanto que os pescadores invejosos não pegam quase nada. O fato é que, pelas contas de Manu, em menos de duas horas, eu peguei oito coró-corós e os meus aprendizes, apenas dois cada um. Como nos programas de pescaria na TV, soltamos os peixes que íamos pegando, o que nunca fiz na vida.

Toda essa conversa de pescaria pode mesmo soar como pura embromação. Na verdade, eu deveria mesmo é ter escrito uma crônica otimista sobre o que vem vindo por ai: Temer pretendendo se transformar em estadista, Cunha querendo distância do STF, Lula tentando escapar do cerco da Lava Jato e dona Dilma inteiramente sozinha, vagando pelos jardins do Palácio da Alvorada com olhar perdido nas águas plácidas do Lago Paranoá.

Vitória, 04 de maio de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

No varejo

No varejo

Vivemos tempos trepidantes na política. Na última semana muita gente passou horas grudada na televisão, acompanhando ao vivo o processo de admissibilidade do impedimento da Presidente pela Câmara dos Deputados. Muitas das manchetes dos jornais de hoje, terça feira, certamente estarão caducas quando republicadas aqui, na sexta; outras, nem tanto:

“Dilma se sente traída; Tiririca esteve no hotel de Lula antes de votar a favor do impeachment; É estarrecedor que um vice-presidente conspire contra o presidente, diz Dilma; Temer reúne equipe para combater discurso de ‘vitimização’ de petista; Cardozo: ‘Dilma vai até o fim desta luta’; Governo pode ir de novo ao STF para tentar barrar impeachment; Dilma tenta convencer Renan a retardar impeachment no Senado; Governo dá como certo afastamento de Dilma após análise do impeachment no Senado; Para NY Times, Dilma terá que mostrar liderança mais forte e clareza de ideias se quiser sobreviver; PT e ministros defendem que Dilma reduza mandato e lance ‘diretas já’; O fim do governo Dilma é só o começo;”

“Temer deflagra a escolha de ministros e já discute medidas; ‘Centrão’ começa a cobrar Temer por apoio em votação; Aliados querem anistia para Eduardo Cunha; Estão vendendo terreno na lua’, critica Dilma sobre articulação de Temer; Planalto manda liberar R$ 50,5 milhões a deputados do PR que votaram contra impeachment; Renan pegou propina de US$ 6 mi, afirma Cerveró à Justiça; Laudo da PF identifica pagamentos da Andrade Gutierrez para Lula; Vice-presidente já foi citado por dois delatores da Operação Lava Jato; Delcídio tratou com Dilma sobre liberação de Marcelo Odebrecht; Número de ‘inimigos’ da Lava Jato cresce a cada dia, diz procurador; Temer precisará blindar a Polícia Federal.”

Como não se vive só de política, anotei também: “Arrecadação cai 8,10% no primeiro semestre; Presidente da Anatel diz que era da internet ilimitada chegou ao fim; Foz do Rio Doce está com quatro metais pesados; País se espanta ao ver seu espelho político durante votação na TV.”

Vitória, 20 de abril de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cachoeirense Ausente

Cachoeirense Ausente

Na semana passada estive em Cachoeiro. Fui tratar da candidatura de um grande amigo de infância a Cachoeirense Ausente de 2016. Trata-se de honraria conferida a pessoas que engrandecem a sua cidade natal, por seus méritos pessoais e suas realizações profissionais em terras distantes. A escolha é feita pelo voto secreto de representantes de vinte e tantos órgãos e entidades com atuação reconhecida na cidade. A escolha acontece todo ano, desde 1942.

Newton Braga, irmão de mamãe, inventou a festa de Cachoeiro justamente para reforçar as relações entre moradores e, também, para atrair conterrâneos espalhados por esse mundo a fora. Matreiro, ele a fez coincidir com o dia de São Pedro, padroeiro da cidade, festejado no dia 29 de junho, bem na boca das férias escolares. Na programação, desfile das escolas, festas populares, baile a rigor, atividades artísticas, torneio de briga de galo e tudo o mais que animasse as ruas e reforçasse a fraternidade.

Iríamos de carro, que é lugar bom pra colocar a conversa em dia e rir das histórias de adolescentes de cidade do interior: farras homéricas, apelidos engraçados, namoros famosos, doidinhos de rua, professores carrascos e muito mais. A comitiva incluía dois amigos do grupo escolar e uma animadíssima cabo eleitoral. Não se falou nada sobre a política nacional.

Enquanto esperava pelos outros, tratei de colher jabuticabas no quintal para oferecer ao nosso ilustre candidato. Ele adorou o presente e, em silêncio, foi chupando uma por uma. Para muitos marmanjos, jabuticaba tem sabor de infância, traz de volta lembranças da fazenda de avô e renova dúvida antiga: engolir ou não engolir o caroço?

À noite, nosso candidato deu uma palestra sobre energias renováveis, quando confirmou a sua vasta experiência profissional e defendeu o uso do bom senso e da racionalidade ao projetar grandes obras de engenharia: uma condição indispensável para minimizar seus impactos sobre a natureza e as populações. Exatamente o que tem faltado por aqui.

Vitória, 06 de abril de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Política e amizades

Política e amizades

Fomos passar três dias em Itapoá, Santa Catarina, cidadezinha situada na margem norte da baía da Babitonga, que é lugar pra turista nenhum botar defeito. Ao todo éramos uns vinte adultos, muitos já maduros. Pessoas de ocupações e interesses bem diversificados, gente habituada a rir das histórias dos outros e de si mesma. O motivo da viagem era nobre: comemoração do aniversário de um xará que vive por lá. Festança para mais de 200 convidados à base de chope gelado e churrasco feito no fogo de chão.

Saí de casa achando que seria um período próprio para uma avaliação serena das coisas que estão ocorrendo no Brasil. É que, como deve estar acontecendo com muita gente, tenho vivido os últimos tempos em estado de alerta permanente, ávido por informações fresquinhas, quase que viciado em noticiários de TV e posts de internet.

Soube com antecedência que não haveria TV a cabo no hotel e nem reclamei: com certeza, eu conseguiria viver uns poucos dias sem notícias sobre os últimos “acontecimentos sócio criminais”, como meu irmão Afonso canta em uma de suas músicas.

Mas mesmo naquele ambiente descontraído, algumas pessoas, sempre de olho no celular, se mantinham on line com o que acontecia em Curitiba, nas avenidas brasileiras, no Congresso Nacional e nos tribunais e palácios em Brasília. As informações que iam chegando eram prontamente oferecidas a quem estivesse por perto. As conversas, frouxas pela cerveja farta, eram seguidamente interrompidas para o relato da última notícia bomba. Novidades sem fim sobre o presente, mas quase nada, além de incertezas, sobre o futuro.

Em companhia daquele grupo razoavelmente afinado em suas expectativas, me vi temporariamente afastado do embate surdo entre certos e errados, bons e maus, informados e desinformados, entre tolerantes e raivosos, crédulos e decepcionados, entre quem tem a ganhar e quem tem a perder com as eventuais mudanças e, o que é muito triste, entre pessoas que eram amigas fraternas até outro dia e hoje se veem como inimigos.

Vitória, 23 de março de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Inveja branca

Inveja branca

Passei uma semana no Uruguai. Voltei de lá com uma inveja danada dos nossos vizinhos. Tinha estado em Montevidéu para uma reunião de trabalho, por volta de 1985. No inverno de 1970, a bordo da Kombi do dono de uma pastelaria da Vila Rubim, alugada de última hora, junto com colegas da turma de engenharia, cruzei o país em caravana a caminho da Argentina. De banho tomado, prontos para conhecer a vida noturna da cidade, fomos impedidos pela chegada repentina do Minuano, vento fortíssimo e gelado, que não nos deixou sair do hotel.

Desta vez, fomos só pra bestar junto de nossas duas filhas que moram em São Paulo, dos genros e do neto caçula. Ficamos na casa de um amigo argentino, à beira mar, perto de Piriápolis, balneário a uns cem quilômetros da capital. Sem pressa e de olhos bem atentos, percorremos um bom pedaço do litoral até depois de Punta del Este. Nas estradas, o trânsito é tranquilo, com poucos caminhões e sem os radares que aumentam substancialmente a tensão ao dirigir. Por todo lado, a expressão do bom gosto arquitetônico e do bom senso urbanístico uruguaio. Quase todas as construções, independente do tamanho e uso, estão em centro de terreno e bem afastadas da estrada. No interior dos bairros, as casas estão à sombra de árvores enormes, em ruas tranquilas de calçadas amplas. Embora eu tenha avistado apenas um único carro de polícia durante todos esses dias, pouquíssimas são as residências protegidas por grades ou muros altos, coisa raríssima por aqui. Lá, a beira mar é lugar público, para o deleite coletivo, e o espetáculo do por do sol em mar aberto é um valioso atrativo turístico, uma espécie de instituição nacional.

Uma curiosidade: por todo lado se vê cachorros enormes, inteiramente soltos. São mansos e afáveis, e parecem livres da obrigação de proteger seus territórios. Três deles acompanharam todas as nossas rodadas de churrasco na varanda e me fizeram relembrar dos tempos em que Zorro, o vira-lata de Afonso, circulava livremente pela Praia do Canto e adjacências, em busca de emoções.

Vitória, 22 de março 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA