Vatapá cauteloso

Vatapá cauteloso

Estava fora do país quando o desastre de Mariana completou um ano de acontecido. Sempre soube que olhar as coisas e os fatos de longe pode ajudar no entendimento de suas dimensões e significados, na avaliação do seu real valor. Não senti qualquer emoção favorável à empresa e seus proprietários, dirigentes e subordinados nem aos demais que se movimentam em favor da postergação das punições ou que defendem indulgências aos pecadores. De longe, ficam cristalinas as irresponsabilidades de quantos decidiram não tomar providências para corrigir fragilidades comprovadas por peritos contratados pela própria SAMARCO, omissão seguramente aprovada pela VALE e BHP Billiton depois de bem pesarem riscos e impactos sobre seus lucros e dividendos.

De volta, leio duas notícias que ilustram o andamento das coisas: a primeira informa que investidores americanos entraram com pedido de indenização contra a SAMARCO, acusando-a de ter dado declarações falsas ou enganosas sobre os defeitos existentes na barragem de Fundão e sobre as medidas que tomou para evitar seu rompimento; a outra relata decisão da OAB-ES de acompanhar as negociações sobre a indenização irrisória que a SAMARCO pretende pagar a cada morador atingido diretamente pela tragédia anunciada. Eu também acho R$ 880,00 um valor ridículo, uma afronta descarada aos brasileiros.

Lido isso, penso no jogo de forças e de interesses em torno dos dinheiros que deverão sair dos cofres da empresa para reparar os prejuízos financeiros dos investidores que acreditaram na seriedade do empreendimento e as perdas incalculáveis sofridas pelos que vivem ao longo dos rios e no litoral. Como quem vai na frente bebe água limpa, acho prudente aumentarmos as pressões por aqui, antes que limpem os cofres.

Na falta de informação confiável sobre o nível de contaminação dos nossos pescados, informo que o vatapá que comemos ontem aqui em casa foi feito com camarão congelado de Santa Catarina. Por prudência, adotei tilápia de cultivo e só compro camarão fresco para as pescarias de beré com os netos.

Vitória, 16 de novembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Visita de avô

Visita de avô

Nem bem apanhei as malas na esteira do aeroporto e já recebi o primeiro pedido, feito com a maior convicção: “Vovô, você faz um arco e flecha pra mim?” Cabeça de menino é sempre uma caixinha de surpresas. Gael mal completou três anos e há meses não frequenta nossa casa nem tenta usar o arco que fiz para o primo dele, já bem mais crescido.

A produção começou no dia seguinte, com a ida a uma dessas lojas enormes que vendem tudo para jardinagem e serviços afins. Tudo, menos bambu grosso. Só encontramos um tipo, bem fininho, desses que se usa para guiar trepadeiras. Testei a flexibilidade com rigor e escolhi um pacote com seis varinhas. Comprei ferramentas básicas e utensílios indispensáveis, incluindo um rolo de barbante, uma fita adesiva e um pouco de arame fino. Montei a oficina na varanda da casa, incluindo uma cadeira para que o menino pudesse acompanhar o andamento do serviço: cortar, tirar os ressaltos, fazer uma cava em cada ponta, amarrar o barbante em uma das extremidades e, depois de envergar o bambu, dar um nó definitivo na outra. Tratei de fazer o acabamento com uma fita preta, dessas que não soltam jamais, no meio do arco, para marcar o lugar onde se coloca a mão esquerda. A alça de arrame para guiar a flecha foi relativamente fácil de instalar. O alicate novinho é mesmo muito jeitoso para serviços miúdos. Tudo feito sem qualquer pressa, com o moleque aflito, doido para experimentar o brinquedo. Mas faltava a flecha.

Escolhi um pedaço ainda mais fino pra fazer a primeira flecha e usei o calor da chapa do fogão elétrico para deixa-la bem retinha. Com uma tampa de pasta de dente, um pedaço de feltro e a tal fita preta, improvisei uma ponta rombuda e bem macia, dentro dos melhores padrões de segurança americanos. O alvo foi feito com o papelão grosso e pintado com giz de cera. Com tudo pronto, é hora de tentar ensinar os netos a usar a arma de caça dos índios, o que começarei tão logo ele e Alice voltem da escola. Haverá campeonato, premiação e tudo o mais que estimule o aprendizado.

Bradenton, 02 de novembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Na Paraíba

Na Paraíba

Morei em João Pessoas por quatro anos, na segunda metade dos anos 70. Chegamos com um filho de dois meses nos braços e saímos com mais duas filhas paraibanas. Voltei lá agora para dar palestra e festejar o trigésimo aniversário da entidade dedicada ao desenvolvimento do ensino de engenharia de produção no Brasil, criada por gente que conheço desde os tempos do mestrado no Rio de Janeiro. Foi muito bom rever velhos companheiros de profissão e conhecer mais gente que se dedica a fazer as coisas acontecerem. Nos últimos dez anos, os cursos de engenharia de produção explodiram no país. Soube que já são mais de novecentos. Fico pensando nas dificuldades em encontrar professores qualificados e experientes para ensinar conceitos, técnicas e macetes de uma profissão que surgiu, sobretudo, para melhorar o que já esteja funcionando.

Resolvidos os compromissos oficiais, nos instalamos no sítio de grandes amigos, cuja filha mais velha acaba de ser eleita prefeita do Conde, município ao sul de João Pessoa que tem, entre outros atrativos, a famosa praia de Tambaba, exclusiva para gente que gosta de andar pelada. Pois bem, Marcinha, esse é o nome dela, é dessas mulheres arretadas que fazem história por onde passam. Educadora convicta, depois de dirigir a Secretaria de Educação da Paraíba, ela resolveu enfrentar o desafio de mudar a maneira de fazer política. Fez campanha de casa em casa. Em animadas reuniões com moradores e comunidades rurais, ela definiu o plano de trabalho na prefeitura. Mas o ponto alto da campanha foi se negar a dar saco de cimento, caibro, lajota ou dinheiro vivo em troca de voto. Fez disso uma marca, uma espécie de divisor dos tempos naquelas terras.

Caminhei com ela pela feira na manhã de sábado. Dava gosto de ver mulheres e homens festejando, com abraços, beijos e muitas palmas, uma pessoa que se dispõe a negar verdades antigas. Faz tempo que eu não via tanta emoção positiva. Aquelas pessoas pareciam satisfeitas e vitoriosas com o que haviam acabado de fazer nas urnas.

Vitória, 19 de outubro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Eleição com vento sul

Eleição com vento sul

Sou do tempo que os pescadores precisavam dominar a meteorologia pra viver. Eles se valiam da leitura das nuvens e dos ventos e previam a chegada de frente fria um dia depois que ela se instalasse no Rio de Janeiro. O vento sul sempre trazia três dias de chuva fininha e persistente, dessas que vai molhando a plantação aos pouquinhos e encharcando a terra lentamente. Nada parecido com a ignorância dos temporais avassaladores, que derrubam árvores, destelham barracos, inundam as ruas e fazem transbordar os rios. Tio Newton usava uma expressão muito boa para designar, com a força dos poetas, o aguaceiro pesado: dizia que era chuva de corda.

Por fazer gelar até a alma, a chuvinha de vento sul nos faz pensar com mais calma e sentir a vida passando sem pressa. Os pingos miudinhos e em grande quantidade acabam por inibir atitudes impensadas e tornam as pessoas menos arrojadas. Visto pela janela, o mundo se mostra cinzento e lugar de pouquíssima movimentação.

Pois o domingo amanheceu com uma dessas chuvinhas de antigamente. Era dia de eleição de prefeitos e vereadores, agora regulada por novas regras, incluindo a proibição de financiamento empresarial de campanha. Para acabar de danar, a Lava Jato deve ter inibido a compra de candidatos e facilitado a vida dos que são achacados por tesoureiros de todo tipo.

Aproveitei a estiagem para ir votar no colégio na pracinha do Cauê, certo de que iria rever pessoas que só vejo em dias de eleição. Não havia nem um santinho na calçada, mas encontrei quatro simpáticos candidatos a vereador fazendo boca de urna com total discrição. Dei meus dois votos sem grandes emoções e sem enfrentar qualquer fila. Em casa, acompanhei notícias sobre o final da votação e, com mais atenção, a verdade que ia saindo das urnas do país inteiro, com destaque para as das cidades maiores. Posso estar engando, mas fiquei com a impressão de que estamos entrando em uma nova fase da política brasileira. Faça chuva ou faça sol, mitos e populismo acabam de sofrer um baque determinante.

Vitória, 03 de outubro de 2016

Alvaro Abreu

Faltou

Faltou

Está faltando água lá em casa desde a semana passada. Isso nunca havia acontecido desde que nela nos instalamos em 1987. Fui pego de surpresa, embora acompanhasse as notícias sobre a longa estiagem que fez secar rios e córregos em quase todas as regiões do estado. Primeiro falava-se dos impactos na roça e, agora, também nas cidades. A partir do desastre de Mariana, as dificuldades de abastecimento de água potável viraram manchete assídua de capa de jornal.

Por aqui, não estamos acostumados a viver no seco. Ao contrário, fomos criados na base do esbanjamento e muito desperdício. Água era coisa abundante e baratinha. Só de uns tempos pra cá é que ela começou a ganhar status de recurso estratégico e a se falar na necessidade de economizar, inclusive fechando a torneira enquanto os dentes são escovados. Banhos, de preferência, bem curtos. Nada de ficar cantando debaixo do chuveiro. Faz tempo que não é politicamente correto lavar carro com compressor, admitindo-se seu uso, com restrições, para limpar o pó preto. Para piorar, a falta de chuva está obrigando a molhar as plantas de vaso e algumas que estão nos canteiros. O difícil está em conseguir fazer isso com a água da rua, como se diz.

Antigamente as casas tinham cisterna para armazenar, preventivamente, grande quantidade de água. A entrada do reservatório ficava sempre abaixo no nível do encanamento da rede, o que permitia a entrada de água mesmo em época de penúria. Uma bomba elétrica fazia o serviço de levar o precioso líquido até a caixa d’água instalada na laje. O tamanho da cisterna expressava o poder econômico e o nível de prudência do dono da casa. Não me recordo de falta d’água na nossa casa da Rua Madeira e Freitas, exceto quando entrava ar na bomba.

Tudo isso me fez lembrar de quando meu amigo Godinho voltou do Canada dizendo que os canadenses estavam se organizando para vender água limpinha para lugares onde ela estivesse insuficiente ou completamente poluída. Corria a última década do século passado e, confesso, achei aquela história um tanto alarmista.

Vitória, 21 de setembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pisaram na bola

Pisaram na bola

Com as transmissões ao vivo do processo do Mensalão, tomei gosto pelos embates que acontecem no Supremo Tribunal Federal. Naquela época, acamado, passei dias de olho na TV, tentando entender as argumentações e as firulas técnicas contra e a favor do que estivesse em questão. Acabei prestando atenção também nas atitudes dos ministros ao expressarem seus próprios entendimentos ou ao acompanharem a posição de um dos pares. Com o tempo, fui criando expectativas sobre o posicionamento de cada um deles nos embates jurídicos e, porque não, no contexto da política. Tudo isso foi ficando ainda mais claro na apreciação dos embargos infringentes e durante a definição dos ritos do processo de impeachment da presidente, a serem seguidos pelo Congresso.

Confesso que fiquei curioso pra ver as atitudes do ministro Lewandowski no comando da sessão do julgamento do Senado Federal. Eu acumulara desconfianças em relação àquele senhor de atitudes altivas, inteiramente ciente de seus poderes. Mas devo dizer que cheguei a concordar com senadores que elogiavam a imparcialidade e a firmeza com que ele vinha conduzindo aquelas longas e tumultuadas reuniões.

E foi com espírito desarmado que me sentei para acompanhar a votação final. O estado de alma leve durou só até quando o presidente Lewandowski anunciou, burocraticamente, que havia um pedido de destaque para ser apreciado antes da votação. Como muita gente, desconfiei ainda mais ao acompanhar as suas longas e bem concatenadas ponderações em favor do fatiamento do artigo 52 da Constituição, como se seguisse um script previamente combinado. O discurso extemporâneo do senador Renan gerou perplexidade e acabou por me fazer acreditar em mais uma tramoia. O fato é que o julgamento, além de fortalecer convicções que fundamentam protestos e mobilizações, acabou por gerar uma tremenda insegurança jurídica que vai consumir muita energia para se dissipar, mesmo que sob a batuta da ministra Carmem Lúcia, uma mineira firme e discreta, que presidirá o STF a partir da próxima semana.

Vitória, 06 de setembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casal que faz bonito

Casal que faz bonito

Agosto está pródigo em acontecimentos significativos para a cidade. Dois deles foram produzidos por um casal de amigos: um em palácio de governo e outro no meio da rua, sob de inverno.

No início do mês, Hilal Sami Hilal abriu uma instigante exposição no Palácio Anchieta. No pavimento superior ele espalhou objetos inspirados pela chegada do primeiro neto: rodas, aviões e barquinhos enormes. No térreo, instalou uma rua cravejada de brilhantes sob luz de lua e pela qual se chega a um grande mapa mundi orgânico e colorido. Em sala bem pequena, Hilal colocou um livro aberto de muitas páginas, de três metros de altura e outros tantos de largura, o maior que já vi. Nele não se vê palavras, só paisagens com nuvens que podem embasbacar até marmanjo durão. A última sala está tomada por uma obra coletiva de grande impacto: teto forrado de espelho refletindo as paredes cobertas por desenhos enormes formados por dez mil nomes de gente querida. Todos eles escritos, com pasta colorida de papel de algodão, pelos dois mil e quinhentos alunos de escolas públicas que o artista incluiu no seu processo de criação.

No sábado passado, uns duzentos metros da rua Aprígio de Freitas, no bairro da Consolação, foram inteiramente pintados. Uma nova iniciativa da galerista Thais Hilal para tornar a rua onde o casal vive e trabalha mais bacana. A brincadeira envolveu amigos e moradores sob a orientação do grafiteiro Fredone, que pinta muros aqui e mundo a fora. Começou pela demarcação do croqui da obra no asfalto, com barbante esticado e giz. O serviço de pintura, com rolinho e pincel, só terminou com noite fechada. Quando lá cheguei, as pessoas já finalizavam as últimas áreas e caprichavam no acabamento das fronteiras entre o preto, o branco, o cinza e o vermelho. Cansadas e respingadas de tinta, elas pareciam orgulhosas por terem feito, juntas, algo tão simpático naquele lugar de passagem.

Sem exagerar: quem não passar por aquela rua colorida ou não visitar a exposição de Hilal merece ficar de castigo, ajoelhado no caroço de milho.

Vitória, 24 de agosto de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Gentel fazendo bonito

Gente fazendo bonito

Agosto está pródigo em acontecimentos significativos para a cidade. Dois deles foram produzidos por um casal de amigos: um em palácio de governo e outro no meio da rua, sob sol de inverno.

No início do mês, Hilal Sami Hilal abriu uma instigante exposição no Palácio Anchieta. No pavimento superior ele espalhou objetos inspirados pela chegada do primeiro neto: rodas, aviões e barquinhos enormes. No térreo, instalou uma rua cravejada de brilhantes sob luz de lua e pela qual se chega a um grande mapa mundi orgânico e colorido. Em sala bem pequena, Hilal colocou um livro aberto de muitas páginas, de três metros de altura e outros tantos de largura, o maior que já vi. Nele não se vê palavras, só paisagens com nuvens que podem embasbacar até marmanjo durão. A última sala está tomada por uma obra coletiva de grande impacto: teto forrado de espelho refletindo as paredes cobertas por desenhos enormes formados por dez mil nomes de gente querida. Todos eles escritos, com pasta colorida de papel de algodão, pelos dois mil e quinhentos alunos de escolas públicas que o artista incluiu no processo de criação.

No sábado passado, uns duzentos metros da rua Aprígio de Freitas, no bairro da Consolação, foram inteiramente pintados. Uma nova iniciativa da galerista Thais Hilal para tornar a rua onde o casal vive e trabalha mais bacana. A brincadeira envolveu amigos e moradores sob a orientação do grafiteiro Fredone, que pinta muros aqui e mundo a fora. O artista começou demarcando a obra no asfalto, com barbante esticado e giz. O serviço de pintura, com rolinho e pincel, só terminou com noite fechada. Quando lá cheguei, o pessoal já finalizava as últimas áreas e caprichava no acabamento das fronteiras entre o preto, o branco, o cinza e o vermelho. Cansadas e respingadas de tinta, as pessoas pareciam orgulhosas por terem feito, juntas, algo tão bonito naquele lugar de passagem.

Sem exagerar: quem não passar por aquela rua colorida ou não visitar a exposição de Hilal merece ficar de castigo, ajoelhado no caroço de milho.

Vitória, 24 de agosto de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Águas passadas

Águas passadas

Fui o nadador mais rápido do Espírito Santo por quase 10 anos. Faço parte da equipe de nadadores do antigo Praia Tênis Club, onde foi construída a primeira piscina semi olímpica de Vitória. Meus amigos mais antigos sabem disso e podem testemunhar a meu favor, se necessário. Não me lembro de como começou, mas posso garantir que éramos bem poucos os que entravam na água cheirando a cloro em busca de medalhas. Deve ter sido por mera brincadeira, nunca por estimulo de pais ou dirigentes. Todo moleque gosta de disputar com os colegas pra ver quem corre mais rápido, quem fica mais tempo debaixo d’água, quem bate primeiro na outra borda.

Com a chegada de Carlos Urbano, o Carioca, que treinava o time de basquete, a coisa começou a ganhar alguma seriedade. Lembro-me dele mandando a gente correr, fazer flexões, exercícios de alongamento e muito polichinelo. Depois do aquecimento era a vez de nadar de um lado para o outro, alternando o ritmo das braçadas. Ele estimulava o espírito de competição da turma com palavras de ordem e palavrões amistosos.

Por essas e outras é que a natação virou uma atividade relevante na minha vida de rapaz namorador que praticava muitos esportes. Dei braçadas em muitos lugares, a começar por Cachoeiro. Até hoje tem quem se recorde da disputa que travei com Mauro Madureira na piscina do Liceu, no início dos anos sessenta. Perereca, esse era o apelido dele, era ídolo na cidade. Dizem que só ganhei porque ele estava muito gripado, o que nunca foi comprovado. Nos jogos universitários em Curitiba, a água gelada anulou meses de treinamento, mas nos de Salvador, consegui um honroso oitavo lugar entre os bambambans da natação nacional.

Essas lembranças me vêm ao assistir provas de natação na Olimpíada do Rio. Sempre fico impressionado com a evolução dos índices nesses cinquenta anos. Em 1961 o brasileiro Manoel dos Santos bateu o recorde mundial dos 100m nado livre com 53.6 segundos. A marca atual ronda os 45. Hoje, as mulheres estão bem mais velozes do que eu fui. Nadando de costas.

Vitória, 10 de agosto de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casamento de caçula

Casamento de caçula

Veio gente de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Petrópolis, Ouro Preto, Alegre e Salvador. A festa começou às quatro da tarde e teve quem saísse de lá com dia claro. Eu mesmo aproveitei umas oito horas de comemoração. Sou do tipo de pai de noiva que trabalhar sem parar até que tudo fique como a filha exigente idealizou. E mais, a tensão das últimas horas, por conta das ameaças de chuva pesada, consumiu muitas energias vitais. Se chovesse como choveu em quase todos os lugares em volta, a cerimônia do casório a céu aberto iria por água abaixo, literalmente. Do alto do morrinho, mar adentro, como no tombadilho de um navio, dava para acompanhar a movimentação das nuvens carregadas no horizonte e conferir as chuvas caindo alternadamente nos quadrantes sul, norte, leste e oeste. Talvez em função de muita reza forte, o céu clareou no meio da tarde e o vento soprou o suficiente para refrescar o ambiente.

Tem gente que compra pronto, mas o pessoal daqui de casa prefere fazer a festa completa. Desta vez, o projeto de decoração incluía dezenas de barquinhos de papel, centenas de borbulhas, muita corda grossa, conchas variadas e tudo o mais. Nas últimas semanas a nossa casa virou uma espécie de barracão de escola de samba, com muita gente medindo, cortando, dobrando, colando, enfiando, amarrando e empacotando o que seria usado para enfeitar o lugar da cerimônia, o salão principal, a pista de dança e até os banheiros, tudo isso complementado pelos fartos arranjos de flores e cortinas brancas contratadas. Na véspera e na manhã do sábado, correndo contra o tempo, foi a vez de pendurar o lustre de cordas, a cortina de barquinhos, as fieiras de borbulhas, de montar um enorme painel de milhares de escamas em papel colorido e de finalizar o bolo de nove formas.

A noiva estava uma sereia belíssima e o noivo, um marujo aprumado.  Um grande amigo contou, com palavras emocionadas, a história do namoro dos dois. Os noivos fizeram juras de amor e abriram as comemorações sob as palmas amorosas dos presentes.

Vitória, 27 de julho de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA