Vatapá cauteloso
Estava fora do país quando o desastre de Mariana completou um ano de acontecido. Sempre soube que olhar as coisas e os fatos de longe pode ajudar no entendimento de suas dimensões e significados, na avaliação do seu real valor. Não senti qualquer emoção favorável à empresa e seus proprietários, dirigentes e subordinados nem aos demais que se movimentam em favor da postergação das punições ou que defendem indulgências aos pecadores. De longe, ficam cristalinas as irresponsabilidades de quantos decidiram não tomar providências para corrigir fragilidades comprovadas por peritos contratados pela própria SAMARCO, omissão seguramente aprovada pela VALE e BHP Billiton depois de bem pesarem riscos e impactos sobre seus lucros e dividendos.
De volta, leio duas notícias que ilustram o andamento das coisas: a primeira informa que investidores americanos entraram com pedido de indenização contra a SAMARCO, acusando-a de ter dado declarações falsas ou enganosas sobre os defeitos existentes na barragem de Fundão e sobre as medidas que tomou para evitar seu rompimento; a outra relata decisão da OAB-ES de acompanhar as negociações sobre a indenização irrisória que a SAMARCO pretende pagar a cada morador atingido diretamente pela tragédia anunciada. Eu também acho R$ 880,00 um valor ridículo, uma afronta descarada aos brasileiros.
Lido isso, penso no jogo de forças e de interesses em torno dos dinheiros que deverão sair dos cofres da empresa para reparar os prejuízos financeiros dos investidores que acreditaram na seriedade do empreendimento e as perdas incalculáveis sofridas pelos que vivem ao longo dos rios e no litoral. Como quem vai na frente bebe água limpa, acho prudente aumentarmos as pressões por aqui, antes que limpem os cofres.
Na falta de informação confiável sobre o nível de contaminação dos nossos pescados, informo que o vatapá que comemos ontem aqui em casa foi feito com camarão congelado de Santa Catarina. Por prudência, adotei tilápia de cultivo e só compro camarão fresco para as pescarias de beré com os netos.
Vitória, 16 de novembro de 2016
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
