Quem diria…

Quem diria…

A vida é um contínuo, uma sucessão de acontecimentos, muitos deles relacionados entre si, gerando consequências em cadeia, como a água da chuva que molha o solo, encharca a terra, escorre morro abaixo, abastece os córregos, enche os rios, suja o mar, impede a pesca de mergulho e acaba protegendo as lagostas. Nestes dias de vento sul bem fraquinho, a água do mar está espelhada e transparente como há muito não se via. No meu tempo de rapaz atlético, uma água dessas era motivo para matar aula e remar até as ilhas do Boi ou do Frade, em busca das lagostas. Hoje, há quem diga que as lagostas sumiram das redondezas, em função do minério de ferro que cai no mar o ano inteiro e da pesca desenfreada.

Em terra firme, fatos e pecados que misturam o mundo da política e o submundo dos negócios estão sendo revelados em larga escala pelos próprios atores, em dezenas de depoimentos de envergonhar mães de delatores e delatados. Denúncias graves e, possivelmente, comprováveis, são retrucadas com negativas cínicas e burocráticas. No tempo do Mensalão, apostei que caciques também seriam presos, além dos bagrinhos. Agora tenho visto manobras de políticos comprometidos até os dentes tentando aprovar leis que protejam seus interesses. Faz parte do jogo. Otimista, gosto de acreditar que o processo vai continuar se desdobrando, evoluindo, para ser mais exato. Se a morte de Teori aliviou alguns, a atuação de Fachin deve estar tirando o sono de muita gente. Acredito que a Lava Jato já tenha atingido o chamado ponto de não retorno.

Para além da sensação de impotência, da descrença e das teorias de conspiração, vejo que começam a brotar iniciativas individuais e de pequenos grupos orientadas para a busca de soluções para o descalabro nacional. Tem gente propondo, inclusive, uma Assembleia Constituinte, composta por brasileiros notáveis e de ficha-limpa, para rever a legislação que regula a atividade política, passar uma régua nas práticas e lideranças vigentes e, sobretudo, possibilitar um futuro mais animador.

Vitória, 19 de abril de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Noticiários

Noticiários

O mundo da política continua em chamas, com o fogo se alastrando. No noticiário da TV, logo cedo, uma apresentadora simpática confirmou o início do julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE e leu trechos da delação premiada de um ex-presidente do TCE do Rio de Janeiro, em que detalha falcatruas e achaques praticados pelos seus colegas de trabalho, por desembargadores vitalícios e bandidos de terno que atuam no governo estadual. Desliguei o som logo depois das notícias sobre a movimentação de políticos desesperados no Congresso tentando regulamentar a prática do caixa dois nas eleições, criminalizar o chamado abuso de autoridade e fazer reforma política, tudo em benefício próprio.

No mundo particular aqui de casa, vivemos mais um longo e animado encontro da família completa, algo que não acontecia há quase um ano. Estavam os cinco filhos, duas noras, dois genros (o outro ficou em São Paulo), seis netos, o casal que deu origem a tantos e também alguns amigos do peito com suas crias. Acontecimento pra ninguém botar defeito, desses próprios para matar saudades, exercitar afetos e guardar na lembrança. Para os adultos, comida gostosa, cerveja gelada e tempo de sobra para cada um contar vantagens sobre o que fez e está fazendo, falar com animação dos projetos e das próximas viagens.

Foi muito bom ver o corre-corre, a gritaria e as conversas entusiasmadas dos pequenos. Nesse reencontro, os primos deram milhares de chutes na bola de meia, passearam de carrinho de mão em volta da casa, fizeram muitas bolhas gigantes de sabão à base de baba de quiabo, balançaram em duas redes que se chocam, desenharam em pedaços enormes de papel craft, tomaram banhos de banheira, ouviram histórias contadas pela avó antes de dormir e muito, muito mais. Não se tem registro de brigas entre eles nem de manhas insuportáveis. Apenas uma ou outra choradeira com justa-causa. Depois de tanto, no silêncio da casa vazia, fiquei tentando imaginar as notícias que irão para o ar quando meus netos todos estiverem na idade de votar.

Vitória, 05 de abril de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Ai, ai…

Ai, ai …

Bem que pensei em escrever mais um pouco sobre estes tempos tão contaminados por inseguranças e incertezas mas, em favor do bom astral, preferi falar de amenidades próprias da vida de avô. Reconheço que sou meio sem jeito com criança e completamente sem paciência quando gritam ou fazem manha. Minha deficiência auditiva prejudica o entendimento do que estejam falando. Não consigo brincar de casinha com as meninas nem correr atrás de bola chutada por menino incansável. Levar a turma pra pescar no píer da Praia do Suá eu bem que levo. Até coloco isca no anzol dos que ainda têm dificuldade ou que não gostem de pegar no camarão descascado, que corto em pedacinhos para facilitar a brincadeira.

Neste último sábado a programação foi atípica. Logo cedo, ajudei a levar três netos pra tomar vacina contra a febre amarela lá no ginásio do Alvares Cabral. A fila se estendia por centenas de metros na direção do centro da cidade e o sol estava quentíssimo. Andava, parava, andava, parava, com os vendedores ambulantes fazendo a festa. Curiosamente, não vi ninguém reclamando do calor nem da espera. Pelo contrário: havia um traço de satisfação nos rostos das mães e avós, talvez por saberem que iriam conseguir proteger suas crianças contra algo ameaçador e traiçoeiro. Lá dentro, o serviço, bem organizado, contava com a colaboração atenciosa de voluntários, algo difícil de ver por aqui. Na hora da agulhada, nossas crianças fizeram carinha de medo mas ninguém chorou.

No meio da tarde fomos levar os dois moleques ao cinema para ver o Batman. Confesso que alienei algumas vezes, tamanhas eram as pancadarias e explosões lá na tela, que eles acompanhavam com olhos arregalados, comendo pipoca. Viemos correndo pra casa para assistir o segundo tempo da decisão do campeonato carioca. Para a alegria de Théo, deu pra ver o gol de empate do Flamengo e a disputa nos pênaltis vencida pelo meu glorioso Fluminense. Solidário, dei uma boa dose de dengo ao neto rubro negro, na tentativa de aplacar sua tristeza futebolística.

Vitória, 08 de março de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Mas pode piorar

Mas pode piorar

Ando meio saudoso dos meus tempos de rapaz folgado, de cidade pacata à beira mar. Esses dias de reclusão por causa da insegurança me fizeram lembrar da vida tranquila que a gente tinha aqui em Vitória há cinquenta anos. As emoções mais fortes aconteciam nas competições de barco a vela e mergulhos nas pedras da Ilha do Frade em busca de lagostas, nas raquetadas de frescobol na Praia do Barracão e subidas ao topo do Mestre Alvaro com gente animada, nas conversas calibradas para impressionar mocinha carioca em férias na casa de parentes, nas provas de natação dos Jogos Praianos e pescarias na Ilha das Caieiras, com o rosto colado ao som de Minha Namorada na FAFI e o corpo balançando ao som de Satisfaction na boate Boteco, show dos Mamíferos na Macumba e festivais de música que Tina Tirone e Chico Lessa sempre venciam, sem falar nos papos-cabeça na casa de Vitor e Branquinha Santos Neves, nos bate-bocas nas mesas do Britz Bar e nas risadas atrás do balcão do Miramar ou na varanda do Michel’s Bar. Os carros eram pouquíssimos, as lanchas bem pequenas e as festas de quinze anos aconteciam nas casas dos pais.

Essa saudade brotou logo que acordei com a chuva lá fora e aumentou bastante quando, em busca de inspiração para escrever, li no jornal: “Não vai ter carnaval em 29 cidades”. A falta de segurança é a principal justificativa dos prefeitos. As crises na segurança pública são resultados visíveis do que vem acontecendo com o país faz tempo. Mesmo que a daqui termine logo, haveremos de conviver com os impactos de seus desdobramentos.

Fico com a impressão de que a insensatez, a prepotência e a incompetência que correram frouxas por aqui vão nos fazer pagar um alto preço pela volta das condições mínimas de normalidade no Estado. Traumas, sensações de perda e ressentimentos de toda ordem deverão vigorar na alma de muita gente, por um bom tempo, influenciando comportamentos de indivíduos e grupos. Não quero nem pensar nas consequências potenciais das punições anunciadas, sobretudo das demissões.

Vitória, 22 de fevereiro de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vergonheira

Vergonheira

Saí de férias logo depois das prisões explodirem no norte e no nordeste do país, com relatos impressionantes de afronta à condição humana e à justiça. Bandidagem contra bandidagem, medindo força, delimitando território, mostrando que nem tudo está sob o controle do Estado. A ausência de notícias me fez bem. A alienação tem lá suas vantagens.

Ao chegar de volta, soube da greve do pessoal da polícia militar, com familiares portando faixas e cartazes, batendo panelas diante das câmeras, bloqueando a saída da tropa. No domingo à noite, me disseram que meus netos não retornariam às aulas na manhã seguinte porque as escolas estariam fechadas, por medida de segurança. Confesso que achei um tanto exagerado. Na manhã da segunda feira, fui trabalhar ouvindo no rádio notícias sobre saques de lojas, roubo de carros, assaltos à mão armada, muitas mortes, ruas vazias. Acabava assim minha desinformação sobre as dimensões do descalabro que se instalou por aqui, que aterroriza e faz pensar nos seus significados e desdobramentos. Mas ainda nada sei sobre as reais razões e interesses que o motivaram e o sustentam.

A falta de policiamento ostensivo nas ruas abre espaço para bandidos profissionais agirem livremente e, bem pior, cria ambiente para que pessoas comuns também se aventurem na atividade saqueadora, como ocorre quando um caminhão tomba na estrada e derrama a mercadoria no acostamento. Saqueia-se em ritmo frenético, livre de culpa. É o lado bestial orientando pernas e braços, estimulando a conquista de bens alheios, mesmo que ao preço de porções de vergonha e de honra de cada consciência.

Sabe-se como é difícil e demorado educar, civilizar, uma pessoa. O que dói e chateia é constatar que esse esforço de fixar valores sociais básicos pode ser aniquilado por esquemas que estimulam corrupção e por decisões que facilitam a prática de violências e crimes em larga escala. É fato que o ser humano precisa de leis e aparatos que o protejam de seus próprios instintos predatórios. Os homens responsáveis pela ordem pública jamais poderiam desconsiderar essa verdade.

Vitória, 08 de fevereiro de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Homens

Homens

Estou saindo de férias em direção ao sul da Bahia. Vou com um pequeno grupo de amigos do peito. Sairemos na segunda, bem cedinho. Alugamos uma casa razoavelmente confortável, situada em posição estratégica, bem diante do mar. Dizem que é um lugar maravilhoso, próprio ao exercício do direito de ficar bestando, conversando bobagens, andando na praia nos finais de tarde, fritando peixe, jogando baralho, fazendo colher. Ao que tudo indica, a internet no lugar é bem precária. Nada sei sobre o funcionamento dos celulares. Saio da civilização urbana sob o impacto de dois fatos relevantes. A posse prevista de Trump lá no hemisfério norte e a morte inesperada de Teori, nas águas de Paraty.

Confesso que tenho preguiça só de pensar no que sairá, diariamente na imprensa, sobre o que Trump disse, fez e promete fazer e, naturalmente, sobre as reações e os protestos de muita gente. Considero o novo presidente americano um homem determinado e muito esperto, que se maquia com exatidão irritante, um ator que ensaia muito bem scripts espalhafatosos e caricatos, tudo bem ao gosto de pessoas brutas e dos que querem ir à forra. Obama sai do poder levando consigo o reconhecimento mundial da sua seriedade e da sua compostura serena e centrada, de um homem que age acreditando na possibilidade de melhorar o mundo.

Aqui, a queda de um avião mata expectativas e, sobretudo, esperanças de brasileiros que, como eu, acreditavam em Teori Zavascki. Lembro-me dele chegando, silencioso e atento, ao STF, durante o processo do Mensalão. Com o passar do tempo, por suas atitudes, fui me dando conta de que se tratava de homem sério e confiável, bem diferente de seus colegas ego-centrados e, sobretudo, daqueles de pouca autonomia. O país perde um juiz inacessível aos poderosos, um magistrado que se orientava pelo teor das leis em vigor, fossem elas contra ou a favor de bandidos e mocinhos participantes dos enredos da política e presentes na cena do crime. Mandava prender e soltar, serenamente, sem ao menos perder o apetite. Fará muita falta.

Vitória, 22 de janeiro de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Luiz Mococa

Luiz Mococa

Na semana passada perdi um grande amigo de infância. Ele era da segunda leva de amizades que fiz aqui em Vitória, a partir de 1958, A primeira, com a garotada da antiga Rua da Árvore e a outra com as mais de trinta crianças que moravam numa das duas quadras da Rua Madeira de Freitas. Luiz Fernando era um dos cinco filhos de seu Anacleto e morava em frente da nossa casa. Naquele tempo sem TV, os vizinhos se conheciam e muitos se frequentavam. As amizades surgiam nas brincadeiras de rua, nos papos de varanda e se consolidavam nos banhos de mar, nas pescarias e nas festas do Praia Tênis Club. Nos finais de ano, nossa rua era fechada ao trânsito para comemorar o aniversário de dona Natalice, a mãe dele. Somos a Turma da Madeirinha.

Luiz Mococa era uma pessoa ímpar e sua morte me traz de volta um tempo muito bom que vivemos juntos, incluindo as peladas disputadas no barro da rua e na areia de Camburi e os passeios no seu jipe Candango. Como escoteiros do mar, acampamos na Ilha do Frade, onde chegamos a bordo de um escaler da Marinha. Ele lia tudo sobre a Segunda Guerra. No tempo dos festivais, Luiz aprendeu a tocar violão e a cantar “Gatinha manhosa”, seu hit. Nos formamos em 1970 e pra comemorar, junto com mais uns dez colegas, fomos numa Kombi alugada até o Uruguai, a caminho de Bariloche. Saudosista, sempre me sugeria contar aquela viagem em crônica.

Luiz era uma pessoa doce que comia tanto quanto um passarinho e gostava de uma cachacinha. Quanto mais bebia, mais calado ficava, piscando mais do que o normal. Ele adorava fogo, acender fogueira e soltar foguetes. Habilidoso, começou a fazer, com madeira e papelão, miniaturas de barcos, veleiros e aviões. Na quinta feira passada, conversamos alegremente na confraternização da nossa turma de engenharia. Discretíssimo e com certa cumplicidade, ele me mostrou suas obras mais recentes no celular. Combinamos fotografar tudo com lentes potentes e luz adequada e fomos pra casa dormir. Na sexta feira, o cemitério de Santo Antônio estava lotado de gente incrédula.

Vitória, 28 de dezembro de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Estouro

Estouro

Normalmente escrevo a crônica na segunda feira, passo o pente fino na terça e envio para o editor do jornal na quarta. Desta vez, escrevo no domingo pra poder mandar na segunda cedinho. É que estou indo a São Paulo acompanhar a segunda edição do What Design Can Do?, evento internacional que minhas meninas organizam por lá.

Hoje está difícil falar de trivialidades. É que estes últimos dias foram pródigos em notícias de afrontas, achaques, descaramentos, conchavos, falsidades, espertezas, safadezas, blefes, cinismos, mentiras, complôs, armações e muito, muito mais. Coisa de louco, como se diz. Lentes, microfones e ouvidos captaram a movimentação das autoridades máximas dos três poderes da República em busca de uma saída para episódios que engrossaram a crise. Conseguiram, mas com perdas relevantes na credibilidade do STF, o que me preocupa.

Na semana anterior, centenas de deputados insones aprovaram na marra projetos de lei que anulam crimes cometidos, intimidam a justiça e asseguram impunidades variadas. No Senado, Renan tentou dar sequencia àquele atentado parlamentar, sem conseguir, ao menos desta vez. Para acabar de danar o ambiente em Brasília, na sexta feira dezenas de políticos poderosos foram acusados de corrupção pelo primeiro dos mais de setenta executivos da Odebrecht que irão delatar negociações comprometedoras, que escancaram de vez a podridão do nosso sistema político. Tem muita gente com cara de santo ficando desvairada com a coisa chegando nos seus calcanhares. A tensão na capital federal ganha dimensões explosivas e faz pensar num estouro de manada.

Confesso que estou perdido como cego em tiroteio e tão espantado quanto cachorro que caiu de caminhão de mudança. Impossível imaginar os desdobramentos desse quadro alarmante. Slogans, gritos de guerra, palavras de ordem já não dão conta de acompanhar a evolução de acontecimentos que se sucedem em ritmo frenético e em escala explosiva. Do jeito que a coisa vai indo, estas minhas palavras, ao serem lidas na sexta feira, poderão soar otimistas.

Vitória,12 de dezembro

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Camas no PDU

Camas no PDU

A Prefeitura de Vitória está finalizando mais uma edição do Plano Diretor Urbano – PDU, que regulará a ocupação do território e as atividades que poderão, ou não, ser realizadas em cada um de seus bairros, áreas e terrenos, de suas ruas e avenidas. Elaborar e aprovar um PDU para uma cidade como a nossa exige bastante esforço e contribuição de muita gente e deverá ser, obrigatoriamente, presidido pelos interesses em atender o bem comum. Em favor dos que nela vivem, dos que a frequentam para trabalhar e se divertir, bem como dos que aqui ganham dinheiro e dos que nela gastam suas economias, e também daqueles que simplesmente passam por ela todos os dias, obrigatoriamente.

Vitória tem uma particularidade relevante: praticamente tudo o que é consumido, utilizado ou gasto em seu território vem de fora. Isso vale para praticamente todos os tipos de produtos e serviços, aí incluídos combustíveis, alimentos, pregos, energia elétrica, água tratada, móveis, lâmpadas, automóveis, internet, barbante e tudo o mais. Nada vem pra cá de graça. Tudo tem que ser comprado fora, consumindo reservas e capacidade de investimento. Mais grave ainda: o município não tem sido capaz de “exportar” para o resto do país ou para o exterior o que eventualmente tenha sido feito em seu território, uma condição necessária para trazer dinheiros para movimentar a sua economia e equilibrar o seu balanço de pagamento.

A questão que trago à consideração dos leitores é bem objetiva: Vitória está precisando de espaço para instalação de outros milhares de camas ou de boas condições para abrigar atividades produtivas e destinadas ao lazer, ao ócio e à contemplação? Essa escolha é fundamental ao se considerar que restam pouquíssimas grandes áreas livres, passíveis de ocupação. Tenho xodó por duas delas: aquela destinada ao Parque Tecnológico, em Goiabeiras, e a que existe entre o Shopping Vitória e o mar. Soube que na minuta do novo PDU introduziram a autorização legal para nelas construir apartamentos para milhares de camas, mesas de jantar, espaço gourmet e tudo o mais. Sinceramente, Vitória merece escolhas mais consequentes do que o mesmo da mesmice.

Vitória, 30 de novembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Mais camas no PDU

Mais camas no PDU?

Vitória está finalizando mais uma edição do PDU – Plano Diretor Urbano, que regulará a ocupação do seu território e as atividades que poderão ser realizadas em cada um de seus bairros e terrenos, de suas ruas e avenidas. Elaborar um PDU é tarefa que exige esforço e contribuição de muita gente e que deve ser presidida, obrigatoriamente, pelo compromisso de tentar equacionar demandas em favor do bem comum. Atuais e, sobretudo, futuras. Todas as cidades devem ser pensadas como lugar bom para os seus habitantes e para quem as frequente para trabalhar, estudar e se divertir e, de quebra, para os que passem por ela.

Aqui em Vitória, praticamente tudo o que é consumido e utilizado vem de fora: combustíveis, alimentos, pregos, energia elétrica, móveis, água potável, lâmpadas, automóveis, internet, barbante e tudo o mais. E como nada vem pra cá de graça, isso consome reservas e reduz a capacidade de investir. O que é mais grave ainda: o município não tem sido capaz de gerar produtos e serviços que possam ser “exportados”, para o resto do país e para o exterior. Isso impede a vinda de dinheiros novos que ajudem a movimentar sua economia e a equilibrar o balanço de pagamento com o mundo.

Essas questões ganham relevância porque restam pouquíssimas áreas livres de boas dimensões, passíveis de serem ocupadas de forma estratégica para o desenvolvimento município. Tenho um xodó especial por duas delas: a que está destinada ao Parque Tecnológico, em Goiabeiras, e aquela situada entre o Shopping Vitória e o mar. Consta que conseguiram introduzir na minuta do novo PDU autorização expressa para que se possa construir, nas duas áreas, milhares de quartos e suítes. Aí, fico me perguntando se não seria mais inteligente se a cidade continuasse reservando a primeira área para sediar empresas inovadoras, que geram emprego, renda e impostos e, a outra, para abrigar novas instalações de uso coletivo e ambientes próprios ao lazer, ao ócio e à contemplação, tornando a cidade ainda mais agradável aos seus habitantes e mais atraente aos turistas.

Vitória, 30 de novembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA