Homens

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Estou saindo de férias em direção ao sul da Bahia. Vou com um pequeno grupo de amigos do peito. Sairemos na segunda, bem cedinho. Alugamos uma casa razoavelmente confortável, situada em posição estratégica, bem diante do mar. Dizem que é um lugar maravilhoso, próprio ao exercício do direito de ficar bestando, conversando bobagens, andando na praia nos finais de tarde, fritando peixe, jogando baralho, fazendo colher. Ao que tudo indica, a internet no lugar é bem precária. Nada sei sobre o funcionamento dos celulares. Saio da civilização urbana sob o impacto de dois fatos relevantes. A posse prevista de Trump lá no hemisfério norte e a morte inesperada de Teori, nas águas de Paraty.

Confesso que tenho preguiça só de pensar no que sairá, diariamente na imprensa, sobre o que Trump disse, fez e promete fazer e, naturalmente, sobre as reações e os protestos de muita gente. Considero o novo presidente americano um homem determinado e muito esperto, que se maquia com exatidão irritante, um ator que ensaia muito bem scripts espalhafatosos e caricatos, tudo bem ao gosto de pessoas brutas e dos que querem ir à forra. Obama sai do poder levando consigo o reconhecimento mundial da sua seriedade e da sua compostura serena e centrada, de um homem que age acreditando na possibilidade de melhorar o mundo.

Aqui, a queda de um avião mata expectativas e, sobretudo, esperanças de brasileiros que, como eu, acreditavam em Teori Zavascki. Lembro-me dele chegando, silencioso e atento, ao STF, durante o processo do Mensalão. Com o passar do tempo, por suas atitudes, fui me dando conta de que se tratava de homem sério e confiável, bem diferente de seus colegas ego-centrados e, sobretudo, daqueles de pouca autonomia. O país perde um juiz inacessível aos poderosos, um magistrado que se orientava pelo teor das leis em vigor, fossem elas contra ou a favor de bandidos e mocinhos participantes dos enredos da política e presentes na cena do crime. Mandava prender e soltar, serenamente, sem ao menos perder o apetite. Fará muita falta.

Vitória, 22 de janeiro de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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