Pescaria em tempos de crise

Pescaria em tempos de crise

Avô pescador experiente que sou e sabendo que no sábado à tarde a maré estaria enchendo e meio morta, achei por bem levar os dois netos mais velhos para pescar lá no píer da Praia do Suá. Sem muita paciência, venho tentado repassar para Theo e Manu os segredos que acumulei em centenas de pescarias ao longo da vida. Não sei se é do conhecimento de todos, mas a arte da pesca exige muita paciência, algumas habilidades especiais, além de boa dose de malandragem, sobretudo quando a intenção é pegar peixes miúdos, extremamente ariscos. Depois de algumas tentativas, os dois já dominam as atividades básicas do esporte: colocar camarão no anzol, jogar a linha na água com categoria e, o que é mais difícil, esperar que os peixes mordam a isca. Com a prática, eles vão adquirir as manhas das fisgadas mortíferas, que exigem reflexos bem condicionados e são fundamentais para a obtenção de elevados níveis de produtividade.

No outro lado do píer, virado para o Convento, uma senhora de seus sessenta anos, metida numa roupa esportiva espalhafatosa, pescava com seriedade. Concentrada e em perfeito silêncio, ela ia fisgando um peixe após outro, para inveja dos membros da nossa equipe. Bem que tentei fazer dela uma pescadora de referência, mas ninguém deu bola para algo fundamental que tentei ensinar: a inveja é fator determinante nos resultados, tanto que os pescadores invejosos não pegam quase nada. O fato é que, pelas contas de Manu, em menos de duas horas, eu peguei oito coró-corós e os meus aprendizes, apenas dois cada um. Como nos programas de pescaria na TV, soltamos os peixes que íamos pegando, o que nunca fiz na vida.

Toda essa conversa de pescaria pode mesmo soar como pura embromação. Na verdade, eu deveria mesmo é ter escrito uma crônica otimista sobre o que vem vindo por ai: Temer pretendendo se transformar em estadista, Cunha querendo distância do STF, Lula tentando escapar do cerco da Lava Jato e dona Dilma inteiramente sozinha, vagando pelos jardins do Palácio da Alvorada com olhar perdido nas águas plácidas do Lago Paranoá.

Vitória, 04 de maio de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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