Repercussão
É sempre bom receber comentários sobre o que se escreve. Cada cabeça uma sentença, a cada texto muitas reações diferentes. Uma crônica pode não dizer nada para um leitor e impactar um outro de forma até surpreendente. Quando o assunto é passarinho, pescaria ou festa de casamento os comentários são leves e positivos. Quando tratam de fatos políticos, as opiniões, concordantes ou não, ganham cores fortes. Nestes tempos de política solta e nervosa, as reações ao que escrevo, mesmo quando trato dos assuntos sem paixões nem cores partidárias, têm subido de tom. Isso também deve estar acontecendo com quem emita juízo e, sobretudo, expresse preferências, ainda que nas entrelinhas. Não tenho conseguido escapar dos temas da política e pago um preço.
Para ficar só no âmbito das amizades, constato que muita gente parou de comentar o que escrevo enquanto que outros, sabendo que receberei com bom humor as críticas, reclamam sem cerimônia. Ainda hoje, há quem me mande textos escritos por gente séria para comprovar que “foi golpe”. Dia desses, um grande amigo me parou na rua querendo saber o que me faz otimista com a interinidade da presidência. Dei detalhes das minhas avaliações, mas, sabendo que não pararíamos de rir juntos, de nós mesmos e de terceiros, não chegamos a um acordo. Em compensação, recebi, de outro, um e-mail gentil sobre o teor de crônicas antigas que havia lhe mandado recentemente, em defesa da nossa amizade. Elas falam da indicação e dos primeiros anos da presidente afastada e atestam que a minha descrença é bem antiga e isenta de raiva.
Tenho acompanhado a movimentação do presidente interino dando chutes por baixo da mesa, tentando sobreviver ao fogo cruzado, aproveitando as deixas para corrigir erros cometidos por conta própria ou em função de pressões e gulodices de gente poderosa. Tendo a acreditar que, por sua fama de habilidoso, tentará usar os protestos das ruas, estradas e edifícios como um recurso para ganhar força e prestígio. Nada como uma boa democracia.
Vitória, 01 de junho de 2016
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
