Presentes de aniversário
Aniversariei no último dia 23, sexta feira, junto com Pelé, Santos Dumont e Ronaldo Barbosa. As comemorações começaram com a arrumação da casa, consertos em geral, idas às compras e muita agitação na cozinha para conseguirmos almoçar ao lado de amigos em pleno dia útil. Mais uma vez, mantivemos o padrão do “quase tudo feito em casa”, com a valiosa colaboração de uma das filhas que vivem em São Paulo, uma grande amiga que veio de Brasília e uma irmã que cuida com gosto da decoração. Ganhei muitos presentes inteiramente compatíveis com as manias, os hábitos, as dimensões e a idade atuais, o que demonstra carinho e atenção na escolha.
Da minha parte, tenho dado dois tipos de presente: colheres feitas especialmente para as pessoas homenageadas e exemplares do livro de Vitor Nogueira de fotografias sobre o Espírito Santo, que sempre agrada, independentemente de renda, idade, sexo, cor e religião.
O primeiro presente do dia veio cedo, junto com um sorriso muito simpático: um pote para colocar as colheres de madeira da cozinha. Peça esmaltada, de cores azuladas, feita à mão por uma colega de remadas matinais, em retribuição à colher que eu havia feito pra ela. Na hora do almoço, ganhei duas camisetas e um chapéu com protetor de orelha e de cangote, feitos com tecido UV line, uma grande descoberta para quem, como eu, tem pele muito sensível ao sol. Recebi tudo isso como bom estímulo pra quem rema canoa havaiana nessa altura da vida. Ganhei também uma camiseta de marca, que me fará elegante em ambientes descontraídos, e uma bela camisa de linho azul claro que me fez lembrar das camisas de cambraia da Braspérola que dona Antenisca, nossa vizinha, fazia pra mim, de seis em seis.
Ganhei uma colher de metal com o cabo dobrado formando uma alça que, engastada na borda da molheira, garante que ela não vai escorregar e mergulhar no molho, uma pequena tragédia em jantares de alguma cerimônia. Veio junto com um canivete gaúcho, de lâmina curva, cujo uso específico ainda vou descobrir. Tratei de passar uma lixinha no cabo e nas bordas do metal para propiciar uma pega mais cômoda, como convém às ferramentas. Nessa linha, inclui-se a pasta para proteger computador, que me foi entregue com um beijo acompanhado da autorização para usá-la como sacola para levar faquinhas e bambus em viagens. Por hora, vou dependurá-la no cabide de design original, que pretendo fixar na parede do meu quarto. Na mesinha da sala já está a lupa de lente grande e cabo bonito, que me deixou encasquetado, por ser a sexta que ganhei na vida.
Avô que sou, ganhei uma foto emoldurada muito expressiva: meu neto Joaquim, sentadinho no chão, ao lado de um grande aviãozinho de papel dobrado, na exposição de Hilal em São Paulo. Inspirado no nascimento do primeiro neto, o artista fez um avião de um pedaço de céu muito azul com nuvens branquinhas. Do amigo interessado em história contemporânea ganhei um livro com as conversas entre dois renomados pensadores sobre o que andou acontecendo na Europa no século passado. Para alegrar e distrair o aniversariante, um vinho do Porto, três garrafas de cachaça da melhor procedência, um belo livro de poemas gráficos com curiosas sacações, além de uma caixa de lápis de cor e um bloquinho de desenho.
Para completar as comemorações, presente de Carol, um show de Paulinho da Viola, assistido de mesa pertinho do palco. Dá gosto de ver a figura gentil daquele carioca elegante e muito competente, tocando e cantando nestes tempos de arranca rabo, de quero o meu e pouca vergonha.
Vitória, 28 de Outubro de 2015
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
