Cadeirinha

Cadeirinha

Entrou em vigor mais uma lei da modernidade. Por segurança, criança só poderá ser transportada dentro de condições estabelecidas. Daqui pra frente, quem precisar levar criança de um lado para outro tem que ter cadeirinha apropriada, que varia de formato em função da idade do transportado.

Alguém, de muita competência, deve ter intuído e argumentado com todas as próprias convicções que as crianças têm desenvolvimento personalizado e diferenciado. Duas variáveis serão usadas para aferir se o condutor do veículo está infringindo ou não o regulamento nacional: o peso e a idade da criança.

Assim, ao considerar essas duas dimensões, fica garantida uma margem de flexibilização (expressão que está entrando no nosso vocabulário para traduzir o tal jeitinho brasileiro) na aplicação da Lei da Cadeirinha.

Não será nada fácil decidir sobre a emissão de multas e advertências, exceto se o guarda de trânsito dispuser de balança pra pesar os moleques. Isso, sem falar na necessidade das mães carregarem na bolsa, junto com as fraldas descartáveis, a certidão de nascimento da sua prole.

Soube, por uma mãe aflita, que a cadeirinha poderosa que ela trouxe do estrangeiro não atende às exigências burocráticas, o que a deixa inteiramente ilegal ao conduzir a sua filha de poucos meses para passear na casa do avô ou para simples demonstração de boniteza e saúde em supermercados e festas de amiguinhos. É que a bendita cadeirinha não tem selo de qualidade do INMETRO.

Pessoa atirada e cheia de argumentos, ela decidiu correr o risco de sair por aí na mais perfeita ilegalidade, apostando que, ao menos por enquanto, os guardinhas não vão conferir tal quesito. Da minha parte, acho que até vai ter guardinha elogiando aquela cadeirinha americana.

Antes mesmo de sair a tal lei, que obriga o consumidor a comprar o tal produto, eu já estava vendo mães totalmente temerosas em ver a sua cria sendo conduzida no colo de tias e de avós, como sempre se fez. Estava criada mais uma dependência psicológica, a da cadeirinha.

Ri de uma dirigente das coisas do trânsito confessando a fragilidade da legislação quando aplicada ao transporte de crianças em vans, táxis, ônibus, metrôs e coisas assim. Recomendou que, não tendo cadeirinha no carro, não se dê carona para bebês. Ela estava constrangida.

Tive sorte. Não teria sido fácil criar cinco filhos dentro dessa lei. Além de ter que comprar os muitos equipamentos de segurança, teria de arranjar uma Kombi para dar conta. Impossível carregar tantas cadeirinhas numa Belina. Isso, sem falar que a filharada adorava viajar deitada lá na parte de traz, junto com as malas.

Confesso que gosto de ver a cara de felicidade dos meus netos sentados naquelas cadeirinhas. É bem verdade que eles sempre choram na hora de prender o cinto de segurança (ou seria por que não querem ir embora da casa do avô?). Parecem astronautas. Não há coração de mãe que resista.

Os comerciantes poderiam explorar isso nas propagandas, colocando crianças bochechudas em cadeirinhas coloridas, inteiramente afiveladas. Por hora, não estão precisando gastar dinheiro com propaganda. Os rigores da lei vão garantir as vendas por um bom tempo. As cadeirinhas já estão em falta.

Vitória, 10 de Junho de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Velho Joaquim

Velho Joaquim

Dava gosto vê-lo descascar coco. Com uma foice, batida com firmeza e precisão, ia tirando pequenas lascas da casca verde. Com destreza, depois de cada golpe, ele jogava o coco pra cima, fazendo com que girasse o suficiente para posicioná-lo para receber o próximo.

Joaquim era o nome dele, seu Joaquim. Devia estar beirando os setenta. Era um preto esguio de rosto marcado pelas rugas e palma das mãos quase branca. O olhar era doce quando dirigido a quem chegasse perto, atento quando estava no serviço da descasca e vago quando mirava o mar, onde estivera por muitos anos, no duro trabalho da pesca. Com o avanço da idade, na falta das forças para mover o remo e puxar a corda, ele resolvera vender coco na beira da praia. Um servicinho maneiro, que garantia distração e sustento da casa.

Pioneiro, fixou o negócio na sombra da castanheira, bem diante da avenida que chega do centro da cidade. Lugar de passagem obrigatória, ponto ideal para comércio sem tabuleta de propaganda. A barraca era bem modesta. Na verdade, um pequeno balcão feito de um caixote, com duas prateleiras no interior e um tampo de compensado na parte de cima. Fora pintado de azul claro, mas a nódoa de coco escurecera o que ainda havia da tinta. Seu Joaquim, como se estivesse no seu escritório, usava um banquinho já bem surrado posicionado atrás do balcão. Os cachos de coco, trazidos em carroça, eram empilhados ao lado da barraca para atrair a atenção da freguesia. Sobre o tampo, ele arrumava os cocos já descascados, deixando os menores por baixo. Dizia que tirava a casca para a água ficar mais fresquinha, por ação do sol quente batendo nas fibras brancas e úmidas.

O movimento era pequeno, sobretudo nos dias de semana. Sábado e domingo melhorava bastante, se não chovesse. Seu Joaquim tinha alguns fregueses fiéis e sistemáticos, gente que só comprava coco com ele, como eu. Vendia fiado e fazia desconto para quantidades maiores. Homem de poucas palavras, ele servia pequenas doses de conversa fiada sobre as condições do clima e do mar. Raramente contava uma história. Cerimonioso, tratava as pessoas com muita cordialidade. Indagado, respondia com parcimônia e critério. Fazia pouquíssimas perguntas, tanto que jamais quis saber meu nome, de onde viera e o que fazia em João Pessoa.

Logo que percebeu meu interesse pela foicinha que usava, ofereceu-se para aprontar uma para mim. Lâmina feita de mola de caminhão, a foicinha é ferramenta ideal para o trabalho pesado no corte da cana e no trato dos coqueiros. Habilidoso, ele fez serviço completo: desbastou o aço bruto até que ficasse liso, fez o cabo com galho de goiabeira e amolou o fio para que cortasse cabelos do braço. Talvez por não confiar na minha perícia, ele fez cara de preocupação ao me entregar a foice enrolada em jornal. Satisfeito com o resultado, só aceitou o valor da lâmina bruta que comprara no Mercado Central. Ao tentar partir ao meio um coco vazio com um único golpe, senti que ela estava perfeitamente balanceada, como devem ser as ferramentas.

Saibam que tenho grande estima por minha foicinha paraibana. Mais do que uma ferramenta, eu a tenho como uma espécie de lâmpada mágica. É que, ainda hoje, passados tantos e tantos anos, ao esfregar a sua lâmina para afiar o corte, sempre me aparece a figura do Velho Joaquim.

Alvaro Abreu

Vitória, 26.05.2010.

Escrita para A GAZETA

Let It Be

Let it be

Espero que a tragédia do petróleo rebelde, que está boiando nas águas do Golfo do México antes de chegar sujando as terras baixas da costa sul dos Estados Unidos, também faça o homem pensar mais um pouco na vida e na morte. Vazamento de petróleo é coisa provocada pelo bicho homem. Por erro, incapacidade e gulodice das empresas dos homens.

Um valente vulcão islandês segue em plena atividade, fazendo muita gente esperar que o céu da Europa volte à normalidade. É a natureza que segue se mexendo em busca de equilíbrio, como faz há milênios. Volta e meia um movimento das placas tectônicas provoca uma redução repentina no volume de regiões localizadas nas profundezas da terra. Isto faz aumentar a pressão no seu interior, a ponto de romper o que esteja obstruindo a saída de gases e materiais incandescentes para superfície do planeta. Isso, até que as pressões se equilibrem novamente.

Os últimos acontecimentos na política capixaba produziram petróleo boiando no mar, poeira perigosa nos ares e lava escorrendo morro abaixo. Uma cartada bruta, uma espécie de chega prá lá sem lógica aparente e explicações plausíveis, desmontou um cenário que vinha sendo erguido há meses, cuidadosamente. Aquilo que parecia líquido e certo, transformou-se, por um passe de mágica, em uma realidade quase que improvável. De uma hora para outra, o que se viu foi um salve-se quem puder, dentro da mais perfeita normalidade das terras sem dono.

Os movimentos bruscos produziram cenas constrangedoras, decepções paralisantes, tristezas amargas, desabafos impensáveis e raivas perigosíssimas. A imprensa mostrou políticos atônitos, senhores importantes sem pai nem mãe, lideranças de calça curta, comentaristas sem palavras. Coisas que não se via há muito tempo. É que tudo vinha sendo colocado sob uma redoma opaca, maleável e muito resistente, fazendo crer que a vida seguia tranquilamente em chão firme, em mar de almirante e céu de brigadeiro. Destampado, o ambiente liberou o que estava contido, sob o peso da capa.

Com o cessar dos espantos e das emoções pessoais, as posições vão sendo esclarecidas em conversas de palavras estudadas. As tensões se dissipam e o jogo de forças e interesses vai se restabelecendo, agora pela vontade de um número bem maior de pessoas e de grupos.

A situação me fez lembrar de algo que aprendi com a filosofia: o homem diminui, se apequena, quando acredita em uma verdade que alguém lhe impõe. É que a crença reduz a sua capacidade de discernir sobre o certo e o errado e acaba por restringir a sua liberdade de escolha. Aceitando o que lhe dizem, ele passa a se orientar por valores e, sobretudo, pelos interesses dos donos da verdade. Com Margareth Thatcher, aquela dama de ferro que governou os ingleses por mais de uma década, aprendi que é impossível manter o controle sobre tudo.

Independente das composições políticas que venham a se estabelecer e até mesmo dos resultados das urnas em Outubro, eu prefiro que os homens do meu lugar se sintam livres para decidir com autonomia, sempre movidos por suas próprias convicções, sejam elas quais forem.

Tudo isso, 40 anos depois que aprendemos a cantar Let it be.

Alvaro Abreu

Vitória, 12.05.2010

Escrita para A GAZETA

Eyjafjallajokull

EYJAFJALLAJOKULL

A pressa e a prontidão são marcas dos dias atuais. A mídia apregoa que a comunicação torna o mundo sem fronteiras e coisa e tal. Isso, sempre que os deuses assim o permitirem. Um valente vulcão islandês e os temporais brasileiros do ano passado deixaram isso bem claro.

Uma única erupção vulcânica em posição inconveniente colocou em xeque a pressa, os compromissos, a lógica do mundo moderno. O fato dos aeroportos terem permanecido fechados por vários dias fez muita gente recorrer a taxi, alugar carro, pegar ônibus ou tentar ir de trem para chegar ao seu destino. Atrasado. Muitos devem ter parado para refletir e teve gente que tirou proveito da situação.

Mamãe se lembrou das viagens de trem entre Cachoeiro e o Rio de Janeiro, a melhor opção antes dos anos 50. Ela conta que vovó Neném fez uma viagem dessas para ir tirar uma espinha de peixe da garganta. Nem imagino o incômodo agravado pelos solavancos do vagão.

Embarcava-se às 4 da tarde e chegava-se ao Rio 16 horas depois. O tempo de viagem era igual para ricos e pobres. Para estudantes, políticos ou fazendeiros, para quem viajasse de férias ou a serviço. É bem verdade que existia a possibilidade de dormir durante um bom trecho da viagem, a partir de Campos. Isto, para quem conseguisse vaga no carro leito e pudesse pagar por um beliche com direito a roupa de cama em puro linho inglês. A longa duração da viagem permitia pensar no encontro político, escrever discursos, estudar para prova, imaginar passeios. Na volta pra casa, no começo das férias, os pensamentos ficavam por conta da retomada do namoro, do encontro com os amigos, do baile nos Caçadores.

Vista com olhar distraído, a paisagem que corria pela janela mostrava a transição entre dois mundos bem diferentes. Pisava-se a plataforma da cidade maravilhosa com esperança de encontrar melhores oportunidades de trabalho, estudos e diversão. Partia-se de Cachoeiro sabendo-se que haveria viagem de volta, para retomar a vida no ponto exato em que fora suspensa na estação da Leopoldina.

De minha parte, lembrei-me do nosso vizinho de muro que levou a família inteira para passear na Argentina, numa Kombi 1967. Foram e voltaram montando barraca. Talvez inspirado nessa aventura foi que, na condição de pai de cinco filhos e casado com mulher animada e corajosa, resolvi comprar um ônibus para podermos viajar para qualquer destino, sem depender de hotéis e aviões.

Transformado em trailler mambembe, com poltrona para 16 passageiros, cama para 12, toilet a bordo, duas mesas, cozinha e até poleiro para a arara, ele rodou quase 30 mil quilômetros no asfalto e nas estradas de barro do planalto central, do sertão baiano, das terras mineiras, das praias do nordeste. Sem a menor pressa. Era muito bom acordar com barulho do mar, sino da igrejinha ou mugido das vacas de um fazendeiro conhecido. O toldo armado na lateral daquele ônibus branco garantia a sensação de se estar sentado na varanda, diante da paisagem escolhida. Nos postos de gasolina, era comum perguntarem se era “ônibus de conjunto”.

Na contramão de aborrecimentos e frustrações, um amigo aproveitou o caos aéreo mundial para brincar por mais uma semana inteira com os netos que não puderam voltar para Londres. Disse que até passou a gostar de vulcões. Especialmente do distante Eyjafjallajokull.

Alvaro Abreu

Vitória, 28.04.2010

Crônica escrita para A GAZETA

Ressaca

RESSACA

Quando cheguei perto, vi que o pescador havia desistido de tentar pegar alguma coisa naquele mar ressacado. Ondas enormes, empurradas pelo vento sul, vinham da boca da barra em direção ao lajão de pedra que se estendia ali embaixo. Depois de quebrar na beira da pedra, as águas barrentas misturadas com espuma lambiam toda a extensão da laje até atingir o paredão, onde estávamos.

Resignado, ele já estava começando a guardar os apetrechos. Duas enormes varas de bambu, provavelmente feitas por ele mesmo, dois molinetes azul marinho, cabrestos feitos com fio de aço para resistir aos dentes de baiacu, uns poucos pedaços de cação que usara como isca, cordinhas para prender as varas nos baluartes da mureta, uma faca já bem gasta e uma sacola de supermercado vazia, expressão da esperança de voltar para casa com peixe.

Conheço bem essa rotina. Cada coisa deve ser guardada de modo a facilitar o uso na pescaria seguinte. Nada pior do que enfrentar a desordem na hora de começar a pescar. O prazer do primeiro arremesso não pode ser retardado pela bagunça.

Sempre gostei de pescar. Ainda menino, aprendi com um grande amigo de meu pai, lá em Marataízes, a preparar as minhas varas de bambu e a fazer empate de todo tipo. Ele me ensinou os segredos de dar nó em linha de nylon e a cuidar do meu material de pesca.

Nas vésperas de pescaria era comum encontrá-lo sentado na mesa da sala preparando o que iria usar na manhã seguinte. Lubrificava as carretilhas, inspecionava a linha, encastoava anzóis e garatéias, afiava o bicheiro e arrumava a cesta de vime que carregaria dependurada nas varas, praia a fora. A isca, olhudas fresquinhas, ele cataria nas sobras do arrastão.

Os movimentos daquele pescador solitário atestavam a sua intimidade com o que fazia. Não havia pressa, nem nervosismo. Pacientemente, olhando o mar de relance, ele desmontou as varas e amarrou os quatro pedaços com uma tira de borracha de câmara de ar. Prendeu tudo na lateral da bicicleta, bem junto ao quadro, para não atrapalhar a pedalada.

Os cabrestos foram dobrados da mesma forma como aprendi: anzóis engastados na argola da chumbada e os empates enrolados com o pedaço de arame que prende na linha. Terminado o serviço, ele enfiou os dois no saquinho de leite, que é lugar ideal para guardar cabresto. Embrulhou a faca com a toalha de prato de limpar os dedos e guardou a isca em uma caixinha de isopor, dessas de sorvete. Colocou cada molinete em um saco feito de perna de calça jeans, amarrado pela boca. Enrolou as cordinhas. Guardou tudo em uma mochila preta, surrada pelo uso, que vestiu com boa destreza. Mais uma vez, estava pronto para começar a volta pra casa.

Ele fora gentil ao comentar a situação do mar, mas foi reticente quando falei que a ressaca havia começado no início da semana e que estava castigando o nosso litoral inteiro. Pescador experiente, por certo ele sabia perfeitamente das suas inconveniências. Mas, como homem que gosta de estar diante do mar, pensando na vida, ele não deve ter resistido à vontade soberana de pescar naquela a manhã fria de domingo. Se bem conheço esse tipo de gente, ao trepar na bicicleta, ele já tinha decidido que iria aproveitar o resto da isca para pescar no dia seguinte, feriado de Nossa Senhora da Penha. Com ressaca, vento sul e tudo o mais.

Alvaro Abreu

Vitória, 14 de Abril de 2010

Escrita para A GAZETA

Estilingue

ESTILINGUE

Ando meio aflito com os edifícios enormes que estão brotando nas ruas estreitas da Enseada do Suá. De olho grande no petróleo, eles encerram o reinado soberano do Palácio do Café, o primeiro a ocupar aquele espaço, em busca de um destaque que o centro da cidade já não oferecia mais.

A Praça do Cauê, um dos últimos redutos de resistência cidadã, está ilhada por um fluxo intenso de veículos. Acabou-se o sossego que os habitantes daquela área conseguiram garantir por décadas. Algum morador de boa influência deve ter fincado pé e armado trincheira, com apoio dos vizinhos acostumados a viver em lugar silencioso. Por um bom tempo o progresso teve que dar a volta, mas é bem provável que eles nunca mais se livrem dos males dos carros passando na porta.

A Avenida Rio Branco capitulou faz pouco tempo, logo depois da inauguração da ponte Ayrton Senna. Hoje, ela engarrafa por qualquer motivo banal, abarrotando o miolo do bairro nobre. A Avenida Dante Michellini, trecho de uma estrada urbana que atravessa o nosso aterro do flamengo, precisou ser ampliada para dar conta do fluxo crescente de gente que precisa transitar entre Serra e Vila Velha e de quem venha de mais longe, pela Rodovia do Sol.

O projeto Novo Arrabalde, que riscou no papel o traçado urbano da Praia do Canto até Bento Ferreira, incluindo Santa Lúcia, Santa Helena e Praia do Suá, em terra firme e mangue adentro, foi idealizado por Saturnino de Brito, engenheiro sanitarista de visão abrangente e generosa, em 1896.

Saturnino acreditava que a distância ajudaria a evitar o contágio de doenças entre moradores e achou prudente projetar terrenos grandes em ruas e avenidas bem largas, num traçado que valorizasse os morros da ilha e, de quebra, o que havia de mais vistoso do outro lado do canal. A Pedra dos Dois Olhos pode ser admirada da Rua das Palmeiras e o Morro do Cruzeiro está no final de seis ruas, cinco delas bem curtas. A Avenida Leitão da Silva mostra o Mestre Alvaro e a Reta da Penha garante a visão do Convento.

Na virada do século, contavam-se nos dedos as carroças, carruagens e fubicas que circulavam pela cidade. A tranqüilidade das ruas vazias durou até bem pouco tempo, quando passamos a conviver com o trânsito lento e engarrafamentos diários, que só tendem a piorar com os impactos dos sucessivos lançamentos de novos prédios e da democratização do automóvel. Andaram vendendo o charme da antiga Praia do Canto e o bucolismo do Barro Vermelho, mas vão entregar moradias e escritórios com vista para a cozinha do vizinho. Sem vaga para os carros de visitas, funcionários e clientes.

Noite dessas sonhei que o Novo Arrabalde se estendia pela Ponta do Tubarão até Praia Mole, fazendo cumprir a sua vocação natural de área de expansão de Vitória, em direção às praias do norte. Acordei no meio da madrugada e ouvi o ronco grave dos motores das usinas e das correias que transportam minério.

Saturnino de Brito virou nome de avenida à beira mar, sombreada por sessenta e duas castanheiras, algumas das quais foram transplantadas na calçada do Iate Clube, inclusive aquela de tronco em forquilha que Nenna B usou para fazer um grande estilingue humano, como se adivinhasse o futuro.

Parece que aprendemos muito pouco com Saturnino de Brito e com a tragédia urbana do Centro da Cidade.

Alvaro Abreu

Vitória, 30.03.2010.

Escrita para A GAZETA

Bom senso e incensatez

Bom senso e insensatez

Estava preparado para reclamar da falta de racionalidade no planejamento e no gerenciamento das obras que estão sendo feitas na Avenida Vitória, uma das três artérias que ligam o norte ao sul da ilha. Minha cabeça de engenheiro de produção não aceita a estratégia, adotada pela Prefeitura, de interditar uma das pistas de cada sentido da via e só começar a fazer tudo o que tiver que ser feito depois de esburacá-las de fora a fora. Imagino que já deve ter comerciante querendo esganar fiscal municipal, motorista querendo atropelar guardinha de trânsito e que, satisfeitos com a buraqueira, só mesmo os mosquitos. É bem provável que já já apareça autoridade culpando o coronavírus pelo atraso das obras.

Pois é, mas os tempos são de começo de pandemia, com previsões graves e meio que assustadoras. Isso me faz lembrar que, em momentos de crise, sempre surgem pessoas que marcam presença positiva e vão ganhando a admiração e o respeito de quase todos. Pelo que vejo, essa é a condição que vai assumindo o Ministro da Saúde. Já ficou patente o preparo, a seriedade e a convicção que ele tem para orientar o enfrentamento da epidemia e, também, para conviver com a personalidade e o comportamento do seu chefe.

Como se sabe, no domingo passado, o presidente ultrapassou limites do bom senso de modo tão contundente que deve ter deixado muitos de seus seguidores, sobretudo os da área de saúde, em situação totalmente desconfortável. Fico imaginando a inveja que ele possa estar sentindo do sucesso do ministro Mandetta, depois das consequências negativas por ter saído por aí dando uma de macho popular e doidão do outro lado da cerca. Torço para que não aconteça mais nenhuma pernada presidencial. Seria desastroso.

Bem sei que a crise está somente começando e que os cuidados individuais e coletivos hão de ser amplos e obrigatórios. Com 72 anos, cardiopata e ainda convalescente, estou na turma de maior risco. De bom, ganho dengos da mulher e convictas demonstrações de carinho dos filhos, incluindo broncas homéricas por telefone e favores providenciais como as compras de supermercado.

Vitória, 19 de março de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Carros antigamente

Carros

O ar condicionado do meu carro pifou. Na verdade, ele está fazendo birra. Tem hora que liga, mas tem dia que ando os quilômetros todos com ele sem funcionar.

O dono da oficina atribuiu o defeito a uma peça que aciona o compressor, mas só depois de garantir o funcionamento do motor, aferir o sistema de freios, conferir a pressão do óleo, verificar o nível de combustível, acionar as travas das portas, medir a temperatura externa, e por aí a fora. Um avanço tecnológico expresso em um sem fim de mecanismos, circuitos e sensores comandados por um computador de bordo. Uma maravilha a serviço da segurança e do conforto dos usuários, quando funciona.

Mas o fato é que o danado do ar condicionado não está ligando na hora em que estou precisando dele para escapar do calor infernal que anda fazendo neste mês de março. E o pior, as oficinas especializadas estão lotadas.

Os carros de antigamente não tinham ar condicionado. Todos nós, motoristas e passageiros, andávamos com as janelas abertas. Para regular a fresca e a direção do vento, ajustava-se a posição do quebra-vento, recurso disponível em todos os modelos, fossem eles de passeio, esportivos ou utilitários.

O Galaxie era o melhor automóvel para passear. Macio, silencioso e elegante. Aurora Gorda, a dama da noite, comprou o primeiro que chegou a Vitória. O Simca Chambord era ágil e durinho, bem superior ao Aero Willys, que fervia o motor. O Dolphini e o Gordini eram apertados, precários e quebráveis. O máximo em matéria de carro esporte era um Mustang vermelho, de um exportador de café. A Variante de dois carburadores rateava no caminho da pescaria, mas sempre chegava. Bastava esvaziar os pneus para enfrentar os areais.

As camionetes eram usadas por fazendeiros, caçadores e gente que precisava carregar coisas pesadas. A Kombi era a única opção para transportar muita gente e só a Rural tinha tração nas 4 rodas. O jipe Candango era fácil de consertar. Difícil era ver mulher dirigindo camionete.

Mamãe ganhou um fusca 1963 de um irmão, para que pudéssemos levá-la no centro da cidade, onde passou a trabalhar depois da morte de papai. Fora do horário de expediente ele transportava os Mamíferos e bichos associados. Carmélia não me deixaria mentir. A gasolina era barata, mas a cotinha era obrigatória. Tinha-se o carro, mas faltava o dinheiro do combustível, inclusive para as idas noturnas a Guarapari. A chapa dele era 6 37 00 e todos sabiam disso.

Eu também comprei o meu Corcel 73, novinho. Custou-me quatro salários de professor. Não sei se era barato ou se eu ganhava muito bem. Antes de chegar ao Picasso que uso, consumi um outro Corcel, dois Passats, um Gol BX, duas Belinas, uma Caravan, além das duas Quantuns. Todos foram tirados de linha.

Hoje a oferta é estonteante. Além de dezenas de modelos bem parecidos, as fábricas resolveram produzir carros para os chamados nichos de mercado. Nas ruas da cidade, cada vez mais engarrafadas, vejo modelos feitos especialmente para pessoas que se acham poderosas, se pretendem aventureiras, para donos de fortunas recentes e mulheres que ficaram louras há pouco tempo. Outro dia vi passar um carro enorme, dotado de uma espécie de dentadura em aço inoxidável, de meter medo. Não deu pra ver o motorista.

Alvaro Abreu

Vitória, 17 de Março de 2010.

Escrita para A GAZETA

Para sempre

Para sempre

Depois das férias com a casa cheia e mais uma cirurgia, passei os últimos 20 dias em repouso quase absoluto, diante da TV. Por pouco fiquei viciado em séries repletas de bandidos e mocinhos, mortes escabrosas e drogas em profusão. Sorte que também assisti uma outra sobre as peripécias de uma menina canadense que perdeu os pais ainda bebê.

Lá fora, correu um tempo de muitas chuvas, enchentes e tragédias de verão, carnaval animado, morte de miliciano relevante, ameaças ao Congresso e, mais do que tudo, de coronavírus.

A enxurrada de notícias sobre o assunto foi tamanha que me recusei a continuar a ouvir homens de governo, autoridades internacionais, pesquisadores, gente medrosa com máscaras e suas instruções de como evitar contágio e propagação. O noticiário faz pensar que, em várias partes do mundo, um pânico do tipo politicamente correto se alastra mais rapidamente do que o vírus.

Os três ou quatro casos de contaminação já confirmados dão a dimensão real do problema por aqui. Sou dos que acreditam que o nosso sistema de saúde pública é perfeitamente capaz de dar conta dessa epidemia.

Chamou minha atenção uma notícia de grande interesse para os muitos que continuarão a viver em Vitória: estão pretendendo construir torres de 40 andares para abrigar 500 apartamentos e muitas salas comerciais. Até aí, nada demais, desde que fossem erguidas lá pras bandas da Rodovia do Contorno ou no caminho de Jacaraípe. A danação é que estão querendo fazer isso ali na Praia do Suá, naquela quadra que foi ocupada pelo Banco do Brasil, cercada por ruas estreitinhas, último terreno sem prédios altos naquela área.

Passo por ali com boa regularidade pra levar neto pra pescar no atracadouro, ir ao Hortomercado, comprar peixe, tomar vacina no posto de saúde. Pra quem vem do norte naquele trecho da avenida, é a única alternativa de retorno e de acesso ao estacionamento da Praça do Papa, à Capitania do Portos, ao Sebrae e tudo o mais.

É fundamental que a PMV considere que muitos dos impactos negativos do empreendimento serão definitivos e que a cidade ficará obrigada a conviver com eles para sempre.

Vitória, 05 de março de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Varandas

VARANDAS

A chuva de vento sul que caiu nesta segunda feira foi de espantar. Fazia tempo que não via uma tão forte. A luz dos postes acendia os pingos descendo em velocidade, formando fios brilhantes em contraste com o preto do céu. Verdadeira chuva de corda, como diria tio Newton.

A varanda da frente estava inteiramente alagada. Fui dormir certo de que acordaria com a casa molhada, sobretudo na sala e no quarto onde sempre desce água pelo ventilador. Goteira é algo que me remete à infância. Varanda também.

A varanda da nossa casa em Cachoeiro era um lugar fresquinho e de onde se podia avistar Teresa, metida nos seus patins de rodinhas de aço, fazendo charme.

Na de Marataízes, bem pequena, disputava-se lugar na rede depois da praia. De barriga cheia, deitávamos no cimento vermelho e geladinho para esperar a vez de balançar.

Da varanda da casa que moramos quando chegamos a Vitória, via-se o bonde passando. Nela quebrei o braço esquerdo ao tentar entrar na sala, pela janela.

Na rua Madeira de Freitas, todas as residências tinham varanda. A da nossa era lugar próprio pra ficar conversando. A parede da frente, em forma de arco, criava ambiente reservado, de aconchego. Foi nela que minhas irmãs namoraram para casar.

Confesso que sempre tive inveja dos freqüentadores da varanda da casa branca dos Micheline, que jogaram ao chão para construir um hotel enorme no lugar. Imagino que eles deveriam se sentir no tombadilho de um navio navegando entre as ilhas do Boi e do Frade e de onde se podia avistar as pedras das Andorinhas, a bombordo.

Na casa antiga que alugamos em João Pessoa, diante do mar de Manaíra, a varanda era ponto de encontro de professores e alunos. Bastava sentar na mureta que aparecia alguém pra discutir assuntos da universidade.

Ao construir nossa casa em frente a uma praça projetada, fizemos uma varanda virada pra dentro do terreno, em busca de sossego. Grande e na largura certa para armar muitas redes, ela era coberta com telha colonial. Freqüentador assíduo, eu armava minha rede em posição adequada para melhor aproveitar a fresca, botar sentido na plantação de feijão de corda e acompanhar o trabalho cuidadoso dos marimbondos.

Era bem estreita e comprida a varanda do último apartamento em Brasília, mas oferecia visão panorâmica do Planalto Central. Foi nela que Aurora cresceu e de onde voou pela primeira vez em direção ao gramado da quadra em frente.

Embora ofereça a vista do Convento por cima do muro alto, não gosto da nossa varanda atual. É lugar de passagem, pega o sol da tarde e não dá pra pendurar rede. Depois que ela recebeu a minha bancada de angelim-pedra, virou um ótimo lugar de trabalho. Por necessidade, criamos na lateral da casa um lugar próprio para a conversa correr frouxa, em volta de uma mesa grande.

Defendo que o projeto de uma residência comece pela varanda, que disputa com a cozinha a condição de lugar mais importante na moradia. Não é tarefa trivial conseguir um lugar adequado ao ócio produtivo e ao prazer de viver que considere o movimento do sol, a direção dos ventos, a textura do piso, a cor das paredes, a altura do telhado, a posição das colunas, a paisagem, a relação com os cômodos da casa e com o jardim, sem esquecer o pó de minério enriquecido, naturalmente.

Alvaro Abreu

Vitória, 03.03.2010

Escrita para A GAZETA