Cadeirinha
Entrou em vigor mais uma lei da modernidade. Por segurança, criança só poderá ser transportada dentro de condições estabelecidas. Daqui pra frente, quem precisar levar criança de um lado para outro tem que ter cadeirinha apropriada, que varia de formato em função da idade do transportado.
Alguém, de muita competência, deve ter intuído e argumentado com todas as próprias convicções que as crianças têm desenvolvimento personalizado e diferenciado. Duas variáveis serão usadas para aferir se o condutor do veículo está infringindo ou não o regulamento nacional: o peso e a idade da criança.
Assim, ao considerar essas duas dimensões, fica garantida uma margem de flexibilização (expressão que está entrando no nosso vocabulário para traduzir o tal jeitinho brasileiro) na aplicação da Lei da Cadeirinha.
Não será nada fácil decidir sobre a emissão de multas e advertências, exceto se o guarda de trânsito dispuser de balança pra pesar os moleques. Isso, sem falar na necessidade das mães carregarem na bolsa, junto com as fraldas descartáveis, a certidão de nascimento da sua prole.
Soube, por uma mãe aflita, que a cadeirinha poderosa que ela trouxe do estrangeiro não atende às exigências burocráticas, o que a deixa inteiramente ilegal ao conduzir a sua filha de poucos meses para passear na casa do avô ou para simples demonstração de boniteza e saúde em supermercados e festas de amiguinhos. É que a bendita cadeirinha não tem selo de qualidade do INMETRO.
Pessoa atirada e cheia de argumentos, ela decidiu correr o risco de sair por aí na mais perfeita ilegalidade, apostando que, ao menos por enquanto, os guardinhas não vão conferir tal quesito. Da minha parte, acho que até vai ter guardinha elogiando aquela cadeirinha americana.
Antes mesmo de sair a tal lei, que obriga o consumidor a comprar o tal produto, eu já estava vendo mães totalmente temerosas em ver a sua cria sendo conduzida no colo de tias e de avós, como sempre se fez. Estava criada mais uma dependência psicológica, a da cadeirinha.
Ri de uma dirigente das coisas do trânsito confessando a fragilidade da legislação quando aplicada ao transporte de crianças em vans, táxis, ônibus, metrôs e coisas assim. Recomendou que, não tendo cadeirinha no carro, não se dê carona para bebês. Ela estava constrangida.
Tive sorte. Não teria sido fácil criar cinco filhos dentro dessa lei. Além de ter que comprar os muitos equipamentos de segurança, teria de arranjar uma Kombi para dar conta. Impossível carregar tantas cadeirinhas numa Belina. Isso, sem falar que a filharada adorava viajar deitada lá na parte de traz, junto com as malas.
Confesso que gosto de ver a cara de felicidade dos meus netos sentados naquelas cadeirinhas. É bem verdade que eles sempre choram na hora de prender o cinto de segurança (ou seria por que não querem ir embora da casa do avô?). Parecem astronautas. Não há coração de mãe que resista.
Os comerciantes poderiam explorar isso nas propagandas, colocando crianças bochechudas em cadeirinhas coloridas, inteiramente afiveladas. Por hora, não estão precisando gastar dinheiro com propaganda. Os rigores da lei vão garantir as vendas por um bom tempo. As cadeirinhas já estão em falta.
Vitória, 10 de Junho de 2010
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
