Depois
Tenho visto muita gente incomodada com o andar desta eleição para presidente. Eu também ando sentindo desconforto com o rumo dos acontecimentos. Cada vez mais fico com a sensação de estar diante de uma espécie de peleja por cargos e poderes. Quem está dentro não quer sair, quem não está mais, pretende voltar.
Tenho amigos de todas as cores e tendências. Com alguns, consegui apostar nos resultados. Com outros, tenho preferido nem comentar as possibilidades de derrotas. Já não leio mais nada do que me enviam defendendo ou atacando candidatos. O preconceito tomou conta de meio mundo, a raiva transparece nas palavras.
Até o presidente, no alto de popularidade nunca vista, tem exacerbado. Tanto que me faz pensar no que será de nosso presidente quando estiver fora do cargo, seja influenciando a sucessora que inventou ou ficando ressentido com o candidato paulista que tenha lhe tirado o doce da boca. Ainda não consigo imaginar Lula como um ex-presidente. A popularidade dele é real, inusitada e deve perdurar. Preocupa um ex-presidente com tamanho prestígio marcando presença no cotidiano de quem esteja governando. A alternativa de ingressar em organismos internacionais, como se cogitou há algum tempo, pode estar comprometida pelo que andou fazendo durante a campanha.
Lemei-me do encontro que tive com Juscelino Kubitschek em pleno engarrafamento no viaduto soe a Praça 15, no Rio de Janeiro, numa manhã ensolarada de 1971. Ele surgiu ao meu lado quando a fila da esquerda andou mais rápido que a nossa. Eu estava ao volante de um Citroen preto de pára-lamas dianteiros longos e arredondados, igualzinho aos usados pelos bandidos nos filmes franceses, que um amigo do peito acabara de comprar.
Pois ali estava, a menos de um metro de mim, o homem que modificou a cara do Brasil, que estimulou o novo e fez surgir Brasília. Agora, cassado nos seus direitos políticos e banido da vida pública, enfrentava os mesmos engarrafamentos cariocas que todos nós. Em silêncio, ele apreciava a paisagem da Baía de Guanabara.
Ao ver que eu o cumprimentava respeitosamente com a cabeça, um sorriso começou a se air naquele rosto conhecido e a contração das bochechas fez seus olhos ficarem apertados. Ato contínuo, com a mão para cima, levemente espalmada para dentro, reviveu o gesto do estadista saudando o público. Um agradecimento feito com naturalidade e um olhar muito amistoso.
Embora aquele Opala escuro não fosse o Rolls Royce conversível da presidência e o engarrafamento nem de longe lemasse um desfile de 7 de Setemo, o passageiro que aparecia na sua janela da frente demonstrava satisfação por ter sido reconhecido pelo motorista do carro do lado. O trânsito da nossa faixa começou a fluir e, aos poucos, nos afastamos um do outro. Comigo ficou a sensação de que ambos, cada qual a seu modo, seguimos de alma leve naquela manhã de ail.
A magia daquele encontro voltaria a se repetir mais uma vez na praia de Copacabana, em circunstâncias bem parecidas. A cordialidade com que nos saudamos nas duas oportunidades me fez ficar com a impressão de ser um velho conhecido do Presidente JK, em quem eu nem cheguei a votar.
Não consigo ver Lula preso em engarrafamentos.
Vitória, 27 de Outuo de 2010.
Alvaro Aeu
Escrita para A GAZETA
