Depois

Depois

Tenho visto muita gente incomodada com o andar desta eleição para presidente. Eu também ando sentindo desconforto com o rumo dos acontecimentos. Cada vez mais fico com a sensação de estar diante de uma espécie de peleja por cargos e poderes. Quem está dentro não quer sair, quem não está mais, pretende voltar.

Tenho amigos de todas as cores e tendências. Com alguns, consegui apostar nos resultados. Com outros, tenho preferido nem comentar as possibilidades de derrotas. Já não leio mais nada do que me enviam defendendo ou atacando candidatos. O preconceito tomou conta de meio mundo, a raiva transparece nas palavras.

Até o presidente, no alto de popularidade nunca vista, tem exacerbado. Tanto que me faz pensar no que será de nosso presidente quando estiver fora do cargo, seja influenciando a sucessora que inventou ou ficando ressentido com o candidato paulista que tenha lhe tirado o doce da boca. Ainda não consigo imaginar Lula como um ex-presidente. A popularidade dele é real, inusitada e deve perdurar. Preocupa um ex-presidente com tamanho prestígio marcando presença no cotidiano de quem esteja governando. A alternativa de ingressar em organismos internacionais, como se cogitou há algum tempo, pode estar comprometida pelo que andou fazendo durante a campanha.

Lemei-me do encontro que tive com Juscelino Kubitschek em pleno engarrafamento no viaduto soe a Praça 15, no Rio de Janeiro, numa manhã ensolarada de 1971. Ele surgiu ao meu lado quando a fila da esquerda andou mais rápido que a nossa. Eu estava ao volante de um Citroen preto de pára-lamas dianteiros longos e arredondados, igualzinho aos usados pelos bandidos nos filmes franceses, que um amigo do peito acabara de comprar.

Pois ali estava, a menos de um metro de mim, o homem que modificou a cara do Brasil, que estimulou o novo e fez surgir Brasília. Agora, cassado nos seus direitos políticos e banido da vida pública, enfrentava os mesmos engarrafamentos cariocas que todos nós. Em silêncio, ele apreciava a paisagem da Baía de Guanabara.

Ao ver que eu o cumprimentava respeitosamente com a cabeça, um sorriso começou a se air naquele rosto conhecido e a contração das bochechas fez seus olhos ficarem apertados. Ato contínuo, com a mão para cima, levemente espalmada para dentro, reviveu o gesto do estadista saudando o público. Um agradecimento feito com naturalidade e um olhar muito amistoso.

Embora aquele Opala escuro não fosse o Rolls Royce conversível da presidência e o engarrafamento nem de longe lemasse um desfile de 7 de Setemo, o passageiro que aparecia na sua janela da frente demonstrava satisfação por ter sido reconhecido pelo motorista do carro do lado. O trânsito da nossa faixa começou a fluir e, aos poucos, nos afastamos um do outro. Comigo ficou a sensação de que ambos, cada qual a seu modo, seguimos de alma leve naquela manhã de ail.

A magia daquele encontro voltaria a se repetir mais uma vez na praia de Copacabana, em circunstâncias bem parecidas. A cordialidade com que nos saudamos nas duas oportunidades me fez ficar com a impressão de ser um velho conhecido do Presidente JK, em quem eu nem cheguei a votar.

Não consigo ver Lula preso em engarrafamentos.

Vitória, 27 de Outuo de 2010.

Alvaro Aeu

Escrita para A GAZETA

Arroz de Festa

Arroz de Festa

Fui passear na feira de Jardim da Penha na friagem da manhã de sábado. Há tempo que não a via tão cheia e animada. Quase uma festa, sobretudo para candidatos que faziam o corpo a corpo em busca de votos e apoio. Deve ser bom fazer campanha em feiras livres. O ambiente de camaradagem favorece o contato pessoal, o que não acontece em supermercados e nas ruas vazias dos bairros de classe média.

O movimento era grande no trecho das barracas de caldo de cana, ponto de parada obrigatória para comer pastel e, por alguns instantes, voltar no tempo. Como sempre, de pé, com a boca cheia e as mãos ocupadas, as pessoas pareciam estar de alma leve, respirando largo, inteiramente disponíveis para conversas amenas e abordagens de candidatos desconhecidos. Os mais gulosos, e não eram poucos, comiam o farto sanduíche de pernil acebolado.

Gosto de andar na feira sem rumo certo em busca de coisas para levar pra casa. As conversas com feirantes conhecidos são sempre amistosas e decisivas na hora da compra, inclusive pelos descontos que concedem. Acho que a expressão fim de feira começa a perder o seu sentido de preço de ocasião.

Sou freguês eventual da barraca de um homem falante que vende carne de porco e seus derivados, com quem sempre troco umas palavras. Dessa vez, ao velho estilo de João Moraes, pedi que embrulhasse um pedaço de chouriço, um pouco de lingüiça apimentada, uma manta pra fazer torresmo e um belíssimo joelho de porco defumado pra comer assado. Isso, na mais perfeita consciência de que tudo aquilo era relativamente rico em colesterol, mas de altíssima qualidade, é bom que se diga.

Mais adiante, quando escolhia aipim manteiga que estivesse soltando a casca com facilidade, um teste infalível para saber se vai amolecer ao cozinhar, me apareceu um casal de amigos, que não via há tempos. Feira também é lugar para encontrar pessoas que já não mais estão à vista nas cidades que crescem rápido. Pelo jeito, os pequenos prazeres domésticos haviam entrado na vida daqueles dois. Estavam realizados. As sacolas ecológicas trazidas de casa estavam abarrotadas. Antes, eles só iam à feira em missão de panfletagem de candidatos de oposição. Isso, até conseguirem ganhar as primeiras eleições.

Rindo, lembramos do jantar de inauguração do apartamento que eles haviam comprado pra casar. Sem qualquer intimidade com os assuntos do lar, resolveram convidar amigos para comemorar a novidade na base do “ajunta pratos” e muito vinho tinto chileno de boa relação custo-benefício.

Casa cheia e animada. Na varandinha, a conversa dos maridos girava em torno das eleições que se aproximavam. Na sala, amigas desde o tempo da universidade e do movimento estudantil, as mulheres discutiam assuntos da administração da cidade. É que elas tinham passado da militância política para a prática contundente.

Mas a graça dessa história aconteceu na cozinha, onde encontrei a dona da casa e duas amigas inteiramente mobilizadas com os preparativos para servir o jantar. Para ajudar, tratei de ligar o forno novinho para esquentar as travessas de torta de bacalhau e acender a boca de fogo da panela de bobó de camarão, enquanto elas debatiam alternativas para equacionar um outro problema relevante. Nenhuma daquelas influentes executivas sabia como esquentar o arroz.

Vitória, 18 de agosto de 2010.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Aposta

Aposta

Ganhei uma aposta que fiz com um grande amigo. Apostei que haveria segundo turno nas eleições presidenciais. Uma aposta simbólica, apenas para arranjar assunto para a nossa conversa de mais de três décadas e muitas eleições.

A aposta foi modesta, um simples pedaço de queijo. Na verdade, peguei carona na discussão que se formou na saída do prédio e tratei de entrar na aposta que dois amigos acabavam de fazer, tendo por prêmio duas garrafas de um bom vinho. Achei por bem casar um pedaço de queijo. Assim, poderíamos saborear a vitória com mais satisfação, qualquer que fosse o vencedor.

Tenho gosto pela análise do quadro político. Divirto-me acompanhando os acontecimentos que se sucedem no mundo dos homens e das coisas da política, do que se move pela força das conveniências e convicções pessoais e das oportunidades que surgem. Gosto de juntar fragmentos de notícias, palavras ditas, gestos fotografados e reuniões anunciadas. Tento entender o que dizem os jornais diários e as televisões abertas e fechadas, que estão sempre querendo distrair as minhas atenções e dissipar o meu cansaço.

Vejo pouco o que circula na internet, o suficiente para ter noção da movimentação de pessoas agindo em favor do que acreditam, totalmente fora do encalço de quem pretenda controlar as suas idéias, ligações e palavras.

Minha caixa de mensagens anda abarrotada de manifestos e denúncias de todo tipo, além de maldades engraçadas e deboches para todo gosto. Um perigo para qualquer candidato feio, careca, cabeça dura e para qualquer candidata dentuça, inventada, mãe disso e daquilo. A caricatura desnuda as características cuidadosamente escondidas pelos marqueteiros. A graça da piada dissolve a sisudez dos textos raivosos e dá cor às denúncias e cobranças que circulam na rede. O riso continua sendo uma arma mortífera.

Chegam, também, mensagens relembrando declarações, gestos e discursos acontecidos em outros tempos quem infernizam a vida dos candidatos. Não há como escapar do impacto de uma imagem verdadeira.

Curioso, tenho pedido a opinião de pessoas que encontro no elevador, na fila do restaurante, na barraca da feira sobre os resultados do segundo turno. Vencida a desconfiança, recebo respostas que expressam estados de alma consistentes, fonte de voto convicto. As justificativas são variadas, mas quase sempre expressam a força da propaganda, o poder do marketing, os interesses de igrejas. Quase nada sobre programas de governo.

O que parecia ser uma vitória líquida e certa se transformou em algo imprevisível. Eu bem que gostei de ter um segundo turno. Abre espaço para embates mais verdadeiros entre os candidatos e força a revisão de acordos entre forças políticas. Aos eleitores, ele oferece chance para avaliações mais ponderadas.

Na véspera do feriado, em volta de uma grande mesa, comemos o queijo e bebemos o vinho da tal aposta entre amigos. Riu-se muito das opiniões sinceras e dos desejos inconfessos, das análises tendenciosas e, sobretudo, das controvérsias. Sem qualquer possibilidade de acordo sobre os resultados da eleição, decidiu-se abrir nova rodada de apostas, embora não tenha sido possível fixar o percentual de votos de quem vai perder a chance de ser presidente do Brasil.

Alvaro Abreu

Vitória, 13 de Outubro de 2010

Escrita para A GAZETA

Faxina

Faxina

Há tempos os cupins haviam comido boa parte do armário de um dos quartos da nossa casa. Longe dos olhos do dia a dia, o assunto foi ficando pra depois, até que a hora da desocupação chegou de supetão. O marceneiro viria à tarde e era preciso esvaziar as prateleiras e gavetas que haviam sobrado.

Naquele armário corroído em suas estruturas, estava boa parte do que foi sendo acumulado pelos filhos até saírem de casa, levando apenas o que lhes pareceu indispensável para viver em outro lugar. Como o que vem vindo pela frente é incerto, melhor é partir aliviado do que precisará ser guardado no novo destino. Todo mundo faz isso. É coisa do bicho homem, isso de não dispensar o que foi juntado durante anos. Também foi assim comigo, quando fui estudar no Rio. Ainda bem. Dia desses, recolhi da casa de mamãe uma caixa de cartas de remetentes já quase esquecidos. Trouxe junto uma caderneta do Salesiano. Os objetos velhos servem para preservar vínculos com épocas e lugares.

Eu sabia que iria encontrar naquele armário somente coisas sem qualquer utilidade aparente para os atuais moradores da casa. Inservíveis, como se diz no jargão do serviço público. Objetos desgastados pelo uso, surgidos de modismos passageiros, obsoletos pelos avanços tecnológicos, inutilizados por falta de partes fundamentais. Tralha, pura tralha: caixas de jogos de ficha, cadernos encardidos, pé de pato solitário, capas de máquina fotográfica, um mapa de Paris, cassetes, muitos cassetes. Livros de biologia, chapéu de feltro, peças de Lego, baralho incompleto, várias canetas ressecadas, bilhete de metrô, além de mouses, fones de ouvido, caixinhas de som e pilhas sem nenhuma energia.

Nas empresas, os homens também acumulam grandes quantidades de coisas inúteis. Estudiosos e consultores pregam a necessidade de livrar o ambiente de trabalho de tudo aquilo que não serve mais, que ocupe espaço inutilmente. A qualidade total pressupõe limpeza e organização.

Nas igrejas, nos terreiros, nas clínicas e hospitais os homens buscam ajuda para se livrarem do que lhes entristece a alma e lhes perturba a cabeça, fundamental para que possam viver sem o peso dos próprios pecados, sem os incômodos de seus traumas e sem medo de antigos fantasmas, acreditando na salvação. A cachaça também liberta e ajuda a esquecer.

Na democracia, as eleições existem para permitir que a limpeza dos armários públicos aconteça com data marcada, mediante a troca dos partidos e dos governantes. Ao menos em tese. É que os marqueteiros de campanha, todos regiamente pagos, estão se aprimorando cada vez mais na arte de moldar a imagem e as atitudes dos candidatos para torná-los mais convincentes e palatáveis aos olhos dos eleitores.

Aprendi com a vida que o poder revela a alma e o caráter de quem o detenha. Ao se ver livre de quem lhe imponha limites e respeito, o poderoso passa a agir guiado por seus próprios instintos, valores e interesses. Pessoas tornadas poderosas repentinamente podem exercer o mando de forma ainda mais imprevisível, naturalmente. Ao que tudo indica, só mesmo depois da posse é que se vai poder conhecer na prática a pessoa que exercerá os poderes presidenciais nos próximos anos. É cruel.

Alvaro Abreu

Vitória, 29 de Setembro de 2010.

Escrita para A GAZETA

67

67

Fui ao cinema ver o documentário sobre o festival da TV Record, em 1967. Levei mãe, mulher e filha com namorado. Três gerações diante de um mesmo acontecimento, três olhares diferentes sobre o que aconteceu em São Paulo, na efervescência de um tempo de muitos embates e divergências. O país estava dividido na política, começando a adotar roupas coloridas, experimentando novos tipos de droga, incorporando valores e ouvindo sons estranhos.

Para quem viveu aqueles anos conturbados o filme traz de volta as mesmas emoções sentidas. Quem desconhece ou só ouviu falar por alto pode entender um pedaço do Brasil que surgiu naquela época pela voz e atitudes das pessoas que aparecem na tela, em preto e branco. Caetano, Chico, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Edu Lobo cantando enquanto Sérgio Ricardo jogava o violão na platéia por não conseguir cantar.

Um mundo artístico livre da força do marketing profissional, apresentadores televisão modestos e espontâneos, fumantes inveterados dando entrevistas ingênuas e declarações reticentes. Auditório repleto de moças paulistas de brincos e colares reluzentes. A rivalidade amistosa entre artistas recém chegados às paradas de sucesso, uns mais inovadores e arrojados do que outros, todos talentosos. Vi imagens da passeata contra guitarras na música brasileira, de que já nem me lembrava mais.

Sempre achei que a música, mais do que as fotos, nos ajuda a reviver em detalhes experiências pessoais.

Mais Que Nada, tocada por Sérgio Mendes, me leva de volta ao desfile da Rhodia no Saldanha da Gama, onde seis ou sete manequins aceleraram os corações de meio mundo. A cadência de Desafinado até hoje me deixa sentado na varanda de piso de marmorite da casa de amigo como no início dos anos 60. O Calhambeque me faz subir as escadas do Clube Vitória para ouvir o Rei mandar Tudo pro Inferno.

Ouvir Banho de Lua de Celly Campello me proporciona a satisfação de ter driblado o controle do porteiro do Álvares Cabral na Praça Costa Pereira. A Benção de Vinícius me leva às domingueiras do IBEU de Luiz Paixão e Satisfaction dos Rolling Stones sempre me faz dançar de olhos fechados na pista da Boate Boteco. Os acordes iniciais de Chove Chuva, das poucas coisas que sei tocar no violão, me colocam diante das eletrolas de Jairo Maia no Praia Tênis Club, enquanto a suavidade de Georgia on My Mind na voz de Ray Charles me faz lembrar as tentativas de conquistar moças mais renitentes.

Bandeira Branca arrasta meus pés e levanta meus braços lá no Siribeira em Guarapari e Preta Pretinha me convida para ir novamente ao meu casamento lá em Itaipava, no Estado do Rio. Lança Perfume de Rita Lee reaviva em mim os tempos em Brasília e a letra de Vai Passar, do Chico, me coloca feliz nas comemorações pelo fim da era dos presidentes militares.

Visitei a exposição dos 50 anos de carreira de Roberto Carlos. Na saída, à espera do taxi, tive a sensação de ter acabado de assistir o trailer de um musical sobre os tempos que tenho vivido. Vi a mesma expressão de saudade boa estampada no rosto emocionado dos muitos que estavam ali, ao meu lado, olhando aquela chuva grossa cair.

Vitória, 15 de Setembro de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Neeennsseeeeee

Neeennsseeeeee!

Muricy não aparece na foto do encarte distribuído por A GAZETA nesta segunda feira, em homenagem aos torcedores do Fluminense, que se sagrou campeão brasileiro de 2010, exatos 26 anos depois da última conquista de campeonato disputado pelos melhores clubes de futebol do país.

Tradicionalmente esse tipo de registro é feito antes do jogo. Nele sempre aparecem os jogadores titulares e os reservas, treinador, massagista, preparador físico, médico, diretor de futebol, psicólogo, roupeiro, amigos do diretor, filhos de dirigentes e agregados afins. Nesta foto histórica para os tricolores capixabas contei 19 atletas uniformizados e prontos para o combate, 17 profissionais vestindo agasalho verde e branco, 24 crianças vestidas de futuros campeões e uma moça com jeito de professora de escolinha de futebol.

Muitos dos jogadores aparecem sorridentes, alguns demonstram tensão, dois fazem pose de beque central violento e um está com cara de ponta esquerda irrequieto. Os homens de retaguarda, gordinhos e carecas, demonstram ansiedade. Só dois deles estão confiantes. As crianças aparecem com as melhores caras deste mundo, felizes de estarem ali, ao lado dos ídolos, no colo do pai goleador.

Por certo todas elas guardarão fotos distribuídas por jornais e revistas para serem usadas como prova inconteste de que estiveram naquele estádio lotado, naquele dia de gloria do clube do coração. Jamais se esquecerão de terem participado daquele momento especial na trajetória do time tricolor carioca. É coisa para o resto da vida.

Digo isso porque guardo uma fotografia 18×24 em preto e branco que registra um acontecimento no centro do gramado do estádio do valente Cachoeiro Futebol Clube, lá da minha terra. Nela aparecem homens do esporte, autoridades municipais e alguns atletas ouvindo, atentos e circunspectos, o que meu pai dizia ao microfone da rádio da cidade, que o locutor desportivo segurava à sua frente.

É bem provável que tenha sido uma pequena solenidade de despedida do diretor do clube, que estava de partida com a família inteira para a Bolívia, onde iria trabalhar como consultor em saúde pública por dois anos.

Nela estão também os três filhos do Dr. Bolívar, metidos em calça curta e suspensórios,como parte de uma cena que inclui ao fundo uma arquibancada alta de madeira com guarda corpo e telhado. Nem sei se ainda existem vestígios daquele velho estádio lá no bairro Baiminas que guardo no papel.

Não me lembro do dia em que comecei a torcer pelo Fluminense no meio de uma família de flamenguistas e ao lado de um irmão mais velho vascaíno doente. Pode ter sido depois de alguma defesa espetacular de Castilho ou Veludo, narrada com entusiasmo pelo locutor da rádio Nacional.

O fato é que permaneço fiel ao gigante das Laranjeiras até hoje, com o mesmo entusiasmo da amiga que me telefona sempre, na derrota ou na vitória, a mesma convicção do vizinho que estendeu uma bandeira tricolor na varanda da casa e de um velho amigo que vive com a família em Viena, onde terá aberto as janelas para gritar “neeennnsseeeee!, “neeennnsseeeee!” depois do gol por entre quatro pernas adversárias e, sobretudo, do esperadíssimo final da partida.

Torço para ver Muricy na fotografia da conquista da Libertadores.

Vitória, 08 de dezembro de 2010

Álvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cachorrada

Cachorrada

Depois do jantar em família, fui tomar uma fresca na varanda e ver o movimento dos carros e dos aviões. Nesse horário, o trânsito é lento e a rua fica inteiramente tomada por automóveis, camionetes e ônibus. Dalí, daquele segundo andar, também dá pra apreciar o movimento de pessoas na calçada. Vi um senhor magrinho de tênis, uma loura de demonstração, dois recém-casados, um rapaz bem gordo e um careca com cara de quem gosta de cerveja. Cada um com um cachorro preso a uma guia. O saquinho, na outra mão, atestava que eram cidadãos politicamente corretos. Cenas típicas de cidade grande, de lugar onde crianças já não brincam nas ruas.

Sou do tempo em que os cachorros viviam soltos, comiam comida de panela e só tomavam vacina anti-rábica. Nada de pet-shop nem de dentista.

Braine, um pastor alemão brincalhão e inteligente, era o mascote da turma de adolescentes que freqüentava a antiga Rua da Árvore e praia do Barracão. Ao perceber a movimentação dos filhos de Seu Zé Ramos, ele abocanhava o pau da barraca de sol, entortava o pescoço pra passar na porta do quartinho e ia esperar no portão da frente. Era um banhista animado e convicto. Dava cambalhota pra trás e nadava para buscar a bolinha de frescobol arremessada longe. Nessa época, cachorro podia ir à praia. Hoje, nas areias lotadas, existem tabuletas proibindo animais e prometendo multa aos donos. Embora livre do bicho geográfico, o mundo ficou mais sem graça.

Zorro, um vira-lata de boa estatura, branco com manchas marrons, era tido por meu irmão Afonso como pai de todos os cachorros malhados da cidade. Ele afirma, orgulhoso, que encontrou o danado perseguindo cadela no cio lá pelas bandas da rodoviária. É bom que se diga que Zorro ajudou a criar os três filhos do casal. Acompanhava os meninos onde quer que fossem e só voltava pra casa junto com eles. Depois de velho, esparramado na varandinha da casa de esquina, abria um olho só para conferir quem chegasse. Afonso tratou de arranjar um poodle para acordá-lo em caso de perigo iminente.

Não conheci o cachorro de mamãe lá em Cachoeiro. Ganhei intimidade com Zig Braga através das suas histórias. Dizem que Zig tinha raiva de homem fardado e do carteiro, que reclamava com vovó Neném se o angu estivesse mal cozido e que ao vê-la em sapatos de salto descia correndo as escadas para esperá-la no caramanchão. Há quem se lembre daquele cachorro enorme andando ao lado dela em suas idas ao comércio, à igreja ou em visita a parentes. Onde não podia entrar, esperava deitado na calçada. Mamãe conta que Zig provocava grande alvoroço na saída do Liceu, do outro lado do rio Itapemirim, onde ia buscá-la diariamente.

Bingo é um cachorro tímido, meio triste, mas muito gentil. Embora já quase todo branco de velhice, meio surdo e enxergando pouco, faz por merecer o apelido de “vovô garoto”, tamanha a vitalidade que exibe ao sair pra rua. No quintal, está sempre com cara de coitado. Quando precisei, foi uma companhia solidária e silenciosa. Kill e Bill completam o trio de bassets da casa. Kill é preto, parrudo e super-simpático. O outro, bem menor e marrom, é medroso que só e veio trazendo traumas de infância. Estão sempre juntos, dormem enroscados e adoram meus netos. Manu, nos seus dois anos e meio de idade, faz cara de domadora ao dar, com parcimônia, bolinhas de ração na boca de cada um.

Vitória, 04 de Agosto de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Baleias

Baleias

Notícia de baleia morta na praia faz lembrar o que vi em Costinha, uma vila de pescadores na foz do rio Sanhoá, bem em frente de Cabedelo, na Paraíba. A caça da baleia era feita em alto mar e seu resultado mostrado como atração turística em terra firme. Corria o ano de 1987.

As baleias vinham amarradas pela cauda nos costados do pequeno navio japonês. Três, cinco, oito, dependendo do dia. Depois de soltas, ficavam boiando até que fossem rebocadas por um guincho, uma de cada vez,  praia acima até um grande cimentado, onde quatro homens de branco, impecavelmente limpos, as aguardavam. Dois de cada lado.

De pé, imóveis, eles olhavam atentamente para a baleia que se aproximava. Cada qual segurando firme, com as duas mãos, a sua ferramenta de trabalho: um grande cabo de madeira com uma lâmina de aço presa na ponta.

Naquela posição, pareciam atletas de salto com vara, concentrados, aguardando o momento certo para começar a agir. Não saberia dizer o que pensavam aqueles homens, nem o que sentiam, mas dava pra ver que eles estavam ansiosos. Éramos uns duzentos espectadores olhando tudo bem de perto.

Quando o rabo da baleia chegou diante dos homens, cada qual pressionou sua lâmina sobre a pele preta. Na medida em que o corpo ia passando por aquelas navalhas afiadíssimas, a pele ia sendo dividida em tiras longitudinais, da cauda até a cabeça.

Presas a cabos de aço, as tiras iam sendo arrancadas, como casca de banana. O barulho era desagradável, de algo sendo esgarçado, descolado. Junto com a pele saia também uma grossa camada de gordura. Na verdade, ao parar, a baleia estava literalmente descascada, restando uma enorme massa de carne sangrenta e escura.

As barbatanas e a cauda foram rapidamente amputadas com a ajuda de lâminas pontiagudas. O serviço exigia perícia. Os homens aplicavam golpes, certeiros e sucessivos, cada qual com seu estilo. O ritmo era um só, frenético. A habilidade e a frieza daqueles trabalhadores aumentavam o impacto produzido pelos cortes profundos na carne vermelha. Muita gente não agüentou a cena e abandonou o lugar.

Com golpes longos e arredondados, agora com lâminas mais largas, eles iam produzindo, com facilidade, planos horizontais e verticais naquele tecido fibroso. Nacos, tiras e espécie de tijolos de carne iam sendo jogados em caixas brancas que, cheias, eram levadas em carrinhos de mão para um galpão ao lado. Lá seriam recortados em pedaços menores e embalados para exportação. O restante seria transformado em carne de sol. Os ossos eram levados num caminhão. Com um jato de água muito forte, lavaram o que havia de sangue pelo chão para um ralo enorme.

Em menos de meia hora, aqueles homens de branco haviam feito uma baleia inteira desaparecer diante dos meus olhos. Enquanto esperavam a próxima, eles conversavam afiando suas ferramentas. Não há como esquecer o que vi.

Hoje, a pesca está proibida no Brasil. Muitas centenas de baleias, sobretudo, Jubarte passam uma boa parte do ano na região de Abrolhos. Salientes, em festa de acasalamento, esguicham água, saltam e abanam a cauda, para quem quiser ver. Chegam em pequenos grupos, no meio do ano, em busca das nossas águas quentes. Pelo que sei, é quando alguma se desgarra, perde o rumo e encalha no raso da praia.

Baleia na areia é uma cena triste, que faz pensar na morte e na vida.

Alvaro Abreu

Vitória, 01 de Setembro de 2010

Escrita para A GAZETA

Assustado

Assustado

Tenho andado meio assustado com as mudanças que estão acontecendo em Vitória, que conheço desde 1958, quando meu pai veio trabalhar aqui, trazendo família numerosa, pensando que voltaria em breve para Cachoeiro. Na época, o fluxo migratório era na direção do Rio de Janeiro, para onde os mais dispostos iam em busca de oportunidades de estudo e trabalho. Talvez nossa família tenha sido uma das pioneiras nesse movimento..

Vitória era um lugar pacato, bucólico, tranqüilo e muito simpático. Ruas vazias, pessoas conhecidas, portas abertas. Lembro-me de ter ficado impressionado com os prédios de dois andares da Avenida Cesar Hilal, recém construídos. Praias com pouca gente, clubes e pouquíssimos bares e restaurantes. Dois ou três, no máximo. Ouvia-se falar de um cassino lá pelas bandas de Campo Grande e de uma boate no Clube Vitória, no Parque Moscoso. Eram poucos os cursos universitários, direito, odontologia, engenharia e olhe lá. O minério de ferro escoava pelo cais do Pela-Macaco e a região da beira do canal começava a ser aterrada. Que eu me lembre, chaminé, só mesmo a da torrefadora de café na Avenida Vitória.

As compras da casa eram feitas em um armazém na Jerônimo Monteiro, encomendadas pelo telefone, que só precisava de quatro números para funcionar. 7261 era o nosso, 7314, o dos Larica. Havia quem soubesse a placa do carro e o telefone de quase todo mundo.

Quando voltei para Vitoria em 1987, também trazendo família numerosa, a sensação era a de estar voltando pra casa, para um lugar onde conhecia muita gente, onde saberia encontrar mecânico habilidoso, peça para geladeira, anzol de todo tipo e até fábrica de picolé.

Confesso que não estou conseguindo acompanhar as mudanças que ocorrem diariamente. Toda semana tem lançamento de prédio e inauguração de restaurante trazido de longe, de casas de diversão e de revendedora de carros caríssimos. Jornais alardeiam oferta de empregos e oportunidades petrolíferas, siderúrgicas e portuárias. Pipocam as ofertas, assanham-se as expectativas de sucesso pessoal e empresarial.

Cresce a oferta de cursos para quem precise se preparar para conseguir emprego e salário melhor. As prestações do consumo pressionam por mais dinheiro. Os restaurantes estão lotados de pessoas falantes, sem tempo pra comer. Isso sem falar na expansão vertiginosa do tráfico de drogas, nos crimes por disputa banal ou por cobrança de dívida e nos assaltos em busca de dinheiro fácil.

Faltam vagas. Já não se sabe onde estacionar o carro novo. Soube que o esquema multa e reboca voltará a funcionar em breve e com apetite redobrado do poder público e dos donos de guincho. A indústria da multa, fundada em normas politicamente corretas, sustenta muita gente.

Dia desses, recebi de um amigo que vive em Madri um estudo sobre o futuro de Curitiba. Dá gosto de ver. Um grupo enorme de pessoas foi instigado a dizer o que deveria ser feito e o que não poderia acontecer na cidade. Mais de noventa páginas registram os resultados do esforço generoso em favor de um lugar melhor para se viver. Algo semelhante foi feito aqui em Vitória na virada do século. Acho que já passou da hora de sentarmos novamente para escolhermos o futuro.

Confesso a minha aflição. Sinto-me passageiro de um trem desgovernado.

Alvaro Abreu

Vitória, 21 de Julho de 2010

Escrita para A GAZETA

Dedo quebrado (ex- Para Sempre)

Dedo quebrado (Para Sempre)

Carrego no dedo médio da minha mão esquerda o resultado de uma decisão que tomei no primeiro dia das férias de verão, há mais de quarenta anos. O cenário era a quadra de cimento do Praia Tênis Club e eu estava no gol.

Durante um bom tempo, fui goleiro de futebol de salão, uma das mais ingratas funções no mundo esportivo. A bola é pesada e os chutes, todos, são dados à queima roupa. Era dia de treino do nosso time. Alguém enfiou o pé com vontade, a bola desviou no beque e bateu na ponta dos meus dedos. A dor foi forte, dessas de escurecer a vista. Sentado no banco dos reservas e com a mão dentro do balde com gelo que arranjaram no bar, fiquei pensando no dedo e na vida.

Se ele tivesse quebrado, haveria de engessar a mão por uns trinta dias. As férias estavam apenas começando e, além do mais, a competição estadual de natação seria na semana seguinte. Gesso e água não combinam. Muita gente conhece minha fama de nadador vitorioso. Não seria um dedo inchado que iria me impedir de ganhar mais umas medalhas. Imediatamente decidi não engessar. Para que pudesse nadar, bastava enfaixar o bendito dedo junto com os dois vizinhos. Foi o que fiz. Guardo até hoje as medalhas e esta marca da gana de vencer e da imprudência de rapaz.

Soube pelos jornais que vão construir um supermercado no lugar daquele clube, em que passei boa parte dos anos dourados da minha juventude. A piscina onde nadei quilômetros, o campo em que disputei peladas e jogos oficiais, a quadra de tênis onde Morris Brown sempre vencia, as varandas onde namorei bastante e a pista de dança onde tudo começava. Não mais freqüento aquele lugar e já nem sei o que existe lá dentro. Sei apenas que passar diante de um supermercado não me ajudará a relembrar histórias e façanhas que vivi ali.

Soube, também pelos jornais, que estão querendo construir uma usina termoelétrica movida a gás, bem na Ponta do Tubarão. Como tem sido usual, a notícia tinha tom ufanista e um forte cunho promocional. A empresa, em busca de simpatia e aprovação, ressaltava as vantagens do empreendimento, destacando a geração de muitos empregos temporários.

Confesso que fiquei preocupado. Uma obra dessas se inclui no rol das coisas definitivas, daquelas que podem afetar uma população inteira, por toda a sua vida. Seria mais uma chaminé funcionando a todo vapor, exatamente na reta por onde passa o vento nordeste a caminho de Vitória.

Não sou um especialista em termoelétricas. Nem tão inocente a ponto de acreditar que elas só trazem benefícios. Todas elas têm chaminés por onde sempre escapam nitratos e sulfatos em quantidade. A altura delas não reduz as emissões, quando muito, influencia na distribuição espacial da sujeira. Os detalhes estão na internet.

Aprendi, com as perdas evitáveis e os danos irreversíveis, que a qualidade de uma decisão sobre assunto tão relevante depende da legitimidade das hipóteses adotadas, da honestidade das previsões e, sobretudo, do rigor da avaliação que se faça de suas conseqüências.

Usando o meu dedo quebrado como argumento e utilizando o bom senso que a idade me deu, defendo com boa convicção que se encontre lugar mais adequado para instalar a tal usina e que se tome o máximo cuidado para garantir que o supermercado não vá piorar ainda mais o trânsito da avenida.

Vitória, 23 de Junho de 2010.

Escrita para A GAZETA

Alvaro Abreu