Definitivos

Para sempre

Os últimos dias foram determinantes para o Espírito Santo e talvez muita gente nem tenha se dado conta disso. Soube-se pelos jornais que foram aprovados mais três mega empreendimentos ao longo da costa capixaba: um porto na Praia das Neves , um estaleiro em Aracruz e uma siderúrgica enorme disso, foi anunciado o início da construção de mais uma usina de pelotização, bem ali no planalto de Carapina. É muita coisa.

Li também que as obras do aeroporto devem ser retomadas no segundo semestre deste ano, embora ninguém garanta. Essa novela já virou questão militar: o Exército está encarregado de elaborar os projetos executivos que deveriam ter sido feitos obrigatoriamente antes, para fundamentar a concorrência pública. Contratar uma obra dessas sem ter as informações técnicas detalhadas é como pretender fazer um hospital sem conhecer as especificações das fundações, sem saber a quantidade de apartamentos nem a posição do centro cirúrgico. É entregar a faca, o queijo e a goiabada para a festa da bandidagem.

As notícias sobre os projetos disputaram espaço com as do carnaval, com fotografias de mulheres saradas na passarela. A siderúrgica ganhou página inteira, recheada de declarações cuidadosas, enquanto os outros projetos mereceram apenas umas poucas linhas, com informações superficiais e truncadas. A proibição do jogo de frescobol na praia ganhou mais espaço na imprensa e atenção dos leitores.

A fotografia do auditório onde se decidia a sorte da siderúrgica mostrava homens ansiosos. Estavam em jogo um intrincado conjunto de interesses e muito dinheiro. Bem posso imaginar a esperança dos donos de empresas de engenharia e de imobiliárias que vendem terrenos e apartamentos, dos proprietários de postos de gasolina, dos gerentes de supermercado, das pessoas que precisam trabalhar e até dos vendedores de caranguejo. Todos a favor da aprovação. Objetivos e pragmáticos, os homens se movem por suas expectativas de curto prazo. Os responsáveis pelo empreendimento devem ter realçado seus benefícios econômicos para reforçar posições junto à população e aos governos.

Por lei, as questões ambientais foram obrigatoriamente consideradas pelo plenário. Mesmo porque tem gente sendo muito bem paga pelo empreendedor para identificar os impactos potenciais da obra e, sobretudo, para minimizar o que deve ser feito para prevenir tragédias, compensar os estragos e consertar o que será detonado. São os tais negócios ambientais.

Bem posso imaginar as dificuldades técnicas e a impotência de uns poucos abnegados ao pretenderem discutir os resultados dos estudos apresentados. Nessas situações, apontar fragilidades e imperfeições no trabalho alheio é sempre visto como algo inoportuno. Exigir que o responsável assuma a conta inteira do conserto, mais ainda.

O fato é que o colegiado decidiu pela autorização da construção de uma usina que vai funcionar para sempre o bem e para o mal. E é justamente aqui onde mora o perigo da conjugação do poder de compra das grandes empresas com os interesses imediatos dos homens, o beneplácito do poder público e a desinformação coletiva. Uma siderúrgica é uma indústria muito incômoda. Quem mora perto de uma delas, como eu, sabe muito bem disso.

Vitória, 09 de Março de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Para sempre 2

Para sempre

Os últimos dias foram determinantes para o Espírito Santo e pode ser que muita gente não tenha se dado conta disso. Soube pelos jornais que foram aprovados mais três mega empreendimentos ao longo da costa capixaba: um porto na praia das Neves em Presidente Kennedy, um estaleiro em Aracruz e uma siderúrgica enorme em Anchieta. Além disso, foi anunciado o início da construção de mais uma usina de pelotização, bem ali no planalto de Carapina. É muita coisa.

Li também que as obras do aeroporto devem ser retomadas no segundo semestre deste ano, embora ninguém garanta. Essa novela já virou questão militar, pois o Exército está encarregado de elaborar os projetos executivos que deveriam ter sido feitos obrigatoriamente para fundamentar a concorrência pública. Contratar uma obra dessas sem ter as informações técnicas detalhadas é como pretender fazer um hospital sem conhecer as especificações das fundações, sem saber a quantidade de apartamentos, nem a posição do centro cirúrgico. É como entregar a faca, o queijo e a goiabada para a festa da bandidagem.

As notícias sobre os projetos disputaram espaço com as do carnaval, com fotografias de mulheres saradas na passarela. A siderúrgica ganhou página inteira, recheada de declarações cuidadosas, mas os outros projetos mereceram apenas umas poucas linhas, com informações superficiais e truncadas. A proibição do jogo de frescobol na praia ganhou mais espaço na imprensa e atenções dos leitores.

A fotografia do auditório onde se decidia a sorte da siderúrgica mostrava homens ansiosos. Estavam em jogo um intrincado conjunto de interesses e muito dinheiro. Bem posso imaginar a esperança dos donos de empresas de engenharia e de imobiliárias que vendem terrenos e apartamentos, dos proprietários de posto de gasolina, dos gerentes de supermercado, das pessoas que precisam trabalhar e até dos vendedores de caranguejo. Todos a favor da aprovação. Objetivos e pragmáticos, os homens se movem por suas expectativas mais imediatas. Os responsáveis pelo empreendimento devem ter realçado os seus benefícios potenciais para reforçar suas posições junto a população e aos governos.

Preocupações com o futuro da região também devem ter sido consideradas. Tem gente ganhando um bom dinheiro identificando os impactos potenciais da obra e tentando minimizar o que deve ser feito para prevenir tragédias, compensar os estragos e consertar o que será detonado. São os negócios com o meio ambiente.

Bem posso imaginar as dificuldades técnicas e a impotência de uns poucos abnegados em pretender discutir os resultados dos estudos apresentados. Apontar fragilidades e imperfeições no trabalho alheio é sempre visto como algo inoportuno. Exigir que o responsável assuma a conta inteira do conserto, mais ainda.

O fato é que o colegiado decidiu pela autorização da construção de algo definitivo, de uma usina que vai funcionar para sempre em Anchieta. Para o bem e para o mal, também. E é justamente aqui onde mora o perigo da convergência entre ganância dos homens, fragilidade do poder público e desinformação coletiva. Uma siderúrgica é uma indústria muito incômoda. Quem mora perto de uma delas, como eu, sabe muito bem disso.

Vitória, 09 de Março de 2011

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Newton Braga

Newton Braga

Na semana passada, uma comitiva oficial da Prefeitura de Cachoeiro veio especialmente a Vitória para comunicar a Dona Gracinha, minha mãe, que ela tinha sido escolhida para ser a Cachoeirense Ausente de 2011. O nome dela, Anna Graça Braga de Abreu, foi definido por aclamação em reunião convocada especialmente para tratar dos festejos do centenário de nascimento de seu irmão, o saudoso Newton Braga.

Durante a conversa, ela, que não cabia em si por se saber lembrada pela gente da sua terra, declarou disposição em participar de todos os eventos da programação. Para quem não sabe, a maratona começa no trevo da Safra, na BR 101, com a entrega da chave da cidade ao homenageado, que depois é levado em cortejo até o Centro Operário de Proteção Mútua, onde se reafirma a tradição de saudar pessoas honradas. Desta vez se lembrarão de seu pai, Chico Braga, primeiro prefeito de Cachoeiro e fundador daquela entidade centenária de ajuda às famílias mais carentes.

A Câmara de Vereadores se reunirá em sessão festiva para a entrega do título à Cachoeirense Ausente e de diplomas a outros conterrâneos, por seus feitos e méritos, tudo isso após os discursos de praxe. Na manhã seguinte haverá desfile escolar com a Banda do Liceu tocando alto para cadenciar a marcha dos alunos e o malabarismo das balizas que rodopiam à sua frente. O sol estará quente, mas ninguém arredará o pé do palanque montado perto da antiga Estação da Leopoldina. É bem provável que mamãe se emocione nessa hora, pois sempre se gaba de ter sido baliza do Liceu. É uma pena, mas este ano o tradicional baile de gala não será no Caçadores, onde ela dançava nas domingueiras e nos bailes de carnaval. Mesmo assim, ela encomendará um vestido longo, pois não pode perder a festa.

Soubemos que a escolha de seu nome provocou fortes emoções no poeta Athayr Cagnyn, seu amigo de infância. A sugestão fora dada por pessoa querida, que mora no Rio de Janeiro, como mais uma das muitas homenagens que serão prestadas a Newton Braga: reedição de seus livros, publicação de suas críticas literárias e de um livro novo feito por suas filhas, lançamento de selo comemorativo, concurso de poesia nas escolas, reinstalação de monumento na praça e uma nova sede da escola com seu nome.

Bem sei que pouca gente ouviu falar nesse irmão de Rubem Braga. É que tio Newton, que morreu em 1962, era pessoa muito reservada e modesta por convicção. Em Cachoeiro, ele criou fama de homem generoso e inteiramente dedicado aos assuntos de interesse coletivo. Poeta lírico, escritor refinado, crítico literário rigoroso, tabelião que não aceitou o terno obrigatório, pescador de robalos e piabas, letrista de marchinhas de carnaval, sócio da primeira agência de publicidade da cidade, Newton foi amigo de muitos e um valente beque central do Estrela FC.

Ele inventou a festa de Cachoeiro e a figura do Cachoeirense Ausente para animar o reencontro da cidade com os que haviam saído para estudar ou tentar a sorte. Atiçou o sentimento de pertencimento em tanta gente e de forma tão competente que a coisa se transformou no famoso bairrismo cachoeirense, que todos conhecem e alguns até admiram. Prova disso é o orgulho de sua irmã caçula em ter nascido no sobrado da família na Rua 25 de Março, na margem direita do rio Itapemirim, bem diante do Itabira.   

Vitória, 6 de Abril de 2011

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Quebra Molas

Quebra-molas

Lá pelos idos de 1990 levei a família para passear em Marataízes, lugar das minhas férias de menino criado em Cachoeiro, e aproveitar para conhecer a pequena casa de veraneio que papai tinha construído em terreno bem grande de esquina, na avenida principal, bem perto da estação do trem. O muro era baixinho e permitia ver quem passasse na rua. A casa tinha acabado de receber melhorias, depois de anos alugada. As janelas foram pintadas de verde e o reboco ganhara uma boa caiação.

Tenho lembranças do pé de pinha, da fresca da varanda virada para o nordeste, das camas beliche e da bomba manual de tirar água do poço. No quintal havia castanheiras e alguns pés de flamboyant, árvore muito apreciada antigamente, mas que virou espécie politicamente incorreta por romper calçadas com suas raízes. Pena, porque flamboyant florido é coisa muito bonita de se ver.

Fomos no ônibus branco e simpático que eu havia comprado e transformado em trailer mambembe, com cama, poltronas, mesas, pia, toalete a bordo e tudo mais que se mostrou necessário para levar com algum conforto a família numerosa e alguns parentes e agregados.

A viagem começou no maior alvoroço, com a garotada rindo muito e falando alto. Mamãe estava toda prosa por estar indo passear no lugar de sua vida de filha de pai desbravador, de mocinha namoradeira, de mulher de médico que adorava pescar e de mãe de muitos filhos. Para ela, Marataízes era sinônimo de tempos de felicidade. Guardo uma foto de papai ao lado de umas seis pescadas enormes dependuradas em um remo sustentado nos ombros. Ele com cara de pescador orgulhoso com o resultado daquela saída ao mar.

A Terceira Ponte não estava pronta e era preciso passar por dentro de Vila Velha para acessar a Rodovia do Sol e chegar em Guarapari para depois seguir viagem pela estrada beirando o mar, passando por dentro de Anchieta, Piuma, Itaipava, Itaóca, Barra do Itapemirim e, finalmente, Marataízes. A viagem levou mais de 4 horas. Contamos exatos 87 quebra-molas, entre os urbanos e os rodoviários.

Definitivamente o ônibus detestava quebra-molas. Era penoso enfrentar aqueles obstáculos transversais. Ele era praticamente obrigado a parar duas vezes diante de todos eles. Uma vez para com cada um dos seus eixos.

A suspensão dianteira era bem macia, mas a traseira era com feixe de molas, bem mais seca e dura. A cada quebra-mola o pessoal reclamava das pancadas do pneu no cimento e, depois, no asfalto.

Estou dizendo tudo isso porque acabo de chegar do sul da Bahia e muito do que vi por lá me fez recordar dos verões em Marataízes, inclusive três belas pescadas amarelas de mais de cinco quilos sendo tiradas do barco por pescadores.

Também encontrei por lá centenas de quebra-molas, de todo tamanho, forma e tipo: civilizados, prepotentes, trepidantes, miseráveis, traiçoeiros, estúpidos, disfarçados, com abas e corcovas e por aí a fora. Inconvenientes, todos eles.

Dirigindo o carro novo, pude constatar na prática que câmbio automático é recurso de grande utilidade para enfrentar a aporrinhação dos quebra-molas, mas nem tanto para minimizar a chateação de viajar lentamente em comboios liderados por caminhões com 30 metros de comprimento, lotados de toras de eucalipto.

Vitória, 16 de Fevereiro de 2011-02-16

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Último tipo

ÚltimoTipo

Resolvi trocar o meu carro. Não que ele estivesse velho, caindo aos pedaços. Até que está bem conservado para a idade que tem. Saiu da fábrica em 2003 e nem rodou 65.000km. Ainda está em perfeitas condições de uso e pode durar um bom tempo nas mãos de um outro dono razoavelmente cuidadoso como eu.

Não sou do tipo que tem mania de carro, que fica mandando esfregar por dentro e por fora toda semana. Pra mim, o carro tem que estar com a manutenção em dia, com pneus em bom estado, com óleo dentro das especificações recomendadas. Pronto para viagem.

Confesso que não sei bem se estou agindo por vontade própria ou em resposta aos estímulos do marketing a que estamos, todos, cada vez mais submetidos.

A propaganda nos faz querer coisas, nos faz sentir que estamos precisando de algo que uma determinada empresa esteja pagando para nos fazer precisar. Compramos por um desejo honesto ou até por pura inveja dos que já possuem o que as fábricas já conseguiram vender para eles. Nós, consumidores, estamos ficando cada vez mais invejosos, egoístas e insaciáveis.

O bombardeio da tv e dos anúncios em jornais nos faz ficar olhando o carro do vizinho com olho grande, a prestar atenção nos carrões que estejam parados em volta do nosso carro velho nos engarrafamentos ou passando correndo diante de nossos olhos atentos quando estamos esperando o sinal abrir.

Tenho acompanhado o frisson que se estabelece nas pessoas diante de cada celular mais moderno que surge. Tenho visto, sem qualquer ânimo, conversas intermináveis sobre as novas funcionalidades que foram ou serão embutidas naqueles objetos que antigamente serviam para fazer ligações telefônicas lá da calçada. Percebe-se pelos olhos compridos – como nossas avós diziam da vizinha que olhava as suas plantas – que muitas pessoas se sentem ultrapassadas e infelizes enquanto não possuem cada nova função que estão disponíveis. Fico impressionado como as pessoas conversam sobre celulares.

Mas vamos lá, essa crônica é sobre carro, mais especificamente sobre carro novo. Digo isso porque acabei comprando um deles, desses bem sofisticados. Pretendia, como sempre fiz, passar para um mais novo, pouco rodado. Comprar carro usado não é coisa para amador nem pessoa distraída. É uma operação razoavelmente perigosa. A oferta é muito grande, nosso tempo é cada vez mais curto e os vendedores são sempre mais espertos do que os compradores. Se bobear, compra-se gato por lebre.

Procurei nos classificados, telefonei, estive em agências, rodei de um lado para outro. Diante das dificuldades e com viagem marcada, tomei a decisão de comprar um carro zero.

A moça da loja sabia todos os truques para vender tecnologia de última geração, botões mágicos, espaços enormes, segurança total, conforto pleno, sistemas automáticos, espelhos que giram, ar condicionado personalizado, direção super leve, sinalizador de perigo, computador de bordo e mais um sem fim de itens de uso bem pouco provável, como acontece com os dos televisores modernos. Comprei tudo.

Agora, o pessoal de casa e lá do escritório está caindo na minha pele, rindo por ter me rendido aos encantos da modernidade. Tem gente dizendo que agora só falta eu adotar o celular.

Vitória, 01 de Fevereiro de 2011

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Águas de Janeiro

Águas de Janeiro

Soube que Tom Jobim escreveu Águas de Março no sítio dele lá na região serrana do estado do Rio, após uma chuvarada.

Não imagino o que a tragédia que por lá acontece esteja inspirando às pessoas que enfrentaram as enxurradas e que agora tentam conviver com as perdas de parentes e amigos, animais de estimação, casas, carros e objetos que juntaram durante a vida. Tenho visto gente chorar diante da TV vendo imagens da destruição e da solidariedade que surgiu por toda parte.

Por muito menos Newton Braga, o poeta maior de Cachoeiro, escreveu há décadas:  De vez em quando o rio cresce sobre a cidade, brutal, arrasador. A força irresistível de suas águas carrega árvores, casas, lavouras, vidas humanas. Todos o olham, então, com o temor supersticioso com que deveriam os antigos povos bárbaros receber terremotos e tempestades: ódios desencadeados e incontíveis de deuses rancorosos e vingativos.

Quem me lembrou disso foi Higner Mansur, amigo atento que recolheu informações sobre as enchentes na minha terra. É que o rio Itapemirim subiu muito, como não o fazia desde 1934. Suas águas molharam a escada do antigo Grupo Escolar Bernardino Monteiro, construído bem na praça central da cidade, quando educação era coisa séria.

Veio junto trecho da crônica Trovões de Antigamente, que Rubem Braga escreveu em 1958:  Então vinham todos dormir em nossa casa. Isso para nós era festa, aquela faina de arrumar camas nas salas, aquela intimidade improvisada e alegre. Parecia que as pessoas ficavam todas contentes, riam muito. Como se fazia café e se tomava café tarde da noite! E às vezes o rio atravessava a rua, entrava pelo nosso portão, e me lembro que nós, os meninos, torcíamos para ele subir mais e mais. Sim, éramos a favor da enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um palmo – aquilo era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim…

Ele mandou também relatos da política local, dentre elas, uma decisão desastrosa do Prefeito Attílio Vivácqua em 1920 autorizando, por decreto, a cessão de terrenos municipais beira-rio, no centro da cidade, para construção com fundos para o rio. Uma pá de cal no que havia sido decidido na Sessão da Câmara de 6 de fevereiro de 1873, isso mesmo, 1873:  Numa petição de Manoel do Prado para edificar uma casa com frente na rua Moreira para o rio, a Câmara resolveu indeferir a este requerimento visto que tem adotado a providência de não deixar edificar casas do lado do rio não só porque enfeia o arruamento das margens do rio como também tira a vista aos moradores cujas casas têm frente para este.

Manoel Gonçalves Maciel não deixou barato no livro De volta ao Cachoeiro Antigo, de 2003:  Se Cachoeiro tivesse sido governada por homens que adotassem também a idéia, teria crescido com extensas, arejadas e alegres avenidas beira-rios. Mas, se todos os governantes fossem inteligentes, não teríamos de quem falar.

Da minha parte, digo que tudo isso me faz pensar na construção de prédios, usinas, portos e estaleiros enormes e definitivos na beira do nosso mar e, confesso, a acreditar que se o pessoal tivesse respeitado o que ficou decidido em 1873, Cachoeiro poderia ter ficado tão maravilhosa quanto Paris. 
 
Alvaro Abreu
Vitória, 19 de Janeiro de 2011-01-18
Escrita para A GAZETA

Fora do script

Fora do script

Pois é, cá estamos todos nós começando um ano novo, novamente. Como uma boa parte dos anos que ficaram para trás, 2010 foi um tempo suficientemente rico em coisas boas e em chateações de natureza sortida e de tamanhos bem variados, coisas típicas do mundo dos negócios, do âmbito familiar, do plano pessoal.
Alguns deles serão esquecidos rapidamente por banais que foram. Outros serão tomados como referências de vida, como passagens a serem contadas em momento oportuno a título de argumentação e justificativa. A nossa existência vai acontecendo entre tombos e topadas, que deixam marcas para uso posterior.
Por alguma razão misteriosa, somos levados a reclamar da vida, realçar o ruim, lembrar das perdas. Parece que ao fazê-lo conseguimos desculpas pelo que não fizemos, adquirimos o direito de querer mais, recebemos perdão pelos pecados, ganhamos uma nova chance. A sensação que tenho neste início de ano é a mesma de quem conseguiu escapar do tiroteio, de quem raciocinou rápido no momento da queda, de quem pulou do bonde com categoria, de quem segurou a corda com força suficiente.
Tenho acreditado que já possuo mais do que o suficiente para só querer aquilo que produza satisfação, facilite o entendimento e melhore o conforto. Coisa pouca, bem pouca. Simples de tudo.
Estamos de governador novo e temos uma presidenta, assim mesmo, no feminino, como ela prefere ser tratada, embora contrariando o vernáculo e seus defensores. Dizem que quem pode mais, pode menos. Quem quiser que se acostume com o novo estilo presidencial.
Nestes dias de festas, lembrei-me do que senti na noite da virada para 1995, sentado na minha cadeira de balanço trazida do sertão da Paraíba. Completamente debilitado em função das coronárias razoavelmente entupidas, acho que cheguei a rezar para ficar vivo e poder aproveitar a temporada que começaria a correr a partir da posse de Fernando Henrique como presidente do país, de Vitor Buaiz como governador do estado e de Paulo Hartung como prefeito da capital. As expectativas políticas eram muito animadoras e não seria justo que eu ficasse de fora daqueles novos tempos que estavam chegando. Eu bem que merecia permanecer vivo.
Neste réveillon, da varanda da casa de Afonso, meu irmão, fiquei vendo o pipocar dos fogos de artifício por cima dos prédios da orla, pensando na vida. Confesso que o impacto do aumento absurdo dos salários dos congressistas e seus desdobramentos e efeitos colaterais em escala aprovado nas vésperas minou o clima de festa, desmontou minhas expectativas e esperanças. Puro descaramento.  
De ressaca, assisti na TV a posse do nosso novo governador, que usava uma gravata muito parecida com a do seu antecessor. Logo depois acompanhei a da nossa presidenta, que me pareceu tremendamente solitária e fora de lugar, em meio aos políticos profissionais que estavam diante dela, no plenário da Câmara dos Deputados.
No parlatório do Palácio do Planalto a esposa do vice-presidente, de trança lateral e poucos sorrisos, roubou a cena e se transformou numa atração inesperada para telespectadores menos entusiasmados, como eu.

Vitória, 05 de Janeiro de 2011.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

40 anos

40 anos
 

Antigamente, 40 anos era tempo mais do que suficiente para expressar uma existência. Hoje, equivale a metade de uma vida. Vivemos bem mais que o pessoal que chegou antes da penicilina, do antibiótico, dos exames de ressonância magnética e coisa e tal.

Digo isso porque desses estive no jantar de comemoração de 40 anos de formatura da minha turma de engenharia da UFES, ao lado de bem mais da metade dos sobreviventes. Todos sessentões saudáveis e satisfeitos da vida. Não havia ninguém com cara de derrotado.

Alegria contagiante, abraços apertados entre pessoas amigas que não se viam há anos. Veio gente do Rio, São Paulo e Salvador. Houve quem trouxesses fotos comprobatórias, livro caixa com as receitas e despesas da viagem por terra a Bariloche, da solenidade no Cine Juparanã e da festa no Clube Libanês. Ouvimos e contamos histórias passadas em sala de aula e no pátio de recreio, lembranças marcantes, guardadas em detalhes por quem tem boa memória.

Fizemos discursos emocionados, ressaltamos o valor da amizade e do pertencimento, a alegria de estarmos vivos e a satisfação de podermos festejar juntos. Teve gente que acompanhou tudo calado, por timidez intrínseca ou prudência coronariana. Alguns, por razões similares, sentaram-se longe da cadeira que servia de púlpito para que engenheiros mais corajosos pudessem abrir o peito e dizer palavras afetuosas aos colegas de cabeça branca.

A única engenheira da turma estava presente, chorando de tanto rir, como lhe é próprio. Alguém lembrou que não passavam de meia dúzia as mulheres que freqüentavam as salas de aula da Escola Politécnica, no bairro de Itararé.

Também estavam na festa muitas das namoradas dos Engenheirandos 70, transformadas em companheiras de vida toda e, mais recentemente, em avós animadíssimas. Soube que depois de contarem vantagens e gracinhas dos netos, elas reclamaram indignadas do pó preto brilhante que teima em sujar as mãozinhas, os joelhos e os pezinhos dos que engatinham pela casa.

No segundo ano da escola, freqüentei festas na casa de hóspedes de Tubarão, recém construída. O porto de embarque de minério já operava calmamente, expressando progresso. Um daqueles sorridentes engenheiros defendeu, com convicção técnica e muito bom senso, ao voltar da Inglaterra, que a usina siderúrgica fosse implantada mais ao norte, lá para os lados de Aracruz. Evitaria a sujeira trazida pelo vento Nordeste. Não antou.

Na semana passada, minha filha caçula apresentou o projeto de graduação em oceanografia, em que comprovou cientificamente que o minério de ferro interferiu negativamente no desenvolvimento das larvas dos ouriços-do-mar que tiramos na ponta da Ilha do Boi.

Ano passado, por não acreditar nos homens, pedi a Papai Noel que resolvesse o problema do pó que cai sobre nós, riamente. Tendo a acreditar que a ventania que derrubou dois descarregadores de carvão tenha sido coisa dele.

Mais animado, neste Natal vou pedir ao novo Governador que lance mão de seus poderes e habilidades para ajudar o bom velhinho a resolver o nosso problema e aproveitar para não permitir que se repitam lá em Anchieta os mesmos erros cometidos aqui em Vitória, há quase 40 anos, tempo mais do que suficiente para aprender o valor da vida.

Vitória, 22 de Dezembro de 2010.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Como vinho

Como vinho

Convocado pela filha caçula, me sentei para assistir pela TV um compacto do show de Paul McCartney no estádio do Morumbi em São Paulo, no domingo passado. Fã dos Beatles, eu achei que veria um espetáculo incompleto, pelas metades, já que no palco estariam faltando John Lennon, Ringo Starr e George Harrison.

Nunca tive preferência por nenhum deles em particular. Sempre achei o Paul meio almofadinha e esnobe. Tido como cabeça pensante, John, me parecia um pouco presunçoso. Talvez por modéstia, Ringo ficava sempre na retaguarda. As poucas palavras de George me diziam mais do que os trejeitos dos demais.

Durante anos esperou-se a chegada dos discos novos dos Beatles trazendo as músicas e as modas. Se no começo eles subiam no palco de terninho e gravata, aos poucos foram se transformando em expressão de liberdade, em protagonistas do movimento de contracultura, ainda que bem comportados. Os cabelos cresceram e as roupas ficaram coloridas. As atitudes assustavam e inspiravam, marcando o ritmo da vida e a troca da era.

Surgiram seguidores em todos os cantos do planeta. Aqui não foi diferente. Alguns devem se lembrar da temporada dos Brazilian Beatles em Guarapari, no final dos anos sessenta. Cabeludos e debochados, eles faziam as mães recolherem as filhas moças pra dentro de casa, em pânico. Coloridos e delirantes, aqueles rapazes tinham a imagem que seria adotada pela juventude que buscava espaço e experiências.

Os Beatles foram à Índia pelas mãos de George e de lá trouxeram o que muita gente sequer tinha ouvido falar: meditação transcendental, cítara, macrobiótica, ioga, incenso e tantas outras coisas que ajudariam a aumentar o tamanho do mundo e a alargar o horizonte das pessoas. As cores vivas da estética psicodélica ganharam lugar no gosto de uma geração. Britânicos famosos, os quatro receberam medalha da Rainha por merecimento, depois de terem colocado a Inglaterra de volta no mapa mundial. E que se danassem os conservadores.

Amadureci, namorei e escolhi rumos de vida ouvindo o som mágico da banda de Liverpool, que preferia em relação ao som radical dos Rolling Stones. Eu também fiquei triste quando o grupo se desfez e passei um bom tempo aguardando a notícia do reencontro, que não chegou. A morte violenta de John Lennon, anunciada na TV, me pegou saindo do banho em um hotel de Recife e me fez pensar na brutalidade dos homens. A de George não doeu tanto porque era esperada, em função da doença que sofria.

Soube que Ringo se mantém um baterista ativo ao completar 70 anos dia desses. Com alguma freqüência leio sobre o que Paul anda fazendo. Acompanhei a perda da Linda, o novo casamento e o desquite litigioso e, agora, as notícias da tournée pelo Brasil.

Nem levantei para beber água. Acompanhei, emocionado, os movimentos daquele senhor energizado, simpaticíssimo, afável e afinado. Paul cantou macio e deu gritos agudos tocando baixo elétrico, violão, banjo, piano e guitarra. Tudo com a mão trocada, canhoto que é. Ele parecia um homem inteiramente feliz e cheio de si com o entusiasmo de milhares de pessoas, muitas das quais nem haviam nascido quando os Beatles tocaram juntos pela última vez, há mais de 40 anos.

Soube depois que ele levou um tombo ao final do espetáculo. Mas isso eu não vi.

Vitória, 24 de Novembro de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Colheres no Banco

COLHERES NO BANCO

O primeiro convite me fora feito em tom de cobrança amistosa, durante uma solenidade. Como de costume, fiz corpo mole e desconversei. A cabeça estava completamente tomada por coisas da vida e do trabalho. Melhor seria deixar pra depois, pois é assunto relevante demais para misturar com qualquer outro. Digo isso porque sei muito bem que montar uma exposição mobiliza emoções e exige providências de toda ordem.

A segunda investida veio por escrito. As palavras eram amáveis, mas não deixavam margem para despistes nem permitiam postergações. Estava encerrado o prazo para mais um “devo, não nego, pagarei quando puder”. O convite incluía o pedido para que contasse o que sei e mostrasse como faço.

Muita gente sabe que gosto de fazer colheres de bambu, um servicinho que realizo quase diariamente, há muitos anos e sem preocupações. Pra mim, fazer colher é fácil, preparar uma exposição é que são elas, ainda mais em prazo apertado.

Achei prudente convocar a família inteira para tratar da produção. Cada qual na sua especialidade: a filha do meio para cuidar das questões de curadoria e montagem, a mais velha para tratar das peças gráficas, a caçula para fotografar as colheres, o primogênito para atualizar o site, o quinto filho para filmar a festa e, naturalmente, a mãe de todos eles, para arrumar cuidadosamente as peças nas vitrines.

Como não poderia deixar de ser, fiquei com a tarefa de tirar das caixas as muitas centenas de colheres guardadas, avaliar uma por uma e separá-las por tipo e tamanho para facilitar a seleção. Sempre me foi difícil escolher as peças que ficarão expostas. Separei umas 300 razoavelmente diferentes umas das outras, mas muitas das minhas preferidas terão que ficar pra trás.

Resolveu-se que as peças ficarão em mostruários abertos, sem a proteção de vidro ou acrílico, para melhor serem vistas. Umas tantas outras poderão ser tocadas.

As ferramentas de trabalho ajudarão a dar uma idéia de como as peças são feitas. As colheres que foram atacadas pelas brocas mostrarão que os insetos adoram comer bambu tirado fora de época. As que usamos na nossa cozinha poderão atestar que o que faço pode ter boa utilidade, que não é só pra boniteza, como me disse um vendedor de beira de estrada querendo valorizar o cesto de taquara que oferecia.

Sorte que hoje em dia boa parte do trabalho pode ser feita à distância: fotografa-se na varanda da casa, formata-se o catálogo em São Paulo para ser impresso aqui em Vitória. O texto da curadora de design foi enviado lá da Finlândia e os projetos do layout da sala e das vitrines foram preparados a bordo de um barco gaiola subindo o Amazonas.

A lista de providências se renova a cada dia: atualizar endereços e e-mails para enviar os convites; contratar marcenaria, imprimir fotos e palavras para fixar nas paredes, conferir as provas de cor na gráfica, resolver a iluminação, comprar uma camisa bonita e assim por diante. Nem imagino como seria fazer tudo isso na base da comunicação por envelopes, com a minha velha Rolleiflex e, sobretudo, sem o telefone celular.

Tudo isso está me fazendo lembrar das fortes emoções durante a preparação das primeiras feiras de mármore e granito de Cachoeiro, quando trabalhava no BANDES, de onde partiram os tais convites.

Vitória, 10 de Novembro de 2010.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA