Mamíferos

Mamíferos

Vitória era um lugar pacato nos anos 60. Uma ilha de população bem pequena, risonha, muito animada e razoavelmente conservadora. Por onde se andasse, encontrava-se amigos, gente conhecida que se sabia de onde era ou o que fazia. As pessoas eram identificadas pelo nome ou apelido – quase todo mundo tinha o seu – e pela escola em que estudavam, por seu lugar de trabalho, pelo bar que frequentavam, pelo carro que dirigiam, pela rua em que moravam. Praticamente não havia gente desconhecida em cada um dos bairros.

A movimentação das pessoas era bem pequena. Quando necessário, ia-se ao centro da cidade para fazer compras, consultar o dentista ou colocar carta nos Correios. Meia dúzia de sinais ordenavam o trânsito, quando muito. Os duzentos metros de areia da antiga praia do Barracão eram mais do que suficientes para abrigar os banhistas da cidade.

Dançava-se na cidade inteira. Na saleta do Iate Club e no salão do Náutico, em Caratoíra; nos pisos de tábua corrida do Praia Tênis Clube, do Saldanha e do Clube Vitória. Os conjuntos de Hélio Mendes e Edson Quintaes animavam os bailes e as eletrolas mágicas de Jairo Maia animavam as festas. No Álvares Cabral, na Praça Costa Pereira, na pista da Odontologia, no alto do prédio do Banco Mineiro, no porão do IBEU e no anexo da FAFI, dançávamos com moças mais experientes.

Paralelamente aos sons da bossa nova, recrudesciam os tempos de insegurança em função da  política dura e do desacato das autoridades. Mundo afora, a juventude defen posições libertárias nas coisas do sexo, das drogas, das artes e da política. No Brasil, a turma da Tropicália marcava o ritmo e dava o tom da contra cultura.

Aqui, a vanguarda era a banda Os Mamíferos. Os animais não eram muitos. Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó e Mário Ruy formavam a base. Arlindo Castro, Rogério Coimbra e Sérgio Régis engrossavam a ala dos compositores, ao lado de Aprygio Lírio, que soltava a voz e mostrava as garras na linha de frente.

O quartinho dos fundos da nossa casa na Rua Madeira de Freitas foi transformado em estúdio para ensaios acalorados. Sem ar condicionado. Os palcos disponíveis para bandas de rock eram bem poucos. A boate Macumba e o Teatro da ABI eram as opções. Os festivais de música foram momentos de glória e de muita pirraça. Tocar em público era uma batalha, sempre. Os instrumentos eram escassos, não havia mesa de som, os plugs teimavam em não funcionar e a microfonia era algo bem comum.

Os Mamíferos ovam a caretice, o status quo, o bem comportado. Convictos, eles provocavam o público com sons inovadores e estridentes, letras líricas e contundentes, roupas estranhas e rostos pintados. Os fãs não eram tantos, naturalmente, mas suas crias foram muitas, nas décadas seguintes.

Escrevo tudo isso porque fui ver a Banda Aurora Gordon reviver Os Mamíferos no Teatro Carlos Gomes, na semana passada, e sai de lá com um CD nas mãos e o passado na cabeça.

Foi emocionante ouvir novamente a sugestão de Mário Ruy e Sérgio Régis: “Se você tem um problema prá resolver, presta atenção no que eu vou dizer: agite antes de usar” e os apelos de Rogério, em “Antonieta, Antonieta, arranca a maçaneta dessa porta que te fecha” e de Afonso, em “Mônica, Verônica, atômica, atônita. Sem seus passos nas calçadas e as pessoas congeladas as vidas pedem silêncio; tira a poeira dos seus olhos…”. Pena que não tocaram Via Aérea, avisa: “Olho, amo e grito, corro e choro, mas não canto estribilhos, nem tampouco imploro. Sou meu próprio vôo”.

Vitória, 21 de Agosto de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Passado glorioso

Passado glorioso

Vista do alto, depois de 51 anos de inaugurada, Brasília espanta pela grande quantidade de construções que existem em volta do Plano Piloto, agora já praticamente tomado por prédios, vias e jardins. Quando sobrevoei a cidade pela primeira vez a bordo de um Electra da Varig, a cidade ainda estava bem no começo. Era outubro de 1972 e eu viajava por orientação do reitor da UFES, para uma entrevista no Ministério da Educação. Cursava o mestrado no Rio de Janeiro e ele me indicara para fazer parte da equipe do Departamento de Assuntos Universitários, que estava sendo montada com professores de várias universidades federais.

O terno de tirilene brilhante contrastava com a minha barba preta e com os cabelos nos ombros. A gravata apertava o pouco de pescoço que tenho e me fazia lembrar que aquela viagem não era de turismo. O sapato social fora comprado na ida para o aeroporto, pois tinha descoberto, minutos antes, que havia esquecido em Vitória o único par que eu tinha. Nessa época, andava-se de sandália de couro cru ou, no máximo, com um mocassin feito na Motex, em Copacabana.
A conversa com o diretor rendeu compromissos e três meses depois lá estava eu de volta à cidade, já casado, para trabalhar como assessor de um paraibano entusiasmado pela causa da educação. Muitos amigos haviam ponderado contra a minha ida e com razão. Estava em vigor um regime militar que impunha medo e limitações a quem se pretendesse independente e opinativo.

Vivendo longe de Brasília desde 1987, voltava agora para o lançamento de um livro sobre Edson Machado, matemático que se dedicou por mais de quarenta anos à educação, ciência e tecnologia, com quem trabalhei e convivi durante um bom tempo. Eu havia escrito um dos trinta depoimentos que compõem a publicação, que acabou virando um registro emocionado de fatos relevantes ocorridos na educação superior brasileira, nas últimas décadas.

Reencontrei-o em cadeira de rodas, inteiramente feliz por rever tantos amigos e colaboradores. Uma festa de reencontro de muitas pessoas que haviam trabalhado juntas e que não se viam há muitos anos. Pelo que pude perceber, estávamos todos orgulhosos de ter podido participar da história de Edson. Caçula daquela turma, muita gente achou graça na minha barba branca.

Pessoas que colaboram com Edson nos diversos momentos de sua trajetória a frente de órgãos públicos destacaram suas virtudes ao microfone. Célio, educador mato-grossense, lembrou sua habilidade de agregar pessoas em torno de propostas inovadoras; Hélio, sociólogo cearense, ressaltou sua capacidade de considerar as especificidades de cada região e dos níveis de ensino; Rodolfo, catarinense falante, destacou sua atenção com as práticas gerenciais; Roberto, físico carioca, enalteceu sua coragem na definição da política de informática; Mário, educador paranaense, lembrou sua habilidade de encontrar soluções duradouras.

Eunice, antropóloga paulista, fez questão de dizer que Edson sempre agiu movido por seus próprios valores e suas opiniões, livre de injunções político-partidárias e de limitações ideológicas, liderando equipes de técnicos e especialistas abnegados. Suas palavras colocaram o homenageado como contra-exemplo ao desmantelo de dirigentes e funcionários agindo como predadores dos dinheiros públicos, a serviço de interesses partidários da pior espécie.

Durante a leitura do livro, me dei conta da sorte que tive em poder trabalhar com gente da melhor qualidade, como todos aqueles senhores com quem conversei sobre o passado e abracei, emocionadamente.

Vitória, 08 de Agosto de 2011-08-08

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Já Era

JÁ ERA

Não sei se você reparou, mas o agasalho da nossa seleção, que já foi chamada de Canarinho, era preto. Não sei de onde surgiu essa novidade. Talvez para realçar a marca dos patrocinadores. O fundo escuro garante o indispensável contraste.

Que se saiba, o preto nunca esteve presente em nossos uniformes desportivos. Sempre o verde, o amarelo, o azul e o anco. As cores da bandeira, as cores do Brasil. Somos conhecidos no mundo inteiro por nossas cores vivas e alegres. Os povos tentam expressar nas suas bandeiras elementos de seus valores. Gosto da bola vermelha da bandeira japonesa e da folha da canadense.

Entendo quase nada de cores. Mas sei que o preto é a ausência total delas e que o anco resulta da soma de todas, como se pode comprovar fazendo girar um disco pintado com as cores básicas em gomos. É uma experiência criada por Newton que fascina crianças e adultos no Parque da Ciência da cidade. O anco surge como num passe de mágica, por oa e graça das leis da física. Não dá para querer culpar a cor dos agasalhos pela eliminação do nosso escrete.

Está mais do que comprovado que um gol pode determinar um resultado final de uma partida. Motiva quem o fez e deprime quem o sofreu. Gol com falha de goleiro é sempre desestabilizador. Fui goleiro e sei disso. Júlio César falhou no primeiro gol holandês, duplamente. Errou a trajetória da bola e empurrou o zagueiro que acertaria a cabeçada salvadora. A imagem da sua dor, mostrada em câmera lenta, me preocupou. Seu sofrimento foi tanto que atordoou a nossa dupla de zagueiros veteranos. Apesar de ser o melhor do mundo, ele deveria ter o direito de errar.

Quando a seleção sofreu o primeiro gol da Suécia, na final da copa de 58, Didi, o céreo do time, recolheu a bola no fundo da rede e, com ela debaixo do aço, caminhou pausadamente até o meio do campo. Olhou em volta, colocou a pelota no centro do gramado e partimos para o memorável cinco a dois, sob palmas da torcida sueca. Pelé, ainda bem novinho, chorou nos aços do time inteiro. A atitude do craque garantiu a estabilidade emocional do time, indispensável nas batalhas futebolísticas. No jogo contra a Holanda, vi nosso valente capitão desesperado, querendo resolver a partida na raça. Melhor seria se acalmasse os colegas e passasse instruções.

É provável que outro treinador fizesse melhor. Dunga é cabeça dura, mas o grupo que ele reuniu se mostrou coeso e alegre. Dava gosto de ver o time comemorando o gol. O problema é que faltou gol nos holandeses para comemorar. O pânico se alastrou com a falha do goleiro, com o nervosismo dos zagueiros, com os passes errados, com a firmeza da defesa adversária. O tal Fabuloso não viu a bola, nem chutou a gol. Pessoalmente, preferia Ganso e Neymar tabelando com Robinho, ganhando jogos com a descontração das molecagens de meninos e das jogadas geniais. Sem voluntarismos nem pancadas.

Prepotência não é atitude recomendável nas relações entre pessoas. A história tem demonstrado que ela também não funciona no futebol. O Ronaldo português que o diga. Gabava-se de ser o rei da cocada e voltou pra casa com cara de tacho e pés vazios.

A TV mostrou que havia uma bandeirinha asileira na camisa holandesa. Uma demonstração de fairplay que será guardada como troféu da vitória soe o time de Dunga, de uma era que também acabou.

Vitória, 07 de Julho de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Conforme previsto

Conforme previsto

Há algum tempo, escrevi aqui sobre a escolha da minha mãe como Cachoeirense Ausente No 1 de 2011 e falei da maratona que é o ciclo de homenagens e os eventos que acontecem em Cachoeiro nesta época, com total regularidade, há mais de sete décadas.

Neste ano comemora-se o centenário do nascimento de Newton Braga, poeta maior do sul do Estado e idealizador da festa da cidade. Isto fez a animação aumentar ainda mais.

Em plena quarta-feira lá fomos nós, em comitiva familiar, levar Dona Gracinha para abrir os festejos e receber as primeiras homenagens de seus conterrâneos.

Sentada ao lado da janela, ela se manteve em silêncio, observando a paisagem da estrada, durante quase todo o trajeto. Atenta, parecia conferir o que havia de novo ao longo do caminho, por onde já passara centenas de vezes. Acho que, enquanto chupava uma balinha de coco queimado Itabira, mamãe ia se lembrando da sua infância em Cachoeiro, da sua vida de menina estudante, da animação de mocinha se arrumando para passear na praça e ir dançar no Caçadores.

É quase certo que o coração dela deve ter acelerado ao máximo ao ouvir a bandinha tocando Meu Pequeno Cachoeiro quando a van estacionou diante das mais de cem pessoas que a esperavam no trevo do Horto União, em plena estrada da Safra.

Quando a porta de correr se abriu ela pode ter a exata dimensão da força das palmas, da altura dos gritos, do barulho dos foguetes, da montoeira de máquinas fotográficas em busca de uma imagem daquela senhora, meio atônita e inteiramente feliz com todo aquele alvoroço.

De braços abertos, mais do que sorridentes, ali estavam amigos de infância, parentes distantes, amigos dos filhos, gente entusiasmada de todo tipo e idade. Uma verdadeira festa da confraternização, uma recepção de fazer chorar marmanjo velho, senhoras elegantes e a caçula da família.

Pois lá estava Dona Gracinha atirando beijos para o público, recebendo abraços apertados, dando entrevista, declarando amor eterno pela sua terra, fazendo pose de artista famosa, plena de orgulho e de razões.

O quadro que ela havia pintado da casa onde nasceu fora transformado em um enorme banner, completado com uma fotografia dela aos trinta e poucos anos, elegante que só, metida em uma roupa escura e com sorriso amistoso e olhar meio maroto. Pano de fundo perfeito para fotos históricas.

A bordo de um sedã Mercedes Benz verde ela seguiu com o Prefeito e sua esposa para a Rua 25 de Março, à frente de uma carreata escoltada por carros de polícia com giroflex ligado, anunciando a chegada da Cachoeirense Ausente.

A solenidade no Centro Operário, situado bem de fronte da casa onde ela nasceu, foi emoção do começo ao fim, na forma de discurso, declarações de amor, música e poesia feita por amigo. Da janela que dá para a calçada, mamãe bateu palmas para a Lira de Ouro, de tantos carnavais de outrora.

À noite, na sessão solene da Câmara de Vereadores, vestida de vermelho vibrante, ela recebeu o título das mãos do seu Presidente. Com voz firme e boa entonação, discursou em agradecimento. Ganhou aplausos de mais de quatrocentas pessoas, inclusive de Elke Maravilha, outra homenageada.

Na volta pra casa, com a melhor cara deste mundo, declarou que iria descansar bastante para estar em plena forma para dançar no baile de gala no sábado. Mas isso é uma outra história.

Vitória, 28 de Junho de 2011
Alvaro Abreu

Escrita para A Gazeta

Perdeu

“Perdeu!”

O primeiro caderno da edição de A Gazeta do sábado, 11 de Junho, trouxe, em manchetes, leads e legendas, um retrato do que tem acontecido por aqui e redondezas. Ainda bem que tinha uma crônica de Marcos Alencar pra desopilar o fígado e ensinar um pouco mais sobre a alma das mulheres. As notícias me fizeram lembrar o espanto ingênuo de antigamente quando, por muito menos, se ouvia dizer que o mundo estava pelo avesso. Vejam parte do que li:
“Conselho de medicina dá ultimato ao Estado e às Prefeituras: Hospitais reprovados na blitz dos médicos. Macas enferrujadas, lixo perto dos leitos e corredores superlotados estão entre as mazelas nas unidades da Grande Vitória. Vigilâncias Sanitárias não se manifestam”;
“Mais uma devassa no Detran. Máfia dos pátios. Automóveis roubados são legalizados com documentos furtados nas Ciretrans do Estado. Mais de 100 veículos fraudados nas ruas. A suspeita é que o esquema ocorria desde 2007”;
“Telefonemas provam ligação entre delegada e traficante. Ligações e mensagens feitas por telefone celular revelam que eles negociavam favores. Mais um PM é investigado”;
“Todo bandido tem ética. Uma regra de quem é do crime: nunca entrega parceiro. Em toda profissão tem ética“ afirmou o advogado do rapaz que assassinou um estudante na USP, em São Paulo;
“Polícia apreende 1,8 toneladas de carne em açougue. Produto estragado era vendido em feira livre, aos sábados e às quartas. Dono foge, mas abatedouro é fechado. ‘Os donos desses açougues vão sofrer processo administrativo, que deve gerar multa’, disse o chefe da fiscalização”;
“Estudante esfaqueado na saída da escola. O colega que estava ao lado dele também levou um soco no rosto. Na mesma região, duas garotas foram assaltadas. Os bandidos estavam de bicicleta e fugiram com o cordão e o celular”;
“Professora flagrada com aluno no motel. Foi o marido dela quem fez a denúncia à polícia”;
“Conselheiros vão pedir renúncia do presidente do Tribunal de Contas do Estado. O STJ o condenou a dois anos e meio de prisão por ter recebido dinheiro de origem ilícita”;
“Liberdade para 439 bombeiros presos após invasão do quartel central da corporação, em manifestação por melhores salários e condições de trabalho”;
“Os envolvidos na morte do ex-prefeito vão recorrer da sentença em liberdade”;
“Governador afirma que não vai receber estudantes… manifestantes dizem que vão continuar com protestos nas ruas”;
“Aquaviário volta em 2012 para durar pelo menos cinco anos”.
Nas edições dos dias 14 e 15, a vida seguiu no mesmo diapasão:
“BR 101 mortes. Colisão com veículo que levava pacientes mata cinco e fere nove”;
“Justiça pede afastamento de dois policiais civis acusados de extorsão”;
“Diretor de presídio dividia lucro de criação de porcos com preso. Negócio acontecia na casa de custódia de Vila Velha, onde dupla também vendia lavagem e alumínio”;
R$20 por senha para marcar consulta médica”;
“Nove táxis clandestinos são apreendidos no aeroporto”;
“Cocaína em loja de brinquedo”.
Que Nossa Senhora da Penha nos proteja!

Vitória, 15 de junho de 2011.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Bom de ver

Bom de ver

Andei esses dias por Minas Gerais. Fui dar palestra para alunos de engenharia de produção num encontro lá em São João Del Rey e aproveitei para passear um pouco pelas Alterosas, coisa que não fazia há um bom tempo. Vestido de turista, aproveitei para visitar a igreja de São Francisco, uma maravilha da arquitetura barroca, com altares enormes em madeira entalhada e duas imagens de olhos esbugalhados, feitas por Aleijadinho. Deixei as demais igrejas da cidade para uma próxima vez. Sem dó, pra falar a verdade.
É que Inhotim estava na pauta turística há anos, tendo mesmo influenciado na aceitação do convite para ir falar coisa séria tão longe de casa. Está ficando cada vez mais frequente encontrar quem fale com entusiasmo daquele lugar e quem declare vontade de conhecer o paraíso que um mineiro rico criou no meio do mundo. Muitos dizem querer voltar para ver o que não viram, por falta de tempo.
Trata-se de um jardim botânico belíssimo com construções em arquitetura moderna feitas para abrigar obras de arte contemporânea de grande expressão. Lá, pode-se ouvir o som da terra saído de um buraco de 202 metros de profundidade, ver uma máquina enorme de arrancar árvores presa em uma cúpula geodésica, dar de cara com as placas de aço de Amilcar de Castro na grama e ficar pensando na vida diante de enormes estacas metálicas cravadas no cimento, bem no meio do nada.
Os jardins foram idealizados por Burle Marx, que passou por lá logo no começo e deixou recomendações, inclusive a de preservar uma gigantesca árvore da qual não guardei o nome. Em Inhotim até velhos eucaliptos fazem pose de artista. Ganhei, porque pedi com insistência, um pedaço de bambu preto que só tinha visto em Alhambra, na Espanha.
Em Belo Horizonte, fui visitar o Museu de Artes e Ofícios instalado na antiga estação central da cidade. Ali, uma bela exposição mostra o Brasil de antigamente. Uma aula de história contada com utensílios, ferramentas e artefatos usados na produção de cachaças, queijos, sapatos, tecidos, jóias, panelas, móveis e muito mais. Isso sem falar em balança de escravos, cadeira de dentista, moinhos de pedra, foles de couro, rodas d’água, fogão de catre. Tudo gasto pelo uso intenso e impregnado de tempo. Os processos estão explicados com palavras inspiradas, boas de ler. Trabalho cuidadoso feito por iniciativa de família rica, que recolheu e guardou aquelas peças ao longo de décadas. Diante daquilo tudo, eu fiquei pensando no bem que aquele lugar faz às pessoas, sobretudo às crianças, que têm pouca noção de como era a vida por aqui, quando tudo era feito à mão, com muito esforço e engenhosidade.
Na véspera da viagem, tinha ido ver uma exposição de quadros e esculturas no MAES, instalado no prédio da antiga Imprensa Oficial, bem no centro de Vitória. Lá estão peças criteriosamente seleccionadas na coleção de um empresário amigo meu, que teve a ousadia de criar e manter por quase três anos, no final da década de 80, a galeria Usina, de arte contemporânea, em uma bela residência na Praia do Canto. Foi muito bom poder ver de perto mais de 100 obras de renomados artistas brasileiros, incluindo Dionísio Del Santo, César Cola, Regina Chulam e Hilal.
O que vivi durante esta semana me fez reconhecer mais uma vez a força da generosidade, atitude própria dos homens senhores de si.

Vitória, 01 de Junho de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Estacionamento

Estacionamento

Um conhecido meu voltou de Salvador na semana passada com uma impressão muito negativa do trânsito da capital baiana. Contou que ficou preso em engarrafamento quilométrico durante um par de horas a caminho de uma empresa potencialmente interessada em comprar o que ele tinha para vender. Chegou atrasado na reunião, totalmente constrangido e achando que havia perdido a viagem. Para seu espanto, a explicação do seu atraso foi aceita com boa naturalidade e um pedido de desculpa do diretor por não ter se lembrado de avisá-lo da dificuldade diária em chegar na empresa no início da manhã. Ele me contou isso em pleno engarrafamento na Avenida Rio Branco, pouco depois do meio dia de quinta feira, quando pretendíamos almoçar em um restaurante natural na Praia do Canto.

Vencida a distância, foi preciso contornar o quarteirão duas vezes para estacionar. A comida estava ótima, mas tivemos que enfrentar trânsito pesado novamente até chegarmos a Santa Lúcia, agora passando pelas ruas Joaquim Lírio e Aleixo Neto. O que era doce se acabou. Quem viveu, viu. Quem viver, não viverá como eu nas ruas tranquilas e amistosas daquele bairro de casas simpáticas. Tenho tido, sim, saudades das ruas que frequentei na minha juventude de rapaz folgado. Vitória se transformou, e isso é definitivo, em uma cidade repleta de veículos de vidro fumê que escondem os passageiros.

Amiga minha, dona de restaurante, comentou que anda perdendo cliente por falta de vaga para estacionar nas redondezas. Disse que tem ouvido isso da boca de muita gente que não mais consegue almoçar no selfservice dela. Da minha parte, devo dizer que estou envolvido na realização de um workshop empresarial para umas 80 pessoas, ou melhor, para uns 60 automóveis. Prudente, adotei a disponibilidade de estacionamento como critério para a escolha do lugar. Resolvido isso, esperto, pedi que incluíssem com destaque no convite um importante atrativo do evento: “estacionamento gratuito no local”.

Tenho me lembrado de uma discussão que travei com um arquiteto americano especializado em projetos de campus universitário. Eu trabalhava no Ministério da Educação e ele dava assessoria por lá. Ele afirmava com convicção, e eu discordava com firmeza, que antes de estimar o espaço para salas de aula, laboratórios, biblioteca e tudo o mais, era preciso dimensionar a área necessária para os carros dos professores, alunos e  funcionários. Até hoje tenho vergonha do meu desaviso. Corria o ano de 1974 e automóvel era coisa de alguns poucos naquele Brasil. Na terra dele, os automóveis chegaram junto com as ruas, os bairros e as construções nas cidades, paulatinamente. Aqui, apesar dos carros continuarem a chegar em ritmo de consumo democrático, ainda estão em vigor parâmetros de uso do solo inconsequentes: uma única vaga por sala, uma vaga e meia por apartamento.

A tendência é de piora. A quantidade de automóveis sem garagem cresce em ritmo chinês. A falta de lugar para estacionar entrou definitivamente nas conversas diárias da classe média. O centro da cidade já está praticamente inacessível para quem pretenda ir lá de carro durante o dia. Posso apostar que, muito em breve, haverá quem defenda tese de doutorado sobre os impactos da disponibilidade de estacionamento no desempenho dos negócios e no prazer do convívio social.

Vitória, 18.05.2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Declaração

Declaração

Como acontece todo ano, o mês de abril terminou numa declaração de imposto de renda.
Devo confessar que o preenchimento dos formulários consumiu pouco tempo e que o processo transcorreu de forma razoavelmente tranqüila.

Posso informar também que a entrega da declaração foi realizada com sucesso via internet e que os cálculos dos ajustes nos impostos a pagar favoreceram o leão, como era de se esperar.
As despesas dedutíveis com saúde, educação e afins, diminuíram quase que a zero depois que a nossa casa foi ficando vazia de filhos e começando a se encher de netos. Não foi preciso preencher a relação de dependentes nem a linha do cálculo do valor total do respectivo desconto padrão. Muito menos abater a correspondente parcela da temida renda sujeita a tributação.

Notei que os formulários foram aprimorados para facilitar o trabalho do contribuinte e reduzir o nível de incerteza na hora de fazer os lançamentos dos valores recebidos a título de rendimentos tributáveis e não tributáveis. O sistema faz boa parte das contas e transporta os resultados automaticamente para a planilha de cálculo do imposto devido. A atualização da relação de bens e das dívidas e ônus reais ficou muito fácil de fazer com a criação de uma tabela onde aparece o que foi lançado até o período anterior. Ainda mais porque nessa altura da vida, a relação de itens que compõem o patrimônio familiar se mantém praticamente a mesma, exceto uma troca de carro, a atualização dos valores da conta corrente, da poupança e de aplicações financeiras de curto e médio prazo.

Este ano me voltou à lembrança o sofrimento de fazer uma declaração completa no formulário do imposto de renda antigamente. Era uma verdadeira maratona. Centenas de papéis de recibos e canhotos de cheques espalhados sobre a mesa da sala, durante muitos dias. As emoções que tenho guardadas são de desespero e de insegurança. Os lançamentos eram feitos mês a mês e os valores tinham que ser corrigidos, um a um, em busca de números livres da inflação, normalmente na casa de dois dígitos. Como não existia computador, as contas eram feitas na ponta do lápis e, depois de tudo pronto e conferido, era preciso passar a limpo para entregar no banco. Enfrentando fila, naturalmente.

Recentemente, ao esvaziar gavetas em busca de espaço para guardar coisas mais novas, encontrei a primeira declaração de imposto de renda que fiz depois que comecei a receber como professor universitário. Um emprego e tanto, diga-se de passagem, pois consegui comprar à vista um Corcel 73 novinho em folha com quatro salários. Como estava recém-casado com uma universitária, tinha uma única dependente para deduzir despesas.

Pois saibam que, apesar disso, o total de imposto de renda que paguei não chegou a cinco por cento de tudo o que havia recebido durante aquele ano inteiro. Se fosse agora, pagaria quatro a cinco vezes mais. Sem esquecer do tanto que se paga de ICMS, ISS, IPVA, IPTU, taxa de marinha e muitos mais, que também aumentaram absurdamente. Dói no bolso e na alma de qualquer cidadão de bem que vive de salário e que, ainda por cima, se vê forçado a arcar com plano de saúde, mensalidade escolar, lista de material, e tudo o mais que deveria ser obrigatoriamente suprido pelos governos que arrecadam tantas taxas e impostos.

Viitória, 02 de maio de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A Gazeta

Lista de Material

Lista de Material

Outro dia me mostraram uma extensa lista do material que deveria ser comprado pelos pais dos alunos de uma creche para o ano letivo de 2011. O material deveria ser adquirido e entregue de uma única vez na escola, quando seria conferido item a item. Como opção, os pais poderiam fazer o pagamento em cinco parcelas iguais,somadas às mensalidades.

Imagino que a quase totalidade dos pais preferiu pagar a conta, apesar de meio salgada. É mais um preço que se paga pela correria diária, pela falta de tempo, pela preguiça de ir de loja em loja, pela simples falta de estacionamento diante das papelarias. Pagar é mais rápido e economiza chateação.

Taxa de material escolar é mais um daqueles itens que foram sendo incorporados nas despesas da sobrevivência de qualquer casal com filhos pequenos. Criar filhos está ficando cada vez mais caro. Criamos os nossos numa época em que as coisas eram mais simples e mais baratas.

Dia desses ouvi pelo rádio do carro uma entrevista com alguém que se dizia especialista em economia doméstica, autor de livros e tudo o mais. Acho que fazia parte da campanha de lançamento de mais um best seller, desses de auto ajuda que existem para todos os gostos.

A jornalista perguntava com alguma malícia e o especialista respondia com convicção que criar filho era um investimento de retorno garantido, sobretudo se a moeda utilizada como parâmetro fosse o reconhecimento e o carinho recebido do filho adulto.
Quando comecei a prestar atenção na conversa, ele anunciava os resultados de uma pesquisa que andaram fazendo por aí, que atesta que o brasileiro gasta em torno de 240 mil reais com um filho até que ele se forme em uma faculdade. Imaginei que a tal lista de materiais poderia ser tomada como prova inconteste da validade dos resultados da tal pesquisa.

Fiquei pensando que a mensalidade cobre apenas o direito de frequentar as instalações da escola e de receber as atenções de tias sorridentes. Pelo que sei, nas escolinhas a oferta de facilidades e atividades complementares é cada vez mais diversificada, incluindo-se aí inglês, capoeira, ginástica olímpica e natação. Tudo acessível a preços compensadores, no mais tradicional estilo do usou, pagou. Quase que um self service educacional, onde os estímulos ao consumo são sutis e de difícil percepção, sobretudo por pais dispostos a oferecer o que há de melhor para os filhos, ainda que isso lhes custe os olhos da cara.

O marketing dos chamados negócios educacionais reforça essa atitude legítima dos pais e explora, com força, o sentimento de culpa materna por não poder ficar em casa com os filhos durante o dia e o danado do olho grande no filho do vizinho. Como faz com os vinhos, a mensagem planta a idéia que a relação custo benefício da educação é muito favorável. Compensa gastar.

Voltando pra tal lista, confesso que me assustei com o que vi. Ela tinha mais de 100 itens, incluindo resma de papel, rolo de barbante, papéis especiais para aquarela, muitos pincéis, caixa de lápis de doze unidades e até caneta para retroprojetor. Fiquei pensando no esforço que teria uma criança de menos de dois anos para conseguir usar e gastar aquilo. Nestes tempos de reciclagem, as crianças estão frequentando escolas ou centros de formação de consumistas desvairados? 

Vitória, 20 de Abril de 2011

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Repique

Repique

Esta semana, um amigo de longa data mostrou no jornal, mais uma vez, a palma da mão direita suja do pó preto vindo lá da ponta de Tubarão. A foto ilustrava matéria sobre a ação que o Ministério Público Federal está movendo contra uma empresa que polui a cidade e, também, contra o órgão que deve cuidar da questão ambiental no Estado.

Fiquei animado com a notícia, que fez lembrar um amigo e ecologista ativo que perdemos. Cláudio Noé foi quem usou pela primeira vez a imagem da palma da mão cheia de pó de minério para denunciar a poluição na campanha para vereador de Vitória. Era um vídeo curtinho, mas de grande impacto emocional. Mesmo assim, ele perdeu a eleição. Muito pouca gente achou que ele merecia um simples voto. Isso foi a mais de 15 anos.

Hoje, a tirar pelos muitos comentários que recebi sobre a crônica dos grandes empreendimentos que estão chegando, ele seria muito bem votado. Cada alma, uma atitude; cada olhar, uma emoção. Compartilho com o leitor o tanto que cabe neste espaço:

“Praia das Neves não!!! Tudo bem que já têm um montão de anos que não volto lá, mas aquela praia azuli com espuma super branca com um porto? Ah, que me desculpe o progresso, mas um porto ali não combina mesmo. Que noticia mais triste!  E Anchieta também, que é um cantinho maravilhoso! ”

“Perdemos todas essas batalhas. O ES fez a sua escolha. Vamos virar um mega pólo de petróleo, aço, celulose, gás, granito e mármore. Feridas na terra que nunca vão cicatrizar. Tudo ao mesmo tempo e agora mesmo. Esses três empreendimentos por si só já vão atrair milhares de pessoas e grandes bolsões de miséria se formarão no entorno deles. É o fim do bucolismo nas praias do sul.” ”Enquanto isso, os caras do pó preto fingem que nem viram, né?”

“Há duas opções: transformá-lo portenhamente em nostalgia ou preparar o terreno para os tempos de eco bonança: espiritossantos duelando com espiritosdeporcos…” “Estou muito impressionada com o impacto das intervenções drásticas no litoral capixaba, com uma paisagem tão rica.” “Louvo os esforços contra a maré. A questão é muito séria e merece atenção. A guerra parece perdida, mas quem sabe… ”

“Parece que as pessoas continuarão a esquecer dos pés, enquanto os sapatos não apertarem demais…” “É verdade, são muitas pessoas para estragar e poucos para conservar”.  “Tem horas que tenho vontade de fugir deste mundo!”

“Leio com indescritível incômodo o que anda acontecendo nas “costas” dos capixabas. O que fazer? A quem pedir as informações corretas sobre as novas usinas no ES? Quem é isento neste processo? A quem beneficia essas implantações? O Ministério Público está se mexendo? Vamos acionar o pessoal do Greenpeace? Vamos chamar Marina Silva para um debate sobre estes impactos? Qual instituto ou ONG pode se mexer para questionar essas instalações? Estas perguntas têm respostas? Se acontece uma coisa dessas na Europa, todo mundo se mexe.”

“Entendo a sua preocupação, Alvareto, mas você ainda não viu nada. Espere até chegarem as refinarias, os complexos químicos e as usinas nucleares. Vamos sentir saudades dos tempos em que poluição eram só partículas de pó preto no ar.” Quem viver, verá. Mas, por enquanto e oportuno, torço para que a justiça se faça e que vigore a lei.

Vitória, 24 de Março de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA