Doces da vida

Doces da vida

Ganhei um tupperware cheio de canudinhos recheados de doce de leite e balas de mel enroladas em triângulos de papel manteiga. Em regime de convalescença, aqueles doces me levaram de volta a lugares que não frequento faz muito tempo.

O gostinho da bala é bem parecido com o das do bar do Nagib em Marataízes, delícia feita em pequenas quantidades, com receita caseira de avó de antigamente. Aliás, as avós de hoje, exuberantes e dispostas, não fazem mais biscoitinhos de nata nem ovos nevados. Compram sobremesa pronta ou dão preferência para receitas práticas como as de mousses de liquidificador.

Veio junto o sabor de infância da bala de coco queimado Itabira, que reencontrei há poucos anos no balcão do Bar Missagia, em Iconha, onde a compro em pacote de quilo quando passo por lá. Ela é feita para ser chupada aos pouquinhos, revelando os fiapos de coco incrustados no açúcar. Lembrei-me também do torrone de marshmellow, que vinha embrulhado em papel verde claro e só era vendido na Vila de Itapemirim. Nunca mais vi desses. Agradeceria se algum leitor desse uma pista de onde encontrar aquela maravilha, se é que ela ainda existe, se é que dela alguém ainda se recorda.

De quebra, pude sentir também o gostinho do sorvete de abacaxi que seu Dessaune vendia pelas ruas da cidade empurrando uma carrocinha azul (ou seria verde?) e que o calor cachoeirense derretia ao menor descuido do menino que o lambia.

Devo dizer que tenho preferência pelos os doces de fruta em calda. Adoro o de laranja amarga, que me traz a figura amistosa de Vovó Celina, vizinha de frente lá em Cachoeiro. Como faz tempo que não encontro a fruta para comprar, tenho me virado com o que é produzido em larga escala longe daqui, lá em Limeira.

Sendo o assunto sabor de infância, não poderia me esquecer da bananada Santana, vendida num armazém na Avenida Jerônimo Monteiro. Era bem escura e pastosa, quase sem açúcar. Pois foi depois de comer uma boa fatia daquela maravilha que um político nordestino, amigo de papai, declarou solenemente que “preferia doce de banana a banana pessoalmente”.

Hoje, na casa de mamãe, goiabada cascão com queijo fresco é sobremesa obrigatória, independentemente de tudo o mais que exista em oferta, inclusive a ambrosia que ela gosta de fazer e o seu famoso pudim de miolo de pão, ao qual acrescenta raspas de noz moscada e passas, o que dá um toque de nobreza à sua composição simplória.

Acho que se pode falar em doces de família. No caso da nossa, os mais apreciados são a torta de banana da terra frita, com as tiras mergulhadas em creme e cobertas com suspiro, o pavê de bicoitos champanhe embebidos em calda de chocolate, o famoso pudim de leite de tia Gilca, o quindão de Tia Má e a torta de limão que os meninos daqui de casa aprenderam a fazer, movidos pela gulodice.

Sem qualquer modéstia, incluo aqui o doce de orelha que fazia em tempo de alta produção caseira de goiaba, até que a nossa goiabeira precisou ser derrubada para aumentar o espaço para os carros. Na maioria das safras, as frutas estavam saudáveis e desabitadas. Foi pensando nisso que dia desses experimentei fazer um doce de lâminas de mamão verde colhido no quintal, cozidas em calda rala com canela em pau e al dente. Um docinho bem honesto, pode-se dizer.

Acho que seria justo incluir nesta crônica o doce de jaca em forma de dedo, vendido em saquinhos, que um tio meu guloso que só pedia pra gente levar pra ele, no Rio. E comia tudo sozinho, suspirando, matando saudades dos tempos de menino de cidade do interior.

Vitória, 22 de Janeiro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Demorou

Demorou…

O ano nem bem começou e um amigo que não vejo há muito tempo me enviou mais umas tantas mensagens do tipo conscientizadoras. Não é novidade. Ele vem fazendo isso com boa frequência e regularidade nos últimos dois anos. Normalmente são notícias inteiras de jornais, artigos assinados e indicativos de reportagens. Vez por outra ele manda sugestões de livros que estão sendo lançados e textos de clássicos da economia política.

As duas últimas remessas trataram de dinheiro. A primeira enaltece o saldo recorde no balanço comercial – a diferença entre os dólares que entram e os que saem do país. Ai incluídos os que resultam das compras e vendas de bens e serviços, os dos pagamentos de royalties, os que vieram para compor investimentos produtivos e, também, aqueles dólares desconfiados e espertinhos, que vieram pra cá em busca de juros generosos, safados, pra falar a verdade.

A outra mensagem trata do orçamento da União para 2012, indicando como fonte de informações a Câmara dos Deputados. Parece coisa oficial e verdadeira. Traz um número assustador: 47,19% do total que vier a ser arrecadado pelo governo federal durante o ano serão destinados ao pagamento de Juros e Amortização da Dívida Pública. Exatos R$ 1,014 trilhão, dinheiro que daria para pagar a conta do programa bolsa família durante uns 80 anos seguidos. Um absurdo sem medidas.

Confesso que levei um grande susto ao fazer essa conta, que trato de dividir com os leitores que pagarão impostos diariamente, como eu. É mais do que sabido que o Brasil paga as maiores taxas de juros do mundo e que pratica a maior carga tributária do planeta, sem qualquer dó da sua população e das suas empresas. É duro de dizer, mas o brasileiro fica com cara de otário nesse filme de terror ambientado nesse início de milênio, no momento em que a Europa e os Estados Unidos, cada qual ao seu modo, experimentam a decadência e começam a dar sinais de esgotamento no comando de um sistema econômico perverso, que concentra riquezas e poderes de forma radical.

Falando nisso, ontem terminei a leitura de A Refundação do Brasil, livro recém-escrito por Luiz Gonzaga Souza Lima, um amigo de longa data, apaixonado pelo Brasil. Ele é convicto da oportunidade e da urgência de buscarmos formas mais harmoniosas e generosas de seguirmos em frente, na busca de uma sociedade centrada na vida e em substituição ao que ele denomina de sistema econômico da exclusão e da morte.
Fundamentado em reflexões pessoais e no que aprendeu com Darcy Ribeiro, Caio Prado Jr, Joaquim Nabuco, Raymundo Faoro, Gilberto Freire, Celso Furtado, Leonardo Boff e tantos outros, ele relata a formação econômica e política do nosso país – inteiramente voltada para a produção destinada ao mercado mundial – e entende que a nossa cultura plural e única pode ser um poderoso instrumento para que o Homem possa alcançar alegria e felicidade, vivendo em sociedades que aceitem as diferenças e valorizem a vida.

Assim como eu, Jeanne Bilich e muita gente, Luiz está convencido de que já estamos em mais um fim de ciclo da civilização e destaca que isso abre espaço para novas atitudes, proposições e querecências mais ousadas, capazes mesmo de nos tirar do atoleiro e da beira do precipício.

Tendo a concordar com ele e a torcer para que as mudanças possam acontecer o quanto antes. Resta saber como será enfrentar os bancos que dominam o mundo e, simultaneamente, a China, que vem vindo por ai com gosto de gás, atropelando na reta, engolindo mercados inteiros, com o apetite de um novo império.  

Vitória, 08 de Janeiro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Limpeza

Limpeza

Tudo começou com a decisão de tirar os parasitas da orquídea que deveria ser transferida para um vaso de barro clarinho. De longe, parecem fazer parte da planta. São pontos escuros agarrados nos dois lados das folhas e nos caules. Olhando com mais atenção, vê-se que não deveriam estar ali.

Antes mesmo de terminar o serviço, vi que todas as demais orquídeas do jardim – mais de trinta – sofriam do mesmo mal. Como se não bastasse, todas elas estavam cobertas com uma camada fina e homogênea de pó preto, agregado com a umidade da maresia, coisa farta por aqui.

Com tempo sobrando, tratei de limpar uma por uma, cuidadosamente, com as pontas dos dedos e uma esponja de cozinha. Um trabalho maneiro e de resultados imediatos. A planta recupera suas cores naturais, um aspecto saudável e você fica recompensado, como se tivesse salvado a humanidade.

Estávamos em plena arrumação para as festas de fim de ano, dando os últimos retoques no alpendre construído na lateral da casa, onde poderemos enfrentar o calor de verão em condições bem favoráveis. Comer, coçar e limpar, basta começar.

Nem precisei de óculos para ver que as pedras ao redor da casa estavam totalmente cobertas por uma grossa camada de pó de minério. Algo medonho, mas nada que não pudesse ser removido com a ajuda de uma dessas máquinas de lava-a-jato, que adotei faz tempo. Práticas, portáteis e eficientes, elas também servem de brinquedo para marmanjos desocupados.

Com movimentos estudados e sistemáticos, limpei primeiro as pedras da entrada da casa e em seguida as da lateral. Dava gosto ver a sujeira ir sendo retirada pelo impacto do jato d’água sob alta pressão. A textura do granito ia reaparecendo aos poucos, deixando o piso bem mais claro e contrastado.

Um simples erro de pontaria fez surgir o bege claro do muro, que parecia limpo. Reajustei o jato para que ficasse mais difuso e a cor original surgiu, agradecida. Um olhar atento mostrou troncos de ibisco cobertos por uma mistura de pó preto com lodo velho. Um jato mais concentrado trouxe de volta o amarelado da casca. O verde das folhas foi obtido com água em regime de pulverização.

Ao desligar a bomba, lembrei-me dos dois homens que limpam as praias no começo das manhãs. Eles cumprem uma rotina serena e coordenada. Varrem as folhas das castanheiras e tudo que o mar deixa na areia, incluindo pedaços de pau, plásticos e sementes de mangue. Recolhem, com muito mais esforço, a sujeira produzida por homens, mulheres e crianças em dias de lazer à beira mar. Uma montoeira de coisas descartáveis: garrafas pet de todo tipo, cadeiras quebradas, plásticos, papéis, palitos de picolé e uma enorme quantidade de casca de côco verde. Varrem tudo, formam montinhos, colocam tudo em sacos enormes que carregam até a calçada e levam, em um carrinho, para onde o caminhão possa recolhê-los. Trabalham em silêncio e tranquilos.

Vê-los no ofício de limpar aquele pedaço do mundo sempre me faz pensar na vida. Passo por eles ao andar de um lado para o outro, em busca de saúde. A nossa saudação é sempre cordial e solidária. Imagino que saibam que aprecio aquele trabalho discreto e generoso, embora pouco valorizado pelos que usufruem dos seus resultados.

Há quem pense que sujar o mundo seja um direito inalienável do homem consumidor, quem adote o pressuposto de que sempre haverá quem limpe o que ele sujar. Imagino que algo parecido passe pela cabeça de quem decide o funcionamento das empresas que processam minério de ferro e carvão na Ponta de Tubarão e sujam tudo por aqui.

Vitória, 26 de dezembro de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempestades

Tempestades

O domingo está cinza, coberto por nuvens sem forma. Ontem, no fim da tarde, bateu um pé d’água fortíssimo por aqui, desses de tremer os vidros e fazer pensar na vida. Não durou muito, mas imaginei que a festa de fim de ano da empresa teria de ser adiada para quando Deus desse bom tempo. A chuva veio trazida por um vento muito forte e encharcou tudo o que havia sido arrumado para receber umas trinta pessoas.

A tempestade me fez lembrar daquela que enfrentamos na praia de Regência, exatamente ali onde construíram a sede do Projeto Tamar. Chegamos no início da tarde para pegar a maré subindo, quando, reza a crença dos pescadores, os peixes ficam mais interessados em comer as iscas que lhes são oferecidas traiçoeiramente, recheadas com anzol.

Tempo firme, mar completamente calmo e vento soprando do leste. Estava fácil avançar mar a dentro, ultrapassar o valão com água nos peitos e braços para o alto até atingir o banco de areia que existia poucos metros adiante. Com água nas canelas, podia-se fazer o arremesso com categoria, lançando as iscas para além da arrebentação onde, se supõe, nadam os robalos maiores.

Naquele dia os peixes estavam vorazes como nunca. Em pescaria promissora, barraca mal armada. De olho nas varas de bambu e correndo na areia quente para tentar ferrar bicho graúdo, nossa barraca fora montada de qualquer jeito. Ela ficara presa ao solo apenas por pequenos grampos de ferro enfiados na areia fofa. Terminada a pescaria, ninguém se lembrou de ancorá-la com cordinhas resistentes.

Turma de pescaria é uma instituição. Normalmente ela dura uma vida inteira, mesmo que falte peixe, mesmo que se pare de pescar. Sempre tive uma turma para pescar de mergulho e uma outra para a pesca de vara de arremesso em praia e do alto de pedra. A de pesca de linha incluía pelo menos duas figuras indispensáveis. Um grande bebedor de cerveja e um eterno esfomeado.

O primeiro, dono de grandes bigodes, sempre se incumbiu de providenciar um isopor enorme, repleto de garrafas. Ele sempre colocava as cervejas para gelar de véspera. Antes da viagem, religiosamente, escorria a água e completava a carga de gelo, garantindo, assim, que beberíamos o líquido estupidamente gelado.

O outro sempre cuidou do rancho, com atenção redobrada para as carnes, o sal grosso, as panelas e os espetos. Jamais deixou de levar uma boa cachaça. Esse, nem bem terminávamos de tirar as tralhas do carro, já saia em busca de um punhado de graveto para acender o fogo e de um toco grande para colocar ao lado do buraco cavado na areia. Em poucos minutos, lá estava o primeiro frango recebendo o calor do fogo, quase sempre recheado com gomos de laranja. O serviço era feito com um copo de cerveja na mão, muitas reclamações e frases de impacto. Reclamar de tudo e falar bobagens o tempo inteiro fazia parte do personagem. Nunca houve pescaria sem discussão, mas sempre tinha gente morrendo de rir. “Abre mais uma gelada, bonitão” era grito ouvido com frequência, sempre seguido da reclamação de que iria faltar cerveja.
Tarde da noite, de barriga cheia e cabeça meio mole de cachaça, entramos na barraca para dormir com céu limpo e a Via Láctea inteiramente à mostra, majestosa, sobre nós.
Custei a entender o que estava acontecendo quando senti aquele pano molhado bater no meu rosto. Uma tempestade com ventos fortíssimos havia jogado tudo no chão. Só nos restou tomar um bom banho de chuva, abrir mais uma gelada e lançar linha ao mar. Amanhecia.

Vitória, 12 de Dezembro de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Caras Pintadas

Caras Pintadas

Resolvi finalizar o que tinha escrito e, por um pequeno descuido, desses que você não esquece para o resto da vida, deletei tudo o que havia feito. Diante da tela acinzentada, fiquei pensando na durabilidade das palavras quando escritas em uma folha de papel com uma tinta apropriada. O texto era mais ou menos assim.

***

Em uma reportagem espetacular, o jornal “O Estado de São Paulo”, na sua edição de domingo, 20 de novembro de 2011, informa e comprova que foi uma banda capixaba de rock a primeira a subir aos palcos com as caras pintadas. Até então, esse mérito era atribuído às bandas de Alice Cooper e de David Bowie. Os Secos & Molhados carregavam a fama de terem lançado a moda no Brasil, cantando com pouca roupa, muitas plumas e maquiagem pesada. Lembro-me de um show deles em Brasília por volta de 1973, tempo em que o Dzi Croquettes, uma animada trupe de rapazes, dava espetáculos de música e dança sofisticadíssimos, sob a batuta do dançarino americano Lennie Dale. Vivendo em comunidade, eles se utilizavam de uma fina linguagem de deboche contra o mundo careta e o regime militar, que tudo proibia. Foram-se todos para a França, para deleite do mundo.
O reparo veio depois de mais de 40 anos de espera. Finalmente, Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó, Mario Rui e outros Mamíferos de criação foram reconhecidos como os primeiros roqueiros a subir nos palcos usando fantasias e caras pintadas para chocar o público. O “Estadão” dedicou ao tema duas páginas inteiras do seu Caderno matéria de capa, com diagramação primorosa e texto convicto, traz fotos e depoimentos de artistas famosos, de gente que fez e de gente que viu. O feito se deu durante a apresentação de um rock pesado num festival de música popular em fins dos anos 60, no ginásio lotado do SESC, nas imediações do Parque Moscoso.
Trago esta notícia ao conhecimento dos leitores na tentativa de compensar os impactos negativos do noticiário dos últimos dias e, sobretudo, para mostrar que nem tudo está perdido. Falo do vazamento de petróleo na Bacia de Campos e da provável extinção do sistema FUNDAP, dois temas que estão presentes em qualquer roda de empresários e gente de governo. Há muita indignação e desassossego no ar.
Pelo que se pode saber, as falhas ocorridas em alto mar foram frutos da ganância e do descaso de uma companhia petroleira reincidente. O vazamento foi comunicado à população por meio de uma nota cínica, que tentava mostrar o desastre como algo natural e de menor importância. Os fatos deixaram a nu o despreparo de empresas e de órgãos de governo. O que se viu foram homens públicos dando cabeçadas, disputando holofotes ou brincando de pique esconde. A corrida desenfreada por aumentos expressivos na produção de petróleo e a batalha pelos royalties ganharam um novo elemento. Determinante do uso de bom senso em larga escala, espero.
Como se isso não bastasse, a iminente eliminação do FUNDAP, incentivo fiscal criado em tempos de vacas magérrimas e café aguado, representa uma grande ameaça à felicidade geral aqui no Espírito Santo. Há quem diga que, no começo, o estrago maior se dará na região da Grande Vitória, onde muitas empresas fecharão as portas e muita gente ficará sem emprego. Em seguida, o comércio e o mercado imobiliário sofrerão o baque da falta de dinheiro e de confiança. Depois, faltará merenda escolar e recursos para pagar o funcionalismo em praticamente todos os municípios. Os mais sarcásticos estão dizendo que, em compensação, vai faltar verba para manter as Câmaras de Vereadores.         

Vitória, 28 de Novembro de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Desespero

Desespero

A semana passada foi cheia de fatos que expressam os tempos que vivemos. Sem conexão direta entre si, retratam cenas novas de eternos embates pessoais, de grupos organizados e de governos. Lá fora e por aqui no Brasil.

Na Europa, em função da evolução da crise financeira que vai tomando corpo e dimensão grave, e da absoluta necessidade de tentar manter a situação sob controle, os donos do dinheiro do mundo trocaram um primeiro ministro queixudo, de cara simpática, por um senhor que já lhes havia prestado serviço em posição de confiança. Eles também ajudaram a defenestrar o mandatário de um outro país em situação de risco, usuário de cabelos implantados e cuidadosamente pintados, dono de uma péssima reputação pessoal.

No Rio de Janeiro, prenderam um poderoso chefe do tráfico que tentava escapar do cerco policial, escondido no bagageiro de um carro de luxo. Houve tentativas de suborno de policiais e discursos de dirigentes em solenidade para comemorar vitória. Aos poucos, com método e estratégia, o poder público vai tentando ocupar um espaço que perdeu faz tempo nas favelas cariocas, se é que já o teve. É disputa medida em palmos, visando a segurança de eventos mundiais.

Na Avenida Rio Branco, fizeram uma grande passeata pedindo justiça, respeito e o dinheiro do petróleo que vai jorrar no mar alto, daqui pra frente. A fotografia aérea me fez lembrar da Passeata dos Cem Mil que aconteceu naquele mesmo lugar em junho de 1968, em favor da liberdade, contra o regime militar. Amigos que estudavam no Rio me contaram que havia plena convicção na alma dos participantes e que tinha sido muito emocionante estar no meio daquela multidão de indignados.

Por aqui, o governo promoveu um ato público na Praça dos Namorados em Vitória para marcar posição ao lado dos cariocas e contra as expectativas de todos os demais Estados brasileiros. A intenção era sensibilizar a presidente de todos nós. Pude ver imagens e declarações pela televisão e ouvir ao longe a batida do rap e do samba no começo da noite. Soube que o governo promoveu a liberação das roletas dos ônibus e das cancelas do pedágio da Terceira Ponte na tentativa de engrossar a participação popular. Conseguiram trazer comitivas das cidades do interior, em ônibus fretados. Parece que teve gente que aproveitou para tomar um bom banho de mar ou dar uma passadinha no shopping.

Para muita gente, royalties é uma palavra difícil de escrever e de entendimento ainda bem mais complicado. Embora o petróleo seja nosso, por certo não será uma peleja fácil de vencer.

Soube pelo rádio do carro que, inconformados, funcionários de empresa tercerizada bloquearam a entrada principal de uma siderúrgica em protesto pela falta de pagamento dos salários atrasados. Revoltados, motoristas de caminhão bloquearam uma rodovia federal pela impossibilidade de entrarem no pátio da siderúrgica para descarregar. Prejudicado, o estagiário que saiu às sete horas de Jacaraípe, só chegou no escritório em Santa Lúcia depois do meio dia.

Em Brasília, pressionado por denúncias de corrupção, um ministro com cara de leitão resolveu falar grosso em defesa da lisura e dos próprios interesses. Esperto, pediu perdão declarando amor por quem poderia demiti-lo por razões políticas ou qualquer outro motivo oficial.

Restou uma reflexão meio marota: o que surtirá mais efeito, uma pressão política sob encomenda ou uma falsa declaração de amor? Pelos seus largos sorrisos no noticiário, tive a impressão de que a declaração amoleceu o coração da presidente.

Vitória, 14 de novembro de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Insônia

Insônia (COM PEQUENOS CORTES)

Sempre dormi que nem pedra. De sete a oito horas de sono por noite, como é comum entre as pessoas normais. Sim, no quesito sono sereno posso ser classificado como uma pessoa perfeitamente normal. Sempre dormi por volta da meia noite e acordei beirando as sete. Quase sempre, ainda deitado, tento adivinhar que horas são tomando por base o pouco de céu que vejo pela janela e, sobretudo o que me diz aquela espécie de relógio biológico que temos dentro da cabeça. Gosto de tentar acertar as horas e, sobretudo, os minutos.

Por acreditar indispensável à sobrevivência, sempre cuidei de saber as horas, a posição e o rumo. Também gosto de saber a direção do vento, a condição da maré, a fase da lua, se vai chover ou fazer sol. Tenho sempre a sensação de que a minha vida depende dessas informações. Talvez seja alguma coisa do homem antigo, de quem precisava caçar para comer e encontrar abrigo para dormir.

Por toda esta vida, sempre dormi a noite inteira e com boa tranquilidade. Felizmente, tenho passado as noites dormindo. Nada de ficar me debatendo na cama contra a insônia, perambulando pela casa em busca de algo pra fazer, semi-acordado diante da televisão esperando o sono, ou lendo um livro até deixá-lo cair no colchão. Comigo, acordar de madrugada, só mesmo para enfrentar viagens longas ou para pescar em alto mar.

Prefiro ir para a estrada antes de amanhecer, quando as saídas das cidades estão quase desertas e as estradas ainda estão bem vazias. A viagem rende. As viagens a bordo do nosso ônibus transformado em trailler mambembe sempre começavam no escuro, com a turma ainda dormindo lá atrás. Tratava de dirigir sem muitos solavancos para que ninguém acordasse assustado ou caísse da cama. Em passeios com a família, dava gosto ver os filhos pequenos acordarem com cara amassada e risonha. Imagino que hoje, já adultos, ainda se lembrem desses momentos, quando olhavam para o mundo pela janela, sem a mínima noção de onde estavam. Cada dia um lugar diferente, mas sempre a mesma sensação de aventura.

Nas pescarias de alto mar, as saídas sempre acontecem com o dia querendo começar a clarear. É condição para conseguir lançar as linhas na água no comecinho da manhã, quando se supõe que os peixes estejam mais famintos. Tem gente que gosta de aproveitar o tempo de navegação mar a dentro para dormir mais um pouco. É um sono intranquilo, sempre atento aos movimentos da lancha enfrentando o mar, normalmente mais calmo nessa hora do dia, quando o vento ainda está resolvendo o que fazer.

Sempre gostei de estar de olhos bem atentos ao que acontece no horizonte em volta da lancha, acompanhando o amanhecer, pensando na vida e nos peixes. Não há para onde ir, nem o que fazer. Durante mais de uma hora, pode-se ficar em silêncio, operando em regime de espera. Cada saída para pescar é sempre diferente de todas as demais. A condição do mar, as cores do céu, os problemas que ficaram em terra, as expectativas de ferrar um peixe maior são particulares de cada madrugada e isso, por si só, nos coloca diante do novo e do incerto, nos faz perceber que a vida está seguindo.

Hoje, não sei bem o porque, acordei antes do sol. Depois de rolar na cama por algum tempo, levantei com disposição para enfrentar muitos quilômetros de asfaltos ou milhas marítimas. O café preto que acabo de tomar, que fiz sem qualquer pressa, estava com o mesmo sabor dos que sempre tomei antes de sair da casa nessas ocasiões, que acabo de reviver com as pontas dos dedos batendo neste teclado preto.

Vitória, 17 de Outubro de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Tartarugas

Tartarugas

As tartarugas estão dando sopa na Ilha do Boi. Digo isso porque tenho visto, quase todo dia, grande quantidade delas vindo à tona para respirar. Isso em dois pontos diferentes: no final de duas ruas sem saída, que terminam diante do mar. Vejo-as do alto do paredão que existe em cada uma delas.

Do primeiro fim de rua avista-se a ilha Gaeta de Dentro e o Clube Ítalo, tendo ao fundo a barra, repleta de navios fundeados, e a ponta de Tubarão, cheia de chaminés, fumaça e tudo o mais. Ali, as águas são bem calmas, o que facilita bastante o serviço de identificar uma cabeça de tartaruga na superfície, mesmo estando a boa distância.

O outro fica de cara pra Ilha do Frade. Dependendo da hora, o mar fica agitado pela força do vento nordeste, que sopra com muita disposição nesta época do ano. Mesmo olhando de cima, o reflexo do sol, as pequenas ondas e os pedaços de madeira que aparecem boiando dificultam o trabalho de localizar as tartarugas, sobretudo as menores.

Nessa atividade, o observador tem que estar atento, com o olhar ligado em sistema de varredura e com a visão lateral em estado de alerta. As tartarugas são rápidas e podem aparecer em todos os lugares, a qualquer momento. Depois de um longo mergulho, elas vêm a superfície ganhar oxigênio para continuar nadando. Ao mergulharem de volta, mostram um pedaço do casco e as nadadeiras traseiras, exatamente como fazem os mergulhadores, que deixam à mostra os seus pés de pato.

Conheço bem esse movimento. Mergulhei por muitos anos para pegar lagostas. Com os pulmões reabastecidos, nada-se em direção ao fundo em busca da presa. Esse é sempre um momento de expectativa e esperança. Encontrar uma ponta de antena de lagosta é tarefa que exige atenção, e perspicácia. Sobretudo em águas turvas, onde a visibilidade é pouca. A vegetação sub aquática dança ao movimento das águas e confunde o mergulhador.

Gosto de pensar que tenho visão de águia. De gavião velho, talvez. Divirto-me exercitando a capacidade de perceber movimentos e de localizar coisas em volta. Passarinho na árvore, guruçá na areia, manga madura e, agora, tartaruga no mar. Acredito piamente que quem procura acha o que esteja precisando e o que nem imaginava existir por perto.

Tenho levado Theo e Manu para procurar tartarugas comigo. Os dois estão aprendendo na velocidade própria aos pequenos e já conseguem localizar as que estão nadando mais próximo das pedras. Tem sempre comemoração pela tartaruga que viram e gritos de satisfação por terem conseguido avistá-la. Em casa, o assunto está presente na hora de comer e, sobretudo, de dormir. Os olhinhos brilham só de ouvir falar a palavra mágica. As tartarugas encantam as crianças. Talvez porque, nos desenhos animados, elas sempre aparecem como personagens sábias, criaturas amistosas de olhar cativante.

Hoje cedo, ensinando neto a procurar tartaruga no mar, me vi participando do processo de transmissão de experiências e conhecimentos que a humanidade pratica desde sempre. Na volta pra casa, com menino pela mão ladeira acima, me dei conta que, para a grande maioria das pessoas, já não mais será preciso aprender a identificar a direção dos ventos, saber se vai chover ou localizar o norte. Bastará que escolham o que esteja à sua disposição nas prateleiras das lojas e nos sites da internet.

Já não sou criança faz um bom tempo, mas guardo na lembrança a imagem de uma tartaruga enorme, que os pescadores tiraram do mar, na Praia do Canto. Naquele tempo, matar tartaruga não era crime. O casco era quase do tamanho do teto de um fusca.

Vitória,02 de Outubro de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Cozido

Cozido

Sou um cozinheiro de comidas para grandes públicos. Gosto de cozinhar pra gente que gosta de comer rindo, falando alto. Comida farta para juntar amigos em volta de mesas coloridas e fumegantes. Pai de cinco filhos e irmão de quatro, tenho feito almoços para quarenta e até cinquenta pessoas de bom apetite. Feijoadas completas, panelas enormes de arroz de polvo, moquecas de camarão miúdo, paellas e cozidos sortidos.
Gosto de cozinhar em cozinha cheia e barulhenta, mas trabalho em silêncio, concentrado no fio da faca, na largura das tirinhas da couve, na busca da melhor sequência das atividades. Prefiro dividir o serviço com pouca gente, de preferência com quem já esteja acostumado com minhas manias e que não precise de instruções detalhadas.
Engenheiro de produção, adoto conceitos e métodos que racionalizam o trabalho e economizam tempos e movimentos. Detesto cozinha suja. Uso e lavo talheres, pratos, travessas e panelas o tempo todo. Nada de acumular louças e utensílios dentro de pia cheia de água engordurada. Bancadas devem estar sempre limpas e desimpedidas, para se poder trabalhar com conforto.
Pois bem, esta semana fui convocado para fazer um cozido para comemorar o aniversário do casal de irmãos mais velhos e a aposentadoria do irmão mais novo. Tarefa de responsabilidade. Resolvi fazer um cozido sortido usando aipim manteiga, batatas doce, inglesa e baroa; milho, cebola, cenoura, maxixe, quiabo e jiló; abóboras vermelha e japonesa, couve e couve flor, repolhos roxo e verde; vagem, ervilha torta e banana da terra. Alho, cebola, salsa e cebolinha. Carne seca, fraldinha, carne de sol, costeleta de porco, bacon magro, paio, três tipos de linguiça, um bom pedaço de um embutido recomendado pelo rapaz que vende defumados na feira e uma dúzia de ovos. Sendo difícil calcular as quantidades, melhor fazer para sobrar. Todo mundo sabe que cozido no dia seguinte é mais gostoso ainda.Gosto de escolher pessoalmente os ingredientes. Tentar encontrar legumes em formato e tamanho homogêneos faz parte da diversão. Facilita o preparo e realça a apresentação na hora de servir.
Os portugueses e os espanhóis fazem cozido com poucos ingredientes. A mãe de uma amiga nossa faz o pessoal ficar triste de tanto comer seu cozido galego, feito só com batata inglesa, grão de bico, repolho e couve, paleta e embutidos bem curtidos.
Aprendi, com um cozinheiro de voz poderosa, a usar aquelas redinhas de plástico amarelas de embalar laranja: um grande macete que garante total controle do processo de cozimento dos legumes, a maior dificuldade no preparo desse prato. O ideal é usar uma para cada coisa. Aos que demonstram preocupação com a possibilidade de a redinha desmanchar na panela, digo que o plástico só derrete em temperaturas bem mais altas e trato de mudar de assunto, rapidamente.
Para quem não sabe, deve-se cozinhar primeiro as carnes mais duras em molho bem temperado, tendo-se em mente a necessidade de contar com um caldo farto para cozinhar, em panela bem grande, os legumes e as verduras. O ideal é começar pelo que demora mais a amolecer, deixando as abóboras e as verduras verdes para o final. Quando tudo estiver pronto, basta dar uma esquentada e ir abrindo redinha por redinha. Tem quem goste de montar as travessas jogando com o contraste das cores, para realçar a presença de cada alimento.

Desta vez a mandioca não amoleceu, mas o vento sul esfriou o tempo, o que ajudou bastante o pessoal a comer com bom estusiasmo.

Vitória, 19.09.2011

Alvaro Abreu

Escrita para  A GAZETA.

Sob pressão

Sob pressão

Na semana passada fui visitar um casal que acabara de se mudar para uma rua perto da nossa e encontrei o amigo em meio a muitas caixas de papelão, terminando de arrumar os livros na estante da sala. Quando cheguei, o que era considerado relevante já estava no devido lugar. Restava agora a pior parte: selecionar o que continuaria a guardar por mais uns tempos. Restaram pilhas de publicações diversas, incluindo uma enciclopédia, catálogos, dicionários de capa dura, mapas desatualizados, manuais de instruções, uma bela coleção de revistas em inglês e muito, muito mais.

Perguntei se os meninos da casa gostavam de livros como ele. Com um olhar resignado, ele confessou que os dois preferem o computador. Disparado. Deu dó de ver aquele professor cinqüentão constatando a inutilidade de muitas das coisas que acumulou durante anos, pensando nos filhos. Um serviço feito com parcimônia e generosidade, seguindo o exemplo do próprio pai. Tristonho, ele estava diante da verdade dos fatos: muito do que guardou havia perdido, de repente, a razão de ser. Na internet, a busca pelo que se quer é bem mais rápida, certeira e cômoda do que procurar em uma estante entulhada.

Aquela cena me fez lembrar de quando comprei um computador pra nossa casa. A filharada ficou eufórica, sobretudo o mais velho, que agora me lembrar que era um 386 com processador de 25 MegaHertz, 1 MB de memória RAM e monitor colorido. Tecnologia de última geração, em pleno ano de 1993. Fiz a compra por telefone. O vendedor veio de avião do Rio de Janeiro, especialmente para fazer a instalação e nos repassar as instruções de uso. Lembro-me que fiquei incomodado com a truculência com que ele conectava os cabos e batia os dedos nas teclas. Aquele homem enorme demonstrava pressa e nervosismo, talvez por saber que fazia algo fora da lei. Soube depois que o recheio dos computadores era trazidos dos EUA na bagagem de turistas.

Aquilo era uma grande novidade e fazia sucesso com os amigos e com os colegas dos meninos. Muito pouca gente tinha computador em casa. A internet era usada apenas para a troca de e-mails e a conexão ocupava a linha de telefone, provocando muita discussão. Havia fila para jogar Tetris, um jogo russo. Era fascinante remendar o texto, cortar e colar, trocar o corpo das letras, eletronicamente. Um amigo emprestou uma impressora matricial que imprimia as letras com nove agulhas. Fazia barulho, porém facilitava a vida.

Pois bem, estes últimos dias foram de grande inovação na vida familiar e no ambiente de trabalho. É que chegaram, depois de ansiosa espera, os iPhone 4, aparelhos que, acionados com a ponta de um ou, no máximo, dois dedos, permitem ao cidadão comum acessar praticamente tudo o que está disponível no mundo digital. Inclusive coisas que ele não imaginava existirem e das quais nem precisava. De fora, pude observar a excitação individual e o frenesi de pequenos grupos em torno dos aparelhos brancos, esfregando, mostrando, exclamando, experimentando, tocando, ouvindo, fotografando, enviando e recebendo, contando, pedindo, mostrando, telefonando… Tábua de maré, condições metereológicas, conta de banco, GPS, mapas e itinerários, chegadas de aviões, compra de ingresso, posição dos astros, rádio, telefonema de graça, música, lanterna, medidor de batimento cardíaco e muito mais.

Definitivamente, o futuro chegou por aqui. Confesso que estou me sentindo imprensado pela tecnologia da informação e acho que vou acabar tendo que começar a usar celular, nem que seja um daqueles já ultrapassados.

Vitória, 05.09.2011

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA