Doces da vida
Ganhei um tupperware cheio de canudinhos recheados de doce de leite e balas de mel enroladas em triângulos de papel manteiga. Em regime de convalescença, aqueles doces me levaram de volta a lugares que não frequento faz muito tempo.
O gostinho da bala é bem parecido com o das do bar do Nagib em Marataízes, delícia feita em pequenas quantidades, com receita caseira de avó de antigamente. Aliás, as avós de hoje, exuberantes e dispostas, não fazem mais biscoitinhos de nata nem ovos nevados. Compram sobremesa pronta ou dão preferência para receitas práticas como as de mousses de liquidificador.
Veio junto o sabor de infância da bala de coco queimado Itabira, que reencontrei há poucos anos no balcão do Bar Missagia, em Iconha, onde a compro em pacote de quilo quando passo por lá. Ela é feita para ser chupada aos pouquinhos, revelando os fiapos de coco incrustados no açúcar. Lembrei-me também do torrone de marshmellow, que vinha embrulhado em papel verde claro e só era vendido na Vila de Itapemirim. Nunca mais vi desses. Agradeceria se algum leitor desse uma pista de onde encontrar aquela maravilha, se é que ela ainda existe, se é que dela alguém ainda se recorda.
De quebra, pude sentir também o gostinho do sorvete de abacaxi que seu Dessaune vendia pelas ruas da cidade empurrando uma carrocinha azul (ou seria verde?) e que o calor cachoeirense derretia ao menor descuido do menino que o lambia.
Devo dizer que tenho preferência pelos os doces de fruta em calda. Adoro o de laranja amarga, que me traz a figura amistosa de Vovó Celina, vizinha de frente lá em Cachoeiro. Como faz tempo que não encontro a fruta para comprar, tenho me virado com o que é produzido em larga escala longe daqui, lá em Limeira.
Sendo o assunto sabor de infância, não poderia me esquecer da bananada Santana, vendida num armazém na Avenida Jerônimo Monteiro. Era bem escura e pastosa, quase sem açúcar. Pois foi depois de comer uma boa fatia daquela maravilha que um político nordestino, amigo de papai, declarou solenemente que “preferia doce de banana a banana pessoalmente”.
Hoje, na casa de mamãe, goiabada cascão com queijo fresco é sobremesa obrigatória, independentemente de tudo o mais que exista em oferta, inclusive a ambrosia que ela gosta de fazer e o seu famoso pudim de miolo de pão, ao qual acrescenta raspas de noz moscada e passas, o que dá um toque de nobreza à sua composição simplória.
Acho que se pode falar em doces de família. No caso da nossa, os mais apreciados são a torta de banana da terra frita, com as tiras mergulhadas em creme e cobertas com suspiro, o pavê de bicoitos champanhe embebidos em calda de chocolate, o famoso pudim de leite de tia Gilca, o quindão de Tia Má e a torta de limão que os meninos daqui de casa aprenderam a fazer, movidos pela gulodice.
Sem qualquer modéstia, incluo aqui o doce de orelha que fazia em tempo de alta produção caseira de goiaba, até que a nossa goiabeira precisou ser derrubada para aumentar o espaço para os carros. Na maioria das safras, as frutas estavam saudáveis e desabitadas. Foi pensando nisso que dia desses experimentei fazer um doce de lâminas de mamão verde colhido no quintal, cozidas em calda rala com canela em pau e al dente. Um docinho bem honesto, pode-se dizer.
Acho que seria justo incluir nesta crônica o doce de jaca em forma de dedo, vendido em saquinhos, que um tio meu guloso que só pedia pra gente levar pra ele, no Rio. E comia tudo sozinho, suspirando, matando saudades dos tempos de menino de cidade do interior.
Vitória, 22 de Janeiro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
