Fruta-pão

Fruta-pão

Ganhei um fruta-pão de presente da minha irmã Beatriz. Ela veio trazê-lo pessoalmente. Estava toda orgulhosa e cheia de si, dizendo que tinha acabado de tirá-lo do pé que ela plantou no quintal da sua casa e que está dando a sua primeira carga de frutos. Trata-se de uma árvore de origem bem conhecida, descendente direta que é do pé de fruta-pão centenário do sobrado onde nasci, na Rua 25 de Março, lá em Cachoeiro de Itapemirim, que pode ser considerado como uma espécie de árvore da família.

Quando estive lá, há uns quatro anos, tirei duas mudas já taludas com a ajuda de um facão enferrujado e as trouxe para Vitória enroladas em papel de jornal molhado. Não foi difícil, os brotos nascem nas raízes superficiais, na forma de um pequeno talo, com uma ou duas folhas já bem grandinhas. Aliás, as folhas do fruta-pão, firmes e com suas bordas recortadas, são das mais bonitas que eu conheço. São enormes, podendo chegar a uns sessenta centímetros de comprimento. Quando nascem, são verde claro, puxando para o amarelo. Depois de abertas, ganham cor bem mais escura, um verde próprio, fácil de identificar.

É árvore inconfundível e bonita de se ver. Os galhos não são muitos, mas são bem longos. A quantidade de folhas é relativamente pequena, o que permite vê-la também por dentro. Posso reconhecer um pé de fruta-pão à distância. Sempre que viajo vou procurando por eles e pelas touceiras de bambu. São árvores solitárias e quase sempre estão no quintal das casas, ao alcance dos seus moradores. São de grande utilidade como fonte de alimento. Basta um único fruta-pão para alimentar uma família de muitas bocas. Vi na internet que foi trazida do Sudeste Asiático no século dezoito.

Os seus frutos ficam dependurados na ponta dos galhos, como as bolas das árvores de Natal. São arredondados, grandes e pesados, têm casca caracachenta de um verde desbotado e um cabo grosso que solta um leite branco. Quando ainda está de vez, sua polpa é bem clarinha, sem fibra e de consistência parecida com a da batata doce. Tem gosto suave, aceitando qualquer complemento salgado, sobretudo manteiga, queijo derretido, linguiça e carne ensopada. Mas também pode ajudar a engrossar sopas, participar de cozidos e ser servida frita ou assada. Nestes tempos de fartura, já tem parente meu querendo fazer um bobó, pra experimentar.

A bem da verdade, devo dizer que jamais comprei um fruta-pão sequer e que sempre que os vejo nas bancas de supermercados e hortifrutis, eles me parecem abatidos e meio que encabulados de estarem ali. Já nas feiras livres, eles ficam mais à vontade e viçosos, ao lado das couves e dos brócolis. O aumento do interesse pela culinária poderá fazer com que algum chef amador descubra os segredos do fruta-pão, que pouco frequenta as cozinhas brasileiras.

Posso apostar que muitos sequer experimentaram o seu sabor, mesmo aqueles que são netos e bisnetos de gente do interior, que comia dele diariamente no café da manhã e na ceia, antes de dormir. Fruta-pão é coisa da roça, do tempo em que só ia pra mesa o que havia nas redondezas.

Ao comer o purê que fizemos aqui em casa no sábado pude ouvir um som de infância: o

barulho grave do fruta-pão batendo pesado no telhado de zinco da garagem que construíram bem debaixo dos galhos carregados. Ri novamente ao lembrar do dia em que um deles caiu na cabeça de uma prima que brincava no quintal. A sorte é que o fruta-pão só despenca lá das grimpas quando bem maduro e totalmente esborrachante. E grudento. E ela teve que voltar pra casa de banho tomado e com roupas de Beatriz.

Vitória, 21 de Junho de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Bambu e linguiça

Bambu e linguiça

Posso apostar que pouca gente já viu bambu preto. É bem provável que a grande maioria das pessoas sequer tenha ouvido falar que existe bambu preto. Pois saibam que dei de cara com uma touceira deles num sítio em São Paulinho, onde fui procurar por uma linguiça de porco maravilhosa, por recomendação de um amigo que encontrei numa vendinha em Marechal Floriano. A conversa era entre pessoas que saem de casa para comer coisas feitas em casa e no quintal. A informação me fora dada, com uma ponta de orgulho por quem conhece bem a região e confirmada pelo brilho dos olhos de quem fica com água na boca só de pensar no gostinho do tempero.

Só saímos em busca da tal maravilha depois de comer codorna ecológica rodeada de polenta fresca, o mais recente lançamento do restaurante de um conhecido de infância, descendente de quem desbravou a região de Pedra Azul nos anos cinquenta. No caminho, aproveitei para passar em revista a touceira de bambuí que tem logo no início da estrada que liga a BR 262 a Vargem Alta, de onde sempre trago umas varas escolhidas. Pena que, dessa vez, a lua não estava própria para a colheita.

Um pouco mais adiante confirmei que a bela touceira de bambu balde realmente não resistiu ao fogo que usaram para exterminá-la. Não sei das razões de gesto tão tresloucado, já que o maior perigo que o bambuzal pode trazer, sobretudo quando plantado em lugar descampado, é ficar balançando de um lado pro outro quando o vento sopra mais forte. O barulhinho do roçar das folhas é cantiga para ninar marmanjo.

Ainda tenho em casa, guardado com algum cuidado e consumido com parcimônia, o último dos pedaços que consegui apanhar quando passei por lá anos atrás, logo depois do fogaréu. É uma lasca de pouco mais de um metro de comprimento e uns quinze centímetros de largura, com uma das pontas queimada. A espessura dela é estreita. O gomo devia ser da parte de cima da vara.

A tabuleta escrita à mão era bem pequena, mas o olhar de turista guloso não deixou passar a oportunidade de poder comprar cogumelos frescos direto do produtor. Eu nunca tinha visto um cultivo de cogumelos. Dentro de um pequeno galpão escuro os sacos com composto de terra preta, farelo de cana, ureia e outros ingredientes são colocados em grande prateleiras. Os cogumelos brotam em pequenas pencas e são colhidos diariamente durante três meses, quando tudo tem que ser renovado.

A horta ao lado da casa era pequena, mas tinha um pouco de muito. Ao ajudar na colheita das folhas de couve, encontrei no chão um pequeno pedaço de bambu preto. Com a lâmina do canivetinho que carrego no chaveiro pude confirmar o meu achado e constatar que somente a casca é escura. A madeira é bem dura e mais clara, o que proporciona bom contraste. Tenho procurado por esse tipo de bambu desde quando vi uma touceira dele lá nos jardins de Alhambra, em Granada, na Espanha. Cheguei a pensar em tentar arrancar uma vara pra trazer, mas a prudência foi bem maior.

Instigado, um dos sócios do sítio fez aparecer alguns pedaços já secos e duas varas ainda verdes. Melhor ainda, ele me deu de presente uma muda já robusta daquela raridade, que vai ficar na janela da cozinha até que seja replantada em um vaso grande, porque alastra demais.
Com uma das varas será feito um berimbau pro meu neto. Devo ter saído do sítio com cara de quem carrega troféus. Mas também é bom que saibam que consegui comprar um saquinho da tal linguiça de porco deliciosa e que já estou em condições de validar a indicação que recebi como prova de estima e consideração.

Vitória, 11 de Junho de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Parei de pescar

Parei de pescar

Dois homens foram presos por estarem pescando nas águas abrigadas do Lameirão. Tiveram as pernas algemadas e presas com correntes de aço a barras de ferro em alguma delegacia, um procedimento próprio aos elementos perigosos, agressivos e tendentes a se evadirem do local em que estejam confinados. Desempregados e sem dinheiro para a fiança, passaram vinte e seis horas presos e só foram soltos por ação de advogado interessado em atuar em favor de fracos e oprimidos. Tudo isso por conta de uma legislação em defesa do meio ambiente.

Li que outros três homens também foram presos pescando no canal de Vitória e que tiveram que pagar fiança para ir pra casa de mãos vazias. Também fiquei sabendo pela imprensa que é obrigatório ter carteirinha de pescador para pescar com vara de arremesso. Deve ser a lógica do pessoal da burocracia ambiental: se para dirigir é necessário tirar carteira de motorista, o pescador tem que ter autorização do governo para jogar a linha na água. Sem apelação.

As prisões tiveram grande repercussão na cidade, tendo inclusive gerado indignação entre amigos que comiam caranguejos nordestinos na noite de quinta-feira. A situação por aqui anda tão crítica que seria ótimo se a justiça ambiental fosse devidamente aplicada de forma generalizada, para muito além dos que pescam beré em águas de reserva. Posso assegurar que foi uma conversa bem produtiva e ecológica.

Houve quem pleiteasse cadeia para autoridade ambiental que autorizasse a implantação de empreendimentos que irão gerar impactos negativos importantes e irreversíveis. E também para pesquisadores, consultores e dirigentes de empresas e de organizações não governamentais que, regiamente pagas, produzam duvidosa fundamentação técnica para respaldar tais autorizações. Teve quem defendesse com veemência  a prisão inafiançável dos deputados e senadores que estão querendo aprovar o novo Código Florestal visando  garantir suporte legal para que crimes ambientais possam ser praticados impunemente em escala nacional.

Da minha parte, pedi algemas para todos aqueles que, no seu mais perfeito juízo, dissessem que pó preto é provocado pelas as obras de construção civil e pelos carros que circulam na cidade. Além disso, defendi algemas de aço para os responsáveis por campanhas de propaganda que disseminem falsas preocupações com o meio ambiente, sobretudo por parte das indústrias que poluem nossos ares e mares, diariamente. Houve também quem se lembrasse de pedir a demissão sumária de autoridades e juízes que anulassem multas aplicadas às empresas responsáveis por estragos ambientais relevantes que tenham sido devidamente constatados in loco.

Ainda bem que parei de pescar. Não sei explicar a razão, mas posso garantir que não foi por medo de ser preso, pena dos peixes ou qualquer outro motivo politicamente correto. Pescar foi das coisas que aprendi ainda bem pequeno com papai, em Marataízes, e sempre fiz isso com pessoas amigas em busca de diversão.

Também é bom que se saiba que já pesquei muito robalinho com camarão vivo nas águas do Lameirão. Com alguma dificuldade, chegava com o carro até a beira do mangue e pedia uma canoa emprestada. Era preciso encontrar quem pegasse as iscas com tarrafa de malha miudinha. Os camarões ficavam nadando dentro de um caçuá pendurado do lado de fora do barco. Quase sempre era peixe pequeno, mas vez por outra perdia-se linha e anzol para peixes maiores e ganhava-se mais uma história de pescador. Isso, nos anos 60, dentro da mais perfeita legalidade, imagino eu.

Vitória, 28 de maio de 2012

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Microondas

Microondas

O nosso velho forno microondas quebrou novamente. Nós o compramos há pouco mais de vinte anos, ainda na caixa, de uma amiga que resolveu se mudar de mala e cuia para o exterior. Ela o trouxera de Manaus, como boa vantagem em termos de preço e qualidade. Ele é bem grande e fácil de usar. Só realiza as operações básicas, tem fachada discreta e relógio de bom tamanho.
Confesso que não sou um perito em uso do microondas. Sou dos que usam somente a tecla de um minuto, quase sempre pra esquentar comida ou secar bambu. Aquecido, o bambu fica bufando e a cozinha ganha um cheirinho de cana queimada. Banana da terra fica uma maravilha em três minutos, na alta.
Minha mulher conta que viu um microondas pela primeira vez em 1969, em Nova York. Todos que estavam em volta do vendedor falante ficaram embasbacados diante da mágica da pipoca sendo feita pela ação de um calor misterioso, que não esquentava o papel do saquinho, mas fazia o milho explodir. Era a modernidade tecnológica entrando na cozinha.
Quando o nosso microondas parou de funcionar pela primeira vez, ganhamos um novo de presente. Era um modelo super sofisticado, desses que ensinam muitas coisas, reclamam quando você digita errado, calculam automaticamente o tempo de cozimento em função do objeto a ser cozinhado e apitam quando está pronto. Mas, para tanto, era indispensável ler o manual a cada tentativa de uso ou guardar na memória todos os procedimentos obrigatórios e na sequência correta. Além disso, era impossível ler as horas a mais de 3 metros, o que é falha grave de design funcional. Como detesto manuais e já sofria das vistas, preferi mandar consertar o velho, que voltou para o seu lugar.
Depois de consertá-lo mais uma vez, há uns dois anos, seu Natal, o faz tudo de Santa Lúcia, me disse que seria muito difícil consertá-lo novamente por absoluta falta de uma tal placa de acionamento. Sendo assim, desta vez, resolvemos apelar para a internet. Para nossa surpresa, foi mais fácil comprar na rede do que ir ao centro da cidade para garimpar uma raridade daquela. E saiu bem mais barato, se computados o gasto com a gasolina e o valor do estacionamento. Previdente que sou, tratei de encomendar três unidades, que foram entregues em quatro dias, conforme prometido.
Sem querer me gabar, digo que me atrevi a tentar substituir a tal placa defeituosa, munido de uma simples chave de fenda phillips. O pessoal da torcida aproveitou para dar uma boa limpeza nas partes internas, constatando que não havia sequer um ponto de ferrugem. Em pouco mais de vinte minutos, lá estava o nosso velho e valente microondas roncando outra vez, para a felicidade geral dos seus usuários. O sucesso foi tanto que trouxeram a balancinha da cozinha para que eu consertasse. A tirar pelo que se via no visor digital, o defeito estava bem acima das minhas habilidades. Muito provavelmente, o chip central tinha endoidado de vez e o conserto sairia mais caro do que uma balança nova.
Isso me fez lembrar da contrariedade que sentia em 1972 cada vez que tinha que jogar no lixo um isqueiro BIC novinho, produzido na França, criado para disputar mercado com os renomados Johnson e Zippo, de pavio embebido em fluido inflamável. O que me deixava atordoado era saber que sem gás, aqueles simpáticos e eficazes isqueiros tornavam-se objetos totalmente inúteis. Por mim, não havia lógica alguma em jogar fora todo aquele material industrializado, de valor bem superior ao do gás que vinha na cápsula. A era dos produtos descartáveis chegava para ficar.

Vitória, 13 de Maio de 2012.

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Kit Paraíba

Kit Paraíba

Aceitei de pronto o convite para a festa de cinquenta anos do filho mais velho de um casal de grandes amigos, que conhecemos quando moramos em João Pessoa durante quatro bons anos, no final da década de 70. Fazia muito tempo que procurava um motivo qualquer para voltar lá. A última vez foi há uns dez anos e só de passagem.

Ficamos hospedados em um sítio no caminho de Tambaba, a praia frequentada por pelados convictos, o mesmo que passamos muitos fins de semana na base de comida de fogão de lenha, partidas acaloradas de baralho, conversa besta regada a cachaça de cabeça, soneca em rede na varanda, muita água de coco e tudo o mais que o diabo recomenda. A casa foi ampliada e agora a mesa de jantar tem 16 lugares, sempre ocupados por gente animada, de bem com a vida. As pessoas estão mais velhas mas, em compensação, surgiram netos.

João Pessoa está bonita e bem cuidada. O centro e os bairros próximos continuam, tirando uns dois ou três prédios novos, exatamente iguais aos que conheci. Foi muito emocionante rever, intactas, a casinha na beira da praia que moramos no início e a casa que construímos depois. Elas ainda resistem à especulação imobiliária na região da orla. A cidade cresceu em direção às praias, inteligentemente. Soube que o prefeito anterior criou mais de trinta praças, todas com espaços para shows e esportes. O trânsito urbano já começa a complicar, mas fiquei com inveja das estradas de pista dupla que ligam João Pessoa a Recife, a Natal e a Campina Grande, embora os fluxos de veículos sejam bem menos dos que estão nos matando por aqui. Na beira da pista, três enormes cataventos brancos, com mais de setenta metros de altura, expressam modernidade e bom senso.

O mercado central nem parece o mesmo. Uma grande reforma vai deixando tudo mais limpo e organizado. Perde-se um pouco da originalidade mas ganha-se em conforto. As bancas estão repletas e coloridas, sobretudo pelas pilhas de uvas, melões, mangas e melancias produzidas no vale do rio São Franscisco. Antigamente os feirantes me tratavam por professor, em função da minha barba preta e dos cabelos longos. Agora, passados mais de trinta anos, foi a vez da minha cara de turista deslumbrado instigar o pessoal a caprichar nas ofertas. A visita ao mercado tinha algo de saudosismo, mas, na verdade, eu estava ali a serviço, querendo comprar os ingredientes básicos do chamado “Kit Paraíba”, com a intenção de prolongar o gostinho do passeio.

Não foi pouca coisa o que trouxemos nas malas e em uma boa caixa de isopor: quatro quilos de carne sol de alcatra e contra filé; feijão verde debulhado; farinha quebradinha e com goma, para engrossar o pirão; muita castanha de caju sem sal, sem nada; três tipos de queijo do sertão: de manteiga, de coalho – um tradicional e um pré-cozido; manteiga de garrafa; duas rapaduras, sendo uma bem escura; doce de caju em calda e em palito, cocada na quenga; biscoitinhos de goma; sequilhos; bolacha Sorda; um bom pedaço de quebra-queixo de coco verde e duas garrafas de cachaça Rainha, a minha preferida.

Além disso, veio também: um vidro de pimenta curtida da coleção do meu amigo Iveraldo Lucena; arroz negro e o da terra, vermelhinho, próprio para fazer o famoso arroz de leite, recheado com queijo; e, porque sou um apreciador fanático, tratei de trazer também uma buchada de bode completa.

A viagem foi tão boa que já aceitei o convite para passar os festejos de São João na granja e aproveitar para conhecer o Lajedo de Pai Mateus, perto de Cabaceiras, na região do Cariri paraibano.

Vitória, 29 de Abril de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Girando

Girando

Todo mundo sabe que as dificuldades de escrever uma boa crônica começam pela escolha de um bom assunto: um fato curioso, uma imagem expressiva, uma situação inusitada, uma história engraçada, o voo de uma gaivota. Alguma coisa que possa servir de elemento central de uma narrativa, que tenha consistência, que permita agregar ideias, emoções e tudo o mais.

Escrever uma crônica é parecido com resolver uma equação matemática. Disseca-se o assunto passo a passo, garantindo-se que o leitor possa encontrar razão para seguir em frente, até o fim. É sempre bom que tenha um começo instigante, um recheio rico em elementos de boa lógica e curiosidades e um final que possa ter alguma coisa de surpreendente.

Na infinidade de temas interessantes reside a maior dificuldade. Qualquer assunto pode resultar em uma crônica razoável, honesta o suficiente para que o leitor possa lê-la sem pressa e com atenção. A escolha não é nada fácil. Imagino o que seria dos alunos que estivessem fazendo prova de português no vestibular, cuja única questão fosse fazer uma redação sobre um assunto qualquer, à sua livre escolha. É bem provável que mais da metade não conseguisse escrever uma linha sequer.

Pois bem, hoje para mim essa tarefa ficou ainda mais complicada, depois que uma labirintite se apoderou da minha cabeça e fez de mim um homem zonzo, sem equilíbrio. Não sou pessoa de exageros, mas somente quando fico deitado, com a cabeça parada, é que o teto permanece em cima e as paredes na vertical. O bicho pega quando resolvo sair do quarto, me agarrando nas paredes e nos móveis. Quem me visse andando pela casa poderia achar que eu estava brincando de Homem Aranha.

Imagine você a sinuca em que estou nesta manhã de domingo, com labirintite e sem um tema para a crônica que tenho que entregar no começo da tarde de amanhã. Enfrento esse drama desde ontem, quando o tal desequilibro se instalou. Passei o dia pensando em como seria redigir nessas condições. Precavido, experimentei manter a cabeça firme na horizontal, alternando o olhar nas teclas e no monitor. Constatei que poderia ter sucesso, desde que não fizesse movimentos bruscos com os olhos nem balançasse a cabeça.

Como sempre acontece, durante a semana havia garimpado na memória, nos jornais, na TV e nas ruas alguns fatos promissores: mudanças na CBD; mais trocas de ministros em Brasília; novo vazamento de petróleo em Campos; anúncio da entrada em operação de mais um conjunto de chaminés de usina de pelotização; campanha milionária para convencer que empresa que polui é uma grande parceira de todos nós; associação de moradores exigindo que o Governo do Estado tome providências contra os emissores de pó preto; vitória do Fluminense; o vento sul que se instalou na sexta feira.

De tudo que vi, o que mais me chamou a atenção foi uma cena bem brasileira dos tempos atuais e dos que vêm vindo por aí: um casal descendo a pé a ladeira do Hospital Infantil, em pleno sol quente. A mãe, quase uma menina, carregava o filho recém-nascido com expressão aflita. Ao seu lado, de bermudão colorido, sandália de dedo, sem camisa e com óculos na cabeça, seguia um rapaz de menos de vinte anos, que parecia ser o pai da criança. Constrangido e sem graça, ele rodava sem parar a camiseta com a mão direita, possivelmente pensando na encrenca em que se metera. Ao dobrarem a esquina, me veio a sensação de que aquela união não duraria muito tempo e que, em breve, ele faria mais filho, em uma outra companheira de noitadas, fazendo a vida girar, construindo futuro.  

Vitória, 18.03.2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Vale Tudo

Vale Tudo

Viajar deveria ser obrigatório. Sobretudo quando se consegue conjugar trabalho e lazer. Homem experiente, agendei viagem a São Paulo para visitar as filhas e aproveitar para trabalhar um pouquinho. O musical sobre a vida de Tim Maia era o item principal da programação cultural. Na temporada do Rio de Janeiro o espetáculo foi visto por mais de cem mil pessoas. Os ingressos foram comprados com boa antecedência, mas só conseguimos cadeiras na penúltima fila. Na plateia, a maioria era de gente mais velha, como eu. Há algum tempo venho pagando meia entrada, uma espécie de compensação por ter conseguido passar dos sessenta.

Sou fã do Tim desde o final dos anos 60, quando ele começou a mostrar sua ginga e sua alma cheia de dores, poesia e sarcasmo. Mais tarde, achei graça de Jorge Ben prometendo chamar Tim Maia, o síndico, para botar ordem no pedaço.

Foram três horas de espetáculo movimentado e muito emocionante, com roteiro baseado na biografia escrita por Nelson Motta. O trabalho de direção é muito bom e não vi nem um ator global em cena. A começar por Tiago Abravanel, que encarna o personagem central, os artistas me eram desconhecidos. Todos têm cara de gente da turma do Tim e cantam muito bem. Uma banda competente, colocada na parede do fundo do palco, garante o ritmo da festa.

Abravanel consegue dar vida a Tim Maia nas diferentes épocas de sua rica e conturbada trajetória pessoal. Tem suingue e expressão gestual convincente e um vozeirão afinado no tom do homenageado. Passagens curiosas e cenas magistrais se sucedem no palco. A ingenuidade do primeiro conjunto com Erasmo e Roberto Carlos, os anos vividos nos Estados Unidos, os encontros com Elis Regina e Edu Lobo, a descoberta do som de João Gilberto, os altos e baixos da vida amorosa com Janete, o envolvimento com as drogas lícitas e ilícitas, a temporada no mundo do fanatismo religioso, os seus famosos atrasos enervantes, a viagem alucinada dos funcionários da gravadora que aceitaram LSD que ele deu de presente. Lá estão também a energia de shows contagiantes, a prepotências dos famosos, a dor criativa da solidão, o processo irreversível de engordar, o começo e o fim da decadência, o infarto no palco, em Niterói.

Dá gosto de ver. O público, inteiramente tomado por lembranças pessoais e fortes emoções, bate palmas ao longo do espetáculo e, sobretudo, no final da festa. Só desafinou um pouquinho quando Abravanel agradeceu a Deus solenemente pelo sucesso e pediu aos presentes que prometessem ir ao teatro, sempre.

Estou há quase uma semana cantarolando Vale Tudo, Vou Pedir Pra Você Voltar e Do Leme ao Pontal. Foi muito bom para desopilar o fígado. Março terminara com mais notícias escabrosas vindas do mundo político, de matar de vergonha parentes e colegas de trabalho: um senador por Goiás denunciado por ajudar a operar esquema de corrupção de um poderoso contraventor. Parece uma retaliação mafiosa por quebra unilateral de contrato. Ao lado disso, a Comissão de Ética da Presidência da República finalmente decidiu pedir explicações ao ministro acusado de receber 2 milhões de reais por serviços de consultoria especializada que haveria de prestar aos “investidores” mineiros após a eleição presidencial.

A prática do chamado toma-lá-dá-cá vai sendo institucionalizada com total descaramento. Há quem diga que sempre foi assim e que só agora a bandalheira está aparecendo na imprensa. Prefiro pensar que a coisa está degringolando de tal forma que vai ser difícil encontrar síndicos que possam dar jeito nisso.

Vitória, 02 de Abril de 2012.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Rei do Carapau

Rei do Carapau

Não tenho visto mais as tartarugas vindo à tona para respirar. Imagino que tenham ido nadar em outras águas. Em compensação, dia desses avistei três cardumes fazendo evoluções no mar da Curva da Jurema. Eram pequenos e, pela época, deviam ser de carapau.

Não sei se o leitor já viu um cardume ao vivo, indo de um lado para o outro, sumindo e reaparecendo. Um olhar atento localiza um cardume de longe, com alguma facilidade. A superfície do mar fica mais escura e meio encapelada, em função da movimentação dos peixes.

Tem gente que vive de localizá-los em mar aberto para orientar o lançamento da rede de arrasto. Falando nisso, na praia de Itapoã a pesca de manjuba já está a pleno vapor. É um bom programa de final de tarde pra quem gosta de estar à beira mar. Em breve será o tempo das sardinhas.

Tem gente que vive de filmar peixes para programas de TV. Os cardumes são flagrados de pertinho, de dentro mesmo. É sempre um espetáculo vivo e colorido. Tão logo se acostumam com os mergulhadores, os holofotes e as câmeras, os peixes voltam a se movimentar de forma compassada. Esbaforidos, mesmo, eles ficam quando são atacados por seus predadores. Já vi cenas eletrizantes de ataque desfechado por um leão marinho faminto e de um outro, enigmático, de baleias que cercavam um cardume enorme, agindo de forma inteiramente coordenada.

Voltando ao mar daqui de perto, é bom lembrar que março é tempo de carapau. Normalmente eles chegam em cardumes, junto com os ventos fracos de fevereiro, e nadam por aqui durante uns dois meses. Não mais do que isso. Não sei dizer de onde eles vêem nem pra onde vão.

Para quem não conhece, o carapau é um peixe prateado com escamas esverdeadas na parte de cima. Trata-se de animal arisco e bem malandro, que rouba isca ao menor descuido. É parente de pampo, xaréu, chicharro, olho de boi e muitos outros. Deve ser o menor da família, mas é ligeiro e muito valente. Quando se vê fisgado, enfrenta o pescador nadando para o fundo.

Atividade coletiva que proporciona fortes emoções, a pescaria de carapau é também uma disputa entre pescadores. Poderia muito bem ser elevada à condição de esporte de competição, com campeonatos anuais para aficionados de diferentes categorias e idades. Digo isso por saber que pegar grandes quantidades deles exige equipamento adequado, conhecimentos técnicos, concentração, reflexos apurados e, sobretudo, pensamento positivo e muita disposição para enfrentar gozação durante horas seguidas.

Mesmo em um barco de uns quatro metros, acontece, e com boa frequência, o pescador da popa cansar de matar carapau e o que está sentado na proa nem ver sinal deles. Isso, com os dois usando a mesma isca. E se algum invejoso ousar lançar linha nas águas do colega afortunado, aí é que ele não pega mais nada até o fim do dia. A urucubaca do carapau pode atingir uma embarcação inteira, deixando sua tripulação a ver navios enquanto a do barco ao lado vai enchendo o balaio. A bordo, a gozação entre amigos pela falta de peixe faz parte da brincadeira, mas entre desafetos, pode ser perigosa.

Para pescar carapau basta uma varinha de bambu retinha e de ponta bem fina que, por medida de segurança, deve ser encastoada até uns dois palmos, em direção ao cabo. É recomendável usar nylon bem fino, anzol pequeno e chumbo levinho. A isca oficial é o camarão descascado, de preferência o do lameirão, que é menor e mais durinho. Um macete de veterano: descascar e cortar o camarão com antecedência economiza tempo e ajuda você a ganhar campeonatos.

Vitória, 01 de março de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Folião

Folião

Chegamos em Manguinhos por volta do meio dia, junto com  a chuva. Estacionamos em frente a um self service e aproveitamos para fazer uma boquinha enquanto Deus dava bom tempo. A primeira batucada que passou era de fazer chorar, mas foi só apressar o passo para alcançar o bloco que ia mais adiante. A bandinha era formada por músicos profissionais, colegas de batuque de outros carnavais. A chegada na pracinha, ainda meio vazia, foi triunfal.

Faz tempo que toco tamborim no carnaval em Manguinhos. Irmão, pai, sogro e tio de músicos, é no sábado de carnaval que posso tocar sem maiores exigências. Movido a cerveja e abastecido com o risole de camarão do Geraldo, ofereço os meus serviços aos blocos que passam. Quase sempre sou recebido com boa satisfação e até com algum entusiasmo. Acho que o som do tamborim assanha o pessoal.

Em casa, quando fazia uma baqueta de bambu, me dei conta de que não chego a ser um folião dos mais animados. Sinto que sempre vou meio a reboque. Mas experiente, posso garantir que sou.

O carnaval de menino de Cachoeiro era lá em Marataizes, no clube construído sobre uma pedra enorme à beira mar. Já mais taludo, frequentei as matinês de sábado no Praia Tenis Clube para ver as mamães animadas e as tias mais rebolativas. Nos bailes do Siribeira, em Guarapari, ficava de olho nas morenas cheias de charme que vinham do Rio em busca de diversão. Acabei casando com uma delas, de olhos fundos.

Foi lá também que me vi no centro de uma briga famosa que não era minha. A pancadaria aconteceu em duas etapas no lado de fora do clube, na manhã da quarta feira de cinzas. Até hoje tem gente que não acredita que eu tenha saído dela sem um arranhão sequer. Vestido de mulher, junto com uns poucos amigos, bati lata pelas ruas de Guarapari em pleno sol quente e, por duas vezes, saí no bloco das Desvirtuadas, com gente querendo organizar a brincadeira a todo custo.

No verão de 1972 chegamos na Praça Castro Alves pulando atrás do trio elétrico do Dodo, sem qualquer sufoco, cantando chuva,suor e cerveja. Tirei uma foto de Caetano sentado numa escada, ao lado de uma baiana fritando acarajé. Deixamos a barraca armada perto das dunas da praia de Piatã, sem a menor preocupação.

No final dos anos setenta, o carnaval de rua de João Pessoa era quase deprimente. O bloco Muriçocas do Miramar, só surgiu anos depois que nos mudamos de lá. Em compensação, naquela época as ladeiras de Olinda eram transitáveis e animadíssimas. Era o carnaval do pessoal mais alternativo, que dançava ao som de frevos e maracatus ao lado de Alceu Valença e Elba Ramalho.

Tenho coragem de dizer que tentei reger, sem qualquer sucesso, a banda do irreverente do Pacotão, bloco criado por jornalistas e funcionários públicos para debochar do regime militar. Cantávamos com toda convicção o Sanatório Geral, do Chico, em plena Avenida W3 deserta, bem no coração de Brasília. Desfilei uma única vez em escola de samba. Foi por volta de 1990, lá na Barra de Itapemirim, na rua onde passavam os trilhos da estrada de ferro que existiu por ali. Não deu muito certo, não.

Quando estudava no Rio de Janeiro, frequentei a Banda de Ipanema ao lado de moradores do bairro sambando sob a animação radiante de Leila Diniz. Era uma verdadeira festa da pegação à luz do dia. Recentemente, levei um baita susto quando, nem bem cheguei na concentração e um fortão desses mais assanhados agarrou na minha barba e me chamou de “meu Dom Pedro”. E eu nem estava fantasiado nem tocando tamborim.

Vitória, 20 de Fevereiro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Festa das pedras

Festa das pedras

Esta semana tem feira de mármore e granito em Vitória. Um evento espetacular que só perde em tamanho para as feiras de Verona e Carrara, na Itália. Mais de quatrocentas empresas estarão expondo uns seiscentos tipos diferentes de mármores, granitos, ardósias e muito mais. Uma explosão de cores e formas para serem vistas sem pressa e com olhar atento. Lá estará também o que de melhor existe em termos de máquinas, equipamentos, ferramentas e serviços. São esperados mais de vinte mil visitantes, vindos do mundo inteiro.

Modéstia à parte, é bom que se saiba que esse negócio de feira de mármore começou lá em Cachoeiro de Itapemirim. Foi com orgulho de cachoeirense que mamãe me contou ao telefone que tinha ido visitar a terrinha com o irmão e que eles ficaram impressionados com as indústrias que serravam blocos enormes de mármore, fazendo um barulho danado. Era 1987 e eu tinha acabado de voltar para Vitória para dar aulas na UFES e trabalhar no BANDES com Odilon Borges, que insistia em me apresentar como seu assessor de rabo preso.

Atento à novidade, logo descobri que mais de trezentas empresas atuavam no setor, mobilizando umas dez mil pessoas. Feitas as contas, vi que quase cinquenta mil capixabas já viviam da pedra, embora pouca gente se desse conta disso. Os olhos das pessoas e as atenções do governo estavam voltadas para as grandes empresas que se instalavam por aqui. A indústria da pedra funcionava heroicamente nas cidades do interior, no meio do mato, utilizando-se de máquinas e processos rudimentares, passíveis de aprimoramentos de toda ordem. Os padrões de acabamento estavam longe dos que eram vistos lá fora. Davam vergonha, até.

Pretendendo melhorar a qualidade dos produtos e aumentar a lucratividade dos negócios, tratou-se de estimular as empresas a usar a balança, a régua e o relógio para medir e controlar o que faziam. Entendeu-se, também, que as vendas, feitas de forma bem amadora, deveriam passar a contar com o apoio da propaganda e do marketing. Era preciso marcar dia e local para mostrar a beleza das nossas pedras para muita gente, inclusive aos arquitetos e decoradores, que não distinguiam mármore de granito.

A ideia de se criar uma feira em Cachoeiro foi ventilada em reunião animada com os empresários locais. Ela deveria acontecer logo, antes da que estavam pretendendo fazer lá em São Paulo. Tomada a decisão, era preciso contar com alguém com experiência no assunto e muita disposição. Odilon chamou Cecília Milanez, pessoa despachada e generosa, para enfrentar a empreitada. Posso garantir que foi uma doideira fazer tudo em menos de um mês. Improviso era a palavra de ordem e correria o ritmo permanente.

O parque de exposições era a única opção disponível para abrigar os trinta e poucos audazes expositores. Os stands foram montados dentro dos galpões, nas baias de grandes animais. As empresas maiores ficaram ao ar livre.

O transformador não resistiu à demanda e explodiu minutos antes do discurso que o governador faria para empresários, homens de governo e famílias inteiras vestidas com a melhor elegância. No meio da noite, Curuca, o dono do restaurante mais famoso de Meaipe, avisou que iria fechar porque estava faltando água. Alguém deu solução e a festa continuou.

Dava gosto ver a alegria das pessoas se abraçando como se estivessem comemorando algo muito relevante. Na verdade, era uma celebração entre amigos, concorrentes, clientes e fornecedores. Durou até a madrugada. Exaustos, fomos dormir em Vargem Alta, por falta de hotel na cidade.

Vitória, 06 de Fevereiro de 2012.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA