Das curvas e das pedras

Das curvas e das pedras

Que eu saiba, aqui no Espírito Santo não tem nem uma obra projetada por Oscar Niemeyer. Nem uma igrejinha, sequer. Quando muito, foram feitas algumas tentativas. Vi nos jornais que ele esteve aqui em Vitória, em 1980, para apresentar a maquete da sede da Assembleia, que poderia ter sido construída na Enseada do Suá. Vi também o croquis de um memorial para ser erguido no centro de uma rotatória, no bairro de Laranjeiras, que ele fez para a Prefeitura da Serra. Sei que andaram pensando em convidá-lo para projetar o prédio central do Parque Tecnológico de Vitória, mas acho que isso não foi pra frente.

É bem provável que Niemeyer jamais tenha vindo ao estado para desfrutar das areias monazíticas de Guarapari, ver a produção de panela de barro em Goiabeiras, balançar o corpo ao ritmo do congo da Barra do Jucu ou comer moqueca de pitu em São Mateus. Acho que ele teria gostado de conhecer os pontões de Pancas e de ver de longe o Frade e a Freira, bem como o perfil da Pedra do Lagarto. Por certo, ele acharia graça da forma ereta do Itabira, em Cachoeiro. Torço para que algum deputado tenha se lembrado de levá-lo para almoçar na varanda do Iate Clube, de modo que ele pudesse contemplar, com calma, aquela pequena enseada de mar liso com o Convento e o morro do Moreno ao fundo.

Conheci aqui em Vitória dois arquitetos recifenses que trabalharam com Niemeyer no Rio de Janeiro. Imagino que, ao saberem da sua morte, eles tenham ficado se olhando em silêncio profundo, tentando se lembrar do que aprenderam com aquela pessoa de ideias brilhantes, voz mansa e olhos atentos, que falava sempre sobre os direitos dos homens, a beleza das curvas e o poder mágico do trabalho. É bem provável que eles tenham refletido sobre a oportunidade que a vida lhes deu, de poder conviver com um profissional que, por acreditar em possibilidades remotas, exercitava a criação com ousadia e leveza.

Da minha parte, gosto de atribuir a Niemeyer um empurrão definitivo no processo de desenvolvimento da indústria capixaba de mármore e granito, mesmo que o possa ter dado de forma involuntária, com um simples ato de vontade, próprio aos arquitetos. Foi ele quem especificou que os prédios do Congresso Nacional e os palácios do Planalto e do Alvorada deveriam ser revestidos com mármore branco. Percebendo nisso uma oportunidade de bons negócios, marmoristas cariocas se associaram a pequenos mineradores capixabas para intensificar a extração de blocos de mármore que era feita em Prosperidade, um distrito de Vargem Alta, na única reserva de mármore branco conhecida no Brasil naquela época – fins dos anos 1950. Foi assim que eles conseguiram atender as encomendas que não paravam de chegar lá do Planalto Central. Luiz Scaramussa, um dos pioneiros, contava essa história em detalhes, sempre com brilho nos olhos.

Em meados de 2005, refletindo sobre as consequências dos pequenos gestos e sobre a força do acaso na vida das pessoas, fui fazendo uma colher de bambu para dar àquele homem, como uma espécie de troféu de honra ao mérito. É uma peça esguia, de uns setenta centímetros, feita a partir de um pedaço de bambu escuro, bem velho, tirado de uma touceira enorme que existia na estrada que atravessa Vargem Alta. Tenho uma certa dó de não ter conseguido providenciar a entrega da colher e de não ter lhe falado das suposições que faço sobre os impactos de suas escolhas na vida de muitos capixabas. É muito difícil imaginar Cachoeiro sem a indústria das pedras. Tanto quanto Brasília sem as obras de Niemeyer.

Vitória, 10 de dezembro de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Ainda sobre a ocupaç╞o da ZEE8

Ainda sobre a ocupação da ZEE8

Estive na audiência pública convocada pela Prefeitura de Vitória para conhecer uma proposta de ocupação e uso da ZEE-8, região onde está localizado o Shopping Vitória. Era uma das etapas obrigatórias do processo de avaliação das intenções, explícitas e implícitas, dos proponentes. A lei obriga que sejam ouvidos outros interessados no que possa vir a acontecer naquela região da cidade. É democrática nas intenções, embora nada garanta que as opiniões sejam levadas em consideração nas decisões. É justamente aí que mora o perigo, já que havia até cronograma prevendo que tudo fosse aprovado até o fim deste ano, sem muito alvoroço. Trata-se de uma proposta de dimensões muito significativas, conhecida de perto por pouquíssimas pessoas.

O assunto havia fervido e pipocado nas redes sociais. O cinema estava lotado de gente nova e de gente madura nas cadeiras, no chão e na entrada. Todos atentos, incluindo os que ali estavam por determinação superior, para fazer número e bater palmas. Ainda que com o sorriso tão amarelo quanto o da vendedora bonitinha que estava ao meu lado.

Pelas conversas no saguão do cinema e pelas intervenções dos participantes em plenário, ficou patente que existe muita gente que não concorda com a iniciativa de implantar, em um dos últimos espaços livres existentes na cidade, um enorme paquiderme de vidro e concreto armado à beira mar. Visto de cima, um imenso telhado cinza, complementado por umas poucas manchas verdes. Isso mesmo, o projeto prevê algumas áreas verdes colocadas a mais de trinta metros do nível do mar, visíveis apenas da ponte ou da janela dos aviões de carreira e dos helicópteros petrolíferos.

Os impactos do empreendimento no trânsito na região do aterro foram mais uma vez minimizados e os investimentos em eventuais soluções atribuídos aos cofres públicos. A impressão que ficou é a de que se está pretendendo adotar, mais uma vez, a velha prática de privatizar os lucros e distribuir as perdas e os custos entre os cidadãos desavisados. As ponderações, feitas sob encomenda, por autoridade estadual especializada em assuntos de mobilidade, irritaram bastante os presentes e a proposta de construir um mergulhão provocou uma sonora gargalhada coletiva. Sensato e estratégico, um participante propôs que a apreciação do projeto fosse feita somente após finalizada a adequação da infraestrutura viária da região.

Ouviu-se, de viva voz, o argumento central dos empreendedores: expandir para garantir a competitividade do negócio; como se já não bastasse o Shopping estar situado no lugar mais visível e acessível da cidade, o que lhe garante um incomparável e permanente “diferencial” competitivo. Na contramão de tais expectativas, houve quem sugerisse, com seriedade e convicção, que a área livre fosse doada à cidade, para transformá-la em um belo parque, com uma grande área de lazer integrada ao restante da orla, dotado de estacionamento no subsolo e tudo o mais, como bem imaginou uma arquiteta risonha. A proposta tirou o sorriso de membros da mesa e mereceu salva de palmas ensurdecedora de quem estava na plateia.

O que me deixa animado é saber que pelo menos oito entidades e associações de moradores protocolaram na Prefeitura de Vitória pedidos bem fundamentados de anulação formal da audiência pública, para interromper preventivamente o processo de apreciação em andamento e, sobretudo, garantir a realização de estudos que informem os reais impactos da proposta completa de empreendimento apresentada na audiência. Que se instale e prevaleça o bom senso.

Vitória, 26 de novembro de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Calma, gente!

Calma, gente!

Parece que a indústria imobiliária utiliza táticas de guerrilha para avançar na ocupação do reduzido solo do município. A cada dia um empreendimento novo, a cada tapume, um susto.

Anos atrás, a construção de um hotel enorme roubou a visão do mar dos moradores de uma rua inteira: o empreendedor não pagou por ela, mas a incorporou no valor das diárias. O que era uma chácara repleta de mangueiras antigas deu lugar a edifícios de apartamentos caríssimos. A sede da estatal ocupou um alto de morro a contra gosto de quase todos os moradores do bairro.

Há uns sete anos, conversando em mesa de bar sobre o futuro de Vitória, eu, Arlindo Vilaschi e Nena B, escaldados com esse tipo de coisa, resolvemos pedir audiência ao secretário responsável pelo desenvolvimento do município. Com alma de escoteiro, sugerimos que a Prefeitura lançasse um certame para recolher ideias para o melhor aproveitamento da região no entorno do Shopping Vitória, uma das poucas áreas livres disponíveis na cidade. Um lugar único em meio a paisagens preciosas: a bucólica baía entre as ilhas, a movimentada entrada do canal, o simpático Morro do Moreno e o Convento da Penha, nosso maior monumento.

Quem sabe um museu do mar com aquário, uma boa praça, instalações para eventos, espaço para armar circo e parque de diversões e tudo o mais que propiciasse boas condições de permanência para crianças, jovens e adultos. Um espaço para atividades que fizessem bem ao corpo e à alma. Um lugar para o cidadão comum ficar bestando à sombra, comendo quebra-queixo e pipoca, vendo navios, falando da vida.

Pois na semana passada recebi convite da Prefeitura para uma audiência pública para conhecer uma proposta de ocupação daquela área, que inclui ampliações do shopping até os limites do terreno e a construção de vários prédios de escritórios e de apartamentos e lojas, quase tudo com trinta e dois metros de altura.

Fiquei com preguiça só de pensar no quanto tudo aquilo poderia prejudicar a vida dos que precisam ir e vir pela Avenida Nossa Senhora dos Navegantes, uma via estratégica de escoamento, que já começa a dar sinais de saturação. Isso sem falar dos que tem que cruzá-la diariamente, para ir pra casa, ao cinema ou às compras. Mas confesso que me senti ofendido, na minha inteligência e na minha boa fé, ao ler o que está escrito a esse respeito, no documento do projeto: “… grande parte desse trânsito é causado por moradores de fora da cidade de Vitória, que acabam (sic) se transformando em um “corredor de passagem” devido a sua localização geográfica entre as demais cidades que compõem a Região Metropolitana. Na medida em (elas) que vão se desenvolvendo, … a tendência é que esse trânsito diminua, …”. Chegou a doer.

Por se tratar de construções enormes e, sobretudo, irreversíveis, é obrigatório dimensionar todos os seus potenciais de impacto no funcionamento futuro da região metropolitana. É trabalho para ser conduzido com máximo rigor técnico, muito bom senso e total isenção e que seus resultados sejam avaliados em audiências públicas específicas, sem açodamentos, livres de más influências. Já bastam os incômodos perpétuos gerados pelas usinas siderúrgica e de pelotização, implantadas em local inadequado.
 
Pedindo vênia aos interessados diretos e indiretos no projeto, declaro defender, com unhas e dentes, que o assunto seja tratado pela equipe que tomará posse da Prefeitura de Vitória em janeiro que vem, eleita para cuidar do futuro da cidade na qual viveremos. Entendo que a equipe atual, derrotada nas eleições, já faz parte do passado.

Vitória, 11 de Novembro de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pertinho de casa

Pertinho de casa

Parece que tudo começou com um desentendimento entre dois homens poderosos. Um bem mais importante do que o outro, do que todos os demais. Isso é o que se dizia na época. Sabe-se que corria negociação de apoio político visando garantir maioria na câmara dos deputados ao partido do presidente que acabara de ser eleito com votação expressiva. Era indispensável contar com uma base parlamentar que assegurasse tranquilidade ao novo governo.

Até hoje não fiquei sabendo dos motivos da discórdia tão explosiva, mas bem posso imaginar: de um lado, alguém querendo receber mais, muito mais, pelo que estava vendendo e, do outro, o dono da situação querendo pagar pouco para não reconhecer importância. Por certo, as discussões vararam noites, com desacatos e impropérios de todo tipo. Torço para que as mães não tenham sido ofendidas. Briga entre prepotentes não é lugar para genitora nenhuma entrar.

O que se viu na TV foi briga de cachorro grande, transmitida ao vivo de uma sala repleta de políticos, repórteres e muitos mais. De dedo em riste, com palavras medidas e frases estudadas, um deputado ressentido denunciava um ministro chefe e o desafiava cara a cara, exatamente como havia anunciado pela imprensa, dias antes. Dizia que poderoso era ele, que tinha coragem de enfrentar o homem forte do governo, mais forte do que o próprio presidente.

O homem que dizia controlar tudo o que acontecia no planalto olhava seu desafiante com raiva contida, com cara do tipo eu te pego na esquina. Não conseguiu. Perdeu o cargo e logo depois o mandato parlamentar. A cassação do ex-ministro deve ter provocado lágrimas, mas muita gente bateu palma. Tem quem acredite que o presidente teria gostado de ganhar mais liberdade para poder agir a seu modo e critério.

A maioria dos que acompanhavam a política acreditavam que os envolvidos no esquema de compra de votos não seriam processados. A história da república fundamentava os entendimentos. Mas, por mais improvável que pudesse parecer, abriu-se uma denúncia, apuraram os fatos, comprovaram os crimes, identificaram os suspeitos e mandaram tudo para a justiça. Novamente a descrença se estabeleceu: pode até ter processo, mas não vai dar em nada. Aqui, a turma de colarinho branco não vai para a cadeia.

Deu zebra. Sete anos depois, o julgamento entrou no ar, também ao vivo. O relator dividiu o processo em fatias, preparou terreno e foi lendo acusações e provas, mostrando suas opiniões e certezas, fechando o cerco e chamando à responsabilidade.

A cada voto uma surpresa, até atingir a maioria, quase sempre absoluta em todas as votações. Foi assim crime a crime, réu a réu, até fazer ministro experiente defender os acusados mais destacados com a veemência e as estratégias próprias dos advogados de defesa de grandes contraventores. Mesmo blefando ao tentar desqualificar provas relevantes e ao constranger os colegas da corte, foi derrotado por tudo o que constava nos autos e também pela aplicação da doutrina do domínio dos fatos, pois era notório que o mais poderoso de todos sabia de tudo, agia com total desenvoltura e comandava o esquema com mão de ferro.

Falta pouco para terminar o julgamento. As conversas, que no começo eram sobre a existência ou não de crimes e culpados, agora se concentram na impossibilidade de apelação, nos critérios de cálculo das penas de cada réu e na definição da prisão onde os condenados cumprirão as punições. Já tem advogado defendendo que cada qual fique preso perto da respectiva família, para facilitar as visitas. É bem razoável.

Vitória, 14.10.2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Festas de casamento

Festas de casamento

Na semana passada fui, de terno e gravata, a uma festa de casamento de uma grande amiga de um dos nossos filhos, que frequentou a nossa casa durante muitos e muitos anos, durante o tempo de escola. Na ida e na volta da praia, em festas de aniversário e, vez por outra, em churrasco animado, movido a cerveja.

Não tinha como deixar de ir. Não é que não goste de festa nem que tivesse alguma coisa contra aquela união. Pelo contrário, gosto muito de dançar e o noivo era filho de amigo de longa data. Além do mais, festa é lugar para encontrar pessoas que já não se vê faz tempo. O inchaço da cidade dificultou os encontros casuais nas calçadas, por onde já não se anda, e na praia, que já não se frequenta. Circula-se de carro entre uma garagem e outra, sempre com os vidros escuros e inteiramente fechados. De uns anos pra cá, raramente vejo uma cara conhecida ao entrar num restaurante.

O que me incomoda, e muito, é o som alto. Música em festa de casamento é sempre muito contundente, a ponto de fazer tudo tremer, como um bate-estaca. Tenho uma perda auditiva razoável, uma grande restrição à minha sobrevivência em ambientes sonoramente agressivos. Prevalecendo o som mais alto, fica difícil entender o que as pessoas estão dizendo. E isso pode ser extremamente perigoso para as amizades. Em lugares barulhentos, o surdinho consegue, quando muito, identificar o assunto da conversa. Mesmo usando aparelhos de surdez corre o risco de parecer pouco interessado no que lhe esteja sendo dito, de dar a impressão de ter ficado metido a besta e até de estar meio maluco, ao dar uma resposta totalmente sem sentido.

Por prudência, ocupamos uma mesa bem distante da pista de dança e, com o apoio da vizinhança, desligou-se a caixa de som que havia ali por perto. Embora tenha sido um alívio para os ouvidos, não foi suficiente para que pudesse conversar direito com um simpático casal que dividiu a mesa conosco. Consegui saber que o marido plantava eucalipto no sul da Bahia e que adorava pescar robalo, mas não deu para conhecer detalhes do negócio nem para saber qual a isca que ele usa para enganar os peixes.

Aprendi, na prática, que as primeiras desculpas por não ter entendido o que foi dito são aceitas de pronto e que pedir para repetir a primeira ou a última palavra da frase funciona razoavelmente. Sei também que levar a orelha para perto do interlocutor pode ajudar a ouvir melhor, embora impeça o uso do olhar e denuncie surdez em estado avançado. Um abraço efusivo e a demonstração de alegria pelo encontro pode garantir a interação por alguns instantes, mas o que sustenta mesmo a comunicação é a consistência das perguntas e a precisão das respostas. O whisky pode, em boa dose, ajudar a relativizar o peso de algumas frases sem sentido, mas o melhor mesmo é dar mais um abraço e inventar uma boa desculpa para interromper a conversa, antes que a má impressão se instale na alma do seu amigo.

Mesmo com som alto, a festa estava ótima, com os noivos dançando o tempo inteiro, animadíssimos. O serviço estava perfeito, profissional: bebida farta e honesta, canapés finíssimos, variados e na temperatura adequada, como se espera dos cerimoniais de primeira linha. Aquela fartura toda e a movimentação dos garçons me fez lembrar de uma festa de casamento no início dos anos setenta, que fora anunciada com grande insistência pelos colunistas sociais da cidade como o acontecimento do ano. Dentro dos melhores padrões da época, tudo o que serviram aos convidados de pé no pátio de um colégio foi bolo com guaraná.

Vitória, 01 de outubro de 2012

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Viva Joaquim!

Viva Joaquim!

Na semana passada enfrentei uma gripe fortíssima, que começou com uma ardência no céu da boca que subia por trás do nariz, indicando que algo mais grave estava por acontecer. Ela surgiu de uma lufada do ar condicionado que tentava vencer o bafo quente da cabine do carro estacionado sob um sol de meio dia.

Sempre achei que gripe não chega a ser uma doença, sobretudo quando se instala de forma educada e relativamente amistosa. Mas, a depender da intensidade, ela faz do homem um ser totalmente debilitado em suas forças e faculdades e impróprio ao convívio.

Preso em casa, pude assistir ao vivo e a cores, como uma espécie de compensação, mais um capítulo do julgamento do mensalão. Estou ficando cada dia mais animado com o desenrolar desse emocionante seriado nacional baseado em fatos reais, protagonizado por um pequeno e seleto grupo de servidores públicos autorizados a fazer justiça. A sensação que tenho é a de que cada um deles, por suas próprias atitudes e méritos, entrará para a história que está ajudando a produzir. Uma história com intrincado enredo sobre um acerto de contas, pacífico e legal, em favor dos bons valores democráticos.

Começo a acreditar que o que está acontecendo no Supremo Tribunal Federal seja uma daquelas raras situações em que pessoas certas estão no lugar certo, em um dado momento muito especial da vida. Está relativamente fácil perceber, em conversas com amigos, que tem muita gente achando que os resultados desse julgamento poderão fazer brotar confiança onde impera o desencanto com o mundo da política e com os negócios que giram em torno dela. A condenação de pessoas envolvidas em desvio de dinheiro público poderá reduzir a sensação de impunidade que se instalou por aqui, ajudando a recuperar o significado da cidadania e a esperança na justiça.

Infelizmente, não consegui acompanhar por inteiro o voto em que o ministro Joaquim detalhou os esquemas de lavagem dos dinheiros que haviam sido saqueados dos cofres públicos, bem como a participação comprovada de cada um dos empresários denunciados. Mas, na quinta feira, fiquei de olhos grudados na TV por quase seis horas seguidas, conferindo os votos dos demais magistrados, formulados no tom e na exata medida do perfil de cada um.

Confesso que fiquei entusiasmado com tudo o que vi: a contundência da ministra Carmem Lúcia, a oportunidade das palavras do ministro Fux, a clareza do ministro Marco Aurélio, a consistência do voto do ministro Gilmar Mendes, a convicção do ministro Celso, o rigor da ministra Rosa e a serenidade do presidente Ayres Britto na condução dos trabalhos. Fiquei particularmente satisfeito com as reprimendas do ministro relator ao ministro Lewandowski e com os reparos jurídicos do ministro decano aos entendimentos do ministro Tóffoli, alvo também de finas ironias de seus pares.

Devo dizer que cresceu a minha admiração pelo ministro Joaquim. O trabalho consistente que realizou na fundamentação de seu voto tem possibilitado a condenação dos réus por maioria expressiva. Nesta semana ele seguirá na sua função de preparar terreno para a condenação, agora por crimes de corrupção, de mais de vinte pessoas, incluindo políticos, dirigentes partidários e um ex-ministro de estado.

Tomo a liberdade de sugerir aos distintos leitores que não percam os capítulos restantes desse reality show altamente educativo, sobretudo aqueles que estejam precisando urgentemente de um pouco de ânimo. De quebra, vão poder conhecer dez brasileiros que estão prestando relevantes serviços ao país.

Vitória, 16 de Setembro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Agosto

Agosto

Por incrível que possa parecer, o mes de agosto terminou sem tragédias, desastres ou acontecimentos tristonhos. Posso dizer isso com boa convicção, sobretudo no que me diz respeito mais diretamente. Para falar a verdade, este foi o agosto mais intenso e emocionante dos que vivi. E já vivi muitos deles, como se sabe.

O mes começou com ideias animadoras, formulações criativas e transcorreu com muitas providências. Tudo em sequencia ao que já vinha acontecendo desde o fim de junho. Felizmente a trabalheira terminou em festa animada, ao som de vozes afinadas cantando melodias conhecidas, em noite de lua cheia e, ainda por cima, azul. Um luxo, como gostavam de escrever os cronistas sociais de antigamente.

Setembro, por sua vez, começou com uma manhã ensolarada de ventos moderados vindos do quadrante sul. Nem imagino o que terá acontecido por aí mas, para mim, o primeiro dia do mês chegou em meio a uma forte ressaca emocional e com o olho esquerdo ardendo muito, por alguma razão misteriosa. Mas nada disso foi suficiente para quebrar a animação de um almoço de pouca comida, muitas palavras ditas ao mesmo tempo, trocas de presentes e de gentilezas, acertos de contas pendentes, instruções de viagem e promessas de futuros encontros, em terras estrangeiras.

Abraços e beijos entre quatro brasileiros e três alemães no meio da rua marcaram o encerramento de mais um capítulo de uma longa e bela história que começou há mais de dez anos, bem longe daqui. A precariedade do meu inglês e a nulidade do meu alemão já tinham dificultado bastante as comunicações durante os dias de convivência em São Paulo e aqui, em Vitória. Com a ajuda de parentes e amigos, havia sido possível conversar sobre fatos curiosos, acontecimentos marcantes, providências e emoções relacionadas com a edição e os lançamentos de um livro e com a realização de uma exposição de colheres e fotografias. Ainda que de forma precária, havia sido possível comentar o gosto pelas coisas boas da vida, a alegria de conseguir materializar uma ideia antiga, as muitas coincidências ocorridas, a convergência de propósitos, a ansiedade das esperas, o nervosismo que surge das falhas, as dificuldades de toda ordem e muito mais.

Mas foi sob a forte emoção de uma despedida movida a gestos de carinho e palavras de agradecimento que, mais uma vez, pude comprovar a força da generosidade entre pessoas, mesmo que mal se conheçam, e o formidável poder que emana da determinação do homem em fazer o que gosta. É bom que se saiba que a dor do olho passou tão logo o carro com os amigos alemães dobrou a esquina, a caminho da estrada para as montanhas. Ali, de pé, no meio daquela rua onde morei e joguei bola, me dei conta de que sou um felizardo e que os astros andaram conspirando a meu favor.

Terminada a maratona de eventos, resta agora recolocar a vida no seu curso normal, retomando a rotina do trabalho e dos afazeres domésticos no dia a dia em família. Livre dos riscos e da pressão de compromissos inadiáveis, agora também vai ser possível dedicar mais atenção ao julgamento que está acontecendo no STF, com imagens transmitidas ao vivo, em cadeia nacional.

Na semana passada consegui acompanhar pela TV o voto de três dos seus ministros e a condenação, por grande maioria, do primeiro grupo de acusados por prática de corrupção, peculato e lavagem de dinheiro. O pouco que vi me faz acreditar que serão condenados todos os membros da quadrilha e, contrariando expectativas de incrédulos e desiludidos, também o seu chefe supremo.

Vitória, 02.09.2012  
Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Eleições

Eleições

Estive em São Paulo na semana passada e, como sempre faço, tratei de sondar a opinião dos motoristas de taxi sobre a campanha eleitoral que está começando. A grande maioria deles, e não foram poucos, declarou que iria votar em branco, por pura descrença nos políticos. Lá tem candidato profissional com rejeição enorme, pretendente enfiado goela abaixo de partido, profissional da imprensa que virou político, candidato bom sem qualquer chance e muitos mais.

Como raramente ando de taxi em Vitória, não tenho oportunidade de fazer pesquisa de boca de motorista. Mas estou achando que aqui também tem muita gente indignada com as coisas da política. A eleição ainda está morna por aqui. Até agora, ninguém pediu o meu voto. Nem na feira de Jardim da Penha. A impressão que tenho é que os candidatos estão constrangidos em fazer campanha cara a cara com os eleitores. É bem provável que alguns deles até estejam com vergonha de pedir votos, por receio de serem confundidos com candidatos a membros de esquemas de assalto ao dinheiro público.

Já, já, começa a propaganda eleitoral na TV. Por enquanto, os candidatos só são vistos em adesivos coloridos pregados nos vidros traseiros dos automóveis. A sorte deles é que o aumento da quantidade de carros, a lentidão do trânsito e os engarrafamentos facilitam a visualização da foto e a leitura dos slogans. Os muros, as fachadas e os postes estão livres de cartazes e de pichações dos candidatos. Antigamente, depois das eleições era quase que obrigatório fazer uma grande faxina, inclusive nas rochas situadas em lugar estratégico. Aos poucos fomos ficando civilizados por força da repressão e das multas, como aconteceu com as sociedades mais bem comportadas do planeta.

No começo da semana estive na Biblioteca Pública, na Praia do Suá, para o lançamento de dois livros sobre os anos setenta em Brasília. Anos de chumbo seguidos da chamada abertura lenta, gradual e segura. Antônio Gurgel, o autor, viveu a juventude na capital federal, tendo participado de corpo e alma de movimentos estudantis e da criação de jornais alternativos de grande influência nas atitudes de estudantes, jornalistas e intelectuais da Capital. Foi muito bom poder ouvir histórias daquele tempo, conversar sobre pessoas com quem convivi e relembrar lugares que frequentei. Morei em Brasília por duas vezes: no começo da década de setenta e durante os primeiros sete anos dos oitenta.

Quando lá cheguei em 1973, a cidade estava em plena construção e o pó de barro vermelho imperava. Trabalhava-se com muito empenho no governo, mas sempre de olho nas atitudes e nas opiniões dos colegas. Na cidade, o sentimento de solidariedade entre as pessoas, quase todas muito novas, superava a falta da família e a desconfiança. Brasília era de oposição.

Tenho guardada a emoção de acompanhar pelo rádio do carro, ao lado de um grupo de amigos, a apuração das eleições de 1974. O antigo MDB fez a festa. Elegeu uma grande bancada de deputados e senadores, fazendo tremer os generais de plantão, que trataram de inventar os senadores biônicos para garantir a maioria silenciosa em plenário, sem mensalão, nem nada.

A reação dos jornalistas veio na forma de um bloco de carnaval desfilando na contramão pela Avenida W3, diante da Torre da Televisão, em pleno sol quente. Cravados no seu DNA a irreverência total, o deboche convicto e o compromisso com a esculhambação. Acho que foi no Pacotão que, fantasiado de Palhaço do Planalto, peguei o gosto de tocar tamborim durante o carnaval.   

Vitória. 19.08.2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Oportunidade

Oportunidade

Quando novo, vivi os tempos de euforia do milagre brasileiro, do país grande que vai pra frente, ouvindo uma mensagem impositiva dos poderosos de então: ame-o ou deixe-o. Não havia meio termo nem espaço para contestações. Para completar, o governo militar lançou campanha em favor da saúde do cidadão brasileiro. A mensagem era quase uma ordem: mexa-se.

Na contramão, Gilberto Gil sugeria atitudes e dava outras referências para quem estivesse meio sem rumo: Se oriente, rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul… pela constatação de que a aranha vive do que tece… Considere, rapaz, a possibilidade de ir pro Japão, num cargueiro do Lloyd lavando o porão, pela curiosidade de ver onde o sol se esconde…Vê se compreende, pela simples razão de que tudo depende de determinação…Determine, rapaz onde vai ser seu curso de pós-graduação…

Hoje, olhando TV, lendo jornais, conversando com gente mais nova, percebo que a vida está sob pressão de mensagens que tentam induzir comportamentos, criar novas necessidades e impor a busca de satisfação pela conquista do sucesso pessoal. Pelo que vejo, a tão criticada Lei do Gerson, que prometia vantagem para quem passasse a consumir os produtos que ele anunciava, foi repaginada para fundamentar discursos políticos e campanhas de marketing.

Tem gente dizendo que agora é a vez do Espírito Santo e fazendo crer que o futuro é nosso. Fico com a sensação de estar vivendo um novo tempo de euforia induzida. Desta vez, são os interesses empresariais que se valem da força de encantamento e convencimento da mídia para preparar ambiente para seus empreendimentos industriais, imobiliários ou comerciais.

Curioso, passei a listar os chavões desse processo que empareda a vida e interfere nas decisões de pessoas e empresas. Na verdade, não são muitos, mas seu uso é intenso e sistemático. Basta prestar atenção nas mensagens alardeando que os diferenciais competitivos do nosso estado potencializam o surgimentos de novos negócios, promovem inclusão social e geram ótimas oportunidades para quem esteja atento e focado.

Relembram diariamente que estão previstos projetos de investimentos colossais nos diferentes segmentos da cadeia produtiva de petróleo e gás, em função da exploração do pré-sal, em especial os de logística e suprimento de plataformas, todos com ótimas expectativas de resultados. Destacam que os portos e mais portos, inclusive com estaleiros, que estão na pauta de investimentos de grandes empresas, proporcionarão qualidade de vida para a população. Embora não sejam sustentáveis nem ecologicamente corretos.

Repetem sistematicamente que as nossas vantagens competitivas farão surgir grande quantidade de novos empregos, aumentando a dinâmica da nossa economia. E que isso garante sucesso para quem tiver competência, souber trabalhar em equipe e tiver espírito empreendedor. Insistem que o crescimento vertiginoso da demanda por profissionais qualificados estimulará a oferta de cursos de graduação e pós-graduação, nas mais diferentes especialidades. Anunciam concursos e inscrições para programas de trainee.

Ainda que a contra gosto, reconhecem que as balas perdidas matam de vergonha e que realmente não são bonitas as nossas estatísticas de assassinatos, assaltos, sequestros relâmpagos e usuários de crack. Mas já tem gente encarando a insegurança da população como um nicho de mercado para negócios e parcerias no segmento de vigilância privada e de sistemas de segurança. Inclusive para os fornecedores locais de tabuletas “sorria, você está sendo filmado”.

Vitória, 23 de Julho de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Espera

Espera

Finalmente recebi o meu exemplar do livro que eu aguardava faz um bom tempo. Ele fora idealizado há exatos dez anos e desenvolvido durante os últimos vinte e poucos meses.

Trata-se de um projeto que surgiu da inspiração repentina que um renomado fotógrafo alemão teve ao ver e tocar algumas das minhas colheres de bambu, durante uma exposição em Munique, na Alemanha. A vontade dele se reacendeu há uns dois anos quando, por força de acasos e muitas coincidências, ele se viu, numa reunião de amigos saudosos, diante das peças que eu havia feito para presentear Pierre Mendell, o grande designer recentemente falecido. Agora, além da vontade, ele tinha uma razão especial para fazer o tal livro: comemorar os seus cinquenta anos de carreira.

Posso dizer que no começo achei curioso saber do interesse de alguém em fazer um livro sobre colheres. Parecia brincadeira. Depois, fiquei sem palavras ao ouvir a tradução da carta escrita à mão, pedindo minha concordância. Adiante, foi a vez da ingenuidade em acreditar que aquele profissional aceitaria fotografar aqui, seguida da coragem em mandar uma mala cheia de colheres, na bagagem de duas filhas animadíssimas, tendo como destino o seu superequipado estúdio, em Hamburgo.

A incredulidade esteve comigo em muitas caminhadas matinais. Bastava considerar as distâncias, o tempo decorrido desde o único e rápido contato pessoal que tivemos, a inesgotável lista de temas que foram preteridos e, sobretudo, os muitos acontecimentos altamente improváveis que marcam essa história. O meu espanto chegou com o anúncio de que aquele homem bancaria os gastos com a realização de um livro com formato ousado, capaz de abrigar fotos de mais de um metro de comprimento. Quando soube que seis especialistas seriam convidados para escrever textos informativos e filosóficos, fiquei envaidecido, me achando, como se diz por aí.

O exemplar de minha filha Bebel, que vive em São Paulo, passou direto pela burocracia e foi entregue poucos dias depois de postado em Berlim. Ela, que havia ajudado a materializar a vontade de uma pessoa que nem conhecíamos, ficou radiante em segurar o livro nas mãos e tentou me mostrá-lo pela internet.

Com a autoridade paterna somada à de interessado direto no que havia sido impresso, tratei de proibir que dissesse palavras ou mostrasse imagens. Preferi viver uma ansiedade plena por mais um ou dois dias e poder sentir as minhas emoções, livres de qualquer influência. Até então elas flutuavam ao sabor das notícias esparsas que chegavam da Europa sobre as providencias e acontecimentos que se sucediam lá. Jamais perguntei sobre datas ou decisões relacionadas com aquela publicação.

A esperança existe. Aqui ela aparecia duas ou três vezes por dia, antes da confirmação de que o livro continuava retido na alfândega, em Campinas. Tive que esperar mais dez dias enquanto o pacote aguardava a liberação. Com tantas negativas, a esperança foi dando lugar à irritação e, em seguida, à descrença, até que a curiosidade venceu o desapontamento. Pedi que me mandassem o exemplar de Bebel e o recebi na sala de embarque do aeroporto do Galeão, onde eu estava a caminho da Paraíba. Certamente foi uma cena inusitada para quem viu um homem barbudo, emocionadíssimo e impactado pela beleza das enormes fotografias de colheres em preto e branco.

Sempre soube, e isso me diverte, que tem gente que adora colheres e que isso pode provocar atitudes surpreendentes. Mas a determinação daquele fotógrafo superava, e com folga, tudo o que eu já tinha visto. Hans Hansen é o nome dele.

Vitória, 09.07.2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA