Festa de casamento de filha

Festa de casamento

Poucos casais têm cinco filhos como eu e Carol. É coisa do tempo antigo, quando a vida era mais fácil e bem mais barata, o tempo era mais folgado, percorria-se distâncias mais curtas e havia empregada que dormia em casa. Criar filhos era algo mais descomplicado, sem grandes teorias e a obrigação de usar cadeirinha no carro. Passei a vida de adolescente e comecei a de adulto em casa de muita gente, ao lado de quatro irmãos e de uma mãe viúva. Com dinheiro curtíssimo, a compra de uma panela nova e o conserto da pia tinha que esperar o salário seguinte. Mas nem por isso. A casa na Madeira de Freitas era ponto de encontro dos amigos da rua e lugar de convívio intenso e barulhento dos Mamíferos, a banda de rock do nosso quintal. A nossa casa de hoje é também um lugar movimentado, onde sempre está acontecendo alguma coisa boa, mesmo depois que quatro dos filhos já não morem mais conosco.

Pois bem, no último sábado, foi a vez de festejar o casamento da filha mais velha com um paulista sorridente, corintiano e trabalhador, como convém. Mesmo morando longe, Manaíra fez questão começar a vida de casada em cartório com uma festa na casa dos pais. O casório será complementado em igreja lá em São Paulo e com festa em um lugar escolhido a dedo.

Aqui, os preparativos começaram com boa antecedência. Mobilizaram todas as pessoas da casa e uma tia da noiva. Consumiram dezenas de interurbanos e de troca de mensagens pela rede. Uma decisão radical havia sido tomada coletivamente meses atrás: as comidas e os adereços seriam todos feitos em casa, no mais puro estilo de antigamente, quando as pessoas se juntavam em torno de uma mesa e diante do fogão para fazer o que tivesse que ser feito para agradar noivos e convidados. E foi exatamente assim que aconteceu por aqui. Uma trabalheira sem fim.

As últimas duas semanas foram consumidas com atividades de planejamento detalhado, escolhas dificílimas e muitas horas de conversa frouxa. Nos primeiros dias de maio gastamos manhãs e tardes engomando, cortando e colando retalhos para fazer umas quinhentas flores de pano como lembrança da festa. Como era de se esperar, a mãe da noiva resolveu aproveitar para dar uma boa arrumada na casa, comprar jogo de cadeiras de jardim, dar uma revigorada nas plantas, lavar as paredes, tirar o pó preto incrustado no tronco dos pés de graxa e acabar com o vazamento no telhado da pérgula. Sempre torcendo para não chover nem ventar forte. A noiva chegou dias antes junto com a irmã, a tia e a prima de Belo Horizonte, que vieram ajudar.

Durante a sexta feira, a movimentação se concentrou na cozinha, entrando pela madrugada. Foi a vez de cortar temperos, limpar e assar carne e peixe, preparar massa e recheios para as quiches, produzir geleias, fatiar queijos e presuntos defumados comprados na feira, montar cesta com frutas de estação, enrolar brigadeiros de chocolate amargo, de ver Bebel, a filha do meio, preparar seu tradicional quindão e a caçula Diana fazer pavlovas com merengue e morango e, cheia de estilo e com apoio da mãe do noivo, enfeitar o bolo com rosas pequenas, livre da tal pasta americana que esconde as imperfeições. Do lado de fora, dava gosto ver a serenidade da tia Beatriz arranjando, milimetricamente, flores coloridas e folhas verdes em tachos de cobre. Isso, depois de coordenar a arrumação da festa, nos mínimos detalhes. Até São Pedro tratou de ajudar, dando de presente um dia perfeito para que os noivos pudessem compartilhar sua alegria com os parentes e amigos mais próximos.

Vitória, 14 de Maio de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Manhã de abril

Manhã de abril

Domingo é dia de descanso, de deixar a vida correr solta, sem obrigações do trabalho, sem preocupações descabidas. Dizem que Deus trabalhou duro durante seis dias e usou o sétimo para ficar olhando e conferindo se estava tudo certo, as linhas verticais no prumo, o sol esquentando tudo que não estivesse à sombra das árvores e das pedras, os passarinhos experimentando as próprias asas e conseguindo voar com tranquilidade, as nuvens indo de um lado a outro com o vagar recomendado nos períodos de bom tempo, as águas dos mares subindo e descendo em sintonia com a posição da lua, as ondas, vindas em sequência de sete, arredondadas, virando espuma ao final do percurso, os ventos moderados vindos do quadrante sul trazendo a fresca que os homens bem merecem depois de um verão exaustivo, as folhas novas devidamente presas aos galhos e balançando ao vento, as flores mostrando suas cores delicadas, até então desconhecidas, as pedras enormes, opacas e impassíveis, nos seus devidos lugares, os peixes, em cardumes ou nadando solitários em busca do que comer, os primeiros sururus já agarrados na pedra, disputando espaço com as algas.

Convém dizer que era uma manhã radiante de abril, das últimas. Uma manhã de domingo, própria para sair de casa e andar pelas redondezas em busca de saúde e de satisfação, mas sem a pressa dos atletas nem a agonia dos que exercitam para mostrar as formas depois. Melhor, com a tranquilidade própria dos homens que aproveitam maré crescente pra pescar nas águas do canal, conversando sobre marés, iscas e anzóis, sempre de olho na ponta das varas, com a felicidade de uma amiga de juventude que passeia com o cachorro de sempre na coleira e mostra a neta risonha, no carrinho de bebê empurrado pela filha. Três ciclistas, em uniforme completo, pedalam forte para ver quem chega primeiro ao topo da ladeira. Um homem já beirando os oitenta, sem camisa e sem óculos, corre em ritmo possível, distribuindo sorrisos. Em silêncio, um casal acompanha dois rebocadores navegando em marcha lenta. Não sei onde foram parar as gaivotas e os maçaricos que frequentam as lajes de pedra à beira mar, mas os canários da terra estão por todo lado.

Caminhando em ritmo de domingo, conversando frouxo sobre a chegada iminente de mais um neto, rindo do fracasso da tentativa de fazer tapioca na frigideira, falando das pequenas flores de pano para o casamento de filha mais velha, lamentando a ausência das tartarugas no mar do final da rua, rindo da falta de um bom tema para a crônica da semana, programando um cineminha no final da tarde e o cardápio do almoço à base de verdura, grãos e saladas, chegamos ao formidável livro de fotografias que Vitor Nogueira havia lançado no começo da semana. São mais de cem imagens de águas, terras, pedras e montanhas, plantas e plantações, praias, areias e muitos barcos, céus abrangentes, nuvens e sóis, pontes e conventos, passarinhos e gente, muita gente. Trabalhando, pescando, rezando, dançando, fantasiada, tocando, cantando, sentada, plantando, indo e voando. E também animais, insetos e passarinhos, inclusive o olho de uma arara, que me fez ter saudades da que tive, faz tempo. Tudo daqui de perto, ao alcance do olhar de quem ande e arrepare nas coisas e pessoas por onde passe. As fotos estão lado a lado com os poemas que ele mesmo escreveu, inspirado em cada uma delas.

Se Vitor passasse por ali naquele momento e estivesse com suas lentes, certamente teria captado algumas daquelas imagens, à luz perfeita das manhãs de abril.

Vitória, 30 de abril de 2013-04-30

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Enquanto isso

Enquanto isso…

Agora já posso dizer que a tal cadeira de balanço está pronta, perfeitamente lustrada e sendo utilizada pelos moradores da casa e pelos visitantes curiosos. O serviço ficou muito bom, digno de elogios e virou assunto de conversa sobre trabalho manual, poder de concentração, paciência, passatempo, cera de carnaúba, tipos de palhinha, caco de vidro, tiras de borracha e por aí afora. Teve até quem dissesse que a cadeira tinha virado um personagem.

Pois bem, na semana passada encontrei um amigo de longa data na porta de uma loja que vende frutas, legumes e verduras, todas, a cada dia mais bonitas e mais caras. Ele é jornalista e escreve crônicas deliciosas. Ao me ver na fila do caixa, debochado que só, perguntou pela cadeira, e com cara séria foi logo declarando que estava com medo de que eu parasse de fazer colheres pra ficar pegando serviço de limpeza de cadeira velha. De quebra, sugeriu que escrevesse sobre como é bom ficar sentado na varanda, balançando pra frente e pra trás.

Nesses dias em que andei agarrado na cadeira, pensei muito na velocidade com que fatos relevantes se sucedem, tornando quase impossível acompanhar o que se passa em volta. Como deve estar acontecendo com muita gente, tem hora que me sinto meio atordoado, sem conseguir processar devidamente o que me chega pela mídia.

No plano das brigas de cachorro grande, por exemplo, andaram denunciando que ministros e diplomatas estavam ajudando a montar uma ação entre amigos para levar para o estado do Rio o estaleiro que estão construindo em Barra do Riacho. Sem maiores detalhes, foi anunciado que o mega projeto que seria instalado no sul do estado tinha ido pro vinagre, por decisão dos seus idealizadores. O Congresso, por sua vez, detonou muitas expectativas de gastança com os royalties de petróleo, mas o STF tratou de bloquear a efetivação da decisão do plenário. Provisoriamente.

Elegeram um novo Papa para tentar sanar a má fama da cúpula da sua igreja e reverter o processo de perdas de fiéis. Em paralelo, acompanhei o bafafá que colocou sob os holofotes da fama um aspirante a líder nacional, ajudando a atiçar uma espécie de guerra santa que vai se instalando no país, movida a eventos, prisões, processos e tudo o mais.

Aprovaram a PEC das empregadas domésticas, criando uma formidável apreensão em milhares de pessoas que trabalham e que contratam. É a lei fazendo avançar na marra o que vinha evoluindo aos poucos. As incertezas só não preocupam os advogados, animados com a expansão do potencial de processos trabalhistas.

Também está impossível acompanhar o prende e solta de prefeitos, vereadores e deputados. O que pouco mudou foram as obras sem fim no terminal do aeroporto.

Em pratos menores, o tomate virou a bola da vez, realçando as cores do processo inflacionário, justificando o aumento dos juros de cada dia, animando a campanha presidencial que vai tomando corpo. Talvez em função da potência das redes, muitas pessoas começaram a repetir que carambola, uma das minhas frutas preferidas, faz mal para os rins. Um amigo mineiro contou que o papagaio dele adora carambola.

Durante essas semanas, li um bom pedaço de “Civilização do Espetáculo”, de Vargas Llosa, e assisti o primeiro capítulo de “O século do Ego”, documentário feito pela BBC. Tratam do uso deliberado da força do marketing para criar valores, condicionar escolhas e gerar comportamentos de massa, tanto no plano político como no da economia. Reforçaram a minha antiga certeza de que sempre tem alguém pretendendo distrair ou enrolar a gente.

Vitória, 16 de abril de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Servicinho maneiro

Servicinho maneiro

Sou um usuário convicto de cadeira de balanço. Aqui em casa temos três delas. Uma austríaca, dessas de palhinha, uma desenhada por Tenreiro, bem baixinha, ambas de herança, e uma outra de lona, trazida da Paraíba, a minha preferida. É nelas que me sento para assistir TV, conversar, ler jornal e ficar pensando na vida. Raramente me sento em sofá, sempre mais quente, apesar de mais confortável.

Cadeira de balanço é algo que remete ao passado. Em uma das poucas fotografias de meu avô Chico Braga, ele está com cara de coronel do interior, sentado na que está na casa de mamãe. Guardo a imagem de minha avó Cesarina em uma delas, fazendo crochê.

Digo isso por estar às voltas com uma cadeira de balanço que minha filha caçula e o seu namorado trouxeram pra casa, morrendo de rir. É uma peça muito antiga, dessas que passam de uma geração para outra como um troféu. Disseram que ela estava coroando a caçamba cheia de entulho e queriam ver se eu seria capaz de recuperá-la.

A situação da cadeira era deplorável. Deve ter ficado anos debaixo de sol e chuva, recebendo pó preto misturado com maresia. As palhinhas estavam podres, muitas rachaduras e emendas descoladas, faltava uma das partes. Olhada de frente, mostrava-se empenada. Fora remontada de qualquer jeito. Um quebra cabeça e tanto.

Mas nada como um dia após o outro para quem pretende raspar e dar acabamento esmerado em mais de quinze metros de madeira roliça e em curvas, entortada com o calor do vapor. Disposto a enfrentar o desafio, comecei tirando a camada de pó preto com o jato d’água dessas bombas caseiras. Depois, cortei o que sobrou dos trançados e usei a furadeira para limpar os quase duzentos buracos por onde passam as palhinhas. Com muito custo, desaparafusei os aros do assento e do encosto, para facilitar a operação.

Feito isso, amolei duas das minhas faquinhas de cortar bambu e separei uma folha de lixa grossa. Com cuidado, acabei de quebrar um jarro d’água que estava trincado, em busca de cacos de vidro grandes, ferramentas poderosas para o serviço em madeira.

Esperei o sol baixar e comecei por calafetar os muitos estragos provocados por intempéries e maus tratos. Passei então a raspar a sujeira incrustrada em um dos braços, até que a cor natural da madeira voltasse à tona. Serviço pesado, feito com movimentos longos e vigorosos, ora com a lâmina de aço, ora com a quina do vidro. O uso da lixa enrolada em uma placa de borracha ajudava na limpeza e permitia descansar os dedos.

Gastei umas boas seis horas para raspar uma das duas laterais, formada por quatro partes, todas em curva, o que dificulta bastante o serviço e exige que se busque, o tempo todo, posição adequada para continuar. Isso, sem contar a dificuldade para limpar as áreas localizadas entre duas peças que se juntam em ângulo.

Para obter superfícies livres de ondulações e rugosidades foram horas e horas de movimentos suaves com cacos de vidro virgem e lixa fina. Na sequência, foi a vez de alisar a madeira com o cabo da faquinha, em busca de uma superfície polida com um brilho uniforme, base adequada para receber a cera de carnaúba. Enquanto cuido da outra lateral, já dá para levar as peças para o empalhador que trabalha em uma das esquinas da Praia do Canto.

Com tudo resolvido, restará equacionar um sério problema de engenharia: o que fazer para montar a cadeira sem o aro de madeira que fica entre o encosto e o assento. Mas isso é outro capítulo da história dessa cadeira, que recomeça na casa que seus novos proprietários estão pretendendo montar em breve.

Vitória, 19 de março de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Televisões com defeito

Televisões com defeito

Os dois aparelhos de televisão da casa quebraram praticamente ao mesmo tempo, na semana passada. A maior delas, a que é utilizada coletivamente, simplesmente apagou de vez, sem ao menos fazer barulho, sem dar qualquer aviso prévio. O pessoal estava assistindo um dos filmes do Oscar quando a tela ficou preta e o sistema de som silenciou. É uma dessas televisões de quarenta e poucas polegadas, que nos foi dada de presente, há uns três anos. Além de ser bem fininha, nela veio embarcado o que havia de mais avançado na época, em termos de tecnologia. Tudo enaltecido nos anúncios massivos como sendo ultra, super, plus, advanced e por ai afora. Ao substituir a que funcionava direitinho há mais de duas copas do mundo, informaram que a imagem da nova como a dos cinemas. De quebra, os filhos contrataram um desses pacotes que disponibilizam dezenas de canais, muito mais do que um cidadão comum precisa para ser totalmente feliz durante o tempo em que permaneça diante de uma TV.

Normalmente não assisto novelas, programas de auditório, missas moderninhas, cultos variados para coleta de dízimo, seriados sobre o que acontece no setor de emergência de hospitais e em oficinas de reforma de carros, programas com adestradores de cachorros e de crianças mal educadas, profissionais que ensinam a arrumar casa, a emagrecer comendo pouco e a fazer musculação em aparelhos que fazem tremer o corpo inteiro e muitas outras atrações que não me interessam. Prefiro fazer colher, cozinhar, ler ou mexer nas plantas.

Sou desses que assistem noticiários nacionais, uma partida ou outra de futebol, quase sempre da seleção ou do Fluminense, alguns jogos de volei e futsal, filmes que só passam fora do horário nobre e uns poucos programas de entrevistas. Isso, sempre que estou sozinho ou quando posso aumentar o som para compensar a minha dificuldade auditiva. Gosto de filmes de aventura, que assisto sem som, tentando descobrir o fio da meada analisando as expressões e os trejeitos dos atores, imaginando o que teria se passado na cabeça do diretor. Gosto de tentar adivinhar a próxima cena: uma queda, um tiro, a traição do bandido, um beijo roubado. O pessoal que está ao lado reclama bastante, sobretudo quando acerto na previsão, acabando com a surpresa.

A televisão que está no quarto é aquela que estava na sala. É do tipo mais robusta e com cauda, um objeto do século passado, por assim dizer. Pois é nesse aparelho que mais exerço a minha condição de telespectador, sobretudo no fim do dia, antes de dormir. Ela estava funcionando perfeitamente bem até o meio da semana, quando apresentou defeito grave, desses que interferem drasticamente no relacionamento entre o homem e a máquina. É bom que se saiba que da imagem dela e do som nada tenho a reclamar: estão como sempre estiveram, exceto por estalos esporádicos, um treme-treme ocasional ou um pouquinho de chuvisco. O problema é que a danada da TV resolveu não mais aceitar ser comandada via controle remoto, esta sim, uma grande inovação tecnológica. Levantar da cama para uma simples troca de canal ou para apagar a TV é gesto obsoleto, impensável para os mais novos, um contra senso para quem se acostumou a comandar o espetáculo com um simples aperto de teclas.

O fato é que a vida na casa mudou. No fim de semana, os netos reclamaram da falta dos desenhos animados mas trataram de aproveitar outros atrativos disponíveis, incluindo cachorros, lápis de cor, pé de romã carregado, patinete, banho de mangueira e as pedrinhas do vovô.

Vitória, 05 de março de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Volta pra casa

Volta pra casa

Os convites vinham sendo feitos há muito tempo. Este ano ficou combinado: o carnaval seria na praia de Manguinhos, mas na que existe na península de Búzios, bem longe da nossa, onde toco meu tamborim. Búzios é lugar de gente rica e de muito bom gosto. A legislação que regula a ocupação do solo e orienta as construções parece estar sendo aplicada com rigor. Pelo que se pode ver, o pessoal da prefeitura tem conseguido minimizar a degradação do verde, evitar a feiura urbana e valorizar o bem estar das pessoas. Dá gosto olhar de longe a paisagem, composta de praias pequenas entre pedras enormes, bem na franja de morros ainda cobertos por mata nativa. Nas lojas e nos restaurantes, tem-se a impressão que Brigite Bardot pode aparecer a qualquer momento, queimada de sol, metida num shortinho branco.

Depois de quatro dias de cerveja gelada, comida gostosa e conversa fiada na beira do mar, resolvemos evitar o tráfego pesado da BR101 e voltar por uma estrada que começa ao sul de Campos e sai varando plantações de cana, abacaxi e mandioca. Muitas biroscas com produtos da região: frutas, goiabada cascão, doce de leite, chuvisco e biscoito de polvilho, que parece ser uma tradição por ali. Comprei seis abacaxis por cinco reais e me arrependi de não ter trazido mais. Isso, já bem perto da divisa, chegando em Barra de Itabapoana, lugar de atividade pesqueira intensa, a tirar pelos muitos barcos ancorados no rio e pela quantidade de gente consertando rede nas varandas coladas na calçada.

Entrando no ES, o primeiro quilometro da Rodovia do Sol é percorrido em estrada de barro, como que querendo marcar posição. No vasto descampado, pequenas tabuletas com a logomarca da empresa que pretende construir um megaprojeto em terra firme e um porto mar a dentro. Outras tantas oferecem áreas e lotes, atestando que tem gente interessada em tirar casquinha no progresso bruto, do tipo enclave, que deverá chegar em breve. Não há qualquer sinal da aplicação da dinheirama dos royalties do petróleo que chega na região.

O asfalto segue longe do mar até perto da Ponta do Siri, onde pretendíamos fazer uma parada técnica para esticar as pernas, tomar uma água e ir ao banheiro. Não deu. Impossível encontrar lugar para estacionar. O jeito foi passar direto, sem ao menos saber se o restaurante de Magnólia ainda existe. Muitas e muitas vezes estivemos ali a bordo do ônibus-trailer da família. Peroá frita com cerveja, banho nas águas escuras da Lagoa do Siri, pescarias de barbudinhos no mar, meninada solta na areia da praia e muita conversa mole com os maratimbas donos da terra, dos bares e dos coqueiros.

A estrada até Marataízes segue por cima das falésias até encontrar a que vem da Safra, bem no ponto onde os meninos de Cachoeiro disputavam quem via o mar primeiro. Marataízes está irreconhecível. O aterro pode ter acabado com os problemas da erosão da Avenida Beira-mar ao levar o mar lá pra longe, mas mudou radicalmente a paisagem bucólica que existia ali. Lembrei-me do som dos tamancos batendo no cimento das calçadas do vilarejo que meu avô ajudou a fundar. Foi-se o tempo.

Dali até a ponte sobre o Rio Itapemirim, o trânsito não aceitava pressa. Paramos em um posto de gasolina depois de atravessar Itaipava e Itaoca em fila indiana lentíssima. Pior, mesmo, foi enfrentar o engarrafamento radical que começava ao sul de Piuma e se estendia até o centro de Anchieta, onde os ônibus param no meio da rua para pegar e soltar passageiros, com seus maleiros abertos, tranquilamente, como sempre o fizeram.

Vitória, 18 de fevereiro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

De carona

De carona

Já não chovia desde o começo de dezembro. Sei disso porque a grama amarelou, de tão ressecada que a terra estava. Molhar planta virou atividade obrigatória, tanto quanto a de varrer o danado do pó preto. E eu precisando de chuva para poder avaliar a eficiência da calha que instalamos no telhado da varanda, ao lado da casa. Fizemos tudo conforme as instruções do fabricante, mas ainda não tinha sido possível testá-la. A onda de calor já havia passado, mas água que é bom, nem pensar.

Finalmente, no fim da tarde de quinta feira passada parecia que o céu ia desabar nas nossas cabeças, como gostam de dizer os amigos de Obelix, o gaulês das histórias em quadrinhos. No caminho de casa, dava pra ver o Mestre Alvaro envolto em uma grossa camada de nuvens cinza escuro, ameaçadoras. A visão do lado do mar não era nada diferente: uma tempestade se formara sobre os navios fundeados lá fora e avançava em direção à terra. Os primeiros pingos grossos já começavam a cair quando avistei um grupo de pessoas caminhando rápido, tentando escapar do aguaceiro que vinha vindo. Uma mulher de uns vinte e poucos anos, seguida por três crianças já taludinhas, carregava um recém-nascido no colo. Mais adiante, uma senhora, que poderia ser avó das crianças, andava meio curvada pra frente, com a bolsa protegendo o penteado. Estavam vestidas pra festa.

Ao imaginar aquelas pessoas totalmente encharcadas, tratei de parar o carro, abrir o vidro e oferecer carona. Fiz isso certo de que a expressão do meu rosto demonstrava a boa intenção de um homem de certa idade e de barbas brancas se oferecendo para levá-las, secas, até um lugar seguro. Sou do tempo em que dar carona era ato corriqueiro, generoso e bem vindo. Os carros eram poucos e os seus proprietários quase sempre conhecidos.

No fim dos anos 60, de mochila nas costas, eu e um grande amigo conseguimos chegar a Marataízes em poucas horas, com apenas três caronas. A primeira, do posto da Polícia Rodoviária até Iconha, na boleia de um caminhão Mercedinha, ouvindo histórias de pescaria; seguimos até Safra no conforto de um Aero Willis novinho, conversando sobre aventuras; de lá até a beira do mar fomos sentados na carroceria de uma caminhonete Ford F100, trepidando nas costeletas e respirando a poeira da estrada de barro. Estudante na Ilha do Fundão, no Rio, voltar pra casa era sempre penoso e uma carona, a salvação. Havia até quem mostrasse tabuleta indicando o destino pretendido. Em João Pessoa, sempre dava ponga no carro oficial. Tadeu, o motorista, já ia parando quando avistava aluno da universidade nos pontos de ônibus.

Como deve acontecer com muita gente, faz um bom tempo que parei de oferecer carona para desconhecidos, sobretudo para mulheres e crianças. Isso, apesar de continuar tendo dó de quem caminha sob sol escaldante, de quem volta da escola no escuro das noites ou que ande apressado para fugir de um toró. É que, das últimas vezes que o fiz, passei desconforto por ter provocado emoções de pavor e repúdio. As recusas me fizeram pensar que o gesto é confundido com assalto, tentativa de sequestro ou outros crimes do gênero.

Naquela tarde, por todas as circunstâncias, achei que a minha oferta de carona seria muito bem aceita. Quem dera. A recusa me foi dada pela mulher mais nova com expressão de medo estampada no rosto, apertando a criança contra seu corpo e fazendo sinal para que as três meninas se afastassem dali. De quebra, ainda recebi um olhar fulminante da tal senhora que parecia ser avó das crianças.

Vitória, 21 de Janeiro de 2013

Alvaro Abreu 

Escrita para A GAZETA

O bom velhinho

O bom velhinho!

Não sou daqueles que vão às compras regularmente ou por compulsão. Quando muito, ajudo no abastecimento de frutas, legumes e hortaliças, de preferência, nas feiras livres. Das lojas que vendem ferramentas, parafusos e utensílios de cozinha mantenho distância, por pura precaução. Raramente sou visto comprando camisa ou bermuda, mas sapato, não tem jeito, tenho que ir experimentar. Visto-me com roupas que compram pra mim e que ganho nas festas de aniversário e de fim de ano.

Nos anos 60 era difícil de encontrar roupa pronta em Vitória. Quem podia, ia comprar nos magazines em Copacabana ou nas butiques de Ipanema, no Rio. Aqui, roupa de homem só existia em algumas lojas na Avenida Jerônimo Monteiro, no centro. A saída era comprar os tecidos para calça na casa Huddersfield – que era difícil de pronunciar, mas fácil de encontrar – e os panos para camisa nas Pernambucanas e na Santa Terezinha e, em seguida, entregá-los para algum alfaiate conhecido ou na casa da costureira mais próxima. Nesse tempo, muitas mulheres costuravam pra fora e cansei de ver mães de amigos meus sentadas diante da máquina, fazendo roupa para os filhos.

Por sorte, ao lado da nossa casa morava uma costureira de mão cheia, que vestia muitas senhoras e senhoritas para os casamentos de gente importante e as festas de debutantes, que aconteciam nos clubes da cidade. Dona Antenisca era de origem italiana, dessas bem reforçadas, que falava alto e dava boas gargalhadas quando estava de bom humor. A sala de costura dela ficava nos fundos do terreno e tinha uma janela virada para o nosso lado, que permitia ouvir as broncas frequentes que dava nas suas ajudantes.

Pois saibam que durante muitos anos usei camisas de cambraia de linho feitas por ela, sempre cinco ou seis a cada vez, quando eu vinha passar as férias na cidade. Teve até quem me achasse um sujeito sofisticado por usar aquelas benditas camisas amarrotadas, mal sabendo que dona Antenisca, por ser aparentada com gente da Braspérola, comprava peças dos melhores linhos com um bom desconto, que repassava aos fregueses.

Ela era casada com um simpático nordestino contador de histórias. Aposentado, seu Firmino era chofer de carro de praça e fazia ponto na praça Costa Pereira. Tinha um Dodge verde claro, que mantinha lustroso, cuja placa era 2636. Lembro-me muito bem disso porque deixei de ganhar um bom dinheiro no jogo do bicho por falta de experiência na interpretação de sonhos. É que tendo sonhado com aquele carro enorme vindo, de marcha a ré, na minha direção, tratei de apostar sua placa na milhar. Deu 6362 na cabeça. Invertido, como tão bem indicava a mensagem recebida enquanto dormia. Isso, só fui saber na hora de conferir a pule, pela boca do apontador do jogo, no bar do seu Frontini.

Em plena véspera do Natal, fui desafiado por minhas filhas a fazer o que não fazia há muito tempo: entrar em um shopping inteiramente lotado. Aceitei a provocação ao me lembrar que poderia comer quibe com tabule enquanto elas batiam perna em busca de brinquedos para os netos da casa e de presentes para o Amigo X. Nem bem sentei para comer, dei de cara com o par de olhos arregalados do garotinho de uns três anos que estava na mesa ao lado. Estarrecido, boquiaberto, ele havia parado de mastigar e de piscar. Pensei que ele começaria a chorar imediatamente, como acontece com boa parte das crianças que me vê de perto. Mas não foi o que aconteceu. Do nada, o moleque abriu o maior sorrisão e, apontando para mim, disse pra mãe: Papai Noel, Papai Noel!

Vitória, 07 de Janeiro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Data vênia

Data vênia

Como deve estar acontecendo com muita gente, tenho visto, na rede, comentários de todo tipo sobre o julgamento do mensalão. Alguns expressam satisfação com os resultados já consagrados, outros demonstram discordância com as condenações, denunciando descalabros jurídicos e teses conspiratórias. Chego a crer que tem gente com raiva do STF, preferindo que ele nem existisse. Da minha parte, continuo tentando assistir as sessões para acompanhar o desenrolar dos fatos e poder melhor entender o que ali acontece.

A cada dia admiro mais o presidente Supremo, lamentando que seja obrigado a se aposentar por idade, embora se mostre um homem lúcido, maduro, firme e gentil e em plenas condições de suas faculdades e competências. Por certo, fará falta, assim como o ministro decano, que em breve vai para casa, também por atingir a idade limite.

Nos dias de hoje, homens de setenta anos estão tinindo, como se dizia nos meus tempos de rapaz. Sobretudo se não lhes for exigido empurrar carro, subir ladeira correndo, nadar dois mil metros de arranco. O exercício da magistratura demanda horas de leitura, de reflexão e boa capacidade de escrita. Bom senso, discernimento, experiência, serenidade e autonomia são atributos de um bom magistrado e somente o passar do tempo os traz em boa dose.

Fico torcendo para que as normas que regulam a função de ministro dos nossos tribunais superiores de justiça venham a ser atualizadas em breve, abrindo espaço para a ampliação do prazo de validade de ministro. Dispensar a colaboração de juízes aos setenta anos é algo incompatível com a realidade dos fatos.

Por oportuno, acho que caberia, também, incluir alguma coisa parecida com processo de impeachment de ministros que demonstrassem falta de hombridade e decência no exercício da função de membro das mais elevadas cortes de justiça da nação. Tal qual já existe para cassar o mandato de presidentes, deputados e senadores da República. Ajudaria a inibir condutas e posturas impróprias. Tribunal superior não é lugar para profissional que atue sem a devida ética ou sob suspeita de suas ligações pessoais com o mundo político-criminal. Justiça não se faz por interesse, obrigação ou agradecimentos pessoais.

Impressiona mal ver um ministro empenhado na defesa de réus já condenados, sobretudo a elasticidade que adota na interpretação das leis, a ousadia ao tentar anular provas consagradas, a petulância ao criar uma métrica própria para tentar abrandar penas. Entendo que os excessos de desenvoltura e de convicção no exercício da função de revisor acabaram por gerar reações contundentes em favor da justiça. É animador ver que existem ministros, veteranos e novatos, que se esmeram em reafirmar a legalidade das provas, em apresentar corretamente o teor de súmulas validadas pela corte, em considerar a real gravidade dos delitos e a quantidade de vezes que foram praticados, possibilitando que o plenário decida apoiado em bons fundamentos.

O que também faz reforçar a oportunidade de se instituir impeachment de ministro é constatar a atuação de magistrados que parecem não possuir estofo pessoal nem sinais de independência quando submetidos a pressões de terceiros. Mesmo pedindo vênia, ministros e ministras não podem se apresentar como atores coadjuvantes, como pau mandado de alguém. As imagens da TV mostram que alguns juízes da suprema corte já não mais recebem palavras e olhares de respeito ou admiração de seus pares, assim como de muitos brasileiros, telespectadores do mensalão.

Vitória, 29 de Outubro de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

No fim do ano

No fim do ano       

O burburinho de que o mundo iria acabar no dia 21 deve ter servido como uma espécie de preparação das reflexões e intenções típicas dos finais de ano. Vi algumas reportagens sobre o assunto, mas nenhuma com consistência capaz de abalar pessoas minimamente equilibradas. Nada parecido com as campanhas promocionais da chegada do Cometa Halley em 1986 e do Bug do Milênio. Bem que tentei ver o Halley de uma praia deserta, mas ainda tenho dúvidas se ele realmente estava onde deveria estar naquela noite escura e livre de nuvens e poeiras. Dizem que a previsão de que os computadores endoidariam na virada do século gerou ótimos negócios.

Pra mim, o anúncio do fim do mundo teve a utilidade de me fazer ver que, em 2012, andei escrevendo sobre temas bem variados, alguns ingênuos e outros nem tanto. Os recortes de jornal mostram que falei de doces mineiros que me deram de presente, dos que comia na infância e de comidas nordestinas. Talvez por bairrismo, escrevi sobre uma fruta-pão colhida em árvore filha do centenário pé de fruta-pão que existe no sobrado onde nasci, em Cachoeiro. Falei de gente remando em águas abrigadas e de pescarias ilegais no fundo da baia. Turista amador, contei sobre lugares que conheci no Cariri paraibano e dei pista de onde encontrar bambu preto e linguiça caseira, lá na região de montanha.

Em função de emoções que me mobilizaram, falei de uma exposição que fiz em São Paulo e de um livro alemão sobre as colheres de bambu que eu faço. Contei de um belo show sobre Tim Maia e me lembrei dos carnavais de rua que frequentei como um folião desgarrado e do de Manguinhos, quando toco tamborim. Consumidor birrento que sou, contei do velho micro-ondas que conseguimos consertar em casa com a ajuda da internet. Frágil como qualquer um, falei da labirintite que me ataca com alguma frequência e também das estratégias de sobrevivência que adoto em festas barulhentas, em função das dificuldades que tenho com som alto.

Cidadão indignado, reclamei da dinheirama que o governo gasta pagando juros da dívida pública com o que tira do bolso dos brasileiros com impostos pesados. Critiquei campanhas publicitárias que supervalorizam projetos potenciais e iniciativas de governo, gerando falsas expectativas de renda, para aumentar o consumo, sobretudo de apartamentos e salas comerciais. Na contramão desse processo, falei de um livro sobre o Brasil, escrito por um amigo, mostrando que nossos problemas vêm de longa data e propondo providências para tentar melhorá-lo. Revivi neste espaço a origem da feira de mármore, que ajudei a criar.

Falei de eleições municipais deste ano com certa tristeza e das esperanças que vi brotar do pleito de 1974, quando a oposição elegeu a maioria dos senadores da República. Aproveitei para comentar um livro sobre o movimento estudantil em Brasília, escrito por um dos seus líderes. Sobre o julgamento do Mensalão, tratei das dúvidas quanto ao seu tão esperado começo, dos embates entre ministros, da inacreditável condenação de homens poderosos e, mais do que tudo, dos seus impactos na alma de muita gente.

Morador de Vitória desde 1958, falei da Praia do Canto sem prédios, reclamei com veemência do pó preto que suja tudo e, mais recentemente, ponderei sobre a oportunidade de estudar com calma uma proposta de ocupação de uma das últimas áreas livres disponíveis na cidade. Falei também da relação entre Niemeyer e o Espírito Santo, em função de uma simples especificação de material de construção. Faço fé que assunto pra crônica não me faltará em 2013.

Vitória, 24 de dezembro de 2012.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA