Origem

Origem

Escrevo esta crônica na cidade do Porto, de um computador de hotel, desses que se paga por hora para usar a internet. Faz muito que eu queria conhecer Portugal, mas sempre passei por cima dele a caminho de outros lugares, exatamente como fiz desta vez, na ida para Frankfurt. Até pensei em aproveitar para conhecer os países nórdicos, mas resolvi pousar em Lisboa na volta.

É que além das comidas saborosas, das belezas naturais e do que foi edificado pelos mouros e depois pelos portugueses com a riqueza saída das colônias espalhadas pelo mundo, Portugal é a terra de onde saíram meus antepassados.

O Braga que carrego no meu nome completo não é coisa de família. É coisa de imigrante português identificando a sua origem: o lugar de onde partiu em busca de dias melhores nas terras brasileiras. Dentre muitos outros, um senhor de sobrenome Carvalho, que veio de Braga. Pelo que sei, a geração de meu avô é a que ganhou esse sobrenome em cartório.

É uma ótima sensação estar por aqui. Parece que estamos em casa. Os portugueses estão muito simpáticos e amistosos. Gostam da gente do Brasil. Acho mesmo que sentem uma espécie de orgulho em ter ajudado a nos fazer existir tão alegres e coloridos. Muitos dos que conhecemos pelas ruas, lojas e restaurantes têm alguma história sobre pessoas, cidades, sabores, artistas nossos. Uns deixam transparecer certa dose de inveja por ainda não terem tido oportunidade ou condições para ir conhecer nossas praias e os parentes que se criaram e vivem em terras brasileiras.

Visitamos castelos, andamos pelas ruas apertadinhas. Comemos bacalhau diariamente, cada qual melhor que o outro. Comprei muitas faquinhas portuguesas, dessas bem tradicionais que pegam fio rapidamente, mas custam a cegar. Levo algumas tantas para dar de presente para quem goste de facas como eu. Pretendo adaptar as menores para o uso no bambu.

Confesso-me encantado com as calçadas das cidades portuguesas. Largas ou estreitas, são bonitas e perfeitamente planas, próprias ao caminhar apressado ou a passeio. Pude acompanhar o serviço de calceteiros assentando cuidadosamente pequenos cubos de pedra. Hoje cedo, acordei com o barulho do motor do jato d’água que estava sendo usado para lavar a calçada do outro lado da rua.

Em carro alugado fomos até Sintra para devolver 140 euros a uma contraparente. Voltamos pela estradinha perto do mar. Cascais e Estoril são um estouro, como se dizia. Por autopista larga, totalmente vazia e entediante, chegamos a Estremóz, já perto da fronteira com a Espanha, onde comemos o melhor bacalhau desta vida.

Perto de Évora visitamos um sítio com muitos menires. Coisa de seis mil anos atrás. Emociona pela simplicidade e pelo que expressa do homem antigo. Fotografei os musgos coloridos que se instalaram em todos eles. São cores suaves, como os que fotografei lá nos arredores de Manaus. Pertinho dali, já quase no escuro, visitamos a Anta Grande do Zambujeiro, onde os muito antigos enterravam os seus queridos.

Na volta aos tempos de hoje, conheci o trabalho de um colega de ofício. Um antigo pastor de ovelhas que faz colheres de madeira com cabos trabalhados. Elas estão pregadas nas paredes de um pequeno cômodo, ao lado de ferramentas, varas de pescar, cestos de cebola e muito mais. O filho dele, oleiro de profissão, pensa em criar um pequeno museu em Brotas só para elas.

Ficou mais do que provado que o tal GPS pode funcionar perfeitamente, mas a total falta de prática em usá-lo ao lado da minha insistência em desafiá-lo quase que acaba com um casamento de mais de quarenta anos.

Porto, 16 de outubro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cachoeiro na cabeça

Cachoeiro na cabeça

Torcedor do Fluminense desde menino taludo, não acompanho futebol de perto. Recebo, com algum fairplay, as gozações de flamenguistas e vascaínos por eventuais derrotas fragorosas, rebaixamentos merecidos, expulsões justificadas e tudo o mais. Em reciprocidade e sem ofender demasiadamente os torcedores de clubes adversários, dou o troco quando perdem jogo para um timinho qualquer ou ganham com um gol de pênalti inexistente, marcado aos quarenta e seis minutos do segundo tempo.

Convém que se saiba que foi por pura força do exemplo paterno que adotei o Cachoeiro Futebol Clube como o meu primeiro time, o de origem. Só mais tarde é que fui escolher o tricolor carioca pelo qual haveria de torcer pelo resto da vida. Naquele tempo o Rio de Janeiro era a capital do país e do futebol. Dos times paulistas, só tenho lembrança do Santos, onde Pelé formava um ataque sensacional, tendo o apoio de Zito no meio de campo. As vitórias do Palmeiras e do Corinthians não entusiasmavam ninguém. Dos clubes de Minas, da Bahia e, porque não dizer, do resto do Brasil, não me lembro nem de ouvir falar, quando era pequeno. Isso, talvez, porque as transmissões dos jogos mais esperados nos chegavam pelas ondas curtas das rádios Tupy e Nacional, ambas cariocas, narradas por Waldir Amaral e Oduvaldo Cozzi.

O estádio do Cachoeiro fica lá na Baiminas, bairro situado rio abaixo da nossa casa, logo depois do matadouro. Era pra lá que papai levava, a contragosto de mamãe, os seus três filhos ainda bem pequenos em dia de jogo importante. Tenho guardada uma foto tirada no centro do campo com ele fazendo discurso para autoridades, torcedores ilustres e jogadores daquele valioso escrete de uniforme listrado de vermelho e branco. Nela, Cláudio, Afonso e eu aparecemos ao lado dele, vestindo calça curta com suspensório. É imagem suficiente para manter viva a chama de torcedor que ainda carrego no lado direito do peito. Soube que teria sido publicado um livro sobre a história e as glórias do Cachoeiro. Imagino que nele possam estar registrado um pouco do que papai andou fazendo pelo seu clube. Afonso conta que, na falta de dinheiro para os salários, ele tratava de arranjar emprego para os jogadores.

Tio Newton jogou muito tempo como beque do Estrela do Norte e posso imaginar as gozações finíssimas que fazia com o cunhado sempre que ganhava do Cachoeiro. Dizem que ele era um beque raçudo, desses que dão caneladas a torto e a direito. O campo do Estrela fica ali por cima do antigo mercado e lá assisti Garrincha e Nilton Santos jogando, em partida memorável contra um combinado local.

Escrevo esta crônica movido pela satisfação em saber que o glorioso Cachoeiro está firme e forte, chegando nas finais do campeonato capixaba de futebol deste ano. Fundado há quase cem anos, ele foi campeão estadual uma única vez, em 1948, quando eu tinha meses de idade. Se tivesse vencido outras vezes, mamãe teria me comunicado imediatamente. Ela não era mulher de deixar passar em branco fato de tamanha envergadura. Nestes tempos de decisão, fiquei imaginando Dr. Bolivar, ao lado da sua Gracinha, metido em uma camisa estampada e calção de pescador, fumando um cigarro após o outro e com um copo de uísque na mão, torcendo nervosamente para seu querido Cachoeiro ganhar, de virada, a disputa pelo campeonato capixaba de 2013. Mas ainda não foi desta vez. Como a partida decisiva aconteceu lá no noroeste do estado, consola saber que os torcedores do time vitorioso não passariam lá por nossa casa gritando simpáticos desaforos pra papai.

Vitória, 01 de outubro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Império da lei

Império da lei

Matei serviço na semana passada só para acompanhar as sessões do Supremo Tribunal Federal em torno da existência dos chamados embargos infringentes. Achei que o assunto merecia mais atenção do que os que enfrentaria lá na empresa. Mesmo porque a internet garante presença virtual e acesso direto a quase tudo que esteja sendo tratado em outro lugar. A distância entre os computadores não afeta as comunicações entre colegas e entre chefes e subordinados.

Estive atento ao julgamento do processo do mensalão desde o seu início. Uma enfermidade barata me obrigou a ficar de molho diante da TV logo no seu começo. Fui tomando gosto, formando opinião sobre ministros e entendendo o jogo de forças materializado em atitudes e votos. Senti satisfação em ver condenados homens poderosos e políticos corruptos. Nas últimas semanas acompanhei de longe a apreciação dos chamados embargos declaratórios, que resultou na correção de algumas poucas penas, garantindo coerência às dezenas de punições aplicadas.

A minha curiosidade em acompanhar os trabalhos do STF redobrou agora, com a definição da aplicabilidade dos chamados embargos infringentes na revisão de resultados do julgamento, já devidamente registrados em acórdão próprio. Isto sobretudo pela presença de dois ministros indicados recentemente pela Presidente da República os quais, nas contas de muita gente, viriam somar fileiras com os que votaram sistematicamente em favor de alguns dos acusados. Eles agiram conforme o esperado e a ministra elegante gaguejou seu voto na mesma direção. Confesso que cheguei a desanimar ao fazer as contas. Na quinta, votaram no mesmo diapasão o ministro revisor e seu fiel escudeiro, elevando a diferença no placar para níveis alarmantes.

Se nas sessões anteriores ouvi com muita simpatia as teses do ministro carioca e da ministra de olhos esbugalhados, desta vez cheguei a bater palmas para argumentações que os dois adotaram contra a reabertura do julgamento. Ambos defenderam teses baseadas no bom senso e na direção do razoável, o que renovou meu ânimo em seguir torcendo diante da TV. Não assisti o voto do ministro que mexe na aliança de casamento o tempo inteiro, mas soube que foi contundente, equilibrando o placar. A direção do voto do juiz flamenguista de fala rebuscada já era esperada, mas exagerou ao chamar de novato um dos ministros recém-chegados. Ele lembrou que o país inteiro estava de olho no STF e que mais protelações do desfecho desse processo seriam danosas.

O encerramento da sessão abriu a contagem regressiva para a reabertura dos trabalhos no dia 18 de setembro, que entra para a história com o voto do ministro decano da Corte batendo o martelo em favor da existência e aplicabilidade dos embargos infringentes. Sem margem para surpresas, bem fundamentado e sem qualquer contestação de seus pares, ele defendeu o império da lei, a independência dos tribunais de justiça e as garantias ao cidadão contra eventuais truculências praticadas pelo Estado. Diga-se, a seu favor, que ele o fez com a mesma firmeza e convicção com que votara pela condenação dos políticos e homens de negócios que praticaram, em quadrilha e de forma deslavada, graves crimes contra o erário público e a ordem política. Sem falar na traição da confiança de eleitores.

Obrigado a aceitar os fatos, lembrei-me do que aprendi há muitos anos com um grande amigo: muitas leis e regulamentos surgiram por inspiração humanitária e democrática, porém os que mais deles se valem são os advogados dos bandidos e dos poderosos.

Vitória, 19 de setembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Para! Para! Para!!!

Para! Para! Para!!!

A se confirmar o que está sendo tramado nas esferas federais, os usuários do trecho da BR 262 no Espírito Santo pagarão pedágio para andar em estrada precária até quando Deus quiser. É que o modelo de negócio da concessão prevê que as obras aqui no Estado ficarão por conta do Governo Federal. O edital estabelece que o pedágio deverá ser regiamente pago pelos usuários, independentemente de a duplicação ter sido realizada ou não. Pior, que o dinheiro arrecadado aqui será utilizado na duplicação do trecho da rodovia em Minas Gerais. Coisa para otário.

Certamente o edital do leilão não explicita quem deverá pagar o pato, caso a duplicação da BR 262 se transforme, como é de se esperar, em mais um aeroporto das Goiabeiras, em mais uma rodovia do Contorno. Eu mesmo gostaria de saber quem seria demitido e preso, caso o Governo Federal não consiga duplicar os 180 km em solo capixaba no prazo de cinco anos, como estão prometendo. É que já não acredito em promessas feitas por homens e mulheres de governo agindo orientados por interesses eleitoreiros. Todos sabemos que Minas Gerais tem um colégio eleitoral bem maior do que o do Espírito Santo e é terra de candidato de oposição à presidência da república. É preciso agradar a mineirada, no melhor estilo do é dando que se recebe. É bem provável que o pessoal comece imediatamente a capina do terreno para as fotos do marketing político.

Confesso-me pasmo com a cara de pau do pessoal do Governo Federal, aí incluídos presidentes de agência, diretores de autarquia e ministros de estado, envolvidos nessa espécie de areia movediça que sustenta os processos de concessão e de privatização. Neste, ganha destaque uma ministra impositiva, com cara de boneca enfezada, que se negou a aceitar ponderações e demandas do Governador e da nossa bancada federal, argumentando que ninguém reclamou das condições propostas no momento oportuno. O presidente do CREA-ES discorda dela e afirmou, por escrito, que foram denunciadas incorreções e inadequações do modelo de negócio durante audiência pública e que elas que não foram consideradas.

O leilão está marcado para o dia 18 de setembro. Caso seja realizado, estarão sendo criados direitos líquidos e certos para as empresas vencedoras, compromissos financeiros colossais para o poder público e prejuízos irrecuperáveis para a população. Basta lembrar da notícia ameaçadora de que uma eventual rescisão do contrato de concessão da Terceira Ponte implicaria em multa de mais de 500 milhões de reais.

Leigo na matéria jurídica, mas com o bom senso apurado pelos muitos anos vividos, acho que o assunto merece atitude prática e eficiente por parte dos capixabas: entrar com uma ação na justiça para suspender a realização do leilão da concessão da BR 262. Uma ação popular movida por alguma entidade independente ou pelo próprio governo do Estado. Só assim será possível discutir melhor o assunto em busca de soluções aceitáveis, que substituam as que estão sendo postas, ou melhor, impostas. Aprendi que apressado come cru e queima a boca. Em se tratando de obra de tamanha envergadura, não se pode pretender agir afoitamente. Mesmo porque, autoridade federal falando em pressa e urgência é de fazer elefante balançar de tanto rir.

Em situações como esta não cabem meias palavras, cortesias nem cerimônias: resta sustar a realização do leilão, mediante ato jurídico perfeito e ação política corajosa, tal qual a que permitiu ao STF suspender a sessão da Câmara que livrou o deputado ladrão da cassação do seu mandato.

Vitória, 03 de setembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Parquímetros e cancelas

Parquímetros e cancelas

Sexta passada atravessei a ponte para ir a uma consulta em Vila Velha. Com o tráfego fluindo bem, consegui chegar na hora. Escolhi uma vaga bem diante do prédio, ao lado do parquímetro do estacionamento rotativo. Depois de revirar a bolsa e procurar no carro juntei um real e vinte centavos em moedas. Precisava de dois. Atravessei a rua e fui pedir ao dono do bar que trocasse uma nota de cinco reais, mas ele disse que eu era o primeiro freguês do dia. Como a máquina não aceitava pagamento em notas nem cartão, para não me atrasar resolvi arriscar e pagar só meia hora.

Enquanto esperava minha vez, comentei o fato com a fiscal da prefeitura que fazia a inspeção da clínica para a revalidação do seu alvará de funcionamento. Para minha surpresa, a mulher disse que rasgava todos os autos de advertência que lhe apresentassem. E mais, que a prefeitura não tinha órgão competente para cobrar multa de quem não pagasse o estacionamento. Achei aquilo razoável e fiquei mais tranquilo, embora torcendo para que ninguém aparecesse para conferir o tíquete que deixara no console do carro.

Mas não deu outra. Lá estava, preso pelo limpador do parabrisas, um auto de cobrança complementar de quase dez vezes o valor que eu deixara de pagar por falta de moedas. Fui conversar com a funcionária da empresa do outro lado da rua que se apresentou como supervisora, em inspeção rotineira. Muito atenciosa, vestia uniforme no estilo polícia militar, com bate-bute e tudo. Bem treinada, ouviu minhas ponderações sobre a falta de troco. Sobre a inexistência de um tempo de tolerância, ela disse que todo mundo vem reclamando disso e que alguns vereadores querem aprovar um período de quinze minutos. Ao perguntar o que aconteceria se eu não quitasse aquela cobrança adicional, ela falou, meio sem graça, que a papeleta seria enviada para a prefeitura, que a repassaria ao Detran, que cobraria multa de uns cinquenta reais e lançaria uns três pontos na minha carteira. Uma arapuca moderna, pensei eu.

Acuado, só me restava pagar. Como ela não tinha troco, localizou pelo walktalk a fiscal da área, que ajudava uma senhora de idade no parquímetro da outra quadra, e fomos até lá. Curioso, eu quis saber se era verdade que apenas sete por cento do dinheiro arrecadado ficava com a prefeitura, como eu tinha ouvido falar. Constrangida, com os olhos fixos no chão, a fiscal não me respondeu. Com a chegada de um homem esbaforido querendo usar o parquímetro a calçada lotou. Simpático, tratei de comentar com ele o acontecido e reclamar dos tais percentuais usados na partilha das receitas, lembrando que a rua é um bem do município. Para minha surpresa, o rapaz foi dizendo que não era bem assim e coisa e tal. Diante de tamanha convicção, tive ímpetos de perguntar se ele era vereador. Fecha o pano.

No começo da semana, eu havia participado de audiência pública com o Prefeito de Vitória, onde se debateu a implantação de um projeto piloto de estacionamento pago na Praia do Canto que, se aprovado, seria levado para outros bairros da capital. Como os contratos devem ser honrados, fiquei pensando com os meus botões que a experiência de Vila Velha e a peleja em torno do pedágio da Terceira Ponte recomendam total rigor, transparência e adequação na definição dos termos de todos os processos de concessão, a começar por prazos de validade curtos e preços inversamente proporcionais à quantidade de usuários. Pelo que sei, isso não foi adotado no caso da BR 262, deixando autoridades de cabelos em pé e eu com minhas barbas brancas de molho.

Vitória, 20 de Agosto de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Um bom passeio

Um bom passeio

Da primeira vez que estive em Inhotim só deu pra ver umas poucas coisas. Sai de lá com a certeza de que haveria de voltar para apreciar com calma cada pedaço daquele lugar deslumbrante, instigante e exemplar, fruto de um projeto generoso no qual se investe sem dó, misere nem sovinagem na valorização da arte contemporânea. Fico só imaginando a felicidade dos artistas ao serem convidados para realizar uma obra a ser colocada à apreciação do público num ambiente como aquele.

Ao fim de dois dias de visita, confirmei a impressão de que se trata de um grande presente para o mundo, um espaço para usufruir da natureza e apreciar obras de artistas renomados. Muitos dos prédios foram especialmente construídos para abrigar a produção de um único artista. São edificações de arquitetura arrojada e boa engenharia construtiva, que ajudam a compor um cenário propício ao encantamento e ao embasbaque, que tanto bem fazem aos homens.

A obra de arte contemporânea nem sempre é algo palatável e bom de ver. Expressa a total liberdade de criação do artista e pode embutir mensagens totalmente herméticas. Em Inhotim tem de tudo um pouco, sempre em grande escala, o que aumenta o poder de impacto das obras e instalações. Isso me faz acreditar que ninguém passa por ali impunemente. Além de muitos estrangeiros, dava pra ver que a chamada nova classe média brasileira estava lá em peso. Muita gente de aparelho nos dentes e expressão feliz.

Desta vez, foi possível rever atentamente o que já tinha visto às pressas, a começar pelo trator de grandes rodas enlameadas arrancando uma árvore branca, dentro de uma cúpula construída no meio da mata. Pude ouvir os sons da terra captados a mais de duzentos metros de profundidade e confirmar a magia da divisão de uma grande sala feita só com a ajuda de um verde que simula uma parede de vidro. Fiquei à sombra de um veleiro de quilha pra cima e mastro pra baixo, como que plantado ao lado de pé de mogno, madeira com que foi construído lá na Europa. Pude, agora, passar ao lado de enormes vigas de aço cravadas em uma base de concreto, num descampado no alto de um morro, e pensar na vida ao som tirado de cada uma delas com o cabo da minha faquinha. Em silêncio profundo, andei ao redor de um conjunto de onze longas barras criadas por Lígia Pape com centenas de fios de cobre estirados em paralelo e iluminados transversalmente. Dancei em uma espécie de boate de forma sextavada e paredes espelhadas que reproduzem indefinidamente as imagens dos visitantes.

A natureza em estado bruto e os jardins projetados por paisagistas refinados são capítulos à parte em Inhotim. Centenas de palmeiras de todo tipo e porte, uma grande variedade de bromélias e antúrios, enormes pés de eucalipto, belíssimas touceiras de bambu, inclusive de um roxo tentador, compõem um cenário deslumbrante para quem se disponha a contemplá-lo. Vi muito, muito mais. Não cabe em uma crônica.

Atividade voraz e desnaturada, a extração de minério movimenta a economia da região, mas maltrata bastante o lugar. Os caminhões são muitos e enormes. O chão é todo coberto com uma camada de pó de minério marrom avermelhado. O trem corta Brumadinho ao meio e obriga os pedestres e os carros a transitarem por uma única passagem de nível estreita, construída na cabeceira da ponte sobre o rio Paraopeba, o qual pouco se nota. Inspirado pelo o que vi nessa visita a Inhotim imaginei aquele trecho do cenário urbano como a primeira obra de arte contemporânea instalada a céu aberto no município.

Vitória, 06 de Agosto de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

E agora, pessoal

E agora, pessoal?

Nesta segunda feira, nasceu mais um neto. O quinto. Ele tem cabelos pretos, não é dos maiores, já abre os olhos e tem cara de gente mansa. Houve quem dissesse que ele se parece com o irmão e tem o sorriso da irmã. Ainda sem nome, ele dá o seu testemunho de que a vida segue em frente.

Vendo a enfermeira dar o primeiro banho no moleque, na pia ao lado da parede de vidro que separa o berçário do saguão onde ficam os parentes aflitos e entusiasmados, me lembrei do nascimento do nosso primogênito na maternidade do Dr. Arnaldo, que já não existe mais há décadas. Embora os tempos políticos fossem duros e o tal milagre brasileiro já desse sinais de cansaço, não me recordo de ter sentido inseguranças em relação ao futuro que nos esperava. Tudo indicava que a vida seguiria fluindo sem grandes riscos e sobressaltos, mesmo sabendo que nos mudaríamos logo depois para a Paraíba, para trabalhar na administração da universidade e dar aulas. Tanto é verdade que, depois daquele, nasceram mais quatro filhos.

Há alguns anos, no fim da tarde de um sábado ensolarado, fui a um show da banda de rock do pai do recém-nascido, lá na Pedra da Cebola. O público era formado por rapazes e moças entre quatorze e vinte e poucos anos. Todos de banho tomado, roupa limpa e colorida, com cara animada, apostando nas possibilidades de diversão daquela noite de música ao vivo. Via-se que eram pessoas que se preparavam para ganhar mundo, sob as melhores expectativas dos pais.

A empolgação daqueles adolescentes tinha razão de ser: eles estavam sendo informados de forma sistemática que o futuro era promissor. Para a felicidade geral, alardeava-se que o país estava crescendo de forma acelerada e consistente e anunciava-se o surgimento de milhares de oportunidades para a realização profissional de quem se capacitasse adequadamente. De todo lado surgiam receitas infalíveis de como fazer sucesso e ganhar dinheiro. Estudar era a primeira delas, mesmo que as mensalidades fossem salgadas. Crédito abundante e prestações reduzidas facilitavam a compra de praticamente tudo que se mostrasse necessário para realizar o sonho individual, gerado por uma carga publicitária massacrante do tipo “compre baton”. Coisa que as gerações anteriores não haviam experimentado. Até recentemente vivia-se perfeitamente bem com muito pouco. Não me lembro de ter perdido noite de sono por não ter duas calças Lee ao mesmo tempo.

Mesmo que a economia pudesse gerar ocupação para toda aquela rapaziada preparada e disposta, por certo ela não seria capaz de oferecer remuneração em níveis compatíveis com as expectativas de consumo de bens e serviços que estavam sendo cravadas na alma de cada qual. Embora observasse essa impossibilidade, eu não poderia supor os efeitos dessa impossibilidade em tão curto prazo. Sempre soube que frustrações pessoais em grande escala podem se tornar algo perigoso e explosivo. Enchem as ruas e dão muito trabalho para políticos e autoridades de plantão. É bem provável que uma boa parte daquela platéia animadíssima de então tenha participado da manifestação de insatisfação dos cem mil, que assisti da calçada na Reta da Penha pensando no assunto.

Está cada vez mais difícil imaginar como andará o mundo quando esse neto recém-nascido estiver com seus vinte anos. Lendo e conversando com pessoas bem informadas, vejo que ninguém se aventura a projetar qualquer cenário a médio prazo. Pelo que percebo, a situação atual desafia estudiosos e formuladores e desorienta até mesmo videntes e cartomantes.

Vitória, 23 de Julho de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Nocaute, derrocada e solidão

Nocaute, derrocada e solidão

Escrevo sempre no começo da semana para que o jornal consiga publicar a crônica na edição de sexta feira. Se o tema é atemporal isso não constitui um problema, mas quando escrevo sobre assuntos que estão na pauta do dia, mobilizando muita gente, corro o risco de pecar no quesito atualidade. Sobretudo quando os fatos acontecem e se desdobram em ritmo frenético, acelerados pela pressão dos interesses e das convicções, como os dessas últimas semanas.

De uma hora para outra, o que parecia líquido e certo virou gasoso e volátil, a começar pela reeleição da nossa presidente, que parece começar a fazer água e a inquietar muita gente que estava tranquila e segura. A queda brusca e expressiva nos níveis de sua aceitação popular, aferidos pelos institutos de pesquisa, é algo inesperado até poucos dias. Se eles continuarem caindo, a coisa pode se complicar de vez, gerando uma debandada do salve-se quem puder. Sou dos que acreditam que as tentativas da presidente, de se posicionar positivamente diante do clamor das ruas, não deram tão certo como pretendiam os seus gurus e marqueteiros de plantão. Deixaram a presidente em situação ainda mais incômoda e vulnerável. Ficou mais do que patente a sua dificuldade em lidar com os políticos, que de cinismo todos têm bastante e de esperteza e auto-estima, todos têm em doses cavalares. Corre à boca miúda que os que participam das reuniões palacianas reclamam das suas atitudes autoritárias e que deputados e senadores da base aliada já prometem dar o troco na hora certa.

Quem não se lembra das expressões de desconforto e de solidão no rosto de Dilma, durante a solenidade de sua posse no Congresso Nacional? Diante daquele auditório repleto de políticos, ela dava a impressão de saber exatamente o que a esperava. A artificialidade de sua eleição, viabilizada com uso de práticas para eleger postes, não parecia relevante em um mundo cheio de certezas. Agora, com a mudança dos ventos, começa a ficar patente que o seu temperamento e a falta de liderança pessoal se mostram inadequados para o enfrentamento de crises de confiança e de demandas difusas. Como era de se esperar, a nossa presidente não precisa de oposições que atrapalhem seus planos de reeleição, ela mesmo trata de gerar motivos de insatisfações e insegurança entre seus potenciais apoiadores. Os bastidores da política fervem e as piadas se multiplicam. Nunca vi tanta gente conversando de forma serena e convicta sobre o que está precisando melhorar. A indignação coletiva é motriz de mudanças relevantes.

Imagino que daqui pra frente conviveremos com tentativas de abocanhar as insatisfações dos brasileiros com o objetivo de manter as coisas como estão e de tentar assegurar reeleições a todo custo. Pode até ser que consigam algum resultado de imediato, mas entendo que atitudes desesperadas de gurus e partidos podem arrombar a porta do fim de um ciclo. Vive-se o início de um processo de mudanças que apenas vai tomando rumo e ganhar ritmo, com muitos fatos se sucedendo e provocando desdobramentos que fazem pensar e querer agir. A derrota do nosso maior lutador de luta livre parece ter sido fruto de uma trapaça qualquer ou da arrogância pessoal que surge das certezas absolutas. A realidade se impôs de forma demolidora, assim como aconteceu na derrocada da fortuna de um empresário que vendeu sonhos mirabolantes e não os entrega, comprovando que a força do marketing tem limites, sobretudo quando os fundamentos dos objetos e personalidades são frágeis e inconsistentes.

Vitória, 09 de julho de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Nas ruas e nas redes

Nas ruas e nas redes

Participei da manifestação dos 100 mil. Preferi ficar na calçada vendo as pessoas passarem, animadas e convictas. Durante quase uma hora fiquei ali tentando descobrir o que sentiam, ler as mensagens escritas em papel, nas camisas e em grande faixas, e entender as palavras de ordem contundentes e as cantorias debochadas. Senti emoções fortes quando li o que ia estampado em garranchos numa placa bem mambembe: “meu avô combateu a ditadura, meu pai derrubou um presidente e eu vou mudar o Brasil”. A moça franzina mostrava uma outra que dizia: “minha insatisfação não cabe num cartaz”.

Vinha acompanhando de longe as manifestações que estavam acontecendo em várias cidades nos últimos dias. Confesso que, mesmo avisado por gente que frequenta as redes, jamais imaginei que pudesse ver algo tão expressivo nas ruas de Vitória. Tem quem esteja tentando entender e encontrar explicações racionais para o que está ocorrendo. Parece que em cada um de nós há uma enorme quantidade de insatisfações específicas que, de alguma forma, se somam e se complementam.

Na mesa do café da manhã do dia seguinte, em meio a comentários e opiniões acaloradas sobre aquele mar de gente, me veio, pela primeira vez, a certeza de que, finalmente, estava criado o ambiente indispensável para iniciar um processo de saneamento da política brasileira. Ali entendi a urgência da instalação de uma Assembleia Nacional Constituinte formada por brasileiros de reconhecida competência profissional, independência intelectual, coragem pessoal e moral ilibada, dispostos a trabalhar voluntariamente. Por princípio, ficariam de fora todos os ocupantes de cargos eletivos e comissionados. Não saberia dizer, assim de pronto, como isso poderia ser feito, mas deveríamos continuar aproveitando as facilidades colocadas pela internet para praticar uma democracia real, enriquecendo e expandindo as discussões e fazendo convergir opiniões que orientassem o processo decisório dos membros da bendita Assembléia.

Andei preocupado com a nossa presidente. Imagino que a vaia colossal que recebeu no estádio lotado deve ter doído fundo na sua alma e a incomodado profundamente. Bem sei que as tais vicissitudes do cargo não são fáceis de enfrentar e que ela deve estar metida até os cabelos num emaranhado de compromissos inconfessáveis, pressionada por interesses da pior espécie e cercada de pessoas das quais eu não compraria um carro usado.

Ontem, durante a abertura da exposição comemorativa do centenário de Rubem Braga, no Museu da Língua Portuguesa, aqui em São Paulo, soube que Dilma havia desfraldado a bandeira da Assembléia Constituinte em cadeia nacional. Imediatamente propus um brinde para comemorar o seu gesto, que veio acompanhado do anúncio de um pacto com governadores e prefeitos de todo o país em favor do atendimento dos principais pleitos dos manifestantes e de muita gente que ficou
em casa. É bem provável que a sua atitude acalme o clamor vindo das ruas, mas tenho certeza de que ela sabe que as pessoas estarão atentas, aguardando a efetivação de suas promessas, prontas para voltarem a manifestar com contundência as suas críticas e demandas.

Por via das dúvidas, assinei agora há pouco uma petição lançada por duas entidades que respeito e uma outra que desconheço, em favor de eleições limpas, que livrem o país da sanha de políticos profissionais e imprestáveis que ocupam plenários e gabinetes por este país afora. Dito isso, vou tratar de procurar saber em mais detalhes o que andou acontecendo na Islândia nessa direção.

São Paulo, 25 de junho de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Notícia boa, exposição bacana, mensagem curiosa

Notícia boa, exposição bacana e mensagem curiosa

Domingo passado foi dia de boas emoções, saídas de fontes bem diferentes. A primeira delas veio, logo cedo e em letras garrafais, na manchete da capa do jornal que diariamente o entregador arremessa, de cima de uma moto em movimento, sempre no mesmo lugar. Anunciava milhares de salários altos que surgiriam com a implantação dos chamados Parques Tecnológicos, a começar pelo de Vitória, bem ali na região de Goiabeiras. Esse é sonho antigo de um punhado de idealistas, no qual me incluo, que  propuseram, no começo dos anos noventa, que o município reservasse uma área de mais de trezentos mil metros quadrados para ser ocupada exclusivamente por instituições de pesquisa e inovação e empresas de tecnologia. Fizemos aquilo pensando no futuro da cidade e nas pessoas que nela viveriam. Pelo que leio no jornal, o futuro entrou definitivamente na pauta de trabalho das autoridades e vai se materializar exatamente no espaço que lhe foi reservado. Confesso que me animei. Quem viver, verá.

Por volta das onze da manhã foi a vez de emoções em família. Fomos visitar, mais uma vez, a exposição do centenário de Rubem Braga, lá no Palácio Anchieta. Era o último dia de visitação da mostra, que começa a ser desmontada para ser instalada no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, lugar onde sempre acontecem exposições interessantíssimas, como a que vi sobre Guimarães Rosa. Não tinha muita gente, mas todos os que lá estavam se moviam lentamente entre as escrivaninhas de redação e os textos afixados nas paredes cobertas por cópias de páginas de jornais antigos. As pessoas se postavam quietas diante das vitrines, vendo fotografias, documentos, cadernetas de anotações, textos originais com correções à mão e tudo o mais. Algumas, distraídas, suspiravam fundo, talvez pelo impacto do que liam. Outras, davam sinais de espanto com informações sobre as andanças do cronista por esse mundo afora. Foi muito bom encontrar velhos conhecidos e, juntos, assistir os depoimentos de amigos saudosos de Rubem, gravados na varanda e no pomar de sua cobertura. Ziraldo, Ana Maria Machado e Danuza Leão são dos que fazem rir e chorar, lendo crônicas e contando histórias. Estamparam na tela admiração e carinho pelo velho Braga, amigo dos amigos, amante das mulheres, homem que gostava de passarinhos e das coisas simples, como uma boa goiabada de Campos com requeijão de Cachoeiro. Uma bela homenagem ao nosso maior cronista. Quem lá não foi, perdeu.

Para finalizar o dia, que teve almoço em casa, em torno de um pernil de cordeiro com couscous marroquino, foi a vez de emoções trazidas por uma mensagem inusitada, enviada por uma pessoa que me viu, faz tempo, falando sobre crônicas no Centro Cultural Magestic, na Cidade Alta. O texto era tão curioso que resolvi compartilhar sua leitura com as poucas pessoas da casa. A cada parágrafo lido, uma surpresa seguida de um sorriso meio aflito, por não se saber exatamente onde aquilo tudo iria dar. Somente no último deles, como convém às boas narrativas, é que o remetente revela a motivação maior da iniciativa e externa suas expectativas: “..tirar umas dúvidas sobre ‘como escrever’ ou, como você disse no Café Literário, como ‘pescar o safado do leitor’”. A capacidade de emocionar e prender a atenção até a última linha é própria dos bons narradores de histórias, acontecimentos e cenas cotidianas. E isso, o nosso ilustre remetente desconhecido demonstrou possuir. Por certo, o exercício da escrita solta fará o resto. E então, quem ler seus escritos, gostará.

Vitória, 28 de maio de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA