Origem
Escrevo esta crônica na cidade do Porto, de um computador de hotel, desses que se paga por hora para usar a internet. Faz muito que eu queria conhecer Portugal, mas sempre passei por cima dele a caminho de outros lugares, exatamente como fiz desta vez, na ida para Frankfurt. Até pensei em aproveitar para conhecer os países nórdicos, mas resolvi pousar em Lisboa na volta.
É que além das comidas saborosas, das belezas naturais e do que foi edificado pelos mouros e depois pelos portugueses com a riqueza saída das colônias espalhadas pelo mundo, Portugal é a terra de onde saíram meus antepassados.
O Braga que carrego no meu nome completo não é coisa de família. É coisa de imigrante português identificando a sua origem: o lugar de onde partiu em busca de dias melhores nas terras brasileiras. Dentre muitos outros, um senhor de sobrenome Carvalho, que veio de Braga. Pelo que sei, a geração de meu avô é a que ganhou esse sobrenome em cartório.
É uma ótima sensação estar por aqui. Parece que estamos em casa. Os portugueses estão muito simpáticos e amistosos. Gostam da gente do Brasil. Acho mesmo que sentem uma espécie de orgulho em ter ajudado a nos fazer existir tão alegres e coloridos. Muitos dos que conhecemos pelas ruas, lojas e restaurantes têm alguma história sobre pessoas, cidades, sabores, artistas nossos. Uns deixam transparecer certa dose de inveja por ainda não terem tido oportunidade ou condições para ir conhecer nossas praias e os parentes que se criaram e vivem em terras brasileiras.
Visitamos castelos, andamos pelas ruas apertadinhas. Comemos bacalhau diariamente, cada qual melhor que o outro. Comprei muitas faquinhas portuguesas, dessas bem tradicionais que pegam fio rapidamente, mas custam a cegar. Levo algumas tantas para dar de presente para quem goste de facas como eu. Pretendo adaptar as menores para o uso no bambu.
Confesso-me encantado com as calçadas das cidades portuguesas. Largas ou estreitas, são bonitas e perfeitamente planas, próprias ao caminhar apressado ou a passeio. Pude acompanhar o serviço de calceteiros assentando cuidadosamente pequenos cubos de pedra. Hoje cedo, acordei com o barulho do motor do jato d’água que estava sendo usado para lavar a calçada do outro lado da rua.
Em carro alugado fomos até Sintra para devolver 140 euros a uma contraparente. Voltamos pela estradinha perto do mar. Cascais e Estoril são um estouro, como se dizia. Por autopista larga, totalmente vazia e entediante, chegamos a Estremóz, já perto da fronteira com a Espanha, onde comemos o melhor bacalhau desta vida.
Perto de Évora visitamos um sítio com muitos menires. Coisa de seis mil anos atrás. Emociona pela simplicidade e pelo que expressa do homem antigo. Fotografei os musgos coloridos que se instalaram em todos eles. São cores suaves, como os que fotografei lá nos arredores de Manaus. Pertinho dali, já quase no escuro, visitamos a Anta Grande do Zambujeiro, onde os muito antigos enterravam os seus queridos.
Na volta aos tempos de hoje, conheci o trabalho de um colega de ofício. Um antigo pastor de ovelhas que faz colheres de madeira com cabos trabalhados. Elas estão pregadas nas paredes de um pequeno cômodo, ao lado de ferramentas, varas de pescar, cestos de cebola e muito mais. O filho dele, oleiro de profissão, pensa em criar um pequeno museu em Brotas só para elas.
Ficou mais do que provado que o tal GPS pode funcionar perfeitamente, mas a total falta de prática em usá-lo ao lado da minha insistência em desafiá-lo quase que acaba com um casamento de mais de quarenta anos.
Porto, 16 de outubro de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
