Olimpíadas e bicicletas

Olimpíadas e bicicletas

Acompanhei o quanto pude as Olimpíadas de Inverno na Rússia. A diferença de fuso horário não me permitiu ver algumas das competições de que gosto mais, como aquele esporte parecido com bocha, que a nossa talianada joga por esse interior a fora. Vi provas, monótonas, de dezenas de abnegados atletas esquiando, contra o tempo, em circuitos fechados morro acima e ladeira abaixo. Quase todos caem ao chão, exaustos, logo após cruzarem a linha de chegada. Vi partidas de hóquei no gelo, corridas de alta velocidade em pistas ovais e provas de patinação artística, onde a tensão toma conta dos competidores e os faz chorar por erros cometidos, sentados ao lado de técnicos desapontados, diante de câmeras impiedosas. Patrocinados por empresas e governos, os atletas olímpicos vivem para ultrapassar limites.

Assisti provas de esqui em pistas com trajetórias em zig-zag, em ladeiras íngremes com rampas para saltos de todo tipo. Em uma delas os atletas chegam a voar, solenes e estáticos em seus esquis enormes, por mais de cem metros. Em outra, a rampa cheia de morrinhos de neve faz com que os joelhos do atleta se movimentem em ritmo frenético antes do salto. Gostei de ver a alegria dos rapazes e moças que competem sobre pequenas pranchas, em modalidades só agora introduzidas nas olimpíadas. Diferentes da grande maioria dos atletas, esses se divertem e se mostram solidários com os brothers que vencem ou perdem.

Por aqui, a caminho do aeroporto na manhã de domingo, vi pela primeira vez a pista exclusiva para bicicletas em pleno uso e fiquei bem impressionado com a quantidade de gente pedalando sob o sol quente. Solitários, em casais, em bicicletas velhas e novinhas, carregando cachorro na cestinha, andando ao lado do filho aprendiz. Quase todos usando capacete que, embora recomendável, faz alguns ficarem meio ridículos.

Digo isso porque sou do tempo em que bicicleta era meio de transporte e diversão e pouca gente tinha uma. A minha era azul claro, aro 26, sem para-lamas nem bagageiro. Freio, só na traseira, próprio para dar freadas fazendo curva com pé no chão, derrapando a roda traseira no barro duro. As ruas da Praia do Canto eram cobertas por uma base de solo-cimento para receber o asfalto, que só veio em meados da década de 70. Os postes eram no meio da rua. Não posso dizer que tenha sido um ciclista de competição, mas posso garantir que era uma grande emoção descer a chamada ladeira do Iate. Emocionante por que íamos em dois e sempre carregando o saco com as velas e as escotas do Tan Tan, o snipe da família Ramos. Toda destreza era pouca porque se viesse um carro não haveria como frear e, pra piorar, sempre tinha areia frouxa na parte de fora da curva, ponto de passagem obrigatória.

Em certas ocasiões, andar de bicicleta era também um esporte de exibição. Equilibrar com os pés na roda da frente, subir meio fio e tirar fininhos eram algumas das demonstrações de habilidade para conquistar admiradoras. Sem internet, celular, montoeira de carros e perigos em geral, a moçada se reunia nas calçadas, inclusive em torno de uma concorridíssima rede de vôlei na Rua Joaquim Lírio. Mas foi em frente da casa de Julita que passei dos limites. Tentando impressionar as garotas que conversavam na calçada, resolvi fazer uma manobra nova e radical: levantar a roda traseira ao máximo. A empolgação foi num crescente até que, lá pela quarta vez, fui de cara ao chão, com bicicleta caindo por cima de mim e tudo o mais. Um tremendo de um vexame que, felizmente, Carol não estava lá pra ver.

Vitória, 18 de fevereiro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempo de Manjubas

Tempo de Manjubas

A curiosidade me fez parar o carro para conferir de perto o que estava acontecendo naquele lugar, normalmente freqüentado por despreocupados banhistas. Movimentação diferente para um fim de tarde chuvoso, de vento sul. Muita gente na areia da praia. Calçada repleta de pequenos grupos de pessoas visivelmente atentas e falantes.

Verdadeiro alvoroço em volta de um monte de peixe. Uns 200 ou 300 quilos acabados de tirar das águas faziam o espetáculo da fartura. O olhar experiente permitia saber que eram manjubas e sardinhas. Muito mais manjubas que sardinhas. Embora parecidas, as sardinhas são mais roliças e as manjubas mais largas, achatadas. Todas têm dorso azul e barriga prateada, brilhantes.

Um homem moreno, agitado, parecia querer organizar os movimentos e as providências de uns tantos ajudantes improvisados. Tinha urgência, mas demonstrava pouca prática na função. Sem qualquer dúvida, ali estava um calejado pescador às voltas com a difícil tarefa de vender aquela grande quantidade de peixe que acabara de pescar.

Ele parecia saber que havia concorrência por perto. Teria que ser rápido para aproveitar a oportunidade de ganhar um dinheirinho extra, tratando de atender os fregueses que disputavam sua atenção. Muita gente, entusiasmada com aquela cena inusitada, queria saber o nome dos peixes, os preços, a maneira de cozinhar, se tinham muita espinha e coisas do gênero. O homem tentava responder com alguma gentileza, mas aflito em atender quem efetivamente quisesse comprar.

A cada pedido, os peixes iam sendo colocados em sacolas usadas de supermercado para serem pesados em uma balança no chão. Nenhuma preocupação com a precisão. Quatro ou cinco peixes a mais garantiam a satisfação do cliente, abrindo espaço para o sorriso. A tal lei da oferta e procura estava em pleno vigor naquela calçada e o tempo trabalhava contra todos os pescadores. A chegada da noite afastaria os fregueses, favorecendo a vida dos atravessadores.

Bem perto dali, grandes quantidades de peixe estavam sendo trazidas da beira do mar em um balaio feito de pedaços de rede. A carga era suspensa por dois remos apoiados nos ombros de seis homens animados, que venciam a areia fofa com passos miúdos e acelerados. Os peixes, muitos ainda vivos, eram derramados dentro de uma batera estrategicamente colocada rente à calçada. As viagens eram sucessivas e em ritmo frenético.

Pedi dois quilos de sardinha. Pretendia preparar uma conserva que havia aprendido na teoria: azeite, vinagre, cebola, louro, pimenta branca, sal e 20 minutos de panela de pressão. Um simpático aposentado, que também esperava a vez, confirmou a receita, sem revelar detalhes.

Meu pedido foi transmitido por aquele homem, que já demonstrava cansaço, ao menino que parecia ser seu filho. Era preciso catar uma a uma as sardinhas perdidas em meio às manjubas. Em menor quantidade e mais saborosas, elas custavam três vezes mais. Mesmo assim, o preço estava bom.

Nem bem paguei e já recebia a oferta dos serviços da turma que atuava na limpeza dos peixes. Mulheres entusiasmadas trabalhavam com os pés na areia, encurvadas sobre a calçada, que elas usavam como bancada. Com facas de todo tipo, tratavam de tirar as escamas, cortar a cabeça e abrir a barriga do peixe para tirar as tripas. Movimentos rápidos e certeiros faziam o trabalho render. As crianças, em volta das mães e irmãs, ajudavam no que podiam. Depois de tratadas, as sardinhas eram lavadas em baldes com água trazida do mar por meninos que estavam por perto. O preço da limpeza também era compensador.

A chuva, que até então ameaçava, começou a cair aos poucos, fria, vinda do sul. Isso aumentou a aflição do pescador e fez surgirem caixas de plástico do baú de um caminhão que estava estacionado do outro lado da rua, como se esperasse a hora de atacar. As caixas traziam a marca de uma empresa de pesca.

Terminada a fila dos fregueses, restou ao pescador autorizar que seus peixes fossem colocados nas caixas com a ajuda de uma pá de plástico improvisada. Uma balança daquelas grandes, com rodinha e pescoço, surgiu do nada. Depois de pesadas, as caixas iam sendo levadas para o caminhão por rapazes de olho na gorjeta prometida pelo motorista. No papel de único comprador, ele negociava abatimento significativo no preço do pescado, usando cara de desdém para dizer ao pescador exausto que era pegar ou largar.

No mar, dois homens em um barco pequeno se preparavam para fazer o último lançamento do dia. O que ia sentado na proa remava de costa. O outro, de pé, olhava as águas em busca de sinais do cardume. Entre eles uma rede cuidadosamente empilhada no fundo da embarcação, pronta para ser lançada. A ponta de uma das suas cordas tinha sido deixada em terra e a outra chegaria à praia, trazida pelo barco. No centro da rede uma espécie de balão, feito de malha bem menor, completava a armadilha.

Mesmo de longe, dava para ver que ambos estavam de prontidão. Precisavam localizar os peixes e, rapidamente, tratar de cercar o cardume antes que ele escapasse, levando embora as alegrias da pesca. O movimento tremulante e a cor escura das águas eram os únicos sinais da presença das manjubas. Em terra, olheiros ajudavam a localizá-las e tentavam, com gritos e gestos largos, orientar os que estavam a bordo.

Um senhor, com os olhos brilhando no rosto marcado pelo sol de muitos anos, repetindo, para quem quisesse ouvir, que estava apenas começando a temporada da pesca da manjuba. Dizia que elas sempre apareciam entre janeiro e abril. Perguntado, ele não soube dizer de onde elas vinham nem para onde iriam. Assim como não sabíamos os caminhos dos cardumes de carapaus que divertiam muita gente a cada mês de março da minha juventude nas águas da Praia do Canto.

Eram muitas as redes naquela praia. Perto dali, começava a retirada da que tinha sido lançada ao mar um pouco mais ao sul. Dois grupos de pessoas enfileiradas se mobilizavam para o serviço, esticando as pontas da corda, ainda bem distantes uma da outra.

A pesca de arrastão é coisa que só pode se feita por muita gente junta. Agarrados às cordas, homens e mulheres puxam a rede lentamente praia acima, fazendo força na medida das suas possibilidades. Vêm com os corpos jogados para trás, movidos pelo sentido de cooperação. No rosto de cada um a expectativa de conseguir retirar do mar uma boa quantidade de peixes.

Atividade muito antiga, a pesca de arrastão tem a caoacidade de nos levar de volta às origens, nem que seja por alguns instantes, num final de tarde de chuva fria, em pleno janeiro, na praia de Itapoã.

Vitória, 14 de fevereiro de 2007.

Alvaro Abreu

alvaro@bambuzau.com.br

Sinais dos tempos

Sinais dos tempos

Fevereiro começou com festa de comemoração dos trinta anos da nossa caçula. Festa animada, dessas de quase varar noite, som alto na caixa em pista de dança improvisada, cardápio a base de comida tailandesa, carregada na pimenta, e regada a cerveja, prosseco e muitos mojitos. Meu pessoal gosta de inventar moda e juntar amigos e parentes para comemorar alguma coisa que justifique e mereça a trabalheira que dá fazer festa em casa. E posso garantir que, também desta vez, não foi pouca não.

A preparação começou, faz tempo, com pesquisa de receitas e ingredientes na internet. Não participei dessa etapa, mas posso imaginar as dúvidas em escolher os pratos do cardápio, sem ao menos conhecer os sabores. Ao que tudo indica, os critérios privilegiaram aspectos relacionados com a facilidade do preparo e praticidade para servir porções individuais. Fora isso, foi inteiramente produzido um grande lustre com colares de contas, pendurou-se muitos enfeites de papel de seda colorido feitos em por mãos familiares, distribuiu-se pelos cantos da casa grande quantidade de flores tropicais trazidas do sítio do pai de um grande amigo e montou-se lá fora uma base de apoio para o pessoal preparar bebidas personalizadas. Uma seleção de música do tipo bate estaca, rock pesado, axé e funk fora especialmente feita por um outro amigo, aprendiz de DJ. A cozinha foi arrumada para facilitar a finalização das comidas e canapés em escala. Só não foi possível minimizar o calorão nem fazer circular um ventinho sequer. O pessoal derreteu na pista.

Bem me lembro de quando Carol completou trinta anos. Morávamos em Brasília e ela já tinha quatro filhos e logo depois estaria grávida da nossa raspa de tacho. Os tempos eram outros, bem diferentes. Casava-se bem mais cedo e os filhos, muitos ou poucos, nasciam nos primeiros anos do casamento. Até ai tudo bem, mas ser chamada de trintona por um grande amigo foi o suficiente para ela reagir de uma forma contundente, para espanto dos que participavam do jantar de comemoração. A expressão trintona deve ter soado como uma bomba na sua alma de mulher jovial. Deve ter doído bastante ao se pensar pela primeira vez como uma balzaca. Para aliviar, um dos convidados achou por bem cantar trecho de um famoso samba canção que enaltecia a mulher de trinta. Cantou com voz anasalada, bem ao estilo do cantor Miltinho, que durante décadas fez sucesso com ele.

Ao ouvir a história da mãe trintona durante o almoço de muitas bocas, a aniversariante centro das atenções, disse que não era trintona coisa nenhuma. Cheia de si e com cara de poderosa, declarou em alto e bom som, que estava mesmo é se sentindo uma “trintíssima”, no que foi aplaudida com entusiasmo pelos comensais.

Sinal dos tempos mesmo aconteceu na véspera: a novela oficializou o beijo gay e, ao que tudo indica, recebeu a aprovação geral. Por certo, um divisor de águas nos valores da população brasileira. No final dos anos setenta, pude constatar a força de impacto da TV no Brasil caboclo, inovando costumes e autorizando comportamentos. Convidados por um casal de amigos, fomos bater em um baile de clube numa cidadezinha do interior da Paraíba onde, praticamente todas as mulheres haviam adotado a moda do bustiê, deixando à mostra uma faixa de barriga de largura inversamente proporcional a da autoridade paterna. A novela, não me lembro se Água Viva ou Dancing Days, mostrava a vida das mocinhas charmosas de Ipanema para as do interior do nordeste.

Vida longa e animada para as “trintíssimas”!

Vitória, 04 de fevereiro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pode acreditar

Pode acreditar

Domingo acordei com preguiça completa. O tempo ruim, visto da cama pela janela do quarto, era de desanimar qualquer um: lá por volta das oito e meia, estava totalmente sem vento, com nuvens escuras e homogêneas indicando que programas à beira mar e em calçadas e praças poderiam ficar inviáveis durante o dia inteiro. Antigamente, um domingo chuvoso era apenas um domingo chuvoso. As pessoas ficavam em casa, resolviam fazer uma comida, inventavam um joguinho de baralho, esperavam a hora da transmissão do futebol. Com dois ou três telefonemas, a restrição estava perfeitamente contornada e a alegria de viver reestabelecida.

Não sou do tipo que adora sol. Já fui. Hoje em dia tenho preferido mais e mais a sombra, quando muito o solzinho das primeiras horas da manhã. Não acho graça em protetores solares e ainda não aderi a essas roupas modernas que funcionam como um bloqueador. Até já ganhei uma de manga comprida, mas não a uso regularmente, por uma razão qualquer.

O propósito turístico do domingão era o de atravessar a ponte para ir almoçar na Barra do Jucu. Como no sábado havia soprado um inesperado vento sul, é bem provável que as anchovas tivessem aparecido por lá. Elas costumam se aproximar das pedras quando o tempo esfria. Não tenho a menor explicação técnica para oferecer, mas posso assegurar que falo a verdade e que isso pode ser perfeitamente comprovado. Durante muitos anos frequentamos por lá um restaurante cuja especialidade era anchova assada. Peixe de carne muito tenra, precisa de muito pouco tempo de forno para ficar no ponto. Torço para que ele ainda esteja funcionando e sob a direção da mesma dona. É um ótimo lugar para ficar tomando cerveja, falando bobagens, vendo o movimento das marés e o voo das garças carrapateiras nos fins de tarde.

Pretendia aproveitar o passeio para conferir se ainda está por lá uma enorme concha marinha. Digo enorme porque ela deve ter uns oitenta centímetros de diâmetro. Bem sei que tem gente que vai logo dizer, e com alguma dose de razão, que isso é coisa de mentiroso. Realmente é difícil imaginar que exista uma concha tão grande assim. E foi exatamente por isso que fiquei entusiasmado quando a vi num canto de uma sala menor, junto com outras coisas do mar, naquele restaurante que fica diante da igreja. Era a contra prova que eu precisava.

Pode até ser que a TV já tenha mostrado algo parecido. Mas por aqui, ao vivo, se falar que existe, ninguém acredita. E foi exatamente por isso que resolvi manter em solene segredo por muitos anos a história da concha que eu tinha visto lá em Abrolhos, no sul da Bahia. Não contei nem para o pessoal que estava mergulhando junto comigo. Somente consegui vê-la do alto: só existia a parte de baixo, que estava presa na beirada de um grande coral e aberta pra cima. Era dessas de beiço ondulado e devia estar a uns nove metros de profundidade. Com os pulmões e tímpanos destreinados, só consegui me aproximar uns três metros dela, mas com a água cristalina a vi perfeitamente. Custei a acreditar. Com o coração acelerado, voltei à tona para respirar, sempre de olho na sua posição e mergulhei novamente, agora com disposição para chegar mais perto. Bem sei que peixes, lagostas e conchas aumentam de tamanho quando vistos dentro d’água, mas aquilo era realmente algo inacreditável. De volta à tona, enquanto recuperava o fôlego boiando a deriva, acenei para um colega para que pudesse ver também. Como ele custou a chegar, acabei perdendo o lugar onde ela estava e ficou por isso mesmo.

Vitória, 21 de janeiro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Se sujou, pague para limpar

Se sujou, pague pra limpar

Normalmente começo a semana com a crônica praticamente pronta, restando apenas fazer pequenos ajustes na forma e, às vezes, também, no conteúdo. O distanciamento ajuda a localizar o que pode melhorar. Reler o texto um tempo depois aproxima quem escreve da condição do leitor de jornal. Tanto daqueles que não têm obrigação de ler o que está impresso, como dos que interrompem a leitura por desinteresse no assunto, por discordar do que está sendo dito ou, o que é pior, por achar o texto chato, sem humor ou boa consistência. O mais difícil para quem escreve é conseguir prender a atenção do leitor até a última linha. E aqui estou eu fazendo mais uma tentativa, a primeira de 2014.

Começo esclarecendo que escapei mais uma vez de me vestir de Papai Noel para fazer graça para os netos mais crescidinhos. Como não conseguiram arranjar a fantasia a tempo, me fizeram usar um gorrinho na hora de tirar fotografias para o álbum de família. Melhor assim. Melhor ainda é que o fim das chuvas aconteceu justamente na noite de Natal, abrindo para muitos a contagem de um tempo de recomeço, de respirar fundo, trabalhar duro e seguir em frente. De lá pra cá as águas baixaram e o sol de céu lavado ajudou a secar o que esteve encharcado durante muitos dias e, inclusive, a acabar com a goteira do nosso quarto.

Depois de tanta chuva, o verão se instalou com força total e as praias estão lotadas. No mar, tem muita gente acelerando os motores de lanchas e jet skis, posicionando as velas de barcos, remando em canoas e em cima de pranchas. Em terra firme, muitos andam, alguns correm, outros pedalam, guardinhas multam e vendedores de picolé fazem a festa. Nos ares, o vento nordeste tem soprado muito forte, trazendo, involuntariamente, grandes quantidades do pó preto que sai das chaminés e das pilhas de minério lá das bandas da Ponta de Tubarão.

Em animada roda de amigos em casa de parentes, um professor atento lembrou que este ano a poeira deve piorar bastante com a entrada em funcionamento de mais uma usina de pelotização e a retomada do ritmo da produção de aço na siderúrgica. Foi o suficiente para que muitos se declarassem cansados de esperar por providências por parte dos governos. Acho que hoje praticamente já não existe mais quem aceite calado esta situação. Quando muito, tem gente que prefere não reclamar da sujeira na presença de desconhecidos e autoridades. Em agosto de 1987, quando viemos morar em Vitória, reclamar do pó de minério era coisa de uns poucos cidadãos destemidos.

Para abastecer a conversa contei que começara o ano lavando o tronco e os galhos da nossa jabuticabeira, cobertos que estavam por uma grossa camada preta. Em tom amargo, um dos amigos disse que sempre que o pó preto aumenta muito ele perde carpas que cria em um laguinho no jardim. Reforcei dizendo que uma das nossas filhas havia comprovado por A + B que o pó de minério interfere negativamente na reprodução de ouriço do mar e que até ganhou prêmio da Prefeitura por suas pesquisas.

Ao escrever novamente sobre essa espécie de tragédia crônica que aporrinha tanta gente, fiquei me perguntando se caberia entrar com uma ação no juizado de pequenas causas exigindo que as empresas poluidoras pagassem a diária da faxineira que passou a segunda feira limpando o pó preto que cobria a casa inteira. É que, por recomendação expressa do pessoal que veio fazer a dedetização geral no sábado pela manhã, tivemos que passar dois dias fora de casa, deixando as venezianas das janelas abertas para acabar com o cheiro forte do veneno.

Vitória, 07 de janeiro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Natal molhado

Natal molhado

Desta vez, dificilmente escaparei. Pelo que vejo, a convicção do pessoal atingiu níveis irreversíveis. Sempre que a ideia era ventilada nos almoços em família, recebia adesão animada de filhos e noras. Com o tempo, ela foi ganhando corpo, mas o malandro velho aqui conseguia sair de fininho, prometendo que no próximo ano iria considerar a possibilidade e, quem sabe, aceitar a incumbência. Pois é, acho que desta vez não haverá acordo nem escapatória. Posso apostar que já foram comprar a fantasia vermelha, enfrentando a chuva que cai, sem trégua, há mais de semana.

Confesso que no começo vi as primeiras tempestades com satisfação. É que por muitas e muitas vezes acompanhei a armação do tempo, mas a chuva não vinha. Pescador inveterado, vi fracassarem quase todas as previsões que eu fiz com base na aparência das nuvens que estacionaram por aqui, vindas das bandas do nordeste e no bojo das frentes frias formadas na Antártida. Muito embora nuvens animadoras cobrissem o céu, foi com água cara de torneira que Carol regou as plantas do jardim nesses últimos meses, quando os caramujos estiveram sumidos, hibernando sob a terra seca. Agora, depois que a chuva começou, parece que ela não vai mais parar. Pelo que sei, já não existe canto seco, livre das águas. Os jornais e a TV mostram estragos espalhados por todo lado. Tanto que conseguiram convencer Dilma a sobrevoar a tragédia capixaba e aproveitar para tirar fotos de campanha.

As previsões oficiais indicam que as chuvas devem continuar intensas por mais uns bons dias, o que é alarmante. Desesperador, para muitos. Para os que estão dentro de casa sólida, construída em lugar adequado, é quase impossível dimensionar as emoções de quem esteja submetido à força das águas. Isso, por mais que as imagens e os relatos sejam fieis aos fatos, por mais que os jornalistas e fotógrafos tentem mostrar o sofrimento e o incômodo das pessoas.

Lembro-me do pânico provocado por um jato d’água que saia pelo ponto de luz do quarto das meninas durante um temporal em 2008. A calha entupiu e a água buscou o caminho mais fácil para descer. Uma sensação de insegurança coletiva se instalou, mesmo sabendo que, no máximo, encharcaria o assoalho. Passado o medo e como não havia balde que pudesse dar conta, improvisamos um sistema para recolher a água e canalizá-la até a janela, que funcionou perfeitamente bem. Dominada a situação, tiramos fotos da equipe ao lado da escadinha usada para sustentar o tubo de PVC que recebia o bico de funil feito com saco de lixo, pendurado no ventilador. As imagens fazem rir e garantem a posteridade do acontecimento. Mas quem olhar aquelas fotos nada saberá sobre o pavor e a correria que aconteceu naquele dia, por tão pouco.

Desta vez, a água achou melhor descer pelo ponto de luz localizado em cima da cama do casal. Ela começou sorrateira, em pingos esparsos, nada que uma bacia não conseguisse resolver. Mas tivemos que passar a dormir em outro canto, pois, quando vimos, o colchão já estava ensopado. Com a continuação da chuva, a goteira evoluiu em extensão e volume. Agora, ela pinga intensamente ao longo de todo o trajeto do duto, que vai da parede até o bocal da lâmpada. Mas é coisa irrelevante, que nem vai sair na foto.

Fotos, muitas fotos mesmo, quem vai merecer é um Papai Noel meio ridículo tentando enrolar os netos Manu, Theo e Alice na noite deste Natal. Quando crescerem, Gael e Gabriel por certo vão poder ver a animação da festa, mas nada poderão saber sobre a chuva que batia forte na vidraça da sala.

Vitória, 24 de dezembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Varal retrátil

Varal retrátil

Preferi trabalhar cedo, enquanto estivesse fresco. Nuvens carregadas e a total falta de vento anunciavam calor de mormaço na manhã de domingo e o serviço que tinha pela frente exigiria esforço físico: atender uma demanda antiga da dona da casa, reafirmada sempre que a quantidade de roupa suja se acumulava. O varal que havia no fundo do quintal dera lugar à horta suspensa e os varais da área de serviço só dão conta da roupa de casa de poucos filhos. Jamais da casa lotada, como acontece nos períodos de férias que estão pra chegar, o que fez a pressão por providências subir para níveis críticos.

Tem tempo que procurava uma solução que atendesse requisitos e exigências de estética, funcionalidade e robustez. Sim, um varal que vai ficar na lateral da casa, além de ser capaz de sustentar o peso da roupa molhada, há de ser discreto. O ideal é que, quando vazio, ele pudesse ser desarmado e encostado na parede, sem representar perigo para menino correndo. Quando necessário, ele seria armado na posição horizontal. Além disso, ele precisaria ser comprido, para receber colchas e lençóis abertos. E é justamente aqui que aparecem as exigências de robustez: o varal deveria ser firme e forte o suficiente para suportar peso relevante.

Como se vê, uma espécie de quebra-cabeça para um engenheiro experiente equacionar com bom senso apurado, criatividade interativa, alguma competência técnica, e, sobretudo, valendo-se das ferramentas e dos infindáveis recursos materiais que guarda em armário repleto, desses de fazer inveja a qualquer MacGyver da TV. Ali, aplicando a máxima quem procura, acha, encontro praticamente tudo o que se fizer necessário para montar geringonças diversas, inclusive varais de todos os tipos e tamanhos.

Uma parte importante do problema de engenharia foi resolvida na venda de um conhecido, a que recorro sempre que preciso do que não existe nas lojas modernas. Como cera de carnaúba para cadeira de balanço. Desta vez, em atitude de desafio, pedimos uma armação de varal que fosse retrátil. A vendedora, mais do que experiente, voltou lá dos fundos com um par de armadores, desses que são usados nas mesas presas na parede, armadas quando necessário. Bem que poderia servir. Prudente, pedi uma barra de alumínio de três metros em formato de L para dar sustentação ao conjunto, que teria cabos de aços revestidos para receber a roupa. Escolhi presilhas, parafusos grandes e respectivas buchas para fixação. Aproveitei para comprar meio quilo de pregos variados a preço de banana, evitando ter que comprá-los em caixinhas de plástico, a preço de ouro. Isso foi no sábado, pela manhã.

No domingo, ainda na cama, passei em revista as providências para finalizar o projeto completo, fazer os testes funcionais e executar o serviço de preparação das partes. Comecei por serrar dois pedaços de caibro de uns vinte centímetros, onde seriam fixados os armadores, e fiz os furos para os parafusos que os prenderiam na parede. Em seguida lixei a madeira e arredondei as quinas. Por precaução, achei melhor reforçar a haste de sustentação dos armadores, que me pareceram frágeis frente às suas responsabilidades estruturais. Furei as pontas da vara de alumínio, separei os parafusos e porcas que iriam fixá-la e, todo satisfeito, dei por finalizada essa etapa do serviço. De banho tomado e com total disposição, fui comer os caranguejos graúdos que meu cunhado Neném prepara como ninguém. A felicidade dominical só não foi maior porque eu sou torcedor convicto do Fluminense e ele é vascaíno doente.

Vitória, 10 de dezembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Quarenta anos depois

Quarenta anos depois

Quando cursava o último semestre do curso de engenharia mecânica decidi participar de um programa de capacitação de professores que Máximo Borgo, então diretor da antiga Escola Politécnica da Ufes, havia criado para tentar enfrentar a falta de pessoal qualificado na cidade. Vitória era terra de vida mansa e de pouquíssimos recursos técnicos. Escolhi fazer o mestrado no Rio de Janeiro, lugar de referência e usual destino dos capixabas na época.

Encontrei o Rio debaixo de grande efervescência, muita mesmo: a onda crescente dos que viviam de paz e amor contrastava com a insegurança total, gerada pela repressão política. Em cartaz, a peça Hair, trazida de Nova York, mostrava a nudez como arma de resistência. No Teatro Tereza Rachel, Zé Celso Martinez instigava a rebeldia com sua longa peça Gracias, Señor que, de tão interativa que era com a plateia, me fez entrar em cena no dia da estreia. Os Novos Baianos faziam muita gente sambar nos pilotis da PUC, na Gávea, e Caetano, de regresso ao Brasil, emocionou um teatro inteiro cantando London, London.

Na zona portuária, em construção e atrapalhando o trânsito, o viaduto que acaba de ser implodido pelo progresso atual, dava esperança de fluxo livre pra quem, como eu, tinha que ir, diariamente, de ônibus ou de carona, até a Ilha do Fundão. No começo, para assistir as aulas do mestrado e, no ano seguinte, para ensinar o pouco que sabia para a primeira turma do curso de engenharia de produção, o segundo que se implantava no país. Hoje já são mais quinhentos. Foi uma das experiências profissionais mais marcantes que tive na vida.

Um trabalho intenso, criativo e empolgante, realizado junto com Oswaldo Sevá e Ricardo Seidl, dois colegas da pós-graduação, na condição de monitores de um atento e silencioso professor descendente de japoneses, que conheci na cantina xexelenta que funcionava no Bloco H. Operante e inovador, Itiro Iida tinha vindo de São Paulo trazendo um método de ensino de alta performance, baseado em entrevistas individuais sobre conteúdos previamente indicados. Tendo sido aprovado na entrevista, o aluno passava a atuar como entrevistador de colegas, o que o ajudava a consolidar seus conhecimentos sobre a matéria. O rendimento médio da turma era animador.

Mas a novidade exigia grande esforço para sua efetivação, incluindo a preparação do material de apoio e a organização das atividades em sala de aula. Isso, sem falar na elaboração de apostilas para suprir a crônica falta de livros técnicos. Tenho na lembrança meses de muito trabalho e fortes emoções, que me fizeram deixar meio de lado a redação da dissertação de mestrado. Nas fotografias tiradas na sala de aula não é possível distinguir alunos de professores. A diferença de idade era mínima e as figuras humanas bem parecidas. Meus cabelos já eram compridos e a barba ainda era escura.

As fotos que recebi ao longo deste ano mostram uns vinte engenheiros de produção já maduros, em momentos de confraternização, com expressões que atestam amizade e satisfação por estarem juntos até hoje. Elas vieram acompanhadas do convite para o jantar de encerramento das comemorações dos quarenta anos de formatura, sempre renovado em simpáticas mensagens dos organizadores.

Movido por boas lembranças e muita curiosidade, fui fazendo uma colher pequena para cada um daqueles sorridentes ex-alunos que vou reencontrar depois de tanto tempo, dentre os quais estão amigos fraternos e colegas de trabalho. Achei por bem usar um mesmo pedaço de bambu amarelo que eu trouxe de muito longe.

Vitória, 26 de novembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tema de crônica

Tema de crônica

O tema desta crônica me foi sugerido por uma estudante de uns quinze anos, de olhinhos azuis, próprios da gente pomerana que habita a região noroeste do Estado. Azuis de origem, brilhantes pelas emoções e apertadinhos pelo sorriso franco estampado no rosto. Estava radiante com o que acabara de vivenciar naquele galpão aberto, ao lado de uns quatrocentos colegas do turno da tarde.

Por volta de setembro recebi convite para falar sobre Rubem Braga para alunos de um colégio estadual em Nova Venécia, como parte de um projeto para incentivar o hábito da leitura. Se a mensagem escrita já era precisa, ao telefone as palavras da pedagoga demonstraram convicção. A curiosidade me fez dirigir por quase trezentos quilômetros sob chuva pesada, pensando no que iria encontrar. Na sala dos professores ficamos sabendo que todos os alunos da escola estavam às voltas com as coisas do cronista desde o começo do ano. E mais, que na semana seguinte haveria uma grande gincana com apresentações de paródias musicais, esquetes de teatro, coreografias e até questões sobre a minha falação. Como sobrinho do homem, relembrei histórias sobre sua personalidade marcante, seu temperamento arredio e algumas de suas manias. Nunca tive plateia tão atenta.

Não tenho experiência no trato com adolescentes. Não frequento pátios e salas desde os tempos do Colégio Salesiano, no começo dos anos sessenta. Lembro-me que os padres e seminaristas tentavam impor um ambiente de seriedade e disciplina, o que os bagunceiros, dentre os quais Afonso Paçoca, Ronaldo Gereréu, Arimatéia, Flávio Marta Rocha, Chico Virilha, Barrica e Erivelton, tratavam de subverter. Além de aulas aos sábados, tínhamos que frequentar a missa de domingo e fazer fila para carimbar ”compareceu” na caderneta. Há quem conte com ares de vitória que o pessoal arranjou um carimbo desses e, por algumas semanas, conseguiu fazer o serviço paralelo de carimbação.

Voltando à vaca fria, digo que, homem experiente que sou, fui levando minha mulher Carol, como fiel escudeira. Conhecedora da obra do Velho Braga, ela poderia ajudar bastante, inclusive fazendo leitura dramática de crônicas selecionadas para adolescentes. Santa providência: a garotada se acabou de rir durante a “Aula de inglês”, ouviu em silêncio “Matar”, escrita aos quinze anos, e acompanhou atentíssima o discurso de paraninfo para uma turma de normalistas em Cachoeiro que, dizem, foi lido por um amigo de infância porque o homenageado, rouco, declarou-se impossibilitado de ler o que escrevera. Imagino que por pura timidez e total aversão a homenagens.

Entusiasmada com a reação favorável da plateia, Carol tomou coragem e resolveu cantar o samba enredo da Unidos de Jucutuquara do carnaval passado, uma homenagem ao centenário de nascimento de Rubem Braga. Ela já havia cantado centenas de vezes aqueles versos durante os ensaios na quadra da escola e no desfile na avenida, sempre na condição de uma compenetrada ritmista da bateria. Ali, de microfone em punho mas sem a voz do puxador de samba e a ajuda de qualquer instrumento de marcação, ela tratou de explicar passagens da letra e ensinar o refrão em busca de adesões. Foi só começar a cantar que a garotada caiu no samba com entusiasmo e de alma leve, marcando o ritmo com palmas fortes. Como num passe de mágica, uma alegria enorme tomou conta do lugar. Por alguns minutos, instalou-se ali uma animadíssima festa de confraternização pelas boas coisas da vida, a ponto de alguém tomar coragem para sugerir que ficasse registrada em crônica.

Vitória, 13 de novembro de 2013.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Amigos e museus

Amigos e museus

Na semana passada estive duas vezes ao Museu Vale. A primeira para a festa de comemoração de quinze anos de sua existência e a segunda para uma belíssima exposição de pinturas e desenhos. Na volta pra casa, um velho amigo meu, desses bem viajados e exigentes, declarou em alto e bom som o seu orgulho e a sua satisfação em saber que existe na sua terra um lugar como aquele. Falante, ele estava surpreso com o que vira naquela manhã. Uma instituição com propósitos firmes e bem orientados, instalações muito bem cuidadas e uma mostra deslumbrante de uma artista capixaba. Com emoções soltas por duas ou três taças de prosseco, ele estava feliz e emocionado.

Bem sei, porque acompanho desde o começo, que tudo aquilo surgiu da ideia de se aproveitar a antiga Estação Pedro Nolasco, então abandonada, para instalar um Museu Ferroviário onde pudesse estar um pouco da saga e da história da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Criada no comecinho do século passado, ela ajudou a desenvolver a região ao longo do Rio Doce e, mais tarde, viabilizou o transporte do minério de ferro mineiro até o litoral.

Lá estão equipamentos, ferramentas e utensílios utilizados na construção e operação da ferrovia, fotografias antigas, inclusive uma em que operários estão ao lado de índios botocudos atarracados com cara de poucos amigos. Em um salão, homens habilidosos construíram uma grande maquete com representação das minas, da ferrovia com pontes, estações e trenzinhos que apitam, de pilhas de minério, usinas de pelotização, porto e tudo o mais que encanta crianças e marmanjos de boa idade. Ao lado do prédio da estação estão uma possante Maria Fumaça e um vagão antigo com bancos de madeira, de cujas janelas se pode contemplar o mundo com olhar de passageiro.

Pois bem, a coisa poderia ter parado por aí e já estaria de bom tamanho: um lugar agradável para passear nos fins de semana. Não só não parou, como demonstrou que, havendo gente com propósito firme e poder de agregação, muito pode ser feito, mesmo em ambientes adversos. Ao longo dos anos o lugar foi sendo transformado em um museu de arte contemporânea,hoje reconhecido dentro  e fora do país, que oferece um programa de arte-educação para milhares de alunos de escolas públicas, seminários de filosofia para audiências inimagináveis e exposições de artistas de renome. A mostra Seu Sami, do artista capixaba Hilal Sami Hilal, por exemplo, foi algo extremamente impactante e definitivo.

Agora é Regina Chulam quem mostra desenhos e pinturas. Depois de décadas em Lisboa, Regina passou a viver em Aracê, na região de Pedra Azul, de onde extraiu temas desse trabalho. As cabras, desenhadas em papel pequeno, são sensacionais, os agaves são fortes e coloridos e as paisagens de montanhas exuberantes. Os retratos que pintou de seu irmão e de amigos são precisos: basta um par de olhos para identificar a pessoa sentada na cadeira de braço. O galpão com paredes escuras e telas bem iluminadas é lugar para se ficar andando de um lado para outro, apreciando o que foi feito com tintas e pincéis, pensando na própria vida.

Depois de comentários positivos sobre a atuação do MAES, a conversa resvalou para a novela Cais das Artes. Já passa da hora de se conhecer em detalhe os conceitos e princípios que nortearão o seu funcionamento. Com arquitetura grandiosa e arrojada ele haverá de exercer, obrigatoriamente e em bases generosas, a nobre função de abrir mentes e corações em escala proporcional aos custos de suas instalações. Para termos motivos para comemorar.

Vitória, 29 de outubro de 2013.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA