Começou a campanha

Começou a campanha

Esse pessoal do marquetingue político não é fácil. Eles já identificaram que denúncias de desvio de verba federal, estadual ou municipal, assim como de compra de apoio nas votações no congresso, nas assembleias e nas câmaras já não produzem impactos significativos nas emoções de eleitores. Sei de muita gente que já nem se interessa mais em conhecer os pormenores dos esquemas de desvio de dinheiro e corrupção em vigor nas diferentes esferas do poder público. Eu mesmo tenho lido essas matérias na diagonal, com curiosidade suficiente para manter a indignação em níveis razoáveis, sem que afetem meu fígado ou façam de mim um homem triste ou raivoso.

Terminada a Copa, curtida a ressaca pelo fracasso da seleção da CBF, definidos os novos dirigentes que terão a incumbência de salvar o que resta do futebol brasileiro, lá veio a primeira declaração de guerra no campo da política nacional. Recebi de um amigo, desses bem roxos, cópia da matéria de capa da Folha de São Paulo deste domingo, estampando o que seria uma grande mutreta acontecida durante a gestão do candidato mineiro a presidente, quando à frente do governo de Minas Gerais. Segundo a reportagem, o que era uma pista de pouso em uma fazenda de parentes seus foi transformada, com dinheiro público, em um pequeno aeroporto. Mais do que tudo, o que chamou a minha atenção foi a fotografia de uma porteira fechada com corrente. A carga simbólica daquela imagem ajudava a engrossar a denúncia: a chave do cadeado ficava em poder dos donos da fazenda, que controlariam o uso da pista de pouso e de instalações que haviam sido construídas com verbas governamentais.

Sou forçado a acreditar que os conteúdos só agora divulgados pela imprensa tenham sido preparados com boa antecedência e que permaneciam guardados a sete chaves em alguma gaveta poderosa, em função do seu potencial de produzir estrago na imagem do candidato opositor. Afinal, sendo informações relativamente atemporais, são passíveis de serem utilizadas em momentos convenientes, rigorosamente agendados pelas equipes de campanha. Valores, projetos, contratos com empreiteiras, destinações para campanha do candidato e tudo o mais deveria ser mostrado, mas o que mereceria ser bem destacado era o controle da chave do bendito cadeado. Isso, sim, teria algum poder de indignar a alma de eleitores, a ponto de afetar sua convicção e redirecionar seu voto. Nesta segunda feira, matéria no Jornal Nacional da TV Globo repercutindo o assunto deve ter feito muita gente esmurrar o ar, dar pulinhos de alegria, babar de felicidade. Considerando isso, pode-se aferir a precisão do uso político de um material coletado para produzir a denúncia e declarar aberta a temporada de caça aos votos dos eleitores no país da Copa das Copas, da seleção que perdeu tão feio as últimas duas partidas do mundial.

Confesso que não consigo estabelecer hierarquia ou relação direta entre o acontecido em terras mineiras e a indicação de Dunga como o novo técnico da seleção da CBF. Já tem gente dizendo que ele foi escolhido a dedo, como parte de estratégia para blindar o pessoal que o nomeou, agora sem qualquer credibilidade após o fiasco futebolístico. É bem provável que o pessoal de marquetingue da CBF tenha proposto o perfil de um ferrenho guardião de meio de campo para tal função, desses que dão muita canelada e chute abaixo da cintura. Como se sabe, Dunga é do tipo que não leva desaforo pra casa, mas vi na internet que ele tem rejeição de quase 80%. Devo dizer que implico com o penteado milimétrico do presidente da entidade.

Vitória, 22 de julho de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Entrando no clima

Entrando no clima

Custou, mas finalmente a bola está rolando pelo Brasil afora em estádios repletos de gente colorida e animada. O ambiente no país é de pouco trabalho e muitas expectativas. Tenho a impressão de que as vaias e os xingamentos na abertura foram suficientes para definir posições, demarcar territórios e desatar a vontade de torcer pelo que é nosso, por princípio e direito. A festa está em andamento e parece que não tem hora para acabar por conta de uma simples derrota. O melhor é fazer corpo mole, dar uma de malandro e virar um torcedor multinacional, desses que torcem pelo Brasil e por outras seleções ao mesmo tempo. Eu mesmo já escolhi Costa Rica, Gana, Chile e Uruguai e declaro a minha má vontade com as seleções de Portugal, Espanha, Argentina e Itália. Por mim, Coreia do Sul, Rússia e Bósnia nem precisariam ter vindo.

Nesse últimos dias assisti muitas partidas. Quase sempre equilibradas e disputadíssimas. Imagino que para muitos semi-informados como eu, alguns dos resultados foram bem surpreendentes, inimagináveis talvez. Pelo que vejo, fama, tradição e prepotência não estão ganhando jogo. Dentro de campo, imperam profissionalismo e dedicação ao coletivo. Jogadores com preparo físico de fazer inveja disputam a bola, armam jogadas e se posicionam em campo de olho no reconhecimento de empresários atentos no mundo inteiro. Tenho visto poucas pancadas violentas nas canelas e, sobretudo, nos calcanhares, por trás. Imagino que por pressão dos donos da festa os jogadores têm evitado apelar para faltas violentas e maldosas, como aconteceu a rodo na Copa da Inglaterra em 1966, quando quase acabaram com o nosso ataque inteiro. Os entendidos em futebol estão entusiasmados com o padrão de jogo apresentado pelas seleções das américas e dos países africanos. Muitos de seus craques jogam na Europa, onde os negócios futebolísticos movimentam fortunas.

Na segunda feira ganhamos de Camarões por placar folgado, mas é bom lembrar que por um breve momento, durante o segundo tempo, os locutores demonstraram receio do Brasil ser matematicamente desclassificado, em função do resultado do outro jogo da chave, que corria em paralelo. Passado o susto, a nossa seleção deu mostras de bom futebol e de alegria contagiante, a ponto de fazer acreditar que poderemos ganhar a Copa. Neymar jogou com vontade e Fred voltou a fazer gol, para a felicidade geral. Oscar, Hulk e mais uns poucos bateram cabeça e devem sair do time nas próximas partidas. Noto que esta frase anterior, escrita de forma inteiramente espontânea, já saiu impregnada de opiniões próprias de quem entende do assunto e, mais do que isso, carregada de um certo otimismo. E acho que é justamente aqui que mora o perigo. Digo isso porque, embora favorecidos por uma das chaves mais fracas, começamos a disputa bem temerosos, sem muita fé no taco, como se diz.

A cada dia aparecem mais e mais vendedores de bandeiras e camisetas nas esquinas. Muita gente já se animou em colocar bandeirinhas nos carros, uma declaração pública de confiança no time. Mas há quem diga que a competição começa mesmo é agora e que os três primeiros jogos só serviram de aquecimento. Daqui pra frente, em regime de mata-mata, só vamos enfrentar equipes com disposição e com boas condições de disputar as semifinais. Demos sorte: a primeira pedreira será a seleção do Chile, em jogo que pode ter prorrogação e até disputa nos penaltis. Sou da turma que acha que teria sido bem pior se tivéssemos que enfrentar a Holanda de Robben, adversário para uma final sensacional.

Vitória, 25 de junho de 2014.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Carneiro medieval

Carneiro medieval

Pela primeira vez, fui ver de perto o festival de jazz (e de comida e bebida) de Santa Teresa, do qual já tinha ótimas referências dadas por parentes e amigos. Em carro lotado, depois de pagar pedágio na BR 101, subimos a serra em rodovia estadual novinha, perfeitamente sinalizada. Difícil imaginar que pudesse ser algo tão bom e tão bem organizado. O que o olho não vê, o coração não sente e a alma não aproveita.

Os shows aconteceram em palco baixo e de bom tamanho, armado na ponta de uma grande área coberta, com cadeira para quem quisesse. Pude ouvir Wagner Tiso com a nossa Sinfônica, a banda de Saulinho Simonassi, a lenda do blues Bryan Lee e o frances Jean Luc Ponty, que não conhecia.

Mas, pra mim, Raul de Souza foi o dono da noite, o senhor dos espetáculos. Antes de começar, com voz já meio fraca, ele avisou que completará oitenta anos em breve e que sopra trombones de vara e de válvula há mais de sessenta. E como toca! Seu som está ainda mais requintado, sutil e melodioso. Conheci Raulzinho no Sexteto Bossa Rio. Gostei tanto que tive vontade de tocar trombone, mas nem cheguei a tentar, por difícil que é. Mal, mal, consegui tirar no violão um trecho do Samba de uma Nota Só e a introdução de Chove Chuva, o que não é lá muita coisa.

Os festivais de Santa Teresa e de Manguinhos renovam os festivais de jazz que aconteceram no Teatro Carlos Gomes, em Vitória, nos idos dos anos oitenta e noventa, sob as batutas de meu irmão Afonso e do saudoso Marien Calixte e os shows no Ginásio da UFES: o jazz melodioso de Dave Brubeck, a música inovadora de Astor Piazzola, o som arrojado do baterista Art Blackey e a bela voz de Sarah Vaughan. Imagino que também façam lembrar emoções vividas no Circo da Cultura ao som de Hermeto Pascoal e Paulo Moura.

Desses dias na montanha só lamento não ter comido um tal Carneiro Medieval que alguém recomendou com força. O nome do prato é provocador dos sentidos e desafiador da imaginação. Ele nos remete a tempos longínquos, quando as pessoas comiam o que houvesse nas imediações, preparado sem grandes requintes em panelas enormes no fogão a lenha ou no calor de uma fogueira. Digo que cheguei a me imaginar sentado em uma grande mesa, ao lado de barbudos barulhentos, atracados em paletas de carneiro assado, como se vê nos filmes de época. Por conta de uma espécie de gula histórica abandonamos a animação de uma rua cheia de gente falante, que bebia vinho e cerveja e comia linguiça frita com polenta.

Deu trabalho encontrar o lugar onde servem o tal carneiro. Uma pousada fora dos limites urbanos, onde se chega por uma estradinha de terra batida, após rodar por uns tantos quilômetros no asfalto. Lá, um rapaz nos disse que a cozinha havia sido transferida para o Parque de Exposição, onde acontecia o festival, para um dos doze restaurantes instalados para atender os visitantes famintos e os que preferissem ficar conversando com amigos que há muito não viam. No parque, fomos informados pelo chef que, Carneiro Medieval, só mesmo em outra oportunidade e sob demanda. Para tentar compensar, ele sugeriu costelinha de porco confitada na banha, acompanhada de massa caseira.

O fato é que descemos a serra extremamente satisfeitos com o programa, rindo do que nos pareceu ser um poderoso marketing culinário, capaz de provocar água na boca de  turistas gulosos, sem a ajuda de imagem, cheiros e sabores. Sem, ao menos, oferecer informações sobre os temperos e o modo de preparar um carneiro à moda antiga. Qualquer hora dessas voltarei lá pra resolver esse mistério.

Vitória, 11 de junho de 2014

Alvaro Abreu

Escrito para A GAZETA

Sem choro nem vela

Sem choro nem vela

A Copa está chegando e ainda não vejo entusiasmo nas pessoas nem gente correndo pra comprar aparelhos de TV. Sei de um único casal que comprou ingressos para ver uma dessas partidas mixurucas e de gente querendo completar seus álbuns de figurinhas, alguns de capa dura, de fazer inveja. Dizem que essa brincadeira movimentará uns dois bilhões de dólares mundo a fora.

Nas ruas, volta e meia, vejo comboios de radiopatrulhas e motocicletas federais se preparando para garantir segurança e proporcionar trânsito livre ao pessoal da Austrália e de Camarões que se hospedarão aqui. Uma movimentação propositadamente barulhenta, que me fez lembrar um representante do Ministério da Educação que só circulava pelas ruas de Recife em carro oficial dotado de sirene, dessas bem histéricas. Era um senhor sem qualquer competência educacional, mas com prestígio junto aos militares dos anos de chumbo. Embora os tempos sejam outros, imagino que o tal aparato policial vai querer furar sinais e pretender passar na frente de cidadãos já irritados com a lentidão do trânsito. Não será uma cena simpática nem inspiradora de bons modos.

Tenho boas lembranças da Copa de 58. Adultos e crianças em volta de um enorme rádio de madeira na sala de visitas da nossa casa, lá em Cachoeiro. A família havia se mudado recentemente para Vitória e papai resolveu nos levar para matar as saudades da terrinha. Lembro dos muitos gols que fizemos, mas não me recordo de comemorações na rua. Da nossa conquista no Chile, em 62, só me recordo das aflições pela contusão de Pelé. Apesar do clima de “ame ou deixe-o”, a Copa de 70 foi de emoções num crescendo até a vitória. Armamos uma espécie de arquibancada para uns vinte torcedores na garagem da casa de amigos da nossa rua. A televisão, colocada bem no alto, mostrava pela primeira vez imagens coloridas de futebol e um potente rádio Transglobe garantia vibrações complementares, nas vozes dos locutores de sempre. Mas, justamente no dia da grande decisão, mamãe pediu para levá-la a Cachoeiro, para o enterro de um parente. Na volta, com o rádio ligado, mas de pouca serventia, vim acelerando forte numa estrada totalmente vazia. O jogo já estava quase terminando quando estacionei o carro na Praça Costa Pereira e fomos festejar a conquista na frente do Britz Bar. Era um pequeno mar de gente animada e feliz entoando sem parar o grito de guerra “araruta, araruta, hei, hei, filho da puta”, que oficializou a liberação do palavrão na vida da classe média brasileira.

Na Copa de 86, um amigo meu sentiu enorme tristeza com a desclassificação do Brasil e  chorou que nem criança. Embora tivesse uma forte resistência ideológica em relação ao futebol, ele foi se entusiasmando com a sequência das vitórias até conhecer, na prática, a dor de um torcedor de verdade ao ver seu time perder uma partida decisiva. Das derrotas mais recentes, tenho duas raivas específicas: a do lateral esquerdo arrumando o meião na cabeça da área durante lance fatídico e a do nosso goleiro mais queixudo, que engoliu um frango mortal. Ainda tenho dó da fera italiana que perdeu o pênalti que nos deu o título de 94 em gramados americanos, mas não guardo sequer uma cena da conquista da Copa de 2002 lá no Japão.

Sou dos que acreditam no sucesso da equipe de Felipão, mas hoje acordei me perguntando o que acontecerá caso ela seja eliminada ainda na fase de classificação. E se ela conseguir chegar na final e perder na prorrogação, como o Atlético de Madrid? Será que o país inteiro ficará em silêncio como em 1950?

Vitória, 27 de maio de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Carestia

Carestia

Comecei o dia diante da falta de assunto para esta crônica. Passara os últimos dois dias procurando um qualquer, sem conseguir me desvencilhar do meu espanto com o preço da pizza que comemos na quinta feira passada, em uma pizzaria bem modesta que frequento há mais de vinte anos e onde se pode comer uma marguerita honesta. Trata-se de uma espécie rara de fidelidade, praticada sem ao menos receber sorrisos e gentilezas dos proprietários. Vigora um acordo tácito em favor da convivência respeitosa entre as partes, depois de um banzé que o nosso pessoal criou por uma longuíssima espera. Era uma mesa cheia de filhos e sobrinhos comemorando um aniversário de adolescente em fase de crescimento. A coisa ficou preta depois de constatarmos que um exército de motoboys operava em ritmo frenético para atender, com prioridade absoluta, os clientes que pediam pizza por telefone. É bom que se diga que a nossa revolta acabou ganhando a adesão dos demais fregueses famintos e, até então, bem comportados.

Desta vez, o lugar estava completamente vazio. As três atendentes fizeram o possível para nos agradar, mas não houve como manter a simpatia depois que a conta de mais de setenta e cinco reais nos foi apresentada. O preço da sobremesa, um tal pudim de sorvete caseiro, ajudava a tornar o valor totalmente descabido.

O assunto altos preços continuava a martelar a minha cabeça e ganhou ainda mais destaque quando fui comprar peixe ali na Praia do Suá para nosso almoço de um dia das mães atípico. Cação vendido a mais de vinte reais o quilo e camarão rosa oferecido, com algum constrangimento, por setenta e tantos reais. Para não perder a viagem, escolhi um realito fresquinho e três camarões graúdos, um para cada uma das nossas poucas bocas. Confesso que fiz isso me sentindo na Europa, onde se compra banana e laranja em unidades. Já não havia coentro nas bancas e o saquinho de tomates estava pela hora a morte. As peixarias já estavam às moscas, talvez pelo adiantado da hora ou, quem sabe, pela reação dos compradores. Em quase todas elas os freezers estavam cheios de peixes de boa idade, desses que têm as guelras bem escuras e os olhos sem qualquer brilho. É bem provável que seriam cortados em postas e filés na tentativa de esconder as marcas do tempo.

Na volta pra casa, encontramos nosso compadre, também um “sem mãe por perto”, e tratamos de convidá-lo para almoçar conosco. Morrendo de rir, contamos o que havíamos comprado e dissemos que, caso ele aceitasse o nosso convite, seria recomendável que comprasse o seu próprio camarão VG.

Ao passar as vistas nos jornais de hoje, ainda em busca de assunto, vi que a presidente da Petrobras está defendendo uma correção nos preços dos combustíveis, uma condição para que a empresa pare de acumular prejuízos. Os preços defasados da gasolina e do óleo diesel, somados a um conjunto de operações duvidosas e de investimentos malucos, jogaram o valor das ações da petroleira lá pra baixo. Sou obrigado a concordar com ela, embora saiba que tal reajuste terá impacto direto sobre os preços, inclusive das pizzas e dos camarões. Isso, sem falar das consequências do aumento da conta de energia elétrica que estão anunciando por aí, que poderá passar dos trinta por cento. Aqui, especialistas e, sobretudo, lobistas, argumentam que se trata de providência indispensável para salvar as empresas distribuidoras de energia, vitimadas que foram por ações e políticas governamentais, no mínimo, imprudentes, também implantadas de olho nas eleições.

Vitória, 13 de maio de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sobrevivência

Sobrevivência

Recebi de um amigo das antigas uma mensagem em busca de cumplicidade. O assunto do e-mail era “da nossa época” e o texto dizia: “Você já viu isso? Abraço, Marcos”. O arquivo era uma apresentação em power point com letras coloridas, tendo Help, dos Beatles, como fundo musical, intitulada “Como você pôde sobreviver?”.

Nela o autor lembra as condições enfrentadas pela garotada durante os anos sessenta e setenta nas cidades brasileiras. Uma listagem de arrepiar pais e mães criados em tempos de atitudes politicamente corretas, neste mundo certinho das práticas reforçadas pelos que vendem produtos e serviços para manter crianças a salvo e reduzir as aflições dos adultos responsáveis: descer ladeira em carrinhos de rolimã, nunca usar capacetes, joelheiras e cotoveleiras, beber água de torneira, jogar pelada no meio da rua, andar de carro sem cinto nem travas de segurança nas portas, guardar remédio em armários sem chave, e vai por aí a fora. Saudosista, o autor lembra também que as pessoas almoçavam em casa, que cachorro tomava banho com sabão de coco, que não se falava em obesidade, dislexia, falta de concentração, hiperatividade e que ninguém ia a psicóloga ou psicoterapeuta. As brincadeiras e as brigas de meninos aconteciam na rua e no quintal das casas dos amigos, onde se entrava sem bater.

Tendo lido tudo com atenção, posso dizer que sou dos que sobreviveram às condições adversas daquela época e, melhor do que isso, dos que aproveitaram as vantagens da vidinha calma e rotineira de uma cidade pequena, na qual algumas pessoas, personagens seria o termo correto, ajudavam a compor a cena urbana. Vejo agora que elas formam muitas das imagens que guardo daquela época.

Começo pelas figuras dos pescadores: mestre Don Don, que virou nome de restaurante, e o sisudo Dr. Franklin de Carvalho, que gostava de pescar da calçada em frente da Chácara Von Schilgen. Dos vendedores ambulantes, lembro-me de Zé do Coco empurrando um carrinho de mão pelas ruas da Praia do Canto, de um velho que carregava verduras em duas enormes peneiras e de Baiano, que vendia camarão no portão das freguesas. Na Praia do Barracão ainda consigo acompanhar as braçadas compassadas de Gringo, que vinha a pé do centro da cidade. Quem não se lembra de Noguerinha, presidente de honra do Praia Tenis Club, segurando um copo de cerveja, de Carioca, um enérgico treinador de basquete e natação, de Otinho, na sua simpatia apressada, sempre segurando folhas de papel ao maço pelas calçadas e de Carmélia de Souza, que movimentava os poucos bares da ilha. Seu Henrique, ao lado da igreja Santa Rita, e Zé Pretinho, em Santa Lúcia, eram donos de bar igualmente mal humorados, enquanto Ataré, de frente ou de ré, era o eterno candidato a vereador nas eleições municipais. Pedrinho, o carteiro, sempre se sentava na varanda lá de casa para tocar de violão e Adotivo, um preto risonho, cantava “Não sou o réu, mas a justiça me condena”. Morris Brown, atleta campeão em muitas modalidades, era dos poucos que tinha motocicleta por aqui. No Colégio Salesiano, o padre Crico tentava ensinar os segredos das células para alunos desatentos.

Em Vitória muita gente era conhecida por apelidos que expressavam estilo pessoal, comportamento ou condição social: Foguetão, Pé de Burro, Bardal (o melhor amigo do seu carro), Cereba, Mococa, Paru (que até virou sobrenome de família), Paçoca, Fureba, Banal, Chupetão, Cadeado, Brocoió, Xiru, Bodão, Pé de Pato, Mela o Bico e Maria Tomba Homem. Volta e meia encontro quem ainda me chame de Cabeção.

Vitória, 29 de abril de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pauta congestionada

Pauta congestionada

Todo mundo sabe das dificuldades que se tem na hora de escolher o tema de uma crônica. Volta e meia experimento as agonias desse processo de busca nervosa por um assunto que possa ser de interesse do leitor e passível de ser debulhado com três mil e quinhentos toques. Digo processo porque é alguma coisa que fica presente durante um bom tempo na cabeça, disputando atenção com as demais atividades do dia a dia. Nervosa porque se trata de um jogo, com data marcada para entregar o texto ao jornal.

Como sempre, assunto é o que não falta. Nesta semana, a lista dos preferidos foi encabeçada por dois fatos relevantes. O primeiro deles foi a publicação de normas federais para garantir boas condições de visualização do Convento da Penha aos que circulam por avenidas e calçadas de Vitória e também de Vila Velha. Mesmo acreditando que isso possa parecer irrelevante aos que andam sem olhar em volta e aos que não se importam em viver emparedados, sei que sou um dos muitos que comemoram tal providência. Bato palmas aos responsáveis, sabendo que a decisão contraria interesses dos que teimam em bloquear a paisagem urbana. Trata-se de uma efetiva demonstração de cuidado com a cidade e com seus frequentadores de hoje e de amanhã.

O outro é o imbróglio que envolve a aplicação de pesada multa federal aos responsáveis pelo campo do Santa Cruz, em Santa Lúcia, lugar de memoráveis peladas em barro úmido de mangue, derradeiro espaço para ensinar futebol e bons modos para a garotada do bairro e adjacências. Pelo que pude ler, a Prefeitura da cidade pretende aprovar lei proibindo a construção de prédios naquele lugar, inclusive de autarquias do governo federal que já demonstraram interesse. Por certo, isso daria uma crônica raivosa, dessas de comprar briga com autoridades responsáveis pela cobrança da tal taxa de marinha, uma verdadeira sandice legalizada, que inferniza muitos moradores de cidades litorâneas deste nosso Brasil.

Também caberia escrever uma crônica leve contando que as mulheres daqui de casa andaram fazendo biscoito de nata, usando a receita deixada por mamãe. É mais do que sabido na família, sobretudo pelos netos mais gulosos, que Dona Gracinha costumava esconder um pote cheio desses biscoitos bem no fundo do seu guarda-roupa, para oferecer aos que iam lhe fazer uma visita. Mulher sábia e experiente, ela dizia que se deixasse à mostra, o pessoal comeria tudo de uma vez, sem qualquer cerimônia ou compostura. Pois bem, ontem, trabalhando em dupla, uma nora e uma neta dela produziram três tabuleiros de biscoitos feitos com nata comprada na feira de Jardim da Penha e farinha de araruta especialmente trazida de Itabuna. As duas concordaram que o gosto ficou parecido, mas que a consistência ainda precisa melhorar bastante, para que o biscoito se dissolva na boca. Só assim ajudará a matar as saudades dos biscoitos. Prometeram fazer outra fornada, tentando ajustar as proporções dos ingredientes.

Tendo escrito isso, devo dizer que consegui vencer o impulso de dar preferência às notícias amargas sobre as roubalheiras na nossa petrolífera, tráfico de influências ministeriais, obras paradas que enriquecem uns e bancam a eleição de outros, passeio de companheiro poderoso em avião pago por bandido reconhecido, previsões catastróficas no setor energético, assuntos que martelam diariamente a minha cabeça de eleitor. Bem sei que tudo isso pode ser tratado depois, mesmo porque as revelações sobre acontecimentos político-criminais ganharão ainda mais destaque na companha eleitoral.

Vitória, 16 de abril de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sob controle

Sob controle?

Tenho viajado bastante, quase sempre de avião. Quando os aeroportos estão cheios, a fila dos passageiros preferenciais é sempre uma boa alternativa para minimizar esperas e chateações. Resolvido o check in, tomado um café caro e comido o tradicional pão de queijo preventivo, é a vez de enfrentar a fila da revista e os tais procedimentos de segurança.

Depois do atentado às Torres Gêmeas americanas, percebe-se que a coisa vem num crescente. Agora equipamentos de Raio X estão por todos os lados e os funcionários, sempre muito bem vestidos de preto, dão instruções e fazem exigências com expressão de simpatia profissional, dessas que são ensinadas em cursos especializados.

Embora nessas ocasiões se tenha sempre a impressão de estar sob suspeita, percebo que muita gente, sobretudo o pessoal mais novo, já incorporou os procedimentos de controle em sua rotina. Tem quem adore ficar em fila em porta de boates e casas de show. Não imagino o que as velhinhas sentem ao passar por revista de aeroporto. Talvez achem que estarão seguras a bordo e que a vida está cada dia melhor.

Homem prevenido, tenho o costume de carregar o canivete suiço que ganhei de presente quando fiz trinta anos. Pode ser que apareça laranja pra descascar, parafuso para apertar ou alguma coisa para aparar com a tesourinha. Pois um dia, e isso já faz tempo, fui barrado na revista e tive que correr ao balcão da companhia para entregar o canivete para que viajasse aos cuidados da tripulação e me fosse devolvido na chegada. Agora ele sempre viaja na mala, junto com as goivas e faquinhas que antigamente eu usava para ir cortando bambu durante a viagem, sobretudo nas longas, quando o tempo custa mais a passar.

Acho que as normas e os tais procedimentos padrão estão em permanente aprimoramento. Tem sempre uma novidade. Dia desses descobri, na prática, que é proibido passar no detector de metais com as mãos nos bolsos e tive que repetir a operação com as mãos ao vento. Isso depois de ter que colocar os bilhetes de embarque na caixa de plástico na esteira, junto com o meu chapéu panamá de palha bem fininha. Ao mostrar a única nota de 5 reais que carregava na calça, me lembrei de Caetano cantando “nada nos bolsos ou nas mãos”.

Lembro-me de uma das primeiras vezes em que me senti sob suspeita num aeroporto. Foi em viagem a serviço para Salvador, acompanhado de um colega de Ministério. No embarque de volta para Brasília, fomos barrados sem qualquer cerimônia. Nós dois usávamos barba e a minha era dessas bem escuras e espessas. Ao conferir nossos documentos, o policial não queria aceitar as nossas carteiras de identidade porque nas fotografias éramos dois simpáticos rapazes imberbes. Ele nos deixou passar só depois de muita argumentação. Ao devolver o documento a cada um, disse que, embora sem barba, dava para reconhecer perfeitamente a gente. Seguramos o riso até entrar no avião com nosso documentos trocados.

Tenho visto, meio indignado, o raio-x apitando acusatoriamente ao detectar a presença de metal do fecho éclair das botas de cano longo. As cenas que se seguem são de puro constrangimento para as mulheres mais sensíveis. Elas são convidadas a usar uma espécie de pantufa para merecer a aprovação do equipamento, enquanto suas botas passam solenemente pelo crivo de um olhar entediado, pousado na tela de um monitor colorido.

Se no ar a segurança está sendo garantida, em terra firme a sensação de insegurança e impotência diante da violência cresce assustadoramente, sem qualquer sinal de reversão.

Vitória, 01 de abril de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pescaria em Barra Grande

Pescaria em Barra Grande

Escrevo num computador pequeno, plugado em uma das torres de tomadas da sala de embarque do aeroporto de Salvador, tal qual um desses viciados em internet ou daqueles executivos que aproveitam o tempo de espera forçada para colocar o serviço em dia. A bem da verdade, quando comprei a passagem, os voos entre Vitória e Ilhéus eram diretos, sem escala. Fiquei azul de raiva ao saber que a companhia aérea alterara o trajeto, incluindo, na ida e na volta, uma escala na capital baiana. Pra piorar, teria que gramar quatro horas de espera em cada conexão e outras tantas voando à toa. Ao todo, um dia inteiro da minha semana de férias.

O destino era Barra Grande, na baía de Camamu, lugar apregoado como paraíso pelo pessoal lá de casa. Com muito sol, praias de água quentinha e muita sombra de coqueiro, ele estava incluído há tempos na nossa lista de passeios. Agendamos a ida para meados de março para fugir da doideira da alta estação. A vila é bem pequena e o que se vê é pousada e restaurante pra todo lado, muito buraco nas ruas e uma grande quantidade de quadricíclos chineses circulando com até quatro pessoas. Isso no seco, porque nas águas estão lanchas e barquinhos de pesca, simpáticas canoas e escunas solenes.

Sou dos que vivem à sombra, por imposição da pele muito branca. E cada vez mais, apesar de reconhecer e não dispensar a eficiência dos filtros solares e das roupas que bloqueiam os raios ultra-violeta. Por prudência, levei pedaços de bambu e ferramentas, para me divertir longe dos ambientes excessivamente ensolarados, desejados por todos. Viajamos em companhia da minha irmã caçula e meu cunhado e de mais um casal de amigos. O marido, conheço desde os tempos de moleque na Rua Madeira de Freitas, lugar das peladas mais famosas da Praia do Canto nos idos dos anos sessenta. Cidinho era o melhor de todos com a bola nos pés. Jogava morrendo de rir dos dribles que dava e dos gols que fazia. Ele também tinha fama de exímio pescador de berés. Tanto que, durante muitos anos, curtimos uma ferrenha disputa para ver quem matava mais, quem pegava o peixe maior.

A especialidade dele sempre foi a pesca de varinha de mão. A gente tirava os bambuís na encosta da ladeira do colégio das freiras e os desentortava com o calor da chama de uma vela. Desta vez, pachorrento que só e animado pelas possibilidades, ele se deu ao trabalho de ir comprar as varas lá no mercado da Vila Rubim. Escolheu as mais retinhas e firmes, como devem ser as varinhas para pegar peixes pequenos e valentes. Ele sabia que, mais uma vez, a peleja seria travada em bases acirradas, com brinde de cachaça ao vencedor e tudo o mais.

Eu, que não pesco faz tempo, teria a oportunidade de sentir novamente a vara tremendo com as beliscadas na isca, de dar, no reflexo, o safanão que garante a ferrada e de sustentar com firmeza o bambu sendo envergado pela força do bicho puxando para o fundo. Bem sei que nessas horas não pode haver pressa nem afobação: o pescador tem que tentear o danado e, se necessário, deixar que ele leve a linha e até mesmo um bom pedaço da vara pra dentro d’água. Todos torcem para o peixe.

Pois foi exatamente assim que tudo aconteceu. Com a memória ativada pelos movimentos singulares e específicos de quem prepara uma pescaria e fica horas pescando até debaixo de chuva, me vi sentindo as mesmas emoções e tendo as mesmas atitudes de quando, há décadas, a gente se divertia com os carapaus, os bocas de velha, os sabonetes e os ariocós na ilha das Andorinhas, na Gaeta de Fora e na Pedra do Índio.

Vitória, 19 de março de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Serviços especializados

Serviços especializados

Uma casa tem sempre alguma coisa precisando de conserto. Normalmente são coisas simples, sem muita importância funcional ou estética, mas que, na convivência do dia a dia, nos obrigam a tomar providências. É porta de armário que não corre direito, é cadeira precisando de aperto, grade com ferrugem, boca de fogão entupida. Vez por outra tem mangueira de jardim furada, pé de mesa em falso, goteiras persistentes do caramanchão, grama precisando de poda e planta, de adubo. Nessa lista sem fim cabe também a faxina periódica no quartinho dos fundos, usar o jato d’água pra tirar pó de minério incrustados nas pedras do chão da entrada e nas paredes da casa e, eventualmente, de amarrar a tela que garante sombra pras orquídeas e trocar a lâmpada que ilumina a mesa lá de fora. Também não se pode deixar faltar comida para os cachorros e alpiste para os canários da terra.

Por certo, torneira pingando é situação corriqueira na maioria das casas dos brasileiros. Sobretudo se for torneira do box, que fica longe dos olhos dos moradores durante praticamente o dia inteiro. A gente só se lembra dela na hora do banho e ninguém vai interromper uma boa chuveirada para dar jeito numa mera pingação, sobretudo, se a quantidade de pingos por minuto não for suficiente para aumentar significativamente a conta de água no final do mês. É tipo do probleminha que faz a mulher reclamar diariamente e que obriga o marido a arranjar desculpas esfarrapadas e prometer que vai resolver tudo no dia seguinte.

Aliás, promessa é algo que jamais falta em situações como essa. Enrolação e falta de vergonha também. A meu favor, posso garantir que muitas e muitas vezes me vi diante de prateleiras de material de construção tentando me lembrar do que estava precisando e sair de lá sem as benditas carrapetas para a torneira do chuveiro. O fato é que com a demora em resolver o problema, a situação foi ficando crônica, a ponto de me obrigar a tomar uma providência radical: trocar as duas torneiras inteiras e acabar, de vez por todas, com as dores nos dedos dos pés, quando golpeados pela maçaneta de metal que vez por outra caía no chão por falta do parafusinho que a mantinha no devido lugar. Em agradecimento, recebi um “até que enfim”.

Homem prevenido, tenho um pequeno armário com um pouco de tudo: barbantes, fio urso e linhas variadas, colas, parafusos e pregos de todo tipo, fitas isolante, fita crepe, arames de aço, fios de nylon, arruelas, prendedores, além de pedaços de couro, de câmara de ar de bicicleta e uma grande quantidade de coisas inservíveis, como se fala no serviço público. Tudo de grande utilidade para fazer reparos emergenciais e magaivices variadas. Devo deixar claro que tenho medo de choque. Até conserto fio de abajur e de ferro de passar roupa, mas quem quiser que faça os devidos testes. Em eletrônica, sou zero à esquerda. Uma limitação grave, na medida em que as casas foram incorporando equipamentos recheados de sistemas digitais, incluindo os computadores e os aparelhos de TV e de ar condicionado e os portões automáticos acionados por controle remoto.

Não tenho explicações, mas sei de muitas casas que nem martelo têm e, muito menos quem serre, aparafuse e remende qualquer coisa. Talvez por isso sempre encontro cartões de técnicos e de empresas oferecendo serviços de reparos em geral na nossa caixa de correios. Outro dia uma amiga me contou, feliz da vida, que havia contratado um desses “maridos de aluguel” e ele resolveu, praticamente, todos os problemas que havia no seu apartamento.

Vitória, 05 de março de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA