Lamacento

Lamacento

Nesta semana estamos vendo fotos da lama da Samarco invadindo o Oceano Atlântico na foz do Rio Doce. O embate das águas gerou imagens de grande impacto, com o mar dando clara demonstração de resistência contra um poderoso inimigo. Visto de cima, o amarelo escuro da lama de minério de ferro ao lado do verde claro do mar mais parece um pedaço da bandeira brasileira. A alteração das cores me fez pensar que já entregamos o nosso ouro e já derrubamos as nossas matas e que, faz tempo, estamos deixando que levem nossos minérios, contaminem nossas águas e poluam o nosso ar, impunemente.

Aprendi que a lama tóxica, em contato com a água salgada, sofre um processo de espessamento da sua densidade, criando uma espécie de película muito resistente, uma parede de cima a baixo, que funciona como um verdadeiro divisor de mundos. É um fenômeno natural denominado de floculação, similar ao que é induzido, com o uso de cloro e outros produtos, para acelerar a decantação em piscinas e estações de tratamento de água e de esgoto. Por ação dos ventos e das correntezas, a barreira vai se expandindo e o que for mais pesado vai se depositando sobre uma lama rica que existe no fundo, própria das áreas próximas às bocas de rio, sendo que a da Rio Doce tem uns quarenta quilômetros mar a dentro e quase cem, ao longo da costa. Só Deus sabe por quanto tempo esse material tóxico ficará lá embaixo e quais os danos que trará para a vida marinha naquela região. De uma coisa eu sei: é exatamente ali que vivem os camarões da nossa moqueca.

Vinte dias após o rompimento da barragem da Samarco, ainda estamos sem informações confiáveis sobre seus reais impactos. Pior do que isso, me preocupa ver gente qualificada emitindo opiniões que minimizam a amplitude da tragédia e as obrigações dos seus responsáveis, forjando versões que confundem e enganam a população e alimentam os conformistas e os aduladores de plantão. Cito alguns fatos que foram noticiados pela imprensa: um professor da UFES afirmou que a lama não é tóxica, podendo ser tratada normalmente para consumo; um cientista da UFRJ se apressou em dizer que a mancha de lama tóxica não ultrapassaria quatro quilômetros ao norte da foz do Rio Doce e outros seis ao sul, conclusão prontamente alardeada pela ministra do Meio Ambiente; fotógrafo famoso, enaltecendo a preocupação ecológica das mineradoras, tem insistido que é possível salvar o Rio Doce a partir da recuperação das nascentes, tese já incorporada ao discurso do presidente da Samarco; o presidente da Assembleia Legislativa disse que a Samarco deve ser vista também como uma vítima da tragédia.

A realidade vem derrubando muitas das teses convenientes e oportunistas como essas, sejam elas de interesse político, financeiro ou do marketing pessoal ou empresarial: em Colatina, o Ministério Público confiscou as análises que fundamentaram a captação da água do Rio Doce; após três dias de despejo, a mancha de lama já tem quase quarenta quilômetros ao longo da costa e uns dez na direção leste, fazendo crer que poderá atingir as franjas de Abrolhos, no mar de São Mateus; bom seria que o fotógrafo tivesse registrado essa tragédia com suas lentes poderosas, mas não se falou na complexidade e nos custos da dragagem da lama nos seiscentos quilômetros de rio nem na limpeza das suas margens; vitimar a Samarco me fez relembrar do julgamento de um facínora que havia assassinado a própria mãe, no qual o advogado de defesa, com a voz embargada, implorou aos jurados: “ Senhores, tenham pena deste pobre órfão!”.

Vitória, 25 de novembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Bolsa de pescaria

Bolsa de pescaria

Para que não surjam eventuais reclamações, informo que esta crônica é uma continuação da anterior, na qual comecei a contar uma história verdadeira de pescador, de um avô impelido a levar seus netos para pescar. Nela, relatei a saída para comprar varinhas de bambu e as dificuldades em encontrar a minha velha bolsa de pescaria, pela qual tenho estima equivalente àquela que dedico ao armário onde guardo ferramentas e bagulheira em geral e à gaveta da mesinha de cabeceira, onde vou guardando, instintivamente, passagens de avião, tickets de show, moedas estrangeiras e coisas afins, próprias para servirem de ativadores de memória. A tal bolsa não chega a ser algo de valor, mas posso garantir que teve grande serventia em dezenas de pescarias em praias e rios.

Contei que, depois de muita procura, fomos achá-la dentro de um baú de madeira, junto de duas cordas de couro que nunca foram usadas, um arreio de cavalo da herança de família e caixas de livros sobre as colheres de bambu. Pois lá estava ela, de prontidão, repleta de objetos com os quais tenho total familiaridade, sobretudo os meus molinetes: um Paoli azul, o mais robusto, um japonês que recolhe a linha com muita rapidez, além de dois bem pequenos, próprios para pegar beré na arrebentação. Quase um troféu, protegida por uma sacola feita de perna de calça Lee, a velha carretilha Pen 250 que papai trouxera dos Estados Unidos em 1953 e que está comigo desde 1962, quando ele morreu. Afonso ficou com uma outra, maior, que também funciona perfeitamente até hoje. Os molinetes franceses aposentaram as carretilhas de eixo horizontal. São bem mais fáceis de usar, porque a linha não embaraça quando o lançamento é feito sem a devida maestria. Posso garantir, por experiência própria, que desembaraçar uma “cabeleira” de linha fina exige muita paciência, mas era o preço para poder continuar pescando.

Fui colocando sobre a mesa, tudo o que tirava: um pedaço de pano para limpar os dedos, linha e agulha (enferrujada) para costurar, cordinhas de sisal, pavios de lamparina, rolinho de fio de tucum (fortíssimo), dois pedaços de cano de PVC, usados para sustentar as varas na areia, chumbadas de todos os tamanhos, pedaços de arame de alumínio e uns pouco metros de fio de aço inox bem fino para fazer cabresto para baiacu, cujos dentes cortam qualquer linha de nylon. Em uma sacola de pano amarrada na boca, o material para pegar robalos e tucunarés graúdos: colheres de metal com anzol no centro e algumas rapalas dotadas de garateias mortíferas.

No fundo da bolsa, no lugar de sempre, a caixinha de alumínio, daquelas usadas como marmita, ainda amarrada com uma tira de câmara de ar. Dentro dela, anzóis e destorcedores grandes, fio de aço bem grosso, passadeiras para vara de arremesso e o meu velho canivete de escoteiro, que além de lâmina, serrinha, abridor de garrafa e sacarrolha, tem também garfo e colher. Em uma das bolsas laterais, por baixo de um sabonete já quase no fim, encontrei uma caixinha com duas bisnaguinhas de Noscote, com que protegi do sol as primeiras manchas do meu vitiligo. Funcionava perfeitamente mas, oleoso, era difícil de limpar. Os anzóis pequenos de que precisava estavam na caixa de plástico enfiada em um daqueles saquinhos de leite, para não abrir e esparramar tudo. Escolhi quatro anzóis mosquitos de aço inox, e um maiorzinho por puro otimismo, passei a mão no rolo de linha 50 e fui preparar as varinhas lá na fresca da varanda. A magia da pescaria começava a ganhar forma, sob os olhos atentos dos netos.

Vitória, 23 de dezembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Preparando a pescaria

Preparando a pescaria

Na quinta feira passada recebi mensagem de Cláudio, meu irmão mais novo, informando a data de sua chegada em Vitória e dizendo que gostaria de fazer uma pescaria com os irmãos, coisa que há muito não acontece. Afonso deve ter gostado da proposição e pensado que, desta vez, eu não teria escapatória. Faz tempo que ele reclama do fato de eu ter parado de pescar, de ter abandonado a nossa pequena turma de pescaria, espécie de confraria semi-aberta.

Na manhã de sábado, foi a vez de receber, ainda no portão, uma convocação irrecusável de Theo, meu neto mais velho: “vamos pescar?”. Ele disse isso com a melhor cara deste mundo, com os olhinhos brilhando e saltitando de emoção. Imagino que tenha vindo no carro pensando nisso desde soube que viria pra cá. Se, em outras ocasiões, eu tinha conseguido me safar, agora só me restou concordar e ir lá dentro apanhar a chave do carro para ir comprar varinhas de pescar. Vida de avô, como muita gente sabe, é cheia de emoções e de algumas doces obrigações.

Lá fomos nós, Manu também, para a Praia do Suá, lugar de pescadores, barcos e peixes, onde sempre se pode encontrar material de pesca. Nem bem chegamos e Theo já foi logo anunciando que foi ali que ele havia pegado um peixe, o primeiro da vida dele. Isso aconteceu quando fomos passear no pequeno atracadouro para barcos de pesca que existe perto e que, imagino, pouca gente conhece. Vendo o interesse do menino, um senhor que pescava lhe emprestou a sua varinha sobressalente. Nem bem a linha afundou, uma caratinga mordeu a isca e puxou pro fundo, até quebrar a vara. Tirar aquele peixe do mar deu um bom trabalho, um verdadeiro alvoroço, garantindo lembrança pro resto da vida.

Foi preciso entrar em três lojas para encontrar as tais varinhas de bambu. Na duas primeiras, só havia varas industrializadas, inclusive umas de fibra de carbono, caríssimas, para avós de maior poder aquisitivo e pescadores iniciantes do tipo consumidores vorazes. Usei da minha vasta experiência para escolher cinco varinhas firmes e de cabo grosso, o que facilita a pega e a sua identificação. Não sei se é do conhecimento geral, mas vara boa tem dono determinado e é de seu uso exclusivo. Pescar com vara alheia dá azar e pode até acabar em briga. Aproveitei para comprar um pouco de camarão pequeno que, sendo sábado, estava com preço de camarão VG. De volta pra casa, tentei ensinar os netos a preparar a isca: tirar a cabeça, descascar e cortar em pedacinhos, providência básica para ganhar tempo na pescaria. Só Manu se interessou.

Resolvido isso, era chegada a hora de encastoar as varas. Precisava de linha, chumbinhos e anzóis pequenos, próprios para pegar berés. E cadê que achava a minha velha bolsa de pescaria, totalmente fora de uso há uns bons dez anos? Não estava no armário do corredor, seu lugar de sempre, nem no maleiro do quarto dos meninos, espécie de arquivo morto da casa. Depois de muito bater cabeça, fomos encontrá-la dentro de um dos baús de madeira que trouxera da Paraíba. Ela me foi dada de presente por minha irmã Beatriz, para substituir uma outra, que estava literalmente no fim, de fazer vergonha. Feita de lona vermelha bem resistente, tem duas bolsinhas laterais para coisas menores e de uso mais intenso. De bom tamanho, comporta de tudo um pouco, inclusive utensílios para sobrevivência e emergências eventuais. Ela está bem surrada e nenhum dos três fechos-éclair funciona mais. Remexer o seu conteúdo foi uma viagem no tempo, o que bem merece crônica específica.

Vitória, 09 de dezembro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Passarinhos, cachorro e eleiç╞o

Passarinhos, cachorro e eleição

Depois de conseguir que o filhote de sabiá da praia comesse mamão bem pertinho do meu jornal, foi a vez de fazer com que ele, agora já taludinho, pousasse no meu chapéu sobre a mesa para comer o pedaço de mamão colocado lá como um atrativo especial. Depois de algumas tentativas bem sucedidas, resolvi colocar o chapéu na cabeça e esperar que ele ganhasse confiança. Logo depois, com boa facilidade, dei uns sete ou oito passos antes que ele se espantasse com a minha filha que filmava a cena com o seu celular.

Dia desses apanhei no chão da garagem um filhote de bem-te-vi ainda sem rabo e com a plumagem incompleta. Ele deve ter caído do ninho ou, o mais provável, fez um pouso forçado, para descansar do esforço que anda fazendo para aprender a voar. Não foi nada difícil pegá-lo. Bastou enxotá-lo para um canto de parede e usar as duas mãos com bastante cuidado. A providência se fazia necessária para livrá-lo da boca de um dos três cachorros da casa, que fatalmente o pegaria entre um pulinho e outro. Com certeza, seria um gesto natural, sem qualquer maldade, por puro interesse em brincar com algo que se move e que pia. Por segurança, deixei o filhote em um canteiro alto que existe do outro lado da rua, sob a supervisão aflita do pai e da mãe dele.

Isso me fez lembrar de Auê, um enorme fila brasileiro de uns poucos meses de idade, ainda completamente bobão e estabanado, olhando pra mim com cara de cachorro arrependido,  tão logo desci do carro. Ele parecia que nos aguardava para pedir desculpas sinceras pelo ocorrido trágico: um dos dois paturis que ganhei de presente não resistira às brincadeiras daquele cachorrão tigrado da língua enorme e olhar amistoso. Desconfiado, constatei que somente a fêmea estava no cercadinho que fizemos no canto do quintal, aproveitando a mureta da garagem. A expressão dela era de tristeza pela perda do companheiro, que só fui encontrar lá do outro lado da casa, seguindo os passos de Auê, que ia olhando pra trás enquanto caminhava em direção ao lugar em que a brincadeira com o patinho havia terminado.

Pois bem, há alguns dias vi uma sabiá voando com frequência para o fundo do quintal e, ao fazer uma rápida averiguação, dei de cara com um ninho, bem defronte da janela do meu quarto. Ele está em um galho do pé de graxa, a pouco mais de um metro do chão e a um tanto desse da parede da casa. Nele, dois filhotes esfomeados, ainda totalmente sem penas e de bico enorme, completamente desproporcional ao tamanho do corpo. Os bichos eram tão esquisitos que um dos meus netos ficou espantado e chorou quando os viu de pertinho. Para facilitar o trabalho da mãe sabiá, passei a colocar mamão na soleira da janela, bem na frente do ninho. Imagino que ela tenha apreciado a colaboração e que isso possa facilitar os meus entendimentos futuros com os seus filhotes.

Bom seria se os sanhaços, de porte parecido com o dos azulões e dos bicudos também fossem menos ariscos. De plumagem azul acinzentado, eles estão sempre em casais, em voos rápidos e mudanças bruscas de direção. Eles estão fregueses do pé de mamão papaia do vizinho, mas não permitem qualquer aproximação ou intimidade, como acontece com os canários da terra, as rolinhas e os cardeais, branquinhos de cabeça vermelha, que no nordeste são tratados por galos de campina.

Escrevi sobre passarinhos e cachorro para não falar da eleição, da qual saio com as mesmas emoções que senti quando a maioria dos brasileiros elegeu Fernando Collor de Mello para presidente do Brasil.

Vitória, 29 de outubro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Emoções eleitorais

Emoções eleitorais

Tenho passado por boas emoções nestas eleições. Já escrevi sobre algumas delas, inclusive sobre expectativas de resultados. Gosto de acompanhar a evolução das pesquisas, o jogo do pessoal de campanha. Divirto-me querendo decifrar o que passa pela cabeça dos formuladores de estratégias que tentam criar candidatos sob-medida para eleitores mais distraídos. Tenho preferido não entrar no tiroteio que acontece nas redes, mas sou forçado a dizer que tenho visto muita coisa engraçada sobre os candidatos. Tem gente realmente criativa e muito debochada. Desisti de ficar lendo acusações em geral e defesas em particular sobre candidatos e seus governos. Papel aceita tudo, era o que se dizia antigamente para anular argumentos escritos. Isso vale também pra tela do computador.

Mantenho uma troca de mensagens com um amigo distante que acredita em verdades diferentes das que eu acredito, sobretudo aquelas que se referem a candidaturas à presidência. Ultimamente ele tem dito que pesquisas eleitorais são sempre tendenciosas e que, portanto, não podem ser levadas a sério, principalmente as que constatam tendência de queda nos índices da sua candidata. Temos tido um bate-teclas amistoso, praticando um jogo de cena nem de longe parecido com o que rola na internet, onde se usa linguagem contundente e bem menos gentil.

Percebo que os ataques na rede são razoavelmente sincronizados, como que obedecendo a uma espécie de orquestração centralizada sobre o que deve ser dito a cada momento. Vejo pessoas queridas e conhecidos meus envolvidos em uma espécie de roteiro tramado lá longe. Tenho lembrado de uma frase do poeta americano Allen Ginsberg em uma tabuleta pregada atrás da porta da casa de um amigo, em João Pessoa, que dizia alguma coisa mais ou menos assim: ” Vi as melhores cabeças de meu tempo serem consumidas pela loucura…”. São os versos iniciais de um longo poema sobre a geração beat, dos anos sessenta do século passado. Bem sei que não se trata de comparar ao que esteja acontecendo por aqui, mas volta e meia me vem a sensação de que, mais uma vez, tem gente se desvairando com verdades ditadas por terceiros.

Há muito me entristeço com as atitudes de Lula no seu embate político com quem discorde de suas opiniões, critique atos desabonadores, denuncie o jogo sujo feito em proveito de interesses políticos, partidários, empresariais e tudo o mais. Nessas horas, o que se vê é negativa cabal dos fatos e, sobretudo, a desqualificação da opinião e de quem a tenha emitido. Não viu, não sabe, não existe, não aconteceu… Culpa a imprensa, as elites de olhos azuis, a oligarquia, os empresários gananciosos, a oposição reacionária e vai por aí a fora, sempre minimizando o ocorrido, negando relações de amizade e convergências de interesses. Não é necessário ser sociólogo para entender que esse tipo de atitude empobreceu substancialmente a qualidade das conversas sobre os rumos do país, gerou antagonismos entre pessoas queridas, quebrou o encanto e as expectativas de muita gente. O Mensalão resultou em prisões relevantes e a operação Lava Jato vai produzindo informações sobre fatos de extrema gravidade, capazes mesmo de provocar mudanças no quadro nacional. Lula perdeu de lavada em São Paulo, sua base política, e, no segundo turno, pode perder feio em sua terra natal, marcando o fim de um ciclo.

É bem verdade que o país deu grandes saltos em muitas áreas nas últimas décadas, mas será muito bom poder viver os próximos tempos sem sentir que tem gente poderosa tentando, sistematicamente, fazer você de bobo.

Vitória, 15 de outubro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Semana agitada

Semana agitada

Com a chegada das duas filhas que moram em São Paulo, a família viveu uma semana movimentada e cheia de boas emoções. A mais velha veio trazendo uma bela e expressiva barriguinha de cinco meses para ser exibida e festejada pelos amigos e parentes daqui. Um concorrido chá de fraldas encheu a nossa casa de gente falando alto, rindo de tudo, comendo esfiha profissional, bebendo suco natural, suspirando com a palha italiana feita por tia querida. Passada a canseira da festa, resolvida a compra de dólares em tempos de câmbio nervoso, viveu-se a correria da preparação das malas para filha e mãe, animadíssimas, irem passear em Nova York.

A filha do meio, por sua vez, veio trazendo na bagagem dezenas de desenhos originais que ilustraram capas de livrinhos de aventura, para a exposição As Mulheres de Benicio. Neles, sempre em poses sensuais, Brigitte, uma belíssima morena de olhos azuis, aparece enrolada em um enorme serpente, deitada na areia da praia sem a parte de cima do biquíni, segurando uma pistola esfumaçante ou subindo uma escada em vestido longo de decote generoso e grande abertura lateral. Acho que eram dela as únicas imagens de mulheres semi-nuas disponíveis nas bancas de revista de todas as cidades brasileiras nos anos sessenta e setenta, quando não existia a atual fartura de revistas de mulher pelada, sempre expostas na altura dos olhos de quem passa pela calçada. A tirar pelo que se viu na abertura da mostra, a figura daquela heroína insinuante frequentou os sonhos de juventude de muitos dos marmanjos sessentões de hoje.

Sem alternativa, tive que aceitar a intimação familiar para participar de um workshop sobre criatividade, tendo como mote de instigação a construção de um tal diário gráfico. Foram duas tardes inteiras do fim de semana fazendo colagens com pedaços de revista, pintando sem qualquer rigor o que havia feito, cortando tudo em formato de página dupla, montando pequenos cadernos para serem furados no dorso e costurados à mão. No início, fiquei constrangido em meio a tanta gente muito mais nova do que eu, inclusive um filho e uma neta, mas acabei entrando na brincadeira, sob estímulos do ilustrador Renato Alarcão, de Niterói. Terminada a oficina com papeis, já noite do domingo, fui direto para a cozinha para, sob luz de vela, finalizar o arroz de polvo que havia começado a preparar na parte da manhã. Era a peça de resistência das comemorações dos aniversários da filha do meio e da minha irmã caçula. Haja boca para rir e falar, haja boca para beber e comer.

Aprendi, na prática, que as dúvidas bloqueiam as providências e as incertezas atrasam os acontecimentos. Preparar uma exposição sempre dá frio na barriga e muita canseira. Pois foi em meio à agitação de casa cheia, que consegui juntar mãe e filhas para definirmos os detalhes do projeto da exposição das colheres de bambu que montaremos no mais antigo museu de design que existe, agora em novembro, em Winterthur, pertinho de Zurique. Resolvido isso, foi possível começar a selecionar as centenas de peças que levaremos na bagagem.

Para relaxar, passei as manhãs da semana tentando amansar de vez o casal de sabiás da praia e os seus dois filhotes que nasceram no buganvília que cobre o muro. Acreditando no sentimento de proteção próprio das mães, fui trazendo, progressivamente, os pedaços de mamão madurinho pra perto de mim. Em três dias, os esfomeados já estavam comendo o mamão colocado em cima da mesa, enquanto eu fazia de conta que lia o meu jornal. Tenho fotos que comprovam a nossa amizade.

Vitória, 01 de outubro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Viva Vitória !

Viva Vitória!

Vitória, que completou 463 anos de fundação, vive uma espécie de esplendor. A cada dia mais colorida, limpa e arrumada, a cidade transmite a impressão de estar sendo bem cuidada pelos que são pagos para fazê-lo e pela população que nela mora e trabalha. Essa impressão ficou mais evidente ao levar velhos amigos paraibanos para passear. Já se foi o tempo em que eu tentava esconder o descaso com lugares públicos localizados em pontos de passagem obrigatória. Lembro-me de uma conversa que tive a esse respeito com um candidato a prefeito, há muitos anos. Sugeri que considerasse, como referência nas suas decisões, a necessidade de fazer com que o cidadão sentisse orgulho da sua cidade.

Com o trânsito cada vez mais complicado, tenho aproveitado as esperas nos sinais, muitos deles com cronometro, para olhar com calma a paisagem urbana, avaliar o piso das calçadas, observar o novo padrão das placas indicativas e de sinalização, vistoriar a manutenção dos jardins e gramados e as condições dos pontos de ônibus (agora sem cartazes de cartomantes), conferir a demarcação das pistas para bicicletas aos domingos e feriados e o uniforme dos guardinhas municipais, avaliar o serviço de varreção de ruas e calçadas e assim por diante. Posso garantir que estou satisfeito com o que tenho visto. A consciência do que se tem e do quanto a coisa melhorou é condição indispensável para fazer brotar a sensação de conquista e de apreço coletivo. Bem sei que o pessoal trabalha com a expectativa de que o reconhecimento se transforme em voto certeiro, no momento devido. O fato é que, felizmente, há o que comemorar. Em tempo de aniversário a festa se justifica.

Não sei se você reparou, mas a semana passada foi rica em acontecimentos que bem expressam os tempos que se vive aqui em Vitória. Na enseada da Curva da Jurema, um campeonato de canoa havaiana e de pranchas fez muita gente sair de casa para ir ver de perto o pessoal remar com convicção, em sincronia, feliz da vida. Confesso que senti uma certa inveja. É que remar em canoa me remete aos tempos de juventude, que já vão distantes. No fim de semana, o Centro da cidade ferveu com a realização do Viradão Cultural, um projeto ousado que mobiliza, provoca e distrai muita gente. A época de desapreço por suas ruas apertadas vai dando lugar a um sentimento de rebeldia contra a lógica perversa do crescimento urbano. Ganha força um movimento que valoriza e transforma região da Rua Sete e adjacências em uma barulhenta e colorida trincheira. Foi bom saber que as principais atividades do Vitória Cine Vídeo seriam realizadas no Teatro Carlos Gomes, uma ótima casa para receber quem gosta e quem faz cinema. Vejo que escrever isso também me remete ao passado. Era no Centro que funcionavam os cinemas, aconteciam as domingueiras e os bailes de gala, os desfiles escolares da infância, os trotes de vestibular, as passeatas e onde se bebia cerveja gelada discutindo costumes e política, noite a dentro.

Vi nas colunas sociais que muita gente foi assistir a apresentação de uma famosa companhia russa de balé clássico, com cenário montado num antigo ginásio de esporte. Soube por uma amiga que, também na semana passada, aconteceu por aqui, com grande sucesso, um simpósio de epidemiologia, com de mais de dois mil participantes, vindos de todos os cantos do país. Ela comentou, satisfeita, que os visitantes adoraram Vitória. Isso me fez lembrar de Carmélia entrando na varanda do Britz Bar, saudando os amigos com o seu conhecido grito de guerra: “Viva o Simpósio!!!”.

Vitória 17 de setembro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sorriso de Marina

Sorriso de Marina

Um conhecido meu, desses de longa data, me disse que encontrou com Marina Silva no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de janeiro. Encontrou é forma de dizer: a viu passando pelo saguão, em direção ao portão de desembarque. Ela andava com passos firmes rodeada de assessores, seguida de perto por um pequeno batalhão de fotógrafos, cinegrafistas e repórteres. Aparentando ter pressa, ainda assim ela cumprimentava, com um balançar de cabeça e acenos de mãos, as pessoas que ia encontrando pela frente. Fazia isso de forma bem comedida, sem a simpatia exacerbada, própria dos políticos em campanha.

Ele me contou que, pego de surpresa em meio ao pequeno alvoroço que se estabeleceu,  retribuiu o sorriso discreto que recebeu dela ao passar ao seu lado. Sendo ela uma mulher bem miúda, ele precisou olhar para baixo para cumprimentá-la. Sendo ele um homem muito alto, imagino que ela precisou olhar para cima para encontrar os seus olhos. Um encontro fugaz entre um eleitor indeciso e uma candidata em ascensão vertiginosa nas pesquisas eleitorais. Ele é, talvez, a única pessoa que conheço que já tenha se encontrado pessoalmente com Marina. Pelo que me disse, ela deve ter percebido que não conseguira encantar aquele homem meio espantado que a olhava criticamente. Acho mesmo que ela já esteja acostumada com esse tipo de gente. E imagino que já tenha aprendido que, diferentemente de Eduardo Campos, ela nem sempre consegue estabelecer uma relação de empatia, de amor à primeira vista, com a maioria das pessoas.

Sei de muita gente que tem assistido suas entrevistas na TV, visto suas imagens em comícios e em reuniões com políticos e, mais recentemente, em caminhadas por ruas estreitas. Muita gente tem tido a oportunidade de vê-la com um sorriso aberto no rosto, surgido, talvez, da satisfação em se saber escolhida por um grande contingente de brasileiros que votarão nas próximas eleições. Imagino que tenha chegado à conclusão de que, depois de tanto batalhar, de enfrentar desvantagens e de fazer cara feia, já é possível começar a sorrir. O semblante totalmente sério, marcado por uma testa franzida, sobrancelhas arqueadas, olhar incisivo e uma boca triste, parece que já não cabe mais. É chegada a hora de se mostrar simpática, amistosa e agregadora.

Pelo que leio nos jornais e na internet, pelo que converso com amigos, a campanha eleitoral entra em uma nova fase a partir de agora. Passados os fortes impactos provocados pela tragédia, amainadas as fortes emoções e superadas as surpresas, é chegada a hora do preto no branco, do vamos ver. Passado o susto, constatados os estragos, fica-se com a impressão de que, daqui pra frente, vão entrar em uso a força das denúncias, a consistência das cobranças por coerência, a contundência da lei dos mais fortes, o poderes da intriga e a efetividade das armações ardilosas.

Fico tentando imaginar as reuniões nervosas de avaliação de cenário e de reformulação total das estratégias da campanha de reeleição que devem estar acontecendo em palácios, repartições públicas e residências oficiais. Assessores aloprados dando palpites impublicáveis, especialistas querendo mostrar serviço e profissionais de bom senso tentando abrandar a excitação e amenizar os ímpetos dos que preferem partir pro pau. Agora, pelo que sei, a palavra de ordem é desconstrução de imagem e a estratégia de campanha bem mais delicada: atacar a candidata Marina que, finalmente, encontrou uma boa razão para sorrir, porém sem vitimizá-la, para não entornar o caldo de vez.

Vitória, 03 de setembro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Substituição de última hora

Substituição de última hora

No rádio do carro, ouvi notícia sobre um acidente de helicóptero em Santos. Na TV, logo depois, as vi imagens da tragédia com um avião. A confirmação de que Eduardo Campos estava a bordo junto com assessores me fez pensar na vida e na força do acaso.  Havia acompanhado a entrevista dele no Jornal Nacional e tinha ficado com uma boa impressão. Me pareceu uma boa pessoa, que respondia com simpatia e convicção sobre temas delicados. Mostrava-se preparado para a disputa e seguro de que a sua votação subiria durante os dois meses de campanha.

As imagens do lugar do acidente, as declarações dos bombeiros e de moradores não deixavam dúvida sobre as dimensões da tragédia. Todos estavam estupefatos, ninguém tinha explicações. Passei horas assistindo as mesmas cenas, sempre tentando encontrar alguma coisa reveladora, alguma informação que ajudasse a entender as causas da queda daquele avião de última geração. Possivelmente um urubu teria entrados na turbina ou um desses pequenos drones que estão voando por aí.

Declarações de cansaço publicadas na internet fizeram pensar em falha humana, em desorientação e tudo o mais. Vi uma senhora magrinha, com sotaque de portuguesa, dizendo ter visto o avião vindo dos céus, pegando fogo. Ela me pareceu uma pessoa confiável. Vi um senhor dizer que uma das turbinas estava em chamas. Declarações oficiais quebraram as expectativas de muita gente: os diálogos entre os pilotos durante aquele curto voo entre o Rio de Janeiro e Santos não haviam sido gravados, por razões desconhecidas. Ouvi, também, suspeitas de sabotagem. Técnicos do fabricante do avião chegaram de longe para acompanhar o trabalho de perícia. Fiquei com a impressão de que jamais saberei alguma coisa sobre as causas do acidente.

De uma coisa ninguém duvida: o acidente mudou completamente o ambiente político do país e deve ter desdobramentos relevantes nas eleições presidenciais. Os resultados de pesquisas de opinião divulgados no começo desta semana já mostram os primeiros impactos sobre o que se mostrava líquido e certo, e deixando os analistas políticos estão em polvorosa. A impressão que tenho é a de que a morte de Eduardo Campos pode criar um ambiente propício ao surgimento de uma liderança, de um estadista capaz de alterar radicalmente o rumo das coisas. A indignação que invadiu as ruas no ano passado ainda está presente na alma de muitos brasileiros insatisfeitos e desgostosos, passível de ser mobilizada. Não sei se Marina seria capaz de cumprir o papel de catalizadora das expectativas da maioria dos eleitores nessas eleições e, caso seja eleita, se teria capacidade para transformar descrença em disposição para melhorar o país.

Nesse processo de dores e incertezas, pude conhecer a figura de Dona Renata, uma mulher que transmite firme disposição para enfrentar dificuldades que surgem. No velório, ela abraçava os filhos com muito carinho e serenidade, demonstrando que os quer ao seu lado, de pé e olhando pra frente, porque a vida segue. Bem sei que, hoje em dia, poucas mulheres se aventuram a ter cinco filhos e a deixar à mostra seus cabelos grisalhos. Disseram que era uma atenta conselheira do marido. Acho que foi por essas e outras que muita gente chegou a sonhar em vê-la ao lado de Marina Silva, disputando as eleições. Duas mulheres de personalidade forte, de origens e religiões diferentes, metidas na política até os últimos fios de cabelo, cada qual a seu modo. Uma chapa liderada por uma guerreira destemida segundada pela mãe dos muitos órfãos de Eduardo Campos.

Vitória, 20 de Agosto de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Normalidade aparente

Normalidade aparente

Passei os olhos no jornal de segunda-feira em busca de novidades. As notícias de crimes eram as de sempre, variando apenas a quantidade de tiros e de facadas, a idade do morto, a relação com o assassino e o local do acontecido. Quanto aos acidentes nas estradas, os registros eram parecidos com os de edições anteriores: as variações ficaram por conta do tipo de veículo, quantidade de feridos e vítimas fatais, os motivos da viagem, se o motorista estava embriagado ou se perdeu o controle da direção, se a batida foi frontal ou se o carro saiu da pista e caiu na ribanceira.

No lado dos esportes, livre das imposições da Copa, o noticiário mostra que as competições vão se realizando normalmente. Ganha destaque o sucesso do meu Fluminense, que encosta no líder do Brasileirão em ótimas condições para chegar na frente. Melhor do que isso, reafirma que o Flamengo volta a segurar a lanterna com firmeza e convicção. No canto da página, a notícia sobre o sucesso das nossas meninas do vôlei lá na Itália. Elas aparecem rindo e abraçadas, de olho na lente da câmera, como que querendo compartilhar a alegria com os parentes e os amores que deixaram por aqui. No fim de semana assisti duas partidas pela TV e posso afirmar que, alem de bonitas, elas formam um time coeso de atletas danadinhas, aguerridas e determinadas. Não vi ninguém chorando de medo.

No campo da política, encerrado o período de troca-troca e das negociações de apoios, já aparecem as tradicionais imagens de candidatos em feiras-livres abraçando feirantes e fregueses e as de políticos de braços para cima, de mãos dadas, sorrindo para os fotógrafos em reuniões nas cidades do interior. Embora as matérias tentem destacar os chamados diferenciais de cada candidatos, um fato chama atenção: a preferência que eles têm pelo azul. Não sei se o leitor já reparou, mas a maioria dos políticos veste camisa azul quando em campanha. Muito provavelmente para sair bem na foto. Imagino que tal preferência encontre fundamento na psicologia dos eleitores desconfiados. Algum marqueteiro famoso deve ter estudado o assunto e concluído que o azul claro tem o poder de criar uma espécie de aura de credibilidade no candidato. Também se pode ver que são muitos os candidatos usando paletó, mas sempre sem gravata. Talvez façam isso na expectativa de passar a mensagem de que são homens sérios e, ao mesmo tempo, descontraídos. Poderosos, porém acessíveis.

Como era de se esperar, o noticiário com denúncias que envolvem candidatos em ascensão e autoridades governamentais engrossa e se renova. Praticamente não fala mais em aeroporto nas terras do candidato de oposição, mas mostra contra-ataques ao pessoal que está querendo ficar mais um tempinho no poder, destacando a nomeação de esposas de companheiros para empregos-fantasma com salários gordos em entidade patronal e retoma o escândalo da compra de refinaria americana pela Petrobras. Desta vez, colocando luz sobre uma encenação deslavada ocorrida na CPI do Senado, na forma de depoimentos previamente combinados de dirigentes da empresa, visando engambelar os resultados da investigação.

Tudo isso me faz antever o que vem vindo nessa campanha eleitoral: o tiroteio será intenso e com chumbo grosso, as denúncias serão frequentes e ardilosas e a gana visceral pelo poder será fator determinante das estratégias e dos comportamentos dos candidatos. Digo isso porque aprendi com a sociologia que os homens se movem por vontade de ganhar e, sobretudo, pelo medo de perder.

Vitória, 05 de Agosto de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA