Em terra e no mar

Em terra e no mar

Pelo que pude ver, muita gente sente saudades dos tempos que os apelidos não eram bullyng. É que recebi reclamações por não ter mencionado Abelha Rainha, Baianinho, Bebeu, Bibelô, Bibinha, Biriba, Bitiza, Boca de Velha, Boião, Boquinha, Bororô, Bossa Nova, Bridadeiro, Brigite Barbante, Bruaca, Brucutú, Bustrica, Cação, Cachaça, Caluca, Canário Belga, Capoteiro, Caranguejo, Careca, Caticôco, Catita, Chico Banha, Coelhinho, Dadau, Deixa que eu Chuto, Dr. Bezerro, Escambau, Esperança, Narigão, Gasolina, Hortelino Trocaletra, Ico Penico, Jagolê, Japira, Jiboia, Kinkas, Leléo, Macarrão, Maneco, Tomba-Homem, Marreta, Melau, Memente, Miluth, Monovo, Muito Pesado, Nena, Neneu, Neneua, Corôa, Chôco, Sabiá, Tora, Pelota, Peroal, Pica, Piloto, Piluta, Pipila, Pipoca, Pirica, Poró, Pulú, Quadrado, Queixo de Velha, Robeci, Ronaldo Beleza, Seis e Meia na Praça, Sobrado Velho, Squiff, Suvaco Ilustrado, Tobinha, Tuzoca, Zé Pequeno e Zé Queca.

Devo dizer que também guardo na memória nomes de barcos de cenas antigas de bairro à beira mar: Nega Maluca, Bacanau, Canadense, Tan Tan, Aspirante, e Cavalo Doido. Foi com eles que velejei, pesquei e remei, sempre em companhia de gente amiga. Essas lembranças chegaram com mais força ao tomar coragem para remar canoa havaiana, depois de acompanhar, sempre com inveja receosa, amigos e parentes fazendo alongamento na areia da praia, empurrando canoas para o mar, embarcando nelas quando começam a flutuar e dando as primeiras remadas sob a orientação de profissional satisfeito com o trabalho que escolheu para viver.

Já fui remar três vezes. Na primeira, mais aprendendo do que fazendo força, fomos até a Gaeta de Fora, com mar revolto. Na segunda, em águas calmas, contornamos a ilha do Frade sem qualquer dificuldade. Na outra, seguimos rente à Ponta Formosa, até a ilhota de pedra em Camburi. A nossa canoa entra no mar lá pelas seis e meia da manhã. Nestes tempos de inverno, o sol está bem baixo e os ventos nem começaram a soprar, deixando as águas espelhadas. A paisagem enche a vista e anima o espírito do remador.

As canoas havaianas têm uma mística. Talvez porque vêm sendo usadas há milênios pelos povos da Polinésia para ir de uma ilha a outra e enfrentar grandes distancias por mares desconhecidos. Elas surgiram na cidade há uns sete anos, logo depois que chegaram ao Brasil. Seu casco é longo e estreito. As maiores têm 6 bancos. Para garantir estabilidade, um flutuador sustentado por duas peças curvas de madeira é acoplado à canoa. É comum amarrarem duas delas, formando um catamarã. Na proa, um remador experiente dita o ritmo das remadas e quem está no banco três comanda as mudanças de bordo. Sentado na popa, o responsável pelo rumo da embarcação, usa o remo como leme e vai repetindo palavras de ordem como mantra: vai canoa; rema junto; canoa remo lá na frente; agora seis passadas fortes; potencia e cadência … Com os movimentos em sincronia, a canoa navega suavemente e em boa velocidade.

Ainda não me acostumei com as remadas curtas e rápidas usadas nesse tipo de embarcação que, dizem, têm maior eficácia. No Canadense as remadas eram longas. Tenho prática em fazer exercício respeitando os meus limites, que mudam de dia para dia. Para quem, como eu, tem coração prejudicado, o esforço deve ser moderado e progressivo. Na canoa, a variação na intensidade das remadas e a alternância sistemática do bordo de ataque proporcionam boa distribuição da carga do exercício, tanto que até agora a musculatura não reclamou nem sento o peito doer.

Vitória, 08 de julho de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Passeios de família grande

Passeios de família grande

Hoje em dia falar em ter muitos filhos espanta os mais novos. Talvez pela trabalheira que dá, pelo preço das coisas, pelo tamanho dos apartamentos, pela vida que os pais levam, ocupadíssimos com estudos e muito trabalho. Sou de um tempo em que as famílias, sobretudo as do interior, eram numerosas. As minhas duas avós tiveram um total de vinte e três filhos, dos quais uns quinze chegaram à idade adulta. Lá em casa somos cinco irmãos e aqui temos três meninas e dois meninos, já bem criados. Pai de tantos, nos anos oitenta achei por bem comprar um ônibus, desses bem grandes, para passear com a família por esse Brasil afora. Montamos uma espécie de moto-home caseiro, com cama para mais de dez, cozinha, banheiro, sofá, duas mesas, poltronas para dezesseis e poleiro para Aurora, a arara da família. Deu muito certo. O pessoal tem ótimas lembranças e, vez por outra, alguém pergunta quando vou comprar outro, para levar a família inteira para viajar.

Quando voltávamos da Paraíba, marcamos com três casais de amigos de nos encontrarmos em Cumuruxatiba, na Bahia, recém-descoberta pelo mundo do turismo. Fizemos um acampamento à beira mar, pra marmanjo nem menino algum botar defeito. Vinte anos depois voltamos lá, em três carros lotados. Alugamos uma casa enorme, do tipo sede de fazenda, com muitos quartos, salão central, cozinha grande, varanda em três dos lados, gramado diante do mar, coqueiros e mangueiras. Isso, sem contar com as goiabeiras e os pés de cana caiana do vizinho. Foi um tempo de comer peixe frito e camarão no bafo, tomar água de coco, chupar manga espada docinha, tirar soneca na rede, curtir fogueira, caminhar na areia dura da praia, beber cerveja, além de fazer muita colher. Foi lá que Manu, ainda bebê, forçou o aprendizado materno, paterno, de tios e avós.

Neste último fim de semana gordo, conseguimos juntar quatro dos filhos, dois genros, duas noras e seis netos. Só faltou Bebel, cheia de compromissos, morrendo de inveja. A convite de família amiga, passamos quatro dias num sítio de uma capixaba que vive longe, mas mantém, por sabedoria, um pé na região do Alto Caxixe. Da parte elevada do terreno, vê-se de um lado o Forno Grande, com seu formato de vulcão silencioso e, de outro, um lagarto tentando subir a encosta quase vertical de um enorme maciço rochoso. Céu azul, muita luz e pouco vento garantem a sensação de se estar pertinho do céu. Na parte baixa do terreno, uma casa muito peculiar, com um salão aberto, convida ao ócio e à realização de atividades variadas, inclusive a de fazer colher sem se preocupar com as lascas de bambu. Na parte da frente, diante de um laguinho vigiado por dois gansos atentíssimos, instalaram uma mesa enorme de madeira grossa, que comporta quatorze pessoas comendo, falando alto, rindo de bobagens, como convém nessas ocasiões.

Uma friaca danada demandou roupa pesada e estimulou goles fartos de vinho, de rum caribenho que ganhei de presente, de cachaça sem rótulo que levei. Um forninho serviu de lareira enquanto assava pizzas noite adentro. Os nossos seis netos fizeram festa à parte. Manu, a mais velha, praticou seu grande interessa pelas plantas e bichos, Theo desenhou tubarões de todos os tamanhos, Alice dançou balé, Gael, sempre de boné, chutou bola para todo lado, Gabriel não parou de jogar pedrinhas no lago, para o desassossego da mãe e Joaquim, o nosso Quinquim, olhava tudo com olhos esbugalhados, distribuindo sorrisos de criatura feliz. Posso garantir que tudo está registrado nos celulares da família.

Vitória, 10 de junho de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Utilidades do apêndice

Utilidades do apêndice

Passei os últimos dias por conta de um apêndice. Desses inflamados, que precisam ser retirados o mais breve possível para evitar complicações. Depois de noite mal dormida e de ter acordado com uma dorzinha persistente no lado direito da parte baixa da barriga, achei prudente procurar por socorro da medicina. O incômodo que sentia não era alarmante, mas uma indicação segura de que alguma coisa não estava indo bem. Nessas alturas da vida, tenho acumuladas algumas experiências nessa área: uma inesquecível aventura coronariana, uma retirada, a toque de caixa, em plena madrugada, de vesícula cheia de pedrinhas e uma operação, postergada ao máximo, para acabar com uma hérnia inguinal. Lá na infância, tomei anestesia para engessar um braço quebrado por imprudência e, em pleno verão de juventude, tive que ir a um pronto socorro para costurar um talho no queixo, aberto por uma raquetada de frescobol.

Tem muita gente que vai ao médico como quem vai ao cinema. Basta uma simples desconfiança de uma não conformidade e lá estão eles esperando a vez de serem atendidos, dando o braço para tirar sangue, abrindo a camisa para o exame de ultrassom. Confesso que ao tempo que os critico, sinto certa dose de inveja da coragem com que buscam respostas para suas suspeitas eventuais. Não estou me referindo aos hipocondríacos e maníacos por saúde perfeita, que são poucos e, portanto, pontos fora da curva. Falo das pessoas que procuram um profissional da medicina com naturalidade, ao menor sinal de disfunção na barriga, nas pernas, braços e ombros, nas costas ou na pele. Os planos de saúde facilitaram o acesso aos mais diversos e sofisticados recursos de diagnóstico, de avaliação e de cura. Paga-se o preço, mas é muito bom saber que as facilidades existam e que estejam ao alcance.

Marcada a consulta para o comecinho da tarde, fui atendido por profissional recomendado, coberto de simpatias e cheio de certezas, tão logo apalpou a minha barriga com grande prática em diagnosticar apêndices problemáticos. O método é bem simples: aperta-se a região dolorida, aos pouquinhos, até bem fundo, e solta-se a pressão repentinamente. O que até então era uma dor difusa e perfeitamente suportável se transforma em uma dor aguda, muito forte, que rapidamente se dissipa. Repetindo o teste, a confirmação do problema é praticamente infalível. Um exame de ultrassom garantiu a prova formal da situação, indicando a próxima providência: retirada obrigatória do apêndice inflamado, com relativa urgência.

Assim, no início da noite, lá estava eu na recepção de um grande hospital em busca de atendimento, tendo uma malinha com roupa e escova de dente no porta-malas do carro. Daí pra frente, a coisa seguiu um processo rotineiro, etapa por etapa, sempre adiante, passando por registro, exames de sangue, internação e confirmação da cirurgia para a manhã seguinte. Dito e feito. Ali pelas duas da tarde, voltei de maca pro quarto com dois furinhos na barriga e umbigo refeito e no dia seguinte já estava em casa para o almoço. Nada de voo cego nem de correrias.

Acumulei um pouco mais de experiências com períodos de convalescência, incluindo momentos de euforia, arrependimentos por imprudências cometidas, dores novas e incômodos difusos, compressas com toalha aquecida no forno micro-ondas, comidinha de doente, muitos remédios, além da curiosidade receosa dos netos, da solidariedade de amigos e de muito dengo do pessoal de casa. Confirmei que esse é um tempo propício para rever o filme da vida e para refazer contas inteiras.

Vitória, 13 de maio de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vai, que dá!

Vai, que dá!

A manchete de terça feira deste jornal alardeia um fato histórico: “Morador ganha indenização por causa do pó preto”. O lead detalha o acontecido: “Justiça deu ganho de causa a uma família de Anchieta que processou a Samarco. Valor passa de R$ 14mil”. A matéria informa que, em 2003, um morador do balneário de Ubu conseguiu um acordo com a empresa para que ela pagasse a pintura da sua casa, suja pelo pó de minério de ferro. Dinheiro pouco, mas extremamente significativo. Segundo o advogado da família, a empresa alegou que a liberação do pó preto teria sido um caso esporádico, o que sabemos todos se tratar de uma tremenda balela, uma conversa para boi dormir. Imagino que, depois de conseguir o reconhecimento de responsabilidade, ao advogado restou comprovar que o pó preto voa diariamente, seja em direção ao norte, quando o vento vem do sul, e ao sul, quando o velho nordeste se instala, vigoroso. Sem vento, fica na empresa.

Da minha parte, digo que fiquei entusiasmado com a notícia. Como já andei escrevendo por aqui, trata-se de um sonho antigo de consumo: quem sujou tem que pagar para limpar. Simples assim, como se diz diante de situações óbvias e naturais. Aos olhos de alguns, essa emoção pode parecer entusiasmo juvenil ou ingenuidade descabida para um senhor de idade. Pode ser, mas gosto de acreditar em possibilidades remotas, quando sustentadas pela força da lógica. Para mim, é uma demonstração clara da Justiça se impondo, o que pode animar muitos e desanimar outros, sobretudo quem vem praticando o cinismo pela imprensa, com boa desenvoltura.

Isso começou com o mensalão, ao condenar muita gente, em última instância, contra a expectativa da grande maioria dos brasileiros aptos a serem presos por falcatruas e delitos diversos. A prisão de gente poderosa coloca água no caldo de cultura que tolera a corrupção desenfreada e os crimes de quem usa colarinho branco e sapato de grife. Na Lava Jato, as primeiras condenações já aconteceram, e em tempo recorde, a ponto de contaminar positivamente a alma dos crédulos tendentes a bom comportamento.

É muito animador ver que uma empresa que emite pó preto foi legalmente responsabilizada pelos danos que provocou na residência de uma família que escolheu viver em um balneário aprazível, situado nas redondezas do seu parque industrial. Preto no branco, isso aconteceu por ela ter economizado dinheiros próprios na melhoria dos seus processos de produção e sistemas de controle, para não prejudicar quem esteja à sua volta. É bem provável que seus advogados já tenham sido orientados a recorrer à justiça dos desembargadores para tentar anular a justiça feita por um juiz em primeira instância. Por certo, precisarão contratar profissionais e empresas para produzir laudos e demonstrativos livres de subterfúgios e vícios, capazes de embasar decisões de juízes e de plenários, agora sob o olhar cada vez mais atento da população. Imagino que a expectativa da empresa em ver reformada a decisão do juiz seja altíssima, diretamente proporcional à probabilidade de ocorrer uma enxurrada de processos judiciais similares.

Deixo aqui meus aplausos para a família que entrou na justiça por seus direitos, para o advogado Marcos Piumbini, que embasou o processo, e para o juiz Marcelo Coutinho, que condenou a empresa poluidora acolhendo os fundamentos jurídicos e as provas apresentadas. E por último, reconhecendo sua equivalente importância, parabenizo os técnicos do IEMA que fizeram a perícia técnica que possibilitou a aplicação das leis vigentes.

Vitória, 29 de abril de 2015-04-29

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cidade maravilhosa

Cidade maravilhosa

A lei que criou o PDU – Plano Diretor Urbano de Vitória, para regular e orientar a ocupação do seu território, estabelece que ele será atualizado a cada dez anos. A Prefeitura deu partida ao processo de revisão, soltando campanha informativa e criando um cronograma de reuniões para consultas por região e outras para debate de temas de interesse comum. A intenção é ouvir a população para conhecer expectativas gerais e específicas que deverão resultar em propostas a serem levadas à Câmara de Vereadores no início de 2016.

Tenho acompanhado o desenvolvimento de Vitória desde que cheguei aqui, em 1958, quando me deslumbrei com a recém-inaugurada Avenida César Hilal, com uns seis prédios (que me pareceram grandes e altos). Aos olhos de menino do interior, aquela era a própria imagem do progresso. De lá pra cá, presenciei enormes transformações no cenário urbano, incluindo o aterro de vastas áreas de manguezal e do mar para receber grandes avenidas e bairros inteiros. Com olhos ingênuos, vi acontecer a degradação do Centro da cidade e, com grande pesar, a desconfiguração dos conceitos expressos no projeto Novo Arrabalde. Assisti o inchaço do trânsito e o surgimento dos semáforos por todo lado, a verticalização das construções, o emparedamento de vistas e lugares, a ocupação desordenada de encostas e muito mais. Mudanças radicais, que aconteceram em ritmo alucinado, estimuladas, sobretudo, pela oportunidade de obter bons lucros com metros quadrados de construção.

Localizada no centro de uma região em crescimento vertiginoso, Vitória é obrigada a funcionar como lugar de passagem, o que impacta fortemente a vida de muita gente. Antes cantada como Cidade Presépio, Vitória se transformou em uma minimetrópole e até ganhou fama de bonita, o que dá uma pontinha de orgulho até mesmo em cachoeirenses como eu. Colorida e envidraçada, a cidade brilha e reluz emitindo sinais de elegância e bons modos. O vigor, a pressa e a afobação ficam por conta dos seus usuários.

Em uma dessas reuniões de consulta ouvi muitas das expectativas de moradores e de entidades ou grupos organizados. Todos seguros quanto à necessidade de garantir conquistas já alcançadas, de avançar com melhorias nos padrões de ocupação dos espaços urbanos e, principalmente, empenhados em não deixar estragar o que esteja funcionando bem. Defendeu-se a mobilidade, a criação de praças e áreas de lazer, a proibição de atividades poluidoras e, com destaque, a valorização da paisagem urbana. Ninguém defendeu adensamento e verticalização a qualquer custo, talvez em razão da crise do mercado imobiliário.

Da minha parte, considerando suas características geográficas e ressaltando suas vantagens competitivas, defendi que Vitória se estruture para abrigar, de forma crescente e em bases vigorosas, atividades produtivas inovadoras e de alto valor agregado, intensivas em conhecimento técnico-científico e que incorporem a inteligência das pessoas. Trata-se de uma providência para acelerar o surgimento de empregos de salários médios elevados e propiciar a geração de renda e de impostos em grande escala. Digo isso com boa convicção, por entender que se trata de uma alternativa para melhor aproveitamento das potencialidades de um já expressivo contingente de pessoas altamente qualificadas, das muitas instituições de ensino e pesquisa e das empresas de base tecnológica presentes na cidade. Vitória tem tudo para ser um lugar maravilhoso para se viver e para se ganhar muito dinheiro com ideias brilhantes e cabeças a mil.

Vitória, 15 de abril de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sobre emoções cidadãs

Sobre emoções cidadãs

Só consegui chegar na manifestação de domingo no final da tarde, justo na hora em que o pessoal de Vila Velha começava a subir a ponte de volta pra casa. Uma cena simpática: famílias inteiras, grupo de amigos, casais de namorados, avós animados carregando netos, fortões sem camisa, estudantes de todas as idades, e muitos mais. Quase todos em verde e amarelo, andando rápido e com um grande sorriso no rosto. Parecia que estavam saindo de uma festa animada. Ninguém com cara feia, de ódio ou má vontade. Também não tinha ninguém com cara de arrependimento ou de vergonha por estar ali, muito embora fosse possível imaginar que alguns pudessem estar pensando na distância que haveriam de percorrer ladeira acima, ladeira abaixo, até pisar em terra firme do outro lado do canal. Por certo, a visão lá de cima da ponte ajudaria a enfrentar o cansaço, a dor nas pernas e o tênis novo. Tinha muita gente feliz da vida em poder participar, pela primeira vez, de manifestação tão numerosa, carregando cartazes ou usando camisetas com palavras de ordem contra o governo, a presidente, a roubalheira e tudo o mais que anda irritando tanta gente.

Andando a pé, passamos pela praça do pedágio e caminhamos, no contra-fluxo, até a Praça do Papa, que já encontramos quase que inteiramente vazia, pois os moradores de Vitória já tinham caçado o caminho de casa. Depois de comprar uma garrafa d’água no único ambulante que ainda estava por lá, conversei com o pessoal que acabara de desmontar o sistema de som e se preparava para ir embora. Dava pra ver que estavam satisfeitos por terem feito muita gente cantar no sol quente.

Tanto na ida, como na volta, passamos por ruas e lugares predominantemente usados pelos carros. Só ali me dei conta que, ao volante, nunca percebera a falta de árvores e a aridez das calçadas e das paredes impregnadas de sujeira. É provável que só uns poucos manifestantes tenham reparado nisso também. Andando em grupo, no meio da multidão, ninguém se sente fraco nem enxerga direito o que esteja em volta.

Já em casa, vi a entrevista de dois ministros atônitos, porém convictos das suas verdades e cientes de suas obrigações políticas e funcionais. Alguma coisa haveria de ser dita, obrigatoriamente. Algo que ajudasse a contrapor os fatos, a minimizar a relevância dos acontecimentos. Os dois tiveram tempo de sobra sob os holofotes, na mira das câmeras, mas é certo que tenham sido aplaudidos apenas pelos que ainda permanecem a favor. Fui dormir cedo, tentando imaginar os desdobramentos do que tinha visto nas ruas e na TV.

Nem bem acordei na segunda-feira, fui tomando conhecimento da prisão do ex-diretor da Petrobras indicado pela cúpula do partido da presidente e de pessoas que operavam o esquema de propina em posição de mando. Adorei o nome da nova operação da Polícia Federal: “Que País é Esse?”. Leve e sarcástico, indica que algo muito relevante vai, progressivamente, tomando forma e ganhando expressão. Sou dos que sempre acreditaram nos impactos positivos do Mensalão, por demonstrar de forma cabal que é possível enfrentar a lógica e as práticas dos poderosos e dos fortes. Pelo que estou vendo, o país já está mudando de cara e muita gente ainda não se deu conta disso. O fato de estarem presos dirigentes e donos das maiores empreiteiras do país, diretores da maior empresa brasileira e operadores oficiais da roubalheira faz acreditar que começa a se mostrar viável fazer política de outro modo: mais limpo, mais certo, melhor. Que venham as mudanças nas verdades, nas atitudes e nas leis!

Vitória, 18 de março de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sevá

Sevá

Não está nada fácil definir um tema de crônica que possa ser lida até o final por leitores de todos os tipos e interesses. Depois de passar um fim de semana espetacular ao lado de três casais de amigos à beira mar, em despedida do verão, a semana começou bem tristonha e sem graça.

Pelo telefone, recebi o chamamento para dar sequencia à obrigatória e extremamente penosa tarefa de distribuir os objetos da casa de mamãe. Pela internet, em poucas palavras, a notícia da morte de um velho amigo, desses que são difíceis de ser encontrados durante a vida. Ele passara os últimos meses às voltas com cirurgias, hospitais, remédios, respiradores, e tais. Relatos esparsos de familiares davam contam das dificuldades de toda ordem, desconfortáveis e dolorosas, que iam se impondo de forma progressiva, impiedosamente. As informações sobre a saúde sempre vinham juntas com as que diziam da sua maneira serena de enfrentar os fatos sem reclamar. No começo, ele mesmo escrevia sobre a evolução do quadro, sempre de forma positiva, apesar dos pesares. Estive com ele em Campinas, pela última vez, há mais de um ano. Depois de nos olharmos em silêncio por um bom tempo, meio que passando em revista as coisas boas que vivenciamos lado a lado e os perrengues que enfrentamos frente a frente, instalou-se um ambiente fraterno inteiramente livre de incômodos e desconfortos. Diante de realidade tão dura, do prenúncio da morte, sentimos juntos minutos de tristeza intensa pelas lembranças das perdas acontecidas no passado e a certeza de outras que aconteceriam dali por diante.

Ele não era uma dessas pessoas que estão sempre alegres e de bem com a vida, com participação ativa nas redes sociais. Fazia rir e fazia chorar, com convicção, pela forma limpa e direta de tratar de assuntos do cotidiano, de se relacionar com as pessoas, de defender suas posições, de enfrentar os que causavam danos e os que defendiam interesses escusos. Acima de tudo, Sevá, esse era o nome dele, Arsênio Osvaldo Sevá Filho fazia pensar: os amigos, os alunos, os colegas de universidade, os chefes da vez, as autoridades constituídas e, sobretudo, os opositores de suas teses e os seus desafetos. Ninguém passava imune ou distraído por uma conversa com ele, por uma palestra ou uma aula sua.

Vejo, agora, que ele passou a vida como pouca gente, muito pouca mesmo, passa: brigando por melhores condições de vida para os homens. Há uns três anos ele me escreveu pedindo sugestões para organizar o site que criara, onde ele tinha colocado uma parte importante de tudo o que havia produzido. Fui lá conferir e me vi diante de um mundaréu de textos, artigos, projetos, anotações, planos de curso, aulas inteiras e muito mais. Ali estava apenas o que havia sido digitado, diria que do começo dos anos noventa prá cá. Apenas uns poucos vestígios do que ele havia escrito nos vinte anos anteriores, em papel. Confesso que cheguei a achar graça. Sugeri que ele tentasse fazer uma grande triagem do que considerasse mais relevante e oportuno. Que classificasse aquela espécie de tesouro por tema, época, briga, lugar, finalidade, enfim, por critérios que permitissem localizar o que ele tinha produzido sobre impactos ambientais, econômicos e políticos provocados por usinas hidrelétricas, barragens, fábricas, portos, minas, pela indústria pesqueira e por aí a fora.

Nas conversas do fim de semana entre amigos de boa idade, havíamos concordado que os homens são mais lembrados pelo que produziram durante a vida do que pelo que conseguiram acumular.

Vitória, 04 de março de 2015-03-04

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Calor, pó preto e sorvete

Calor, pó preto e sorvete

Em busca de tema, entre uma cerveja e outra, ouvi amigos e parentes. Como desconfiava, deu pó preto na cabeça por grande maioria dos votos válidos. O assunto foi destaque nos blocos de carnaval em Manguinhos, no centro de Vitória e na Barra do Jucu, e inspirou a fantasia de muitos foliões debochados.

Durante a semana aconteceram manobras para a criação da CPI do Pó Preto na Assembleia Legislativa, com deputados disputando vaga na comissão. Ao lado disso, este jornal publicou tabela mostrando que uma metade dos deputados eleitos recebeu, oficialmente, doações de campanha das empresas proprietárias do pó preto que cai do céu diariamente sobre a cidade. Longe de mim afirmar que se trata de uma compra de silêncio parlamentar ou de uma espécie de parceria para defesa de interesses em comum. Mesmo porque, feitas as contas, o valor investido pelas empresas nos partidos e candidatos é quase nada se comparado à dinheirama com os salários e facilidades a que cada um deles terá direito nos próximos quatro anos, saída diretamente do bolso dos eleitores que sofrem com o pó preto.

Sugeriram também que eu escrevesse sobre o medo das blitz na volta da folia. Pudera! Tem muita gente com carteira de motorista apreendida por ter acumulado uns tantos pontos por infrações de trânsito. Algumas bem graves e outras nem tanto, como ser flagrado em velocidade minimamente superior a dez por cento da permitida, estacionar com uma roda na calçada ou sobre a demarcação de uma entrada de garagem. Paga-se multa pesada e fica-se sem carteira por meses. Nessa mesma linha, prefeituras penalizam quem suje e não limpe, quem faça barulho, quem pode árvores e muito mais. E as multas aumentam bastante em casos de reincidência. Agora, em tempos de escassez, tem gente pretendendo multar quem for pego lavando carro ou calçada com jato d’água.

Como um bom pagador de multas municipais, estaduais e federais em geral, me pergunto quando será que esse tipo de ação civilizatória vai atingir também, e com a indispensável contundência, as poderosas empresas que lançam sobre a cidade toneladas de poeiras que sujam as coisas e envenenam as pessoas. Faltam leis e normas que fundamentem o controle e assegurem as punições. Sou dos que defendem que os poluidores sejam sistematicamente penalizados com pagamento de multas de valores progressivos e exponenciais, inclusive com paralisação da produção. Só assim as penalidades serão indutoras de investimentos e providências urgentes para adequar suas instalações.

Essa minha convicção só aumentou com o que vi na festa de aniversário de cinco anos da minha neta Alice, na quinta feira passada, ali na Enseada do Suá. A grande maioria das crianças convidadas veio direto da escola, andando a pé em fila indiana, de mãozinhas dadas e animadíssimas. Todas de uniforme, cabelos despenteados, sem qualquer salamaleque. Depois de uma tarde inteira no colégio, algumas já estavam bem encardidinhas. Assim que chegaram, foram levadas por recreadores profissionais para a quadra do prédio, deixando os sapatos no canto do salão. Só as vi de novo quando formaram filas para ganhar sorvete na casquinha. Notei que estavam imundas, da sola dos pés até as bochechas. Mas foi na hora de cantar o parabéns que a coisa ficou literalmente preta e chocante. Suadas pela correria no calor infernal e batendo palmas de olhos nos doces, quase todas tinham pernas e braços lambuzados de sorvete coberto com pó preto, coisa de matar mãe de vergonha. Uma boa fotografia daquela cena sensibilizaria qualquer deputado.

Vitória, 18 de fevereiro de 2015-02-18

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Já passou da hora

Já passou da hora

O nascimento do neto Joaquim me fez passar uns vinte dias em São Paulo, em viagem de interesse estritamente familiar. O moleque é do tipo tranquilo e bem comportado: nem de longe é daqueles que golfam o leite que tirou da mãe ou dos que têm cólica que os fazem chorar até ficarem roxinhos a ponto de desesperar quem estiver por perto. Trata-se, ao menos por enquanto, de uma dessas crianças da categoria “mama-e-dorme”, daquelas que defendem seus direitos com grito forte e que pegam logo no sono quando estão de barriga cheia.

Como não seguro criança novinha no colo, passei os dias fazendo serviços de apoio à mãe e pequenas melhorias na casa. Aproveitei para me alienar geral, longe das fontes de informações. Li apenas um único jornal, assim mesmo sem prestar muita atenção nas notícias sobre atentados, roubalheiras petrolíferas e mesmices de começo de governo. Foi pelo telefone que fiquei sabendo do descalabro do pó preto que assolava Vitória. A falta de chuvas e a força dos ventos neste começo de ano fizeram voar longe partículas de minério de ferro, de carvão e fuligens das chaminés como há muito tempo não se via. Pelo que me disseram, foram muitas e muitas toneladas de pó que caíam do céu durante semanas seguidas, tirando muita gente do sério a ponto de protestar nas redes, pela imprensa e em pleno sol quente de Camburi.

Pelo jeito, parece que desta vez o processo atingiu o chamado ponto de não retorno, marcando o fim dos tempos de transgressões e desrespeitos impunes. Daqui pra frente não mais haverá trégua ou condescendência com as empresas que poluem o ar, com órgãos de governo que não as controlam nem penalizam e com dirigentes públicos que fazem de conta que estão tomando providências. Também parece que se esgotou a paciência coletiva com as desculpas esfarrapadas e as soluções meia-boca. O descalabro da sujeira foi de tal ordem que tem muita gente defendendo a necessidade de encapsular totalmente as pilhas de minério e de carvão e as esteiras transportadoras, exatamente como se faz lá no estrangeiro. Incluo-me na turma dos que acham que já passou da hora de impor medidas que civilizem o progresso e livrem a população dos seus incômodos e males. O bom senso indica que é preciso agir prontamente e em bases definitivas, pois as indústrias sediadas na Ponta do Tubarão deverão continuar funcionando ali por muito tempo, desgraçadamente.

Tudo isso me fez lembrar de quando cheguei de volta a Vitória em meados de 1987. Embora fosse necessário limpar a casa duas vezes ao dia, os nossos comentários não encontravam eco junto a parentes e amigos. Parecia reinar por aqui um amplo acordo tácito em favor das grandes empresas porque ofereciam empregos, geravam renda e impostos e tudo o mais, ainda que sujando tudo com um pó fininho e fazendo a cidade feder no começo das noites de vento nordeste. Quem não se lembra da catinga que vinha lá das bandas de Coqueiral de Aracruz? Naquela época, por várias vezes tive vontade de pedir audiência aos dirigentes do porto de minério, das usinas de pelotização e da usina siderúrgica, muitos deles conhecidos meus de juventude, para devolver o material recolhido dentro de casa. A minha vingança seria assoprar uma boa quantidade de pó sobre a mesa de trabalho de cada um deles e espalhar o resto pelos móveis da sala, com a melhor cara deste mundo. Por certo, o meu protesto solitário não provocaria qualquer mudança relevante nas condições ambientais da região, mas eu teria uma história sensacional para contar pros meus netos.

Vitória, 27 de Janeiro de 2015.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

erdadeira