Lamaceira de minério de ferro

Lama de Minério de Ferro

Escrevo esta crônica, em São Paulo, entre as atividades de um evento internacional sobre o que o design pode fazer para tornar as cidades mais funcionais e amistosas e para melhorar a vida das pessoas. Os temas são instigantes, relacionados com questões urbanas, com a natureza, com a cultura tratada em perspectiva. A conferência What Design Can Do? surgiu em Amsterdã há cinco anos e esta é a primeira edição que se realiza no Brasil. A turma de palestrantes era formada por profissionais de primeira linha que realizam trabalhos que extrapolam, em muito, a busca de formas funcionais e do uso de traços e cores para gerar beleza e comunicação de impacto.

Sentado em cadeira confortável, usando fone de ouvido para tradução simultânea, vendo imagens projetadas em telões enormes eu me dei conta de como é bom ficar assistindo o pessoas talentosas e lúcidas têm a mostrar.

A jornalista americana Tracy Metz, que vive na Holanda, subiu ao palco para falar sobre os esforços que os holandeses têm feito para domar e, sobretudo, para melhor aproveitar as águas do mar, tema de meu interesse.

Antes de começar a palestra pediu licença para demonstrar a sua indignação com o tragédia ambiental provocada pela mineradora Samarco/VALE/BHP. O auditório bateu palmas, com a convicção de quem se solidariza com as vítimas da tragèdia, reconhece as suas dimensões e reclama providências urgentes para tentar minimizar seus impactos.

Ao final da apresentação, anunciou que havia uma pequena exposição, montada por alunos e professores interessados em recolher sugestões sobre como o design poderia ajudar a amenizar a tragédia que começa em terras de Minas Gerais e segue por mares do Espírito Santo. Era algo bem simples: três grandes fotos ao lado de um pequeno texto: que dizia: “Isto poderia ser a introdução de um filme pós-apocalíptico. Mas não é. Trata-se uma situação tão surreal e absurda que pede soluções de iguais proporções.”

Vendo aquilo me veio a ideia de propor que se faça dos escombros intactos da cidade de Bento Rodrigues um grande museu a céu aberto para servir de marco de referência, de um contundente registro histórico do quanto pode ser danosa a ação de homens subalternos e irresponsáveis, de empresas de segunda categoria e de governos comprometidos com a lógica de poderosos. Um memorial para ser visitado sobretudo por crianças e jovens, do país inteiro.

Em exposição, os restos da cidade devastada pela lama tóxica, em meio à terra estéril, marrom, cor da qual não gosto. No alto de um morro, uma edificação abrigaria e disponibilizaria aos visitantes documentos oficiais que podem explicar a tragédia, incluindo legislações ambientais, projetos de engenharia, licenças e autorizações, relatórios de inspeção, comprovantes de adequação, intimações, multas e respectivos recursos, decisões da justiça, trabalhos técnicos sérios e encomendados, análises da lama e das águas. Lá também estariam obras produzidas por artistas, poemas e textos escritos por pensadores, depoimentos de especialistas, cartazes de manifestações populares, matérias jornalísticas do mundo inteiro, muitas fotos e vídeos, campanhas de mobilização nas redes e tudo o mais. Em ambiente reservado e solene, os testemunhos e as lembranças dos antigos moradores e as homenagens aos mortos e aos que desapareceram na lama dos rejeitos de uma mineração predadora.

São Paulo, 09 de dezembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Lamaçal

Lamaçal

Apresso-me a avisar ao leitor que esta não é uma crônica leve. Seu tom grave reflete a minha total indignação com a tragédia absurda provocada pela Samarco lá em Minas e que se desdobra aqui no estado. É mais um acontecimento que expressa os tempos que vivemos: descaso total do governo federal, indulgência conveniente do governo mineiro e descaramento da Samarco e da Vale, controladora da metade das suas cotas, preocupadas em minimizar suas responsabilidades e seus prejuízos.

As informações que colhi, mesmo que incompletas e imprecisas, atestam a escala gigantesca da tragédia, que se estenderá para muito além das lamentáveis mortes dos moradores e funcionários da empresa. Tudo indica que a Samarco matou o Rio Doce. A lama com os rejeitos, rica em minerais pesados, vai exaurir as populações de peixes, pitus, tartarugas e de tudo o mais que habita suas águas e os barrancos e, mais do que isso, extinguir as chances de repovoá-lo em décadas. Não imagino o que precisará ser feito para permitir o consumo da água por humanos e animais e seu uso seguro na agricultura. As primeiras previsões dos impactos sobre a vida em nossos mares também são alarmantes. Nos próximos dias, a mancha escura estará visível na boca do rio em Regência e, em seguida, ao longo da costa.

Li que a Samarco aumentou a sua produção em torno de um terço há pouco tempo, o que demandaria a ampliação da capacidade de armazenamento de seus resíduos industriais, providência de que não tive notícia. Sei que existem documentos oficiais que lhe impuseram medidas de acompanhamento rigoroso das condições de segurança de suas barragens. Barragens se rompem por vários motivos, sobretudo quando o limite da capacidade é atingido, situação que pode ser controlada a olho nu. Tudo faz supor que a empresa passou a operar sob risco elevado, deliberadamente. A divulgação da ocorrência de sismos de baixíssima intensidade na região, antes do rompimento das barragens, foi providencial para fazer crer que a tragédia teria sido provocada por um evento natural, incontrolável pela empresa. Tem gente acreditando nisso até hoje, porque ninguém explicou que terremotos de magnitude dois na escala Richter, muito frequentes por todo lado, são imperceptíveis aos homens, não derrubam prédios e, muito menos, destroem barragens. Sendo assim, a responsabilidade pelo rompimento é exclusiva dos homens poderosos, estejam eles na Samarco ou nos órgãos públicos responsáveis pela aprovação dos projetos e pelo controle das condições de funcionamento.

É mais do que sabido que empresas de mineração financiam campanhas políticas e de marketing que, em última instância, viabilizam suas operações a custos bem menores. São “investimentos estratégicos” que lhes asseguram o direito de fazer o que jamais poderia ser feito contra a natureza e, em especial, contra as populações de seu entorno. São de altíssima rentabilidade. Nessa batida, o governo de Minas debochou de todos nós ao anunciar que suspendeu as operações da Samarco, como se ela ainda tivesse condição de funcionar sem os seus reservatórios de rejeitos industriais. Aqui em Vitória, temos vivido sob o pó preto do descaramento político-empresarial que se instalou há décadas e que se renova a cada eleição. Torço para que a tragédia que começou na semana passada sirva para dar um fim ao jogo cínico que vigora por aqui, incluindo o minério de ferro lançado no mar de Camburi pela Vale. Que os prejuízos e constrangimentos da Samarco sirvam para demonstrar que crime ambiental não compensa.

Vitória, 11 de novembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Presentes de aniversário

Presentes de aniversário

Aniversariei no último dia 23, sexta feira, junto com Pelé, Santos Dumont e Ronaldo Barbosa. As comemorações começaram com a arrumação da casa, consertos em geral, idas às compras e muita agitação na cozinha para conseguirmos almoçar ao lado de amigos em pleno dia útil. Mais uma vez, mantivemos o padrão do “quase tudo feito em casa”, com a valiosa colaboração de uma das filhas que vivem em São Paulo, uma grande amiga que veio de Brasília e uma irmã que cuida com gosto da decoração. Ganhei muitos presentes inteiramente compatíveis com as manias, os hábitos, as dimensões e a idade atuais, o que demonstra carinho e atenção na escolha.

Da minha parte, tenho dado dois tipos de presente: colheres feitas especialmente para as pessoas homenageadas e exemplares do livro de Vitor Nogueira de fotografias sobre o Espírito Santo, que sempre agrada, independentemente de renda, idade, sexo, cor e religião.

O primeiro presente do dia veio cedo, junto com um sorriso muito simpático: um pote para colocar as colheres de madeira da cozinha. Peça esmaltada, de cores azuladas, feita à mão por uma colega de remadas matinais, em retribuição à colher que eu havia feito pra ela. Na hora do almoço, ganhei duas camisetas e um chapéu com protetor de orelha e de cangote, feitos com tecido UV line, uma grande descoberta para quem, como eu, tem pele muito sensível ao sol. Recebi tudo isso como bom estímulo pra quem rema canoa havaiana nessa altura da vida. Ganhei também uma camiseta de marca, que me fará elegante em ambientes descontraídos, e uma bela camisa de linho azul claro que me fez lembrar das camisas de cambraia da Braspérola que dona Antenisca, nossa vizinha, fazia pra mim, de seis em seis.

Ganhei uma colher de metal com o cabo dobrado formando uma alça que, engastada na borda da molheira, garante que ela não vai escorregar e mergulhar no molho, uma pequena tragédia em jantares de alguma cerimônia. Veio junto com um canivete gaúcho, de lâmina curva, cujo uso específico ainda vou descobrir. Tratei de passar uma lixinha no cabo e nas bordas do metal para propiciar uma pega mais cômoda, como convém às ferramentas. Nessa linha, inclui-se a pasta para proteger computador, que me foi entregue com um beijo acompanhado da autorização para usá-la como sacola para levar faquinhas e bambus em viagens. Por hora, vou dependurá-la no cabide de design original, que pretendo fixar na parede do meu quarto. Na mesinha da sala já está a lupa de lente grande e cabo bonito, que me deixou encasquetado, por ser a sexta que ganhei na vida.

Avô que sou, ganhei uma foto emoldurada muito expressiva: meu neto Joaquim, sentadinho no chão, ao lado de um grande aviãozinho de papel dobrado, na exposição de Hilal em São Paulo. Inspirado no nascimento do primeiro neto, o artista fez um avião de um pedaço de céu muito azul com nuvens branquinhas. Do amigo interessado em história contemporânea ganhei um livro com as conversas entre dois renomados pensadores sobre o que andou acontecendo na Europa no século passado. Para alegrar e distrair o aniversariante, um vinho do Porto, três garrafas de cachaça da melhor procedência, um belo livro de poemas gráficos com curiosas sacações, além de uma caixa de lápis de cor e um bloquinho de desenho.

Para completar as comemorações, presente de Carol, um show de Paulinho da Viola, assistido de mesa pertinho do palco. Dá gosto de ver a figura gentil daquele carioca elegante e muito competente, tocando e cantando nestes tempos de arranca rabo, de quero o meu e pouca vergonha.

Vitória, 28 de Outubro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cadê o futuro que estava aqui

Cadê o futuro que estava aqui?

Acabo de passar uma semana de férias em família, de frente para o mar das Alagoas, e mais três dias respirando o ar das montanhas capixabas ao lado de amigos risonhos. Foram dez dias sem ao menos olhar uma televisão funcionando, abrir uma revista semanal ou folhear um único exemplar de jornal. Só na noite de segunda feira feriado foi que resolvi me inteirar um pouco das novidades do que estava se passando na política.

Gosto de acompanhar a movimentação dos que já estão e daqueles que estão pretendendo chegar ao poder. Os últimos tempos, como se sabe, têm sido um prato cheio para quem se distrai observando as mudanças no ambiente político e o jogo bruto pelo poder. Confesso que não me recordo de tempos tão férteis em situações e fatos tão expressivos como os que surgem a cada edição de jornal, a cada noticiário da TV.

A falta de liderança, paciência e competência em dosagens adequadas para o exercício do cargo de presidente em meio a uma guerra de foice entre partidos supostamente aliados e a atuação de servidores públicos determinados a detectar e comprovar safadezas destinadas a sustentar um projeto de poder são ingredientes mais do que suficientes para abastecer as emoções e segurar a audiência. De uma hora para outra, como que por um passe de mágica, denúncias fundamentadas detonam a suposta honradez de gente do governo, de líderes da oposição e de empresários articulados com mandatários do dia. Comprovações oficiais de pagamentos de propina para familiares de líderes políticos devem ter gerado muita raiva e quebrado certezas da impunidade. Ao lado disso, os descalabros na economia justificam e reforçam a queda abissal nos índices de popularidade de governantes desastrados e prepotentes.

Qualquer olhar atento consegue perceber o desespero do governo praticando o troca-troca de favores com políticos de menor envergadura para barrar a movimentação de políticos ameaçadores de maior envergadura. São visíveis as tensões nas reuniões sucessivas para tentar encontrar saídas para os impasses da semana e acessos a zonas de segurança para tomar fôlego. Salta aos olhos a felicidade incontida dos que conseguem extrair da governante desidratada nomeações de aliados e passam a cantar de galo em terreiro alheio, bem como a cara dura dos que entregam mais uns dedos e outros anéis para continuar as barganhas por apoio. É notória a substituição da tristeza de cada apenado por uma alegria chocha, encabulada, ao voltar pra casa de tornozeleira eletrônica por ter entregue à polícia um pouco do que sabe sobre as falcatruas de que participou. Nestes tempos, valiosa é a esperteza política para mobilizar adesões e armar arapucas que ajudem a neutralizar jogadas brutas de pretendentes ao poder, assim como a criatividade e a sofisticação das demandas por pronunciamento das instâncias da justiça com base no rigor da lei e na sua adequada interpretação.

O fato é que ando preocupado com a situação que se estabeleceu no país. Nada que possa ser explicado por razões ideológicas ou compromissos político-partidários: o meu desassossego fica por conta do crescimento vertiginoso dos crimes contra a vida e do desprezo aos valores mais nobres dos homens, do emperramento da economia e dos delitos em larga escala contra a coisa pública. Lamentavelmente, como deve estar acontecendo com muita gente, experimento uma sensação de impotência diante do desgoverno e, sobretudo, da falta de perspectivas. Logo eu, que tantas vezes fui taxado de otimista inveterado.

Vitória, 14 de outubro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Dentro e fora de padrões

Dentro e fora de padrões

No sábado combinamos com amigos de almoçar lá nas bandas da Pedra Azul, em restaurante que funciona numa das primeiras casas construídas na região. Aproveitaríamos para comprar cogumelos frescos, linguiça de porco e queijo no caminho para Vargem Alta, conhecer a lojinha de um grande amigo em Aracê e, por fim, visitar uma família alegre e festeira, cuja matriarca aniversariava naquele dia. Como o carro deles estava com problemas, sugeri que fôssemos no meu, com a condição de dividirmos o valor das inevitáveis multas por excesso de velocidade na BR 262. Sei de gente que ganhou quatro delas em uma única viagem, todas por rodar um pouquinho só acima da velocidade permitida. A estrada está repleta de equipamentos de radar e câmeras para flagrar transgressões, inclusive as cometidas em trechos com placas de cinquenta quilômetros por hora. Um conhecido meu diz que elas expressam um excesso de precisão dos que regulam as condições de uso das nossas estradas. Ele argumenta que, na prática, cinquenta e sessenta quilômetros por hora são velocidades tecnicamente equivalentes e defende que as placas de cinquenta deveriam ser substituídas pelas velhas conhecidas de quarenta ou de sessenta, acabando com a pegadinha geradora de multas injustas, por razões duvidosas.

Dia desses, bem na primeira fila de carros que esperavam o sinal abrir, confirmei que o novo desenho da Avenida Leitão da Silva vai acabar definitivamente com o meu conforto de estacionar bem em frente da lojinha que vende reparos para todo tipo de torneira, registro de água, caixa de descarga e tudo o que um dia começa a pingar, vazar e entupir. Em breve também não poderei parar para comprar tintas, fios, interruptores, mangueiras, cordas, escadas e muito mais. Como muita gente, tenho aquela avenida como o meu principal ponto de suprimento de itens indispensáveis ao bom funcionamento da casa. Com a implantação do tal meio fio padrão, que impede o acesso inclusive aos recuos além das calçadas, várias lojas vão minguar ou até fechar por falta de clientes. Muitas serão obrigadas a se mudar, como vem acontecendo com as das avenidas Vitória e Adalberto Simão Nader. É o preço imposto pelos novos padrões de civilidade que estão sendo incorporados, sobretudo os que estabelecem que a calçada é de uso exclusivo dos pedestres, afastando qualquer possibilidade de compartilhamento, mesmo nas ruas em que circulam pouquíssimos cidadãos a pé.

Ontem cedinho, como de costume, fui com Carol caminhar na areia da praia, ainda deserta. Como lua grande, a maré fica baixa no começo da manhã. Uma única mulher se exercitava na lá outra ponta da praia. Ela não era habitual daquele lugar, àquela hora do dia. Tendo começado a andar quase ao mesmo tempo, nos encontraríamos a meio caminho. Notei que a moça foi traçando uma rota que a afastaria da gente no momento do encontro. Confesso que achei graça do esforço para evitar qualquer possibilidade de ganhar um bom dia de um casal de certa idade, merecedor de toda a confiança, mesmo que o homem estivesse com uma faquinha pequena que usa para cortar bambu. Não foi possível dar um simples bom dia para aquela moça, nem na ida nem na volta, quando ela preferiu desviar o olhar para o lado do mar. Fiquei imaginando o tipo de “meio fio” que ela adotou para si.

Em compensação, logo depois, em pleno sol quente, no centro de Vila Velha, por um simples comentário que fiz para a mocinha que agora oferecia seis sacos de chão por dez reais, ganhei um inesperado sorriso seguido de uma gostosa risada de cumplicidade.
 
Vitória, 30 de setembro de 2015
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Nas franjas do Caparaó

Nas franjas do Caparaó

Saímos em comboio, com o dia amanhecendo, em direção ao Caparaó. Pegamos a estrada bem vazia e como passamos por Iconha ainda muito cedo, ninguém comeu o tradicional sanduiche de pernil do bar do Almeida. Ao entrarmos no contorno de Cachoeiro, demos de cara com o pico do Itabira, em sua imponência eterna. Fiquei meio decepcionado e entristecido com o que vi pelas janelas do carro, depois de Celina: muito morro coberto com capim baixo para alimentar rebanhos pequenos, pouquíssimas roças de café e praticamente nenhuma plantação expressiva de fruta e de hortaliça. Localizei raríssimas áreas de mata nativa e muitos plantios de eucalipto, já em fase de corte. Parece ser uma região onde predominam fazendas maiores, um tipo de ocupação bem diferente do de outras regiões do Estado, sobretudo aquelas onde se instalaram os imigrantes europeus, dividida em pequenas glebas, muitas delas com aproveitamento intensivo do solo e produção bem diversificada.

O motivo da viagem era dos mais nobres: plantar espécies frutíferas no lote que uma das amigas preferidas de Diana, nossa caçula, comprara em Pedra Roxa, no pé da serra do Caparaó. O terreno fica no topo de um morrinho, com um rio passando lá embaixo. Ele expressa o desejo de possuir um pedaço de chão naquela região, que esconde belezas quase intocadas e vem atraindo a atenção de pessoas cansadas da correria e da violência nas cidades. Se as mudas vingarem, Lídia terá um pomar bem sortido: laranja, limão, goiaba, manga, cereja, abacate, maçã, pera, uva, pêssego, cajá e uma espécie de sapoti americano. Da minha parte, plantei um pé de romã roxo nascido de semente de fruta importada, comprada em São Paulo. De quebra, levei uma muda viçosa que brotou na sombra da nossa jabuticabeira e um galho reforçado da dama da noite que nos acompanha desde os idos de 1970. O pessoal mais disposto da empreitada tratou de cavar covas fundas e de colocar quantidade generosa de esterco de boi e de calcário, para corrigir a acidez do solo.

Sou homem de uma única supertição. É coisa bem antiga, surgida e confirmada na prática: pescaria marcada com muita antecedência nunca dá certo. É mar ressacado, vento sul e chuva na certa. Como a expedição fora marcada com mais de dois meses de antecedência, não deu outra: depois de longa estiagem, começou a chover nas franjas do Parque Nacional do Caparaó, justamente na véspera da nossa chegada. Foram três dias com céu encoberto, alternando mormaço abafado, garoa fininha e pé d’água violento.

Como mais uma comprovação de que há males que vêm para o bem, as chuvas que atrapalham o turismo rural são as mesmas que irrigam a plantação. Como nem tudo são flores e a alegria não é algo permanente, como limo é coisa que escorrega e tem muita gente que não está acostumada a andar em pedra molhada, um escorregão de pai nos fez levar menino pequeno a hospital em Alegre para confirmar que o galo que cresceu na cabeça dele não era nada sério. As comemorações foram animadíssimas, com a parentada bebendo, comendo e falando alto ao lado de um fogão a lenha queimando os pedaços de eucalipto que recolhemos na estrada, na volta.

Patrimônio da Penha, onde alugamos uma casinha muito simples, é um lugar especial. Não sei exatamente a origem e as razões, mas por lá vive e circula gente que optou por padrões alternativos de vida. Ainda que o resto da nossa turma nada tivesse de parecido com os hippies de antigamente, fiquei com a impressão de que a minha barba branca e os meus cabelos compridos facilitaram a minha ambientação.

Vitória, 16 de setembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casa dos Braga, Cachoeiro de Itapemirim

Casa dos Braga, Cachoeiro de Itapemirim

A notícia de que a Casa dos Braga vai ser restaurada trouxe uma doce saudade de mamãe. Meu avô comprou aquele chalé em 1913 para abrigar a família que crescia e os parentes e amigos que, morando nas fazendas próximas, precisassem de apoio na cidade para se tratar, estudar, fazer compras ou participar de festa animada. Espaçoso, com pé direito alto e um grande porão no térreo, também garantia pouso seco para vizinhos cujas moradias tivessem sido invadidas pelo rio Itapemirim. Para mamãe, aquela casa era o lugar mais importante do mundo. Digo isso com convicção, sabendo que ela era uma pessoa lida e viajada, com perfeita noção do valor e do mérito das coisas. Era seu marco de referência. Foi ali que ela nasceu, em 1922, casou-se e viveu até os trinta e cinco anos, já mãe de uma prole.

Quando viemos para Vitória, a casa ficou aos cuidados de uma família amiga. Depois, para ajudar nas despesas, abrigou uma escola e, em seguida, um restaurante, o que fez tio Rubem reclamar que não tinha gostado de ver um pessoal bebendo e falando alto bem no quarto da mãe dele. O fato é que mamãe só sossegou quando a casa foi desapropriada pela Prefeitura de Cachoeiro. Até então, ela ficava apreensiva sempre que chovia pesado e muitas vezes tivemos que levá-la para conferir os estragos de perto. Em solenidade inesquecível, no meio da rua, com a presença do Ministro da Cultura Celso Furtado e de muitos amigos de infância dela, foi inaugurada a Casa dos Braga, como centro cultural. Por duas décadas sediou também a biblioteca municipal. Ficou desocupada nos últimos anos, à espera de providências para transformá-la numa espécie de museu-casa. Restaurada, receberá de volta seu antigo acervo e os móveis originais do quarto do casal e da sala de jantar e objetos decorativos de época, que compunham a casa de mamãe, em Vitória, além de documentos, fotografias, livros, desenhos e pinturas produzidos por membros da família. A ideia é recompor parte do ambiente da moradia dos Braga, cuja história está fortemente vinculada à vida de Cachoeiro.

Chico Braga veio de São Paulo visitar sua tia Graça Guardia, educadora destacada na formação dos cachoeirenses. Apaixonou-se por Rachel Coelho, da Fazenda do Frade, e resolveu ficar. Homem bem formado, foi nomeado tabelião. Sério, de poucas e certeiras palavras, foi o primeiro prefeito da cidade. Criou seus filhos respeitando a personalidade de cada um. Mamãe dizia que tia Carmosina era pessoa à frente do seu tempo: foi a primeira cachoeirense a tirar carteira de motorista. Armando, com talento para as finanças, foi de dono de banco a Secretário da Fazenda. Jerônimo, jornalista, fundou o Correio do Sul em 1929, onde foram publicados os primeiros textos enviados por Rubem, aos quinze anos, estudante no Rio de Janeiro: ele recebera apoio do pai para não mais voltar ao Liceu depois de ter brigado com o professor de matemática que o chamara de burro. Newton, formado em Direito, retornou de Belo Horizonte para assumir o cartório da família, criou a primeira agencia de propaganda e inventou a Festa de Cachoeiro. Poeta de primeira, era pessoa muito querida. Yedda encantou um jovem advogado carioca e logo se casou, indo viver no Rio em meio a artistas e intelectuais, amigos do já consagrado irmão cronista. Gracinha, a caçula, casou-se com o sanitarista Bolívar de Abreu, homem público de muitas realizações. Para sua glória, aos 89 anos, justamente no ano do centenário de Newton, foi escolhida Cachoeirense Ausente. Nas nuvens, dançou a noite inteira no baile de gala da Cidade.

Vitória, 02 de setembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempo de sinal

Tempo de sinal

Bem que andei tentando encontrar um assunto leve pra fazer a crônica desta semana mas foi difícil, muito difícil. É que, como deve estar acontecendo com muita gente, as minhas atenções andam concentradas nas coisas da política federal. Tenho acompanhado de perto a evolução dos fatos pela imprensa e tentado entender e interpretar os acontecimentos em conversas com amigos. A cada dia surgem fatos relevantes, muitos deles inesperados. Em meio a uma enorme crise de confiança, a busca por espaço e poder aquece o jogo de forças, alterando as condições de equilíbrio do conjunto. Vive-se um ambiente de tensão e incertezas como há muito não se via por aqui, que estarrece e desanima toda e qualquer pessoa livre da obrigação pragmática de justificar bandidagens e safadezas com dinheiro público. Tudo agravado pela retração da economia.

Falando nisso, faz tempo que acompanho o vigoroso comércio de sacos de algodão grosso, trazidos de Minas, que se estabeleceu nas esquinas movimentadas, em plena luz do dia. Não cabem afirmativas categóricas, mas é bem provável que a falta de dinheiro também tenha afetado esse tipo de negócio: no começo, eram três sacos por dez reais, depois quatro e, de uns tempos pra cá, estão em promoção de cinco por dez. A promoção tem sido praticada por todos os vendedores de sacos e anunciada nas tabuletas que eles mostram aos motoristas. Pelo que se vê, ou uma única empresa monopoliza a distribuição de sacos para fazer pano de chão – produto indispensável para limpar o pó preto nosso de todos os dias – ou alguns comerciantes mais espertos se organizaram em cartel para dominar o mercado, atuando em parceria com as grandes empresas que lançam o pó sobre todos nós, diariamente, garantindo a demanda.

No começo da semana consegui observar um artesão magrinho que estava no canteiro central esperando o sinal abrir para atravessar a avenida congestionada. Apoiado na alça de um carrinho de duas rodas, equipado com uma dessas caixas de despachar animais em aeroporto, ele segurava um mostruário dos produtos que faz pra vender: pulseiras, colares e brincos de metal. De roupa escura e sandálias de couro cru levava na cabeça uma boina dos que amam o reggae e adoram Bob Marley. Sua barba e seus cabelos eram bem maiores do que os meus. Ao seu lado, um cachorrinho de pelos longos e também desgrenhados vinha preso ao carrinho por uma corda encardida em volta do pescoço. Paciente, ele demonstrava saber esperar o sinal abrir para seguir em frente. Vistos de longe, aqueles dois davam a impressão de estarem nas estradas da vida há um bom tempo. Imaginei que em situações de perigo potencial e, sobretudo, em viagens, o homem enfiaria o cachorrinho na caixa, junto com o material e as ferramentas, e sairia puxando o carrinho tranquilamente, em busca de novos mercados.

Pude acompanhar, agora pela janela do carro, uma mocinha elegante em seus trajes de ginástica brincando com um labrador amarelado muito simpático, bem no centro da quadra para aeromodelismo. A brincadeira era jogar longe uma bolinha de tênis para o cachorro trazer de volta, para ser novamente arremessada. Depois de duas jogadas, para o completo desconsolo do cachorrão, a bola foi guardada numa bolsa, de onde surgiu uma guia colorida que foi engatada na sua coleira reforçada. Perfeitamente adestrado, ele parecia saber que a brincadeira havia chegado ao fim e que era hora de ir pra casa. Isso me fez pensar na dificuldade que muita gente tem de perceber a hora de parar tudo, pedir pra sair e voltar pra casa.

Vitória, 19 de agosto de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Carros

Carros

Tenho uma fotografia de tia Carmosina, a primeira mulher a tirar carteira em Cachoeiro, ao volante de um Ford 29 novinho, com mamãe e tia Yedda, ainda pequenas, no banco de trás. Todas de chapéu e vestido de festa. Numa outra, de calça curta, os três meninos do Dr. Bolivar estão encostados na camionete preta de para-lamas arredondados que ele usava no serviço. Dos tempos em La Paz, guardo uma foto do passeio para ver neve pela primeira vez. Estamos ao lado do Chevrolet 56 que, para tristeza geral, não conseguiu encarar as íngremes ladeiras no ar rarefeito dos Andes. Em Bogotá, a família tinha uma Mercedes Benz, de portas que se fechavam silenciosamente. Quando viemos pra Vitória, papai comprou um Chevrolet 53 azul, que ele gostava de dirigir com só um dedo na direção, para mostrar como era levinha. Viúva, mamãe ganhou do irmão um Fusca 63 verde claro para que os filhos, ainda sem carteira de motorista, a levassem para trabalhar lá no Centro. Nos horários vagos, o famoso “6 37 00” era usado no transporte dos primeiros roqueiros da cidade e nas idas a Guarapari, sempre com gasolina rateada.

Nos anos sessenta, as ruas da Praia do Canto eram desertas e os automóveis, pouquíssimos e identificáveis. Tanto que havia um rapaz que sabia de cor a placa, de cinco números, e o telefone, de quatro dígitos, do dono de cada carro que circulasse no bairro. Na verdade, era fácil saber que o Chevrolet Bel Air que rodava devagar era de Seu Anacleto e que a camionete Ford cabine dupla azul, que passava em alta velocidade, era de Dona Arlete Vivacqua. O DKW de tração dianteira e portas que abriam pra frente era de Barrica, que adorava dar cavalo de pau no barro do pré-asfalto. O Candango, um jipinho fantástico, devia ser de Jayme e Carlinhos Larica ou de um dos meus irmãos. O Fusca com o motorista curvado sobre o volante, na certa era de Marco Murad e o Gordini novinho, de tio Cristalino, comprado com os primeiros salários de desembargador. Uma Rural Willys seria, provavelmente, de algum engenheiro da CVRD como Dr. Duarte que, distraído, tombou a dele ao subir num monte de areia na Avenida Beira Mar. A do Dr. Bley, a Jaqueline, se acabou na curva do DNER, numa capotada espetacular, por imperícia de Paulo Bley, que vinha da farra com os amigos.

Aurora Gorda, cafetina de grande prestígio, cliente preferencial das concessionárias de carros de luxo, era sempre a primeira a adquirir os últimos lançamentos para ficar passeando pela cidade, sentada no banco de trás, acenando para os conhecidos. Imagino que ela se sentia gente muito importante a bordo de um Galaxy, uma “banheira” macia e super confortável. O irmão de Jorginho Saade tinha um Dodge Dart, o top de linha dos semi-esportivos nacionais da época, que dirigia bem devagarzinho, fazendo pose para as morenas. Gute Santos Neves vivia pra lá e pra cá no Simca Chambord do pai até ganhar um Karman Guia bege. Neném, meu cunhado, circulava num Puma branco que dizia ser um carro anti-sogra, porque o banco de trás era apertadíssimo. Charmoso mesmo era o Interlagos conversível vermelho que Zezé Turquetto escolheu para passear por aqui nas tardes de verão. Mas nada se comparava ao Thunderbird de Jair Coser que eu vi cantando pneu, quase sem sair do lugar, no barro duro da Rua Madeira de Freitas. O adesivo Powered by Tommasi me faz lembrar da paixão que Paulo César tinha pelos motores. Para espanto de alguns, ele decidiu, ainda moleque, virar mecânico de automóvel, fazendo a alegria dos que queriam “envenenar” seus carros.

Vitória, 05 de agosto de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cachorrada

Cachorrada

Há mais de vinte anos que temos sempre em casa dois ou três cachorros da raça basset, ideal para brincar com criança e acompanhar adulto. A dinastia começou com Guimba, descendente direto de Artur, da Mata da Praia, que foi roubado quando vagabundava pelo bairro. Do cruzamento dele com Sacha, a dama do pedaço, nasceu Bingo, que viveu dezessete anos sem estranhar uma pessoa sequer e que, ao envelhecer, ganhou o apelido de Vovô Garoto, porque assumia porte atlético e jovial quando estava na rua. Nunca adoeceu e foi morrer lá na praia. De um amigo criador de basset ganhamos a Gigi do Grotes e, do cruzamento dela com Bingo, nasceu Reggae, cor de chocolate, o mais bonito que conheci. Viveu uns dez anos. Para compensar a sua perda, Diana e Bento foram até Paul comprar Kill e Bill, que estão aqui até hoje. Um é caramelo, pequeno e desconfiado; o outro é preto, parrudo e simpático. Foi difícil convencer Carol a aceitar Pingo Lingo Django, filhote de Kill e da vizinha Luma, filha da Sacha. Era o maior da ninhada e o único com pernas compridas e manchas brancas, por obra de genética traiçoeira. Brincalhão e sedutor, ele ganhou a preferência de todos, inclusive de visitas e entregadores.

Cachorro também ajuda a puxar pela memória. Dos meus tempos de adolescente, guardo lembranças de Braine, um alegre pastor alemão que frequentava a Praia do Barracão e adorava nadar para pegar o pedaço de pau que alguém jogasse no mar. Saído da água, sacudia o corpo, molhando quem estivesse por perto. O casal de dobermann da casa de Paulo Bley assustava, com latidos inesperados, quem viesse andando pela calçada, rente ao muro. O portão era de grade e eles ficavam ali, de plantão, como convém aos cães de guarda. Até hoje não sei o motivo da mordida no dedo que levei do collie da casa de Marcelo, onde eu estudava para o vestibular. Com a maior dor no coração, tivemos que sacrificar Juridal, um afável setter irlandês, de pelos longos avermelhados, que me fora dado por um caçador que desistira de tentar ensiná-lo a ir buscar as marrecas que abatia com tiro de espingarda. Zorro era um vira-lata enorme que Afonso, meu irmão, garantia ser o pai da maioria dos cachorros da cidade. Dormia na varanda e impunha respeito com latido grave. Mais pro fim da vida, já meio cansado, apenas abanava o rabo para saudar quem passasse por perto. Foi aí que arranjaram um desses cachorrinhos neuróticos, para acordá-lo em situações de ameaça iminente. Não me esqueço de Faruk, o vira-lata dos Ananias, o valente defensor da rua Eugênio Netto que odiava as motocicletas barulhentas dos filhos do Dr. Dido Fontes. Isso até o dia em que Renan tirou um fino no poste no meio da rua, fazendo com que Faruk, que vinha no galope latindo do lado das suas pernas, se estatelasse no tubo de aço, bem diante dos nossos olhos.

Mamãe ficava com os olhinhos brilhando ao contar histórias de Zig Braga, um cachorrão enorme da sua adolescência. Malandro, dormia no piso fresco da igreja ao lado de vovó Neném, durante a missa inteira. Conhecidíssimo em Cachoeiro, Zig virou personagem de crônica, onde está dito que ele detestava homem fardado, inclusive carteiros. Antigamente, muitos cachorros viviam soltos na rua e os mais bravos imponham restrições a quem invadisse seu território. O jeito era levantar as pernas ao passar de bicicleta ou, por via das dúvidas, fingir que se estava pegando uma pedra no chão. Meu tio Newton descreveu, com grande propriedade, um encontro de um homem e um cachorro em rua deserta, cada qual morrendo de medo do outro. Posso apostar que ele era o tal medroso.

Vitória, 22 de Julho de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA