Pescaria em tempos de crise

Pescaria em tempos de crise

Avô pescador experiente que sou e sabendo que no sábado à tarde a maré estaria enchendo e meio morta, achei por bem levar os dois netos mais velhos para pescar lá no píer da Praia do Suá. Sem muita paciência, venho tentado repassar para Theo e Manu os segredos que acumulei em centenas de pescarias ao longo da vida. Não sei se é do conhecimento de todos, mas a arte da pesca exige muita paciência, algumas habilidades especiais, além de boa dose de malandragem, sobretudo quando a intenção é pegar peixes miúdos, extremamente ariscos. Depois de algumas tentativas, os dois já dominam as atividades básicas do esporte: colocar camarão no anzol, jogar a linha na água com categoria e, o que é mais difícil, esperar que os peixes mordam a isca. Com a prática, eles vão adquirir as manhas das fisgadas mortíferas, que exigem reflexos bem condicionados e são fundamentais para a obtenção de elevados níveis de produtividade.

No outro lado do píer, virado para o Convento, uma senhora de seus sessenta anos, metida numa roupa esportiva espalhafatosa, pescava com seriedade. Concentrada e em perfeito silêncio, ela ia fisgando um peixe após outro, para inveja dos membros da nossa equipe. Bem que tentei fazer dela uma pescadora de referência, mas ninguém deu bola para algo fundamental que tentei ensinar: a inveja é fator determinante nos resultados, tanto que os pescadores invejosos não pegam quase nada. O fato é que, pelas contas de Manu, em menos de duas horas, eu peguei oito coró-corós e os meus aprendizes, apenas dois cada um. Como nos programas de pescaria na TV, soltamos os peixes que íamos pegando, o que nunca fiz na vida.

Toda essa conversa de pescaria pode mesmo soar como pura embromação. Na verdade, eu deveria mesmo é ter escrito uma crônica otimista sobre o que vem vindo por ai: Temer pretendendo se transformar em estadista, Cunha querendo distância do STF, Lula tentando escapar do cerco da Lava Jato e dona Dilma inteiramente sozinha, vagando pelos jardins do Palácio da Alvorada com olhar perdido nas águas plácidas do Lago Paranoá.

Vitória, 04 de maio de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

No varejo

No varejo

Vivemos tempos trepidantes na política. Na última semana muita gente passou horas grudada na televisão, acompanhando ao vivo o processo de admissibilidade do impedimento da Presidente pela Câmara dos Deputados. Muitas das manchetes dos jornais de hoje, terça feira, certamente estarão caducas quando republicadas aqui, na sexta; outras, nem tanto:

“Dilma se sente traída; Tiririca esteve no hotel de Lula antes de votar a favor do impeachment; É estarrecedor que um vice-presidente conspire contra o presidente, diz Dilma; Temer reúne equipe para combater discurso de ‘vitimização’ de petista; Cardozo: ‘Dilma vai até o fim desta luta’; Governo pode ir de novo ao STF para tentar barrar impeachment; Dilma tenta convencer Renan a retardar impeachment no Senado; Governo dá como certo afastamento de Dilma após análise do impeachment no Senado; Para NY Times, Dilma terá que mostrar liderança mais forte e clareza de ideias se quiser sobreviver; PT e ministros defendem que Dilma reduza mandato e lance ‘diretas já’; O fim do governo Dilma é só o começo;”

“Temer deflagra a escolha de ministros e já discute medidas; ‘Centrão’ começa a cobrar Temer por apoio em votação; Aliados querem anistia para Eduardo Cunha; Estão vendendo terreno na lua’, critica Dilma sobre articulação de Temer; Planalto manda liberar R$ 50,5 milhões a deputados do PR que votaram contra impeachment; Renan pegou propina de US$ 6 mi, afirma Cerveró à Justiça; Laudo da PF identifica pagamentos da Andrade Gutierrez para Lula; Vice-presidente já foi citado por dois delatores da Operação Lava Jato; Delcídio tratou com Dilma sobre liberação de Marcelo Odebrecht; Número de ‘inimigos’ da Lava Jato cresce a cada dia, diz procurador; Temer precisará blindar a Polícia Federal.”

Como não se vive só de política, anotei também: “Arrecadação cai 8,10% no primeiro semestre; Presidente da Anatel diz que era da internet ilimitada chegou ao fim; Foz do Rio Doce está com quatro metais pesados; País se espanta ao ver seu espelho político durante votação na TV.”

Vitória, 20 de abril de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cachoeirense Ausente

Cachoeirense Ausente

Na semana passada estive em Cachoeiro. Fui tratar da candidatura de um grande amigo de infância a Cachoeirense Ausente de 2016. Trata-se de honraria conferida a pessoas que engrandecem a sua cidade natal, por seus méritos pessoais e suas realizações profissionais em terras distantes. A escolha é feita pelo voto secreto de representantes de vinte e tantos órgãos e entidades com atuação reconhecida na cidade. A escolha acontece todo ano, desde 1942.

Newton Braga, irmão de mamãe, inventou a festa de Cachoeiro justamente para reforçar as relações entre moradores e, também, para atrair conterrâneos espalhados por esse mundo a fora. Matreiro, ele a fez coincidir com o dia de São Pedro, padroeiro da cidade, festejado no dia 29 de junho, bem na boca das férias escolares. Na programação, desfile das escolas, festas populares, baile a rigor, atividades artísticas, torneio de briga de galo e tudo o mais que animasse as ruas e reforçasse a fraternidade.

Iríamos de carro, que é lugar bom pra colocar a conversa em dia e rir das histórias de adolescentes de cidade do interior: farras homéricas, apelidos engraçados, namoros famosos, doidinhos de rua, professores carrascos e muito mais. A comitiva incluía dois amigos do grupo escolar e uma animadíssima cabo eleitoral. Não se falou nada sobre a política nacional.

Enquanto esperava pelos outros, tratei de colher jabuticabas no quintal para oferecer ao nosso ilustre candidato. Ele adorou o presente e, em silêncio, foi chupando uma por uma. Para muitos marmanjos, jabuticaba tem sabor de infância, traz de volta lembranças da fazenda de avô e renova dúvida antiga: engolir ou não engolir o caroço?

À noite, nosso candidato deu uma palestra sobre energias renováveis, quando confirmou a sua vasta experiência profissional e defendeu o uso do bom senso e da racionalidade ao projetar grandes obras de engenharia: uma condição indispensável para minimizar seus impactos sobre a natureza e as populações. Exatamente o que tem faltado por aqui.

Vitória, 06 de abril de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Política e amizades

Política e amizades

Fomos passar três dias em Itapoá, Santa Catarina, cidadezinha situada na margem norte da baía da Babitonga, que é lugar pra turista nenhum botar defeito. Ao todo éramos uns vinte adultos, muitos já maduros. Pessoas de ocupações e interesses bem diversificados, gente habituada a rir das histórias dos outros e de si mesma. O motivo da viagem era nobre: comemoração do aniversário de um xará que vive por lá. Festança para mais de 200 convidados à base de chope gelado e churrasco feito no fogo de chão.

Saí de casa achando que seria um período próprio para uma avaliação serena das coisas que estão ocorrendo no Brasil. É que, como deve estar acontecendo com muita gente, tenho vivido os últimos tempos em estado de alerta permanente, ávido por informações fresquinhas, quase que viciado em noticiários de TV e posts de internet.

Soube com antecedência que não haveria TV a cabo no hotel e nem reclamei: com certeza, eu conseguiria viver uns poucos dias sem notícias sobre os últimos “acontecimentos sócio criminais”, como meu irmão Afonso canta em uma de suas músicas.

Mas mesmo naquele ambiente descontraído, algumas pessoas, sempre de olho no celular, se mantinham on line com o que acontecia em Curitiba, nas avenidas brasileiras, no Congresso Nacional e nos tribunais e palácios em Brasília. As informações que iam chegando eram prontamente oferecidas a quem estivesse por perto. As conversas, frouxas pela cerveja farta, eram seguidamente interrompidas para o relato da última notícia bomba. Novidades sem fim sobre o presente, mas quase nada, além de incertezas, sobre o futuro.

Em companhia daquele grupo razoavelmente afinado em suas expectativas, me vi temporariamente afastado do embate surdo entre certos e errados, bons e maus, informados e desinformados, entre tolerantes e raivosos, crédulos e decepcionados, entre quem tem a ganhar e quem tem a perder com as eventuais mudanças e, o que é muito triste, entre pessoas que eram amigas fraternas até outro dia e hoje se veem como inimigos.

Vitória, 23 de março de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Inveja branca

Inveja branca

Passei uma semana no Uruguai. Voltei de lá com uma inveja danada dos nossos vizinhos. Tinha estado em Montevidéu para uma reunião de trabalho, por volta de 1985. No inverno de 1970, a bordo da Kombi do dono de uma pastelaria da Vila Rubim, alugada de última hora, junto com colegas da turma de engenharia, cruzei o país em caravana a caminho da Argentina. De banho tomado, prontos para conhecer a vida noturna da cidade, fomos impedidos pela chegada repentina do Minuano, vento fortíssimo e gelado, que não nos deixou sair do hotel.

Desta vez, fomos só pra bestar junto de nossas duas filhas que moram em São Paulo, dos genros e do neto caçula. Ficamos na casa de um amigo argentino, à beira mar, perto de Piriápolis, balneário a uns cem quilômetros da capital. Sem pressa e de olhos bem atentos, percorremos um bom pedaço do litoral até depois de Punta del Este. Nas estradas, o trânsito é tranquilo, com poucos caminhões e sem os radares que aumentam substancialmente a tensão ao dirigir. Por todo lado, a expressão do bom gosto arquitetônico e do bom senso urbanístico uruguaio. Quase todas as construções, independente do tamanho e uso, estão em centro de terreno e bem afastadas da estrada. No interior dos bairros, as casas estão à sombra de árvores enormes, em ruas tranquilas de calçadas amplas. Embora eu tenha avistado apenas um único carro de polícia durante todos esses dias, pouquíssimas são as residências protegidas por grades ou muros altos, coisa raríssima por aqui. Lá, a beira mar é lugar público, para o deleite coletivo, e o espetáculo do por do sol em mar aberto é um valioso atrativo turístico, uma espécie de instituição nacional.

Uma curiosidade: por todo lado se vê cachorros enormes, inteiramente soltos. São mansos e afáveis, e parecem livres da obrigação de proteger seus territórios. Três deles acompanharam todas as nossas rodadas de churrasco na varanda e me fizeram relembrar dos tempos em que Zorro, o vira-lata de Afonso, circulava livremente pela Praia do Canto e adjacências, em busca de emoções.

Vitória, 22 de março 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Motorista infrator

Motorista infrator

Na semana passada, fiz o curso de reabilitação de motoristas infratores. Foram trinta horas de aula sobre assuntos relevantes e outros nem tanto, sob um rigoroso sistema de controle de presença on line, via internet. Diariamente coloquei o indicador direito em uma leitora ótica varias vezes: ao entrar na sala, a qualquer tempo antes do recreio, na volta do recreio, a qualquer tempo durante a aula e ao final da aula. Ao todo, foram cinco noites da semana e uma manhã de sábado. Ainda me resta fazer uma prova.

Posso dizer que fui um aluno aplicado: prestei atenção no que diziam os professores e nos vídeos projetados no telão, mostrando consequências das irresponsabilidades e desatenções no trânsito, quase sempre associadas a excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas, bebedeiras e coisas do gênero. Posso dizer que aprendi coisas que nunca soube sobre pneus, que incorporei informações valiosas sobre primeiros socorros, que aprimorei o meu bom senso como motorista e, sobretudo, como proprietário de veículo emprestado para amigos. Conheci pessoas infratoras de vários tipos, incluindo as totalmente resignadas, as relativamente envergonhadas e as parcialmente revoltadas por terem sido penalizadas pelas infrações que cometeram.

As aulas me fizeram refletir bastante sobre leis, direitos e deveres, sistemas de controle social, função educativa das penalidades e por aí afora. Tudo isso reforçado pelo que acontecia no mundo da política durante toda a semana: abertura de processos disciplinares contra autoridades, prisões de suspeitos estratégicos, divulgação de denúncia amiga, invasões autorizadas de domicílios e sedes, condução obrigatória para depoimento, bate boca e pancadaria, discursos inflamados, xingamento, ameaças veladas e outras nem tanto.

Sempre soube que o trânsito reflete de forma escancarada os valores adotados pela sociedade, em um dado momento. O que preocupa é perceber que, a cada dia, estamos mais competitivos, egoístas, nervosos e intolerantes.

Vitória, 08 de março de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Eleições sem investimentos privados

Eleições sem investimentos privados

As eleições deste ano estarão livres dos dinheiros oficialmente vindos de empresas. Em setembro passado o STF tornou ilegal a prática de doações empresariais nas campanhas eleitorais. Neste caso, o termo doação carrega em si uma boa dose de cinismo e de má intenção. Todos nós sabemos que não existe almoço grátis, nem jantar. Para ser mais exata e efetiva, a legislação deveria tratá-las como investimentos.

Tal proibição deverá provocar impactos positivos no processo de escolha dos vereadores e prefeitos Brasil a fora, ainda mais porque o futuro presidente do STE prometeu uma espécie de guerra santa contra o caixa dois. Em tempos de Lava Jato, sou forçado a acreditar que teremos uma eleição atípica: mais barata e com menor influência do poder econômico, sobretudo das grandes empresas.

Lembro-me de ter lido sobre o uso da palavra “obrigado” em sinal de agradecimento a quem proporcione algo que nos agrade ou favoreça. O autor mostrava as diferenças entre o nosso modo de verbalizar tais emoções e os de outros povos latinos. Nós e os portugueses dizemos obrigado, vindo do latim obligare, que expressa dívida, obrigação, compromisso moral em retribuir o que foi recebido. Outros usam gracias, grazie, grácies, tudo saído de gratias, da mesma fonte, que expressa tão somente agradecimento.

Tem sido prática corrente entre empresas poderosas investir em candidatos que apresentem maiores chances de vitória, sobretudo naqueles com maior potencial de manter fidelidade aos interesses delas. A expectativa de retorno desses investimentos se materializa de duas formas distintas: favorecimento nas contratações de obras e serviços e aquisições de bens de consumo e na garantia para realizar suas atividades inteiramente livres da interferência restritiva do poder público. Aqui, elas investem mais pesadamente nos candidatos que aprovariam leis compensadoras e naqueles que seriam propositadamente negligentes na responsabilização por danos às pessoas e ao meio ambiente. As obrigações dos eleitos serão só com seus eleitores.

Vitória, 24 fevereiro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita pra A GAZETA

Não passarão

Não passarão

2016 promete fortes emoções republicanas. Além das operações da policia federal, merece atenção a demanda da Câmara dos Deputados para que o STF reveja suas decisões sobre o rito do impeachment, baseadas em argumentação tendenciosa do ministro Barroso. Digo isso por que assisti ao julgamento pela TV e vi a reação contundente de vários ministros às suas interpretações e, por que não dizer, seus blefes. Senti raiva e vergonha, afinal aquela é a última instância da justiça brasileira, onde não deveriam caber cinismos e afrontas à lei. Imagino que após conhecer a argumentação dos advogados da Câmara, a ministra Carmem Lúcia, próxima presidente do Tribunal, se sentirá traída na sua boa fé. Ela acompanhou o voto do colega Barroso, elogiando o seu brilhantismo. A decisão foi por diferença mínima e colocou o Supremo em posição muito vulnerável. Mais de trezentos deputados já pediram, por escrito, a cabeça do ministro.

Acompanho, quase sem informações, a peleja do pó preto no âmbito da Segunda Vara da Justiça Federal no Rio. Depois de perder o recurso feito a um juiz carioca para anular a decisão de um juiz capixaba, a VALE agora tenta convencer desembargadores. O primeiro se declarou impedido, o que me pareceu um bom sinal. O processo foi redistribuído para uma desembargadora que, quero crer, reconhecerá o pó preto como uma afronta à população.

Ridícula a argumentação dos advogados de que as adequações nos sistemas de controle do pó seriam muito custosas, como se tais investimentos não fossem obrigatórios, típicos desse negócio, de lucros tão comemorados. Por certo, eles desconsideram o quanto a população gasta com tratamentos de saúde e com a limpeza permanente de suas casas. Uma coisa é certa: o prazo de 60 dias está correndo e eu ainda não soube das providências da empresa para atender as exigências do juiz federal carioca. Se a desembargadora mantiver a linha de decisão, uma nova paralisação dos portos será da inteira responsabilidade dos dirigentes da mineradora.

Vitória, 10 de fevereiro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para a GAZETA

Agora vai!

Agora vai!

O pó preto tem frequentado minhas crônicas com boa insistência. Tenho reclamado dos incômodos que provoca e mostrado que ele expressa grande desrespeito aos que vivem aqui. Por total descrença na disposição dos dirigentes municipais, estaduais e federais, assim como da nossa justiça, em equacionar o assunto, já cheguei a pedir ajuda a Papai Noel para tentar acabar com a sujeira diária. O mundo dá voltas e a saturação produz reações. A roubalheira na Petrobras e a tragédia provocada pela SAMARCO em Mariana ajudaram a engrossar reações convictas da população capixaba contra a liberdade da VALE em continuar lançando grandes quantidades de pó preto sobre a Grande Vitória.

Por isso mesmo, confesso que os últimos acontecimentos me animaram. Como muita gente, estou batendo palmas para o juiz federal Marcus Vinícius Costa, espécie de Sérgio Moro capixaba, que determinou a interrupção das atividades na Ponta do Tubarão por crime ambiental federal. Acompanho com atenção os desdobramentos na Justiça Federal no Rio de Janeiro, onde o juiz Vigdor Teitel, nome de super-herói, estabeleceu prazo de 60 dias para que a VALE apresente proposta para sanar de vez o problema. Li que a empresa contratou uma banca de advocacia caríssima, formada por mais de noventa advogados e uns tantos especialistas, para tentar reverter a decisão da justiça que tanto nos interessa. Dinheirão jogado fora.

O fato promissor é que a tolerância de muita gente séria acabou e isso faz a coisa ganhar outro rumo. A nota oficial que a empresa fez publicar neste jornal sobre o assunto afronta a inteligência e o bom senso de pessoas tolerantes e experientes como eu. Daqui pra frente, não restará à VALE alternativa que não seja a de encapsular seus pátios de minério e suas correias transportadoras, como é feito nos lugares onde a população não admite ser tratada como sendo de quinta categoria. Além de sujar, a VALE não paga as multas que recebe e, segundo a Receita Federal, é a maior devedora de impostos do país. Deve algo como R$ 42 bilhões.

Vitória, 27 de janeiro de 2016.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Seria bem melhor

Seria bem melhor

Vitória é ilha de poucas praias. Poucas e pequenas, pra ser exato. Não fosse Camburí, que fica lá no continente, a cidade contaria com pouquíssimos metros de areia para o pessoal se esbaldar sob o sol quente e se refrescar em águas protegidas. Ilha de formação rochosa situada dentro de um estuário, as suas áreas à beira d´água eram quase todas ocupadas por manguezais. Bem diferente da ilha de Florianópolis, em mar aberto, com quilômetros de areias brancas e águas cristalinas.

As praias originais da nossa ilha são contadas nos dedos. Tirando uma ou outra, lá nos fundos da baia, todas elas eram viradas para o leste: a praia do Suá, onde hoje estão as peixarias; a de Santa Helena, onde está a praça do pedágio; a do Barracão, onde está o edifício Paulo VI e, por fim, a Praia do Canto, que começava no McDonald’s e terminava no pé da ladeira do colégio das freiras. Imagino que essas duas últimas eram uma só, até que se construiu um paredão de pedras, de uns novecentos metros de extensão, para suportar a Avenida Saturnino de Brito e embelezar o lugar. Nas suas calçadas, foram plantadas sessenta e duas castanheiras que sombrearam as pescarias e os passeios de muita gente. Hoje elas marcam o contorno da orla antiga.

No início dos anos setenta, aquele cenário foi radicalmente alterado por um grande aterro, fazendo surgir duas praias entre o Iate Club e a Ilha do Boi que, anexada à ilha maior, ganhou caminho para as duas nela existentes. Uma ponte viabilizou o acesso às quatro praias da Ilha do Frade. O aterro fez surgir ainda outras três, viradas para o canal: embaixo da Terceira Ponte, na Praça do Papa e outra, atrás do Shopping, que tem sido frequentada por Fred, um pacato elefante marinho. E é só.

Lugar de lazer gratuito e democrático, as praias são usadas o dia inteiro no verão. No começo da manhã, pelas famílias e crianças pequenas, depois por farofeiros de todos os quilates e pela moçada saudável e procurante. Seria um programa perfeito se a água do mar estivesse sempre limpa, própria ao mergulho restaurador.

Vitória, 11 de janeiro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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