Pisaram na bola

Pisaram na bola

Com as transmissões ao vivo do processo do Mensalão, tomei gosto pelos embates que acontecem no Supremo Tribunal Federal. Naquela época, acamado, passei dias de olho na TV, tentando entender as argumentações e as firulas técnicas contra e a favor do que estivesse em questão. Acabei prestando atenção também nas atitudes dos ministros ao expressarem seus próprios entendimentos ou ao acompanharem a posição de um dos pares. Com o tempo, fui criando expectativas sobre o posicionamento de cada um deles nos embates jurídicos e, porque não, no contexto da política. Tudo isso foi ficando ainda mais claro na apreciação dos embargos infringentes e durante a definição dos ritos do processo de impeachment da presidente, a serem seguidos pelo Congresso.

Confesso que fiquei curioso pra ver as atitudes do ministro Lewandowski no comando da sessão do julgamento do Senado Federal. Eu acumulara desconfianças em relação àquele senhor de atitudes altivas, inteiramente ciente de seus poderes. Mas devo dizer que cheguei a concordar com senadores que elogiavam a imparcialidade e a firmeza com que ele vinha conduzindo aquelas longas e tumultuadas reuniões.

E foi com espírito desarmado que me sentei para acompanhar a votação final. O estado de alma leve durou só até quando o presidente Lewandowski anunciou, burocraticamente, que havia um pedido de destaque para ser apreciado antes da votação. Como muita gente, desconfiei ainda mais ao acompanhar as suas longas e bem concatenadas ponderações em favor do fatiamento do artigo 52 da Constituição, como se seguisse um script previamente combinado. O discurso extemporâneo do senador Renan gerou perplexidade e acabou por me fazer acreditar em mais uma tramoia. O fato é que o julgamento, além de fortalecer convicções que fundamentam protestos e mobilizações, acabou por gerar uma tremenda insegurança jurídica que vai consumir muita energia para se dissipar, mesmo que sob a batuta da ministra Carmem Lúcia, uma mineira firme e discreta, que presidirá o STF a partir da próxima semana.

Vitória, 06 de setembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casal que faz bonito

Casal que faz bonito

Agosto está pródigo em acontecimentos significativos para a cidade. Dois deles foram produzidos por um casal de amigos: um em palácio de governo e outro no meio da rua, sob de inverno.

No início do mês, Hilal Sami Hilal abriu uma instigante exposição no Palácio Anchieta. No pavimento superior ele espalhou objetos inspirados pela chegada do primeiro neto: rodas, aviões e barquinhos enormes. No térreo, instalou uma rua cravejada de brilhantes sob luz de lua e pela qual se chega a um grande mapa mundi orgânico e colorido. Em sala bem pequena, Hilal colocou um livro aberto de muitas páginas, de três metros de altura e outros tantos de largura, o maior que já vi. Nele não se vê palavras, só paisagens com nuvens que podem embasbacar até marmanjo durão. A última sala está tomada por uma obra coletiva de grande impacto: teto forrado de espelho refletindo as paredes cobertas por desenhos enormes formados por dez mil nomes de gente querida. Todos eles escritos, com pasta colorida de papel de algodão, pelos dois mil e quinhentos alunos de escolas públicas que o artista incluiu no seu processo de criação.

No sábado passado, uns duzentos metros da rua Aprígio de Freitas, no bairro da Consolação, foram inteiramente pintados. Uma nova iniciativa da galerista Thais Hilal para tornar a rua onde o casal vive e trabalha mais bacana. A brincadeira envolveu amigos e moradores sob a orientação do grafiteiro Fredone, que pinta muros aqui e mundo a fora. Começou pela demarcação do croqui da obra no asfalto, com barbante esticado e giz. O serviço de pintura, com rolinho e pincel, só terminou com noite fechada. Quando lá cheguei, as pessoas já finalizavam as últimas áreas e caprichavam no acabamento das fronteiras entre o preto, o branco, o cinza e o vermelho. Cansadas e respingadas de tinta, elas pareciam orgulhosas por terem feito, juntas, algo tão simpático naquele lugar de passagem.

Sem exagerar: quem não passar por aquela rua colorida ou não visitar a exposição de Hilal merece ficar de castigo, ajoelhado no caroço de milho.

Vitória, 24 de agosto de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Gentel fazendo bonito

Gente fazendo bonito

Agosto está pródigo em acontecimentos significativos para a cidade. Dois deles foram produzidos por um casal de amigos: um em palácio de governo e outro no meio da rua, sob sol de inverno.

No início do mês, Hilal Sami Hilal abriu uma instigante exposição no Palácio Anchieta. No pavimento superior ele espalhou objetos inspirados pela chegada do primeiro neto: rodas, aviões e barquinhos enormes. No térreo, instalou uma rua cravejada de brilhantes sob luz de lua e pela qual se chega a um grande mapa mundi orgânico e colorido. Em sala bem pequena, Hilal colocou um livro aberto de muitas páginas, de três metros de altura e outros tantos de largura, o maior que já vi. Nele não se vê palavras, só paisagens com nuvens que podem embasbacar até marmanjo durão. A última sala está tomada por uma obra coletiva de grande impacto: teto forrado de espelho refletindo as paredes cobertas por desenhos enormes formados por dez mil nomes de gente querida. Todos eles escritos, com pasta colorida de papel de algodão, pelos dois mil e quinhentos alunos de escolas públicas que o artista incluiu no processo de criação.

No sábado passado, uns duzentos metros da rua Aprígio de Freitas, no bairro da Consolação, foram inteiramente pintados. Uma nova iniciativa da galerista Thais Hilal para tornar a rua onde o casal vive e trabalha mais bacana. A brincadeira envolveu amigos e moradores sob a orientação do grafiteiro Fredone, que pinta muros aqui e mundo a fora. O artista começou demarcando a obra no asfalto, com barbante esticado e giz. O serviço de pintura, com rolinho e pincel, só terminou com noite fechada. Quando lá cheguei, o pessoal já finalizava as últimas áreas e caprichava no acabamento das fronteiras entre o preto, o branco, o cinza e o vermelho. Cansadas e respingadas de tinta, as pessoas pareciam orgulhosas por terem feito, juntas, algo tão bonito naquele lugar de passagem.

Sem exagerar: quem não passar por aquela rua colorida ou não visitar a exposição de Hilal merece ficar de castigo, ajoelhado no caroço de milho.

Vitória, 24 de agosto de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Águas passadas

Águas passadas

Fui o nadador mais rápido do Espírito Santo por quase 10 anos. Faço parte da equipe de nadadores do antigo Praia Tênis Club, onde foi construída a primeira piscina semi olímpica de Vitória. Meus amigos mais antigos sabem disso e podem testemunhar a meu favor, se necessário. Não me lembro de como começou, mas posso garantir que éramos bem poucos os que entravam na água cheirando a cloro em busca de medalhas. Deve ter sido por mera brincadeira, nunca por estimulo de pais ou dirigentes. Todo moleque gosta de disputar com os colegas pra ver quem corre mais rápido, quem fica mais tempo debaixo d’água, quem bate primeiro na outra borda.

Com a chegada de Carlos Urbano, o Carioca, que treinava o time de basquete, a coisa começou a ganhar alguma seriedade. Lembro-me dele mandando a gente correr, fazer flexões, exercícios de alongamento e muito polichinelo. Depois do aquecimento era a vez de nadar de um lado para o outro, alternando o ritmo das braçadas. Ele estimulava o espírito de competição da turma com palavras de ordem e palavrões amistosos.

Por essas e outras é que a natação virou uma atividade relevante na minha vida de rapaz namorador que praticava muitos esportes. Dei braçadas em muitos lugares, a começar por Cachoeiro. Até hoje tem quem se recorde da disputa que travei com Mauro Madureira na piscina do Liceu, no início dos anos sessenta. Perereca, esse era o apelido dele, era ídolo na cidade. Dizem que só ganhei porque ele estava muito gripado, o que nunca foi comprovado. Nos jogos universitários em Curitiba, a água gelada anulou meses de treinamento, mas nos de Salvador, consegui um honroso oitavo lugar entre os bambambans da natação nacional.

Essas lembranças me vêm ao assistir provas de natação na Olimpíada do Rio. Sempre fico impressionado com a evolução dos índices nesses cinquenta anos. Em 1961 o brasileiro Manoel dos Santos bateu o recorde mundial dos 100m nado livre com 53.6 segundos. A marca atual ronda os 45. Hoje, as mulheres estão bem mais velozes do que eu fui. Nadando de costas.

Vitória, 10 de agosto de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casamento de caçula

Casamento de caçula

Veio gente de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Petrópolis, Ouro Preto, Alegre e Salvador. A festa começou às quatro da tarde e teve quem saísse de lá com dia claro. Eu mesmo aproveitei umas oito horas de comemoração. Sou do tipo de pai de noiva que trabalhar sem parar até que tudo fique como a filha exigente idealizou. E mais, a tensão das últimas horas, por conta das ameaças de chuva pesada, consumiu muitas energias vitais. Se chovesse como choveu em quase todos os lugares em volta, a cerimônia do casório a céu aberto iria por água abaixo, literalmente. Do alto do morrinho, mar adentro, como no tombadilho de um navio, dava para acompanhar a movimentação das nuvens carregadas no horizonte e conferir as chuvas caindo alternadamente nos quadrantes sul, norte, leste e oeste. Talvez em função de muita reza forte, o céu clareou no meio da tarde e o vento soprou o suficiente para refrescar o ambiente.

Tem gente que compra pronto, mas o pessoal daqui de casa prefere fazer a festa completa. Desta vez, o projeto de decoração incluía dezenas de barquinhos de papel, centenas de borbulhas, muita corda grossa, conchas variadas e tudo o mais. Nas últimas semanas a nossa casa virou uma espécie de barracão de escola de samba, com muita gente medindo, cortando, dobrando, colando, enfiando, amarrando e empacotando o que seria usado para enfeitar o lugar da cerimônia, o salão principal, a pista de dança e até os banheiros, tudo isso complementado pelos fartos arranjos de flores e cortinas brancas contratadas. Na véspera e na manhã do sábado, correndo contra o tempo, foi a vez de pendurar o lustre de cordas, a cortina de barquinhos, as fieiras de borbulhas, de montar um enorme painel de milhares de escamas em papel colorido e de finalizar o bolo de nove formas.

A noiva estava uma sereia belíssima e o noivo, um marujo aprumado.  Um grande amigo contou, com palavras emocionadas, a história do namoro dos dois. Os noivos fizeram juras de amor e abriram as comemorações sob as palmas amorosas dos presentes.

Vitória, 27 de julho de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Três tempos

Três tempos

Nessas últimas semanas estive às voltas com emoções fortes, todas tendo Vitória como pano de fundo. Vou por partes. Ao participar de uma solenidade concorridíssima, na qual a Prefeitura tratava do futuro da cidade, senti uma mistura de satisfação profissional com uma nostalgia qualquer. Na pauta, a PPP de iluminação pública, a lei municipal de inovação e, o que mais me emocionou, a licitação das primeiras obras no Parque Tecnológico de Vitória, em Goiabeiras, um instrumento para estimular a geração de emprego, renda e impostos, com base no uso intensivo de conhecimentos técnico-científicos.

O Parque foi idealizado há mais de duas décadas. Acredito que ele vá

cumprir papel parecido com o da guarderia para barcos, pranchas e canoas, de uso público, que mudou definitivamente a paisagem da cidade, ao estimular e viabilizar atividades desportivas ligadas ao mar, ampliando o uso de um recurso natural até então muito pouco explorado pela população. No último fim de semana, Camburi era uma festa só. Dezenas de remadores vindos de muitos estados disputavam provas de canoa havaiana. Na areia, um conhecido me contou, orgulhoso, que o filho dele e alguns amigos já construíram três canoas das grandes e estão animadíssimos em seguir adiante.

Mas também andei abatido com a perda de três personagens da cidade. O primeiro a partir foi Milson Henriques, que ancorou aqui no início dos anos sessenta. Inquieto, criativo e agitador cultural incansável, Milson produziu muitos fatos marcantes na vida artística de uma Vitória ainda pacata e bem comportada. Em seguida, sem avisar, Detinha Son se foi sem que tivesse conseguido viver, totalmente realizada, sua cidade repleta de bicicletas. Tive muita pena. Em conversa sobre a vida, eu lhe prometera meu voto. Detinha seria uma ótima vereadora. Agora foi a vez de Ester Mazzi nos deixar. Sua voz grave me traz de volta cenas de um passado distante, quando Os Mamíferos tocavam, Carmélia escrevia, Milson encenava, Alaerte agitava e o Britz Bar ficava lotado de gente alegre e convicta.

Vitória, 13 de julho de 2016.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Basta lembrar que ajudei a montar a iluminação da sua peça Setembro a Setembrino, encenada por, veja só, estudantes de engenharia.

Parque Tecnológico – futuro está na porta. Muita gente das antigas no auditório – Contei ume versão da história das ações e das ideias.

Visita ao CEASA – nunca tinha ido – saco de maracujá 35 reais – na feira é 5 e 7 no supermercado

Tragédia da Samarco depõe contra o homem. Direção temerária, irresponsável

Tempo de Casamento – alvoroço, muito trabalho manual, , movimentação conhecida, inventação de moda, família completa

Acompanhando a política de longe, quase desatento, cansado do mesmo. Um tempo para respirar, vendo a Lava Jato sob uma pressão difusa, disfarçada, objetivamente perigosa.

Resolvi passar um tempo acompanhando a política mais de longe. Praticamente, abandonei os noticiários da TV e os programas de entrevista e de debate. Na internet, tenho dado preferência aos post sobre música, pescarias e bobagens variadas. Já consigo não ler opiniões sinceras, reflexões profundas, denúncias comprometedoras. Na mesa do café da manhã, quando muito, passo os olhos nas manchetes. Raras vezes leio as matérias sobre as coisas da política profissional. Acho que se trata de uma simples saturação, que o tempo ajudará a sanar.

Atiçando o bairrismo

Atiçando o bairrismo

Na semana passada estivemos em Cachoeiro para as primeiras homenagens ao Cachoeirense Ausente Número Um deste ano, o engenheiro José Eduardo Moreira, Zédu, meu amigo de infância. Esperamos por ele no trevo da Safra e, em carreata, seguimos até o horto municipal, na beira da estrada, pouco antes de entrar na cidade. Seguindo a tradição, lá estavam o prefeito, vereadores, familiares, amigos, gente da imprensa e meninos uniformizados tocando tambor em ritmo animado, além de ativos fogueteiros. Felizes e orgulhosos, também o aguardavam cabos eleitorais da campanha para sua escolha. Todos saudando o filho ilustre no seu retorno à terrinha.

De lá, num grande cortejo liderado pela guarda de trânsito, fomos até o Centro Operário e de Proteção Mútua. A instituição, criada no começo do século passado para atender os trabalhadores das primeiras fábricas que se instalaram na cidade, abrigou também a escola da professora Palmira, que alfabetizou muita gente, inclusive os irmãos Newton e Rubem Braga. Falando manso, o homenageado atestou que Cachoeiro é sinônimo de amizade fraterna e duradoura e que ele, por ter sempre estudado nas boas escolas públicas da cidade, tem amigos de todas as origens e condições.

À noite, fomos à sessão especial da Câmara para homenagear os Cachoeirenses Ausente e Presente de 2016 e conferir títulos de cidadania cachoeirense a quem mereça. Festa pra quase mil, com comes e bebes pagos por empresas locais. No dia seguinte visitamos a Casa dos Braga, onde nasci, agora restaurada, pronta para receber o acervo da família e funcionar como espaço cultural e de referência da história da cidade. Na sequencia, participei da inauguração de um centro de atendimento a portadores de deficiência e, como testemunha, assinei ato do prefeito autorizando a reforma do Centro de Saúde Bolívar de Abreu, meu pai, que o dirigiu durante muitos anos e onde criou fama de profissional enérgico e competente. Como se tudo isso não bastasse, voltamos pra casa com minha Carol toda prosa com a sua nova cidadania.

Vitória, 29 de junho de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Na paulicéia

Na Paulicéia (Não foi publicada na sexta 17.06 – entrou texto de PH)

Estive em São Paulo por uns bons cinco dias, incluindo o final de semana. Desta vez, com a mesma sensação que meus ancestrais deviam ficar quando saiam da Fazenda do Frade para ir, a cavalo, a Cachoeiro, distante umas tantas léguas. Imagino que as viagens, preparadas com alguma antecedência e sob muitas expectativas, eram vitais para reencontrar amigos e parentes da cidade, fazer compras, dançar em festa animada e, quem sabe, começar um namoro promissor. O motivo principal da minha viagem era tirar visto para entrar nos Estados Unidos, boa desculpa para rever o pedaço da família que vive por lá. Por opção, ficaria longe da internet, noticiários de TV e dos jornais.

Resolvida a obrigação, foi a vez de bater perna no comércio, algo que quase não pratico por aqui. Como acompanhante, entrei em lojas pequenas. Por conta própria, entrei em dois shoppings em busca de um bom paletó e em lojas no Centro, à procura de chapéu panamá. Aproveitei para fazer turismo barato: comer sanduiche de churrasco grego em pé na calçada, atravessar o Viaduto do Chá repleto de camelôs e comprar uma luminária de papel na Liberdade.

Sempre gostei de conversar com motoristas de taxi. Desta vez, entrevistei motoristas do Uber, para entender melhor suas motivações pessoais e as condições de operação do sistema. Pelo que pude ver, muitos deles estão dirigindo pelas ruas da cidade como solução para a perda do emprego, para aproveitar o carro da família na geração de renda e, também, para se livrar de patrões e de donos de frota de taxi. Simpáticos e donos de si, sabem que participam de algo inovador, que veio para ficar. Trata-se de novo modelo de negócio que lança mão de tecnologias disponíveis e de refinado bom senso para atender demandas e propiciar bons resultados para seus operadores e clientes. Tudo isso sem envolver a mão pesada do poder público que concede as placas e direitos correlatos. No avião, na volta, li no jornal que o sistema começa a disponibilizar o uso de helicópteros em condições acessíveis.

Vitória, 15 de junho de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Repercussão

Repercussão

É sempre bom receber comentários sobre o que se escreve. Cada cabeça uma sentença, a cada texto muitas reações diferentes. Uma crônica pode não dizer nada para um leitor e impactar um outro de forma até surpreendente. Quando o assunto é passarinho, pescaria ou festa de casamento os comentários são leves e positivos. Quando tratam de fatos políticos, as opiniões, concordantes ou não, ganham cores fortes. Nestes tempos de política solta e nervosa, as reações ao que escrevo, mesmo quando trato dos assuntos sem paixões nem cores partidárias, têm subido de tom. Isso também deve estar acontecendo com quem emita juízo e, sobretudo, expresse preferências, ainda que nas entrelinhas. Não tenho conseguido escapar dos temas da política e pago um preço.

Para ficar só no âmbito das amizades, constato que muita gente parou de comentar o que escrevo enquanto que outros, sabendo que receberei com bom humor as críticas, reclamam sem cerimônia. Ainda hoje, há quem me mande textos escritos por gente séria para comprovar que “foi golpe”. Dia desses, um grande amigo me parou na rua querendo saber o que me faz otimista com a interinidade da presidência. Dei detalhes das minhas avaliações, mas, sabendo que não pararíamos de rir juntos, de nós mesmos e de terceiros, não chegamos a um acordo. Em compensação, recebi, de outro, um e-mail gentil sobre o teor de crônicas antigas que havia lhe mandado recentemente, em defesa da nossa amizade. Elas falam da indicação e dos primeiros anos da presidente afastada e atestam que a minha descrença é bem antiga e isenta de raiva.

Tenho acompanhado a movimentação do presidente interino dando chutes por baixo da mesa, tentando sobreviver ao fogo cruzado, aproveitando as deixas para corrigir erros cometidos por conta própria ou em função de pressões e gulodices de gente poderosa. Tendo a acreditar que, por sua fama de habilidoso, tentará usar os protestos das ruas, estradas e edifícios como um recurso para ganhar força e prestígio. Nada como uma boa democracia.

Vitória, 01 de junho de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sinuca de bico

Sinuca de bico

Votei em Lula três vezes, com boa convicção. Ainda mais convicto, não votei em Dilma. Por duas razões elementares: prefiro a alternância de poder e sei que não convém eleger postes nem pilastras para governar um país. Lembro-me que cheguei a tratar desse assunto numa crônica, ressaltando o risco de soluções artificiais como aquela. Ponderei que, se a cachaça revela a alma do bêbado, o poder deixa livre de amarras os traços de personalidade, inclusive um eventual espírito autoritário de quem vira chefe. A história está repleta de exemplos de mandatários nefastos.

Na época, achei perigoso quando Lula inventou Dilma como sua candidata a presidente e a apresentou como uma baita gerente, mãe disso e daquilo. Milhões de brasileiros acreditaram na palavra dele e elegeram uma mulher convicta de si, cheia de opiniões, brava que só. Em pouco tempo, ela já dava demonstrações de prepotência no trato pessoal, de desprezo pela realidade dos fatos, de total impaciência com as coisas da política, enfim, de sua incapacidade para presidir o país. Deu no que deu e multidões insatisfeitas encheram as ruas. Que mentira tem perna curta todo mundo sabe, mas ainda não aprendemos que marketing político é instrumento poderoso para engambelar multidões. Tanto que algumas mentiras e jogos de cena tornaram possível a proeza de viabilizar uma reeleição improvável.

A expressão de total alienação no rosto de Lula, sob o sol quente, na frente do Palácio do Planalto, ouvindo Dilma repetir bordões de guerra para um pequeno grupo de seguidores, retrata a sinuca de bico em que ele nos botou. Estamos, todos, diante de uma situação complexa e delicada, submetidos a convicções acirradas. Pode-se dizer que nunca se viu tanta gente com opinião formada e com boa disposição para enfrentamentos. Otimista, acredito que com os resultados dos desdobramentos das operações Lava Jato e afins estarão criadas condições excepcionais que podem favorecer o surgimento de um estadista para liderar mudanças inadiáveis na política brasileira. Temer sabe disso muito bem.

Vitória, 18 de maio de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA