Homens

Homens

Estou saindo de férias em direção ao sul da Bahia. Vou com um pequeno grupo de amigos do peito. Sairemos na segunda, bem cedinho. Alugamos uma casa razoavelmente confortável, situada em posição estratégica, bem diante do mar. Dizem que é um lugar maravilhoso, próprio ao exercício do direito de ficar bestando, conversando bobagens, andando na praia nos finais de tarde, fritando peixe, jogando baralho, fazendo colher. Ao que tudo indica, a internet no lugar é bem precária. Nada sei sobre o funcionamento dos celulares. Saio da civilização urbana sob o impacto de dois fatos relevantes. A posse prevista de Trump lá no hemisfério norte e a morte inesperada de Teori, nas águas de Paraty.

Confesso que tenho preguiça só de pensar no que sairá, diariamente na imprensa, sobre o que Trump disse, fez e promete fazer e, naturalmente, sobre as reações e os protestos de muita gente. Considero o novo presidente americano um homem determinado e muito esperto, que se maquia com exatidão irritante, um ator que ensaia muito bem scripts espalhafatosos e caricatos, tudo bem ao gosto de pessoas brutas e dos que querem ir à forra. Obama sai do poder levando consigo o reconhecimento mundial da sua seriedade e da sua compostura serena e centrada, de um homem que age acreditando na possibilidade de melhorar o mundo.

Aqui, a queda de um avião mata expectativas e, sobretudo, esperanças de brasileiros que, como eu, acreditavam em Teori Zavascki. Lembro-me dele chegando, silencioso e atento, ao STF, durante o processo do Mensalão. Com o passar do tempo, por suas atitudes, fui me dando conta de que se tratava de homem sério e confiável, bem diferente de seus colegas ego-centrados e, sobretudo, daqueles de pouca autonomia. O país perde um juiz inacessível aos poderosos, um magistrado que se orientava pelo teor das leis em vigor, fossem elas contra ou a favor de bandidos e mocinhos participantes dos enredos da política e presentes na cena do crime. Mandava prender e soltar, serenamente, sem ao menos perder o apetite. Fará muita falta.

Vitória, 22 de janeiro de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Luiz Mococa

Luiz Mococa

Na semana passada perdi um grande amigo de infância. Ele era da segunda leva de amizades que fiz aqui em Vitória, a partir de 1958, A primeira, com a garotada da antiga Rua da Árvore e a outra com as mais de trinta crianças que moravam numa das duas quadras da Rua Madeira de Freitas. Luiz Fernando era um dos cinco filhos de seu Anacleto e morava em frente da nossa casa. Naquele tempo sem TV, os vizinhos se conheciam e muitos se frequentavam. As amizades surgiam nas brincadeiras de rua, nos papos de varanda e se consolidavam nos banhos de mar, nas pescarias e nas festas do Praia Tênis Club. Nos finais de ano, nossa rua era fechada ao trânsito para comemorar o aniversário de dona Natalice, a mãe dele. Somos a Turma da Madeirinha.

Luiz Mococa era uma pessoa ímpar e sua morte me traz de volta um tempo muito bom que vivemos juntos, incluindo as peladas disputadas no barro da rua e na areia de Camburi e os passeios no seu jipe Candango. Como escoteiros do mar, acampamos na Ilha do Frade, onde chegamos a bordo de um escaler da Marinha. Ele lia tudo sobre a Segunda Guerra. No tempo dos festivais, Luiz aprendeu a tocar violão e a cantar “Gatinha manhosa”, seu hit. Nos formamos em 1970 e pra comemorar, junto com mais uns dez colegas, fomos numa Kombi alugada até o Uruguai, a caminho de Bariloche. Saudosista, sempre me sugeria contar aquela viagem em crônica.

Luiz era uma pessoa doce que comia tanto quanto um passarinho e gostava de uma cachacinha. Quanto mais bebia, mais calado ficava, piscando mais do que o normal. Ele adorava fogo, acender fogueira e soltar foguetes. Habilidoso, começou a fazer, com madeira e papelão, miniaturas de barcos, veleiros e aviões. Na quinta feira passada, conversamos alegremente na confraternização da nossa turma de engenharia. Discretíssimo e com certa cumplicidade, ele me mostrou suas obras mais recentes no celular. Combinamos fotografar tudo com lentes potentes e luz adequada e fomos pra casa dormir. Na sexta feira, o cemitério de Santo Antônio estava lotado de gente incrédula.

Vitória, 28 de dezembro de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Estouro

Estouro

Normalmente escrevo a crônica na segunda feira, passo o pente fino na terça e envio para o editor do jornal na quarta. Desta vez, escrevo no domingo pra poder mandar na segunda cedinho. É que estou indo a São Paulo acompanhar a segunda edição do What Design Can Do?, evento internacional que minhas meninas organizam por lá.

Hoje está difícil falar de trivialidades. É que estes últimos dias foram pródigos em notícias de afrontas, achaques, descaramentos, conchavos, falsidades, espertezas, safadezas, blefes, cinismos, mentiras, complôs, armações e muito, muito mais. Coisa de louco, como se diz. Lentes, microfones e ouvidos captaram a movimentação das autoridades máximas dos três poderes da República em busca de uma saída para episódios que engrossaram a crise. Conseguiram, mas com perdas relevantes na credibilidade do STF, o que me preocupa.

Na semana anterior, centenas de deputados insones aprovaram na marra projetos de lei que anulam crimes cometidos, intimidam a justiça e asseguram impunidades variadas. No Senado, Renan tentou dar sequencia àquele atentado parlamentar, sem conseguir, ao menos desta vez. Para acabar de danar o ambiente em Brasília, na sexta feira dezenas de políticos poderosos foram acusados de corrupção pelo primeiro dos mais de setenta executivos da Odebrecht que irão delatar negociações comprometedoras, que escancaram de vez a podridão do nosso sistema político. Tem muita gente com cara de santo ficando desvairada com a coisa chegando nos seus calcanhares. A tensão na capital federal ganha dimensões explosivas e faz pensar num estouro de manada.

Confesso que estou perdido como cego em tiroteio e tão espantado quanto cachorro que caiu de caminhão de mudança. Impossível imaginar os desdobramentos desse quadro alarmante. Slogans, gritos de guerra, palavras de ordem já não dão conta de acompanhar a evolução de acontecimentos que se sucedem em ritmo frenético e em escala explosiva. Do jeito que a coisa vai indo, estas minhas palavras, ao serem lidas na sexta feira, poderão soar otimistas.

Vitória,12 de dezembro

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Camas no PDU

Camas no PDU

A Prefeitura de Vitória está finalizando mais uma edição do Plano Diretor Urbano – PDU, que regulará a ocupação do território e as atividades que poderão, ou não, ser realizadas em cada um de seus bairros, áreas e terrenos, de suas ruas e avenidas. Elaborar e aprovar um PDU para uma cidade como a nossa exige bastante esforço e contribuição de muita gente e deverá ser, obrigatoriamente, presidido pelos interesses em atender o bem comum. Em favor dos que nela vivem, dos que a frequentam para trabalhar e se divertir, bem como dos que aqui ganham dinheiro e dos que nela gastam suas economias, e também daqueles que simplesmente passam por ela todos os dias, obrigatoriamente.

Vitória tem uma particularidade relevante: praticamente tudo o que é consumido, utilizado ou gasto em seu território vem de fora. Isso vale para praticamente todos os tipos de produtos e serviços, aí incluídos combustíveis, alimentos, pregos, energia elétrica, água tratada, móveis, lâmpadas, automóveis, internet, barbante e tudo o mais. Nada vem pra cá de graça. Tudo tem que ser comprado fora, consumindo reservas e capacidade de investimento. Mais grave ainda: o município não tem sido capaz de “exportar” para o resto do país ou para o exterior o que eventualmente tenha sido feito em seu território, uma condição necessária para trazer dinheiros para movimentar a sua economia e equilibrar o seu balanço de pagamento.

A questão que trago à consideração dos leitores é bem objetiva: Vitória está precisando de espaço para instalação de outros milhares de camas ou de boas condições para abrigar atividades produtivas e destinadas ao lazer, ao ócio e à contemplação? Essa escolha é fundamental ao se considerar que restam pouquíssimas grandes áreas livres, passíveis de ocupação. Tenho xodó por duas delas: aquela destinada ao Parque Tecnológico, em Goiabeiras, e a que existe entre o Shopping Vitória e o mar. Soube que na minuta do novo PDU introduziram a autorização legal para nelas construir apartamentos para milhares de camas, mesas de jantar, espaço gourmet e tudo o mais. Sinceramente, Vitória merece escolhas mais consequentes do que o mesmo da mesmice.

Vitória, 30 de novembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Mais camas no PDU

Mais camas no PDU?

Vitória está finalizando mais uma edição do PDU – Plano Diretor Urbano, que regulará a ocupação do seu território e as atividades que poderão ser realizadas em cada um de seus bairros e terrenos, de suas ruas e avenidas. Elaborar um PDU é tarefa que exige esforço e contribuição de muita gente e que deve ser presidida, obrigatoriamente, pelo compromisso de tentar equacionar demandas em favor do bem comum. Atuais e, sobretudo, futuras. Todas as cidades devem ser pensadas como lugar bom para os seus habitantes e para quem as frequente para trabalhar, estudar e se divertir e, de quebra, para os que passem por ela.

Aqui em Vitória, praticamente tudo o que é consumido e utilizado vem de fora: combustíveis, alimentos, pregos, energia elétrica, móveis, água potável, lâmpadas, automóveis, internet, barbante e tudo o mais. E como nada vem pra cá de graça, isso consome reservas e reduz a capacidade de investir. O que é mais grave ainda: o município não tem sido capaz de gerar produtos e serviços que possam ser “exportados”, para o resto do país e para o exterior. Isso impede a vinda de dinheiros novos que ajudem a movimentar sua economia e a equilibrar o balanço de pagamento com o mundo.

Essas questões ganham relevância porque restam pouquíssimas áreas livres de boas dimensões, passíveis de serem ocupadas de forma estratégica para o desenvolvimento município. Tenho um xodó especial por duas delas: a que está destinada ao Parque Tecnológico, em Goiabeiras, e aquela situada entre o Shopping Vitória e o mar. Consta que conseguiram introduzir na minuta do novo PDU autorização expressa para que se possa construir, nas duas áreas, milhares de quartos e suítes. Aí, fico me perguntando se não seria mais inteligente se a cidade continuasse reservando a primeira área para sediar empresas inovadoras, que geram emprego, renda e impostos e, a outra, para abrigar novas instalações de uso coletivo e ambientes próprios ao lazer, ao ócio e à contemplação, tornando a cidade ainda mais agradável aos seus habitantes e mais atraente aos turistas.

Vitória, 30 de novembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vatapá cauteloso

Vatapá cauteloso

Estava fora do país quando o desastre de Mariana completou um ano de acontecido. Sempre soube que olhar as coisas e os fatos de longe pode ajudar no entendimento de suas dimensões e significados, na avaliação do seu real valor. Não senti qualquer emoção favorável à empresa e seus proprietários, dirigentes e subordinados nem aos demais que se movimentam em favor da postergação das punições ou que defendem indulgências aos pecadores. De longe, ficam cristalinas as irresponsabilidades de quantos decidiram não tomar providências para corrigir fragilidades comprovadas por peritos contratados pela própria SAMARCO, omissão seguramente aprovada pela VALE e BHP Billiton depois de bem pesarem riscos e impactos sobre seus lucros e dividendos.

De volta, leio duas notícias que ilustram o andamento das coisas: a primeira informa que investidores americanos entraram com pedido de indenização contra a SAMARCO, acusando-a de ter dado declarações falsas ou enganosas sobre os defeitos existentes na barragem de Fundão e sobre as medidas que tomou para evitar seu rompimento; a outra relata decisão da OAB-ES de acompanhar as negociações sobre a indenização irrisória que a SAMARCO pretende pagar a cada morador atingido diretamente pela tragédia anunciada. Eu também acho R$ 880,00 um valor ridículo, uma afronta descarada aos brasileiros.

Lido isso, penso no jogo de forças e de interesses em torno dos dinheiros que deverão sair dos cofres da empresa para reparar os prejuízos financeiros dos investidores que acreditaram na seriedade do empreendimento e as perdas incalculáveis sofridas pelos que vivem ao longo dos rios e no litoral. Como quem vai na frente bebe água limpa, acho prudente aumentarmos as pressões por aqui, antes que limpem os cofres.

Na falta de informação confiável sobre o nível de contaminação dos nossos pescados, informo que o vatapá que comemos ontem aqui em casa foi feito com camarão congelado de Santa Catarina. Por prudência, adotei tilápia de cultivo e só compro camarão fresco para as pescarias de beré com os netos.

Vitória, 16 de novembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Visita de avô

Visita de avô

Nem bem apanhei as malas na esteira do aeroporto e já recebi o primeiro pedido, feito com a maior convicção: “Vovô, você faz um arco e flecha pra mim?” Cabeça de menino é sempre uma caixinha de surpresas. Gael mal completou três anos e há meses não frequenta nossa casa nem tenta usar o arco que fiz para o primo dele, já bem mais crescido.

A produção começou no dia seguinte, com a ida a uma dessas lojas enormes que vendem tudo para jardinagem e serviços afins. Tudo, menos bambu grosso. Só encontramos um tipo, bem fininho, desses que se usa para guiar trepadeiras. Testei a flexibilidade com rigor e escolhi um pacote com seis varinhas. Comprei ferramentas básicas e utensílios indispensáveis, incluindo um rolo de barbante, uma fita adesiva e um pouco de arame fino. Montei a oficina na varanda da casa, incluindo uma cadeira para que o menino pudesse acompanhar o andamento do serviço: cortar, tirar os ressaltos, fazer uma cava em cada ponta, amarrar o barbante em uma das extremidades e, depois de envergar o bambu, dar um nó definitivo na outra. Tratei de fazer o acabamento com uma fita preta, dessas que não soltam jamais, no meio do arco, para marcar o lugar onde se coloca a mão esquerda. A alça de arrame para guiar a flecha foi relativamente fácil de instalar. O alicate novinho é mesmo muito jeitoso para serviços miúdos. Tudo feito sem qualquer pressa, com o moleque aflito, doido para experimentar o brinquedo. Mas faltava a flecha.

Escolhi um pedaço ainda mais fino pra fazer a primeira flecha e usei o calor da chapa do fogão elétrico para deixa-la bem retinha. Com uma tampa de pasta de dente, um pedaço de feltro e a tal fita preta, improvisei uma ponta rombuda e bem macia, dentro dos melhores padrões de segurança americanos. O alvo foi feito com o papelão grosso e pintado com giz de cera. Com tudo pronto, é hora de tentar ensinar os netos a usar a arma de caça dos índios, o que começarei tão logo ele e Alice voltem da escola. Haverá campeonato, premiação e tudo o mais que estimule o aprendizado.

Bradenton, 02 de novembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Na Paraíba

Na Paraíba

Morei em João Pessoas por quatro anos, na segunda metade dos anos 70. Chegamos com um filho de dois meses nos braços e saímos com mais duas filhas paraibanas. Voltei lá agora para dar palestra e festejar o trigésimo aniversário da entidade dedicada ao desenvolvimento do ensino de engenharia de produção no Brasil, criada por gente que conheço desde os tempos do mestrado no Rio de Janeiro. Foi muito bom rever velhos companheiros de profissão e conhecer mais gente que se dedica a fazer as coisas acontecerem. Nos últimos dez anos, os cursos de engenharia de produção explodiram no país. Soube que já são mais de novecentos. Fico pensando nas dificuldades em encontrar professores qualificados e experientes para ensinar conceitos, técnicas e macetes de uma profissão que surgiu, sobretudo, para melhorar o que já esteja funcionando.

Resolvidos os compromissos oficiais, nos instalamos no sítio de grandes amigos, cuja filha mais velha acaba de ser eleita prefeita do Conde, município ao sul de João Pessoa que tem, entre outros atrativos, a famosa praia de Tambaba, exclusiva para gente que gosta de andar pelada. Pois bem, Marcinha, esse é o nome dela, é dessas mulheres arretadas que fazem história por onde passam. Educadora convicta, depois de dirigir a Secretaria de Educação da Paraíba, ela resolveu enfrentar o desafio de mudar a maneira de fazer política. Fez campanha de casa em casa. Em animadas reuniões com moradores e comunidades rurais, ela definiu o plano de trabalho na prefeitura. Mas o ponto alto da campanha foi se negar a dar saco de cimento, caibro, lajota ou dinheiro vivo em troca de voto. Fez disso uma marca, uma espécie de divisor dos tempos naquelas terras.

Caminhei com ela pela feira na manhã de sábado. Dava gosto de ver mulheres e homens festejando, com abraços, beijos e muitas palmas, uma pessoa que se dispõe a negar verdades antigas. Faz tempo que eu não via tanta emoção positiva. Aquelas pessoas pareciam satisfeitas e vitoriosas com o que haviam acabado de fazer nas urnas.

Vitória, 19 de outubro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Eleição com vento sul

Eleição com vento sul

Sou do tempo que os pescadores precisavam dominar a meteorologia pra viver. Eles se valiam da leitura das nuvens e dos ventos e previam a chegada de frente fria um dia depois que ela se instalasse no Rio de Janeiro. O vento sul sempre trazia três dias de chuva fininha e persistente, dessas que vai molhando a plantação aos pouquinhos e encharcando a terra lentamente. Nada parecido com a ignorância dos temporais avassaladores, que derrubam árvores, destelham barracos, inundam as ruas e fazem transbordar os rios. Tio Newton usava uma expressão muito boa para designar, com a força dos poetas, o aguaceiro pesado: dizia que era chuva de corda.

Por fazer gelar até a alma, a chuvinha de vento sul nos faz pensar com mais calma e sentir a vida passando sem pressa. Os pingos miudinhos e em grande quantidade acabam por inibir atitudes impensadas e tornam as pessoas menos arrojadas. Visto pela janela, o mundo se mostra cinzento e lugar de pouquíssima movimentação.

Pois o domingo amanheceu com uma dessas chuvinhas de antigamente. Era dia de eleição de prefeitos e vereadores, agora regulada por novas regras, incluindo a proibição de financiamento empresarial de campanha. Para acabar de danar, a Lava Jato deve ter inibido a compra de candidatos e facilitado a vida dos que são achacados por tesoureiros de todo tipo.

Aproveitei a estiagem para ir votar no colégio na pracinha do Cauê, certo de que iria rever pessoas que só vejo em dias de eleição. Não havia nem um santinho na calçada, mas encontrei quatro simpáticos candidatos a vereador fazendo boca de urna com total discrição. Dei meus dois votos sem grandes emoções e sem enfrentar qualquer fila. Em casa, acompanhei notícias sobre o final da votação e, com mais atenção, a verdade que ia saindo das urnas do país inteiro, com destaque para as das cidades maiores. Posso estar engando, mas fiquei com a impressão de que estamos entrando em uma nova fase da política brasileira. Faça chuva ou faça sol, mitos e populismo acabam de sofrer um baque determinante.

Vitória, 03 de outubro de 2016

Alvaro Abreu

Faltou

Faltou

Está faltando água lá em casa desde a semana passada. Isso nunca havia acontecido desde que nela nos instalamos em 1987. Fui pego de surpresa, embora acompanhasse as notícias sobre a longa estiagem que fez secar rios e córregos em quase todas as regiões do estado. Primeiro falava-se dos impactos na roça e, agora, também nas cidades. A partir do desastre de Mariana, as dificuldades de abastecimento de água potável viraram manchete assídua de capa de jornal.

Por aqui, não estamos acostumados a viver no seco. Ao contrário, fomos criados na base do esbanjamento e muito desperdício. Água era coisa abundante e baratinha. Só de uns tempos pra cá é que ela começou a ganhar status de recurso estratégico e a se falar na necessidade de economizar, inclusive fechando a torneira enquanto os dentes são escovados. Banhos, de preferência, bem curtos. Nada de ficar cantando debaixo do chuveiro. Faz tempo que não é politicamente correto lavar carro com compressor, admitindo-se seu uso, com restrições, para limpar o pó preto. Para piorar, a falta de chuva está obrigando a molhar as plantas de vaso e algumas que estão nos canteiros. O difícil está em conseguir fazer isso com a água da rua, como se diz.

Antigamente as casas tinham cisterna para armazenar, preventivamente, grande quantidade de água. A entrada do reservatório ficava sempre abaixo no nível do encanamento da rede, o que permitia a entrada de água mesmo em época de penúria. Uma bomba elétrica fazia o serviço de levar o precioso líquido até a caixa d’água instalada na laje. O tamanho da cisterna expressava o poder econômico e o nível de prudência do dono da casa. Não me recordo de falta d’água na nossa casa da Rua Madeira e Freitas, exceto quando entrava ar na bomba.

Tudo isso me fez lembrar de quando meu amigo Godinho voltou do Canada dizendo que os canadenses estavam se organizando para vender água limpinha para lugares onde ela estivesse insuficiente ou completamente poluída. Corria a última década do século passado e, confesso, achei aquela história um tanto alarmista.

Vitória, 21 de setembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA