Embromação

Embromação

Embromação é uma palavra quase que fora de uso, mas foi a que me veio à cabeça ao buscar uma palavra chave para a crônica que resolvi escrever sobre a novela da duplicação da BR101, motivado por mais uma matéria publicada recentemente neste jornal. Antes de seguir em frente, por curiosidade, fui ao dicionário buscar seus sinônimos e encontrei muitos, incluindo: tapeação, mentira, trapaça, enganação, engodo, treta, tramoia, manobra, burla, embuste e engabelação. Cada um deles ganhou validade diante do tamanho do atraso das obras de duplicação e, sobretudo, das argumentações apresentadas oficialmente pelo diretor da ECO101, a empresa concessionária, em reunião na Câmara dos Deputados, em Brasília.

Li que o contrato de concessão estabelece que cento e vinte quilômetros deverão estar duplicados até 2019, porém, passados quatro anos da sua assinatura, somente uns trinta deles estão em obras e nem um foi concluído. Quando se usa a estrada, o que se vê são apenas praças de pedágio, agora com cabines blindadas contra assalto, pontuais melhorias em acostamento, sinalização, muitos controladores de velocidade, alguns aterros, poucos morros sendo cortados, pouquíssimas máquinas em operação. Entre as justificativas do atraso, o diretor incluiu dificuldades em obter licenciamento do IBAMA, problemas com ocupações irregulares às margens da rodovia e a diminuição do fluxo de veículos em função da crise e da concorrência exercida pela BR116, que corta Minas Gerais. De longe, fico imaginando a presteza e o empenho da concessionária em obter as devidas licenças ambientais e resolver as pendengas com donos de biroscas, de pequenos sítios com plantações de mandioca. Aqui, com toda certeza, a embromação calcada nas dificuldades burocráticas é que é a alma do negócio.

Não sei quantos milhões a ECO101 já arrecadou nem quantos já morreram na estrada. Sei que só eu, que pouco viajo, já gastei uns duzentos reais de pedágio e perdi horas de vida em fila indiana, atrás de caminhão, para não morrer na ultrapassagem.

Vitória, 12 de julho de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Urgente, urgentíssimo

Urgente, urgentíssimo

Na semana passada, ao votarem pela não cassação da chapa Dilma -Temer, quatro brasileiros geraram dúvidas sobre a utilidade do TSE. Dias antes, o STF teve sua seriedade abalada ao permitir que Gilmar Mendes mandasse soltar bandidos famosos. O presidente da República insiste em se colocar na linha de tiro de todos nós com viagens em avião alheio, reuniões descabidas, amigos comprometedores, pedido indevido de investigação e muito mais. Em breve, dois terços dos deputados federais poderão sepultar de vez o que resta de legitimidade à Câmara caso decidam não autorizar processo contra Temer. Por conta desse desmantelamento institucional e da falta de perspectivas, vai se instalando no país uma descrença generalizada e perigosa.

Sei que a ingenuidade ajuda a criar coragem e que o otimismo faz pensar que quase tudo tem solução. Em conversas com amigos, venho defendendo a criação de um pequeno grupo de brasileiros decentes, sábios e independentes, com a incumbência de propor nova redação para os poucos capítulos da Constituição que regulam as eleições, os partidos, o funcionamento do Congresso e as penalidades por corrupção em geral. Entendo ser obrigatório reduzir drasticamente a influência do dinheiro vivo nos resultados eleitorais e nos processos legislativos, requisito elementar para garantir a pluralidade e a efetividade da representação política, bases da democracia.

A escolha desses brasileiros seria conduzida pela ministra Carmem Lúcia, que merece minha admiração. Aires Brito, ex-ministro do STF, é um homem em condição de presidir os trabalhos e de assegurar consistência jurídica e coesão ao conjunto das proposições. Apresentadas em campanha de grande alcance à população, em busca de adesão maciça, as propostas seriam encaminhadas ao Congresso para apreciação em regime de urgência urgentíssima e, em seguida, sancionadas por quem estiver ocupando a presidência da República. A pressa, mesmo sendo inimiga da perfeição, é indispensável para que as eleições gerais de 2018 possam ser realizadas sob novos marcos regulatórios.

Vitória, 14 de junho de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Faltou um personagem

Faltou um personagem

No domingo fui assistir Real – O Plano Por Trás Da História, com a curiosidade de quem acompanhou bem de perto fatos ligados à criação do Plano Real. Na segunda, li comentários que explicam o cinema vazio. Como era esperado, o filme não inclui meu personagem preferido. Explico.

Tenho viva na memória uma conversa de varanda que tive com meu irmão Cláudio, engenheiro do BNDES, no Natal de 1992, sobre a economia brasileira. Para ele, a inflação estratosférica de então era de origem psicológica, gerada pelas incertezas dos mais fortes que, para se proteger, penalizavam os mais fracos que, por sua vez, agiam como fortes diante dos mais fracos do que eles. O governo era o fortão. Bem ao seu estilo, Cláudio falou que ia propor uma maneira de quebrar aquela corrente perversa.

Meses depois, durante uma reunião de dirigentes do banco com Betinho, que buscava apoio para seu programa contra a fome e pela vida, sua disposição cresceu. Tanto que, em julho, animadíssimo, me chamou ao Rio especialmente para conhecer seu trabalho: “Indexação Diária Negociada – contra o veneno da cobra, só mesmo o veneno da cobra”. Sugeri que diminuísse radicalmente a quantidade de páginas.

A versão resumida ficou pronta no final de agosto de 1993 e, na edição de 8 de setembro, a Tribuna da Imprensa publicou matéria sobre sua proposta. Dias antes, ele a enviara para Edmar Bacha, assessor de FHC, então ministro da fazenda, e para Pérsio Arida, recém-empossado presidente do BNDES. Junto com Pedro Malan, Gustavo Franco e outros economistas saídos da PUC-Rio eles formavam o grupo convocado pelo governo Itamar para tentar sanar a inflação. Sabe-se que receberam o trabalho e há comprovação de que usaram como argumento a sua metáfora sobre o veneno da cobra. Até hoje ninguém foi capaz de dizer que seus fundamentos foram incorporados ao Plano Real, anunciado quase um ano depois. Pudera, como admitir que um mero engenheiro pudesse pretender resolver graves questões da economia? Cláudio não entrou no filme, mas a sua versão da história está lá na internet.

Vitória, 31 de agosto de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Procura-se um candidato

Procura-se um candidato

Acho que tem muita gente, como eu, vivendo um tempo sem perspectivas animadoras, sem pontos de referência para imaginar o futuro. Continuo com muita dificuldade em enxergar o que de bom possa estar vindo por aí. Tem dia que chego a ficar com uma certa inveja de quem já tenha escolhido em quem apostar suas expectativas na próxima disputa pela presidência do Brasil. Acreditar em alguma coisa traz esperança e deve fazer bem pra saúde. Aprendi que os ingênuos vivem mais felizes.

Como era de se esperar, tem muita gente confiante na volta de Lula ao Palácio do Planalto. Mesmo não querendo considerar eventuais pecados veniais e mortais que ele tenha cometido, alguns, por prudência, já falam em Haddad. Tem quem esteja acreditando no discurso de salvador de pátria de Ciro Gomes, que deve estar torcendo para que Lula se encrenque de vez na Lava-jato. Candidato bom de gogó, pretende atrair desvalidos políticos e usuários de bolsa família. Pouco tenho ouvido falar em Marina, que deve estar calculando riscos e avaliando oportunidades. Difícil saber o que pretende essa senhora de cabelos tão presos que já encantou tanta gente.

Com Serra e Aécio abatidos e Alckmin na linha de tiro, percebe-se que eleitores carentes começam a se entusiasmar com Dória, provavelmente imaginando que boas jogadas de marketing e conversas com empresários progressistas poderão sustentar um governo de muito sucesso. O que mais me impressiona mesmo é a convicção daqueles que acreditam piamente em Bolsonaro, talvez por imaginarem que o país entraria rapidamente nos eixos com medidas duras e algumas pancadas.

Esse meu estado de alma vem das certezas que tenho hoje: a economia ainda vai patinar bastante e por um bom tempo, a violência não vai esmorecer, os políticos vão continuar distraídos e preocupados em se salvar, a justiça continuará tardando e fazendo falta, o governo Temer seguirá sem credibilidade até o fim, as eleições já entraram, definitivamente, na ordem do dia, e o tempo não parará, por nada neste mundo.

Vitória, 17 de maio de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Minuta de CRONICA

Acho que tem muita gente, como eu, vivendo um tempo sem perspectivas animadoras, sem pontos de referência para imaginar o futuro. Continuo com muita dificuldade em enxergar o que de bom e animador possa estar vindo por aí. Mas de algumas coisas eu tenho certeza: a economia ainda vai patinar bastante, a violência não vai esmorecer, os políticos vão continuar preocupados em se salvar, a justiça continuará tardando e fazendo falta, o governo Temer seguirá sem credibilidade e sob risco, alguns partidos poderão ser defenestrados, o tempo não parará de forma alguma e as eleições já estão na rua. Acreditar em alguma coisa traz esperança e deve fazer bem pra saúde.

Tem dia que até fico com uma certa inveja dos que já tenham escolhido em quem apostarão suas expectativas na próxima disputa pela presidência do Brasil.

Como era de esperar tem muitas pessoas depositando expectativas na volta de Lula, icarão reclamando de perseguição e não querendo acreditar em eventuais pecados veniais e mortais que tenha cometido. Alguns poucos já falam em Haddad.

Tem quem esteja acreditando no discurso de salvador de pátria de Ciro Gomes. O candidato é bom de gogó e pretende atrair desvalidos políticos e usuários de bolsa família. Deve estar torcendo para que Lula se encrenque de vez.

Com Serra e Aécio abatidos, tenho visto pessoas animadas com Dória, provavelmente acreditando que boas jogadas de marketing e conversas com empresários progressistas poderão sustentar um governo de realizações e muito sucesso.

Pouco tenho ouvido falar em Marina, que calada está e, pelo jeito, assim ficará até que possa dimensionar os fluxos e as ondas da política. Eu mesmo tenho dificuldades em saber o que pretende essa senhora de cabelos tão presos.

Ainda tem os que acreditam piamente em Bolsonaro. Estes parecem achar que a coisa será resolvida rapidamente com pancadas e medidas duras, que o país entrará nos eixos e a coisa fluirá facilmente.

Pode ser que alguns partidos venham a ter o registro cassado por recebimento indevido de dinheiros, complicando ainda mais a instabilidade do cenário.

Na Capital Secreta

Na Capital Secreta

Na semana passada aconteceu um fato relevante na Secretaria Estadual de Cultura. Firmou-se um termo de comodato com a Prefeitura de Cachoeiro para cessão de bens que foram da residência da família Braga por mais de cinco décadas. Aquela simpática casa em estilo de chalé, que depois abrigou uma animada biblioteca pública por muitos anos, era uma referência básica para mamãe. No fim da vida, ela costumava dizer que queria mesmo era voltar pra lá. Imagino que ficaria feliz ao saber que a mobília original da sala de jantar e do quarto de vovó Neném, trazida para Vitória, voltará ao seu lugar de origem, junto com objetos, pinturas, cartas e fotos de época, que guardou cuidadosamente.

A casa está inteiramente restaurada e adaptada para funcionar como espaço de convivência e visitação dedicado à Cachoeiro da primeira metade do século passado, quando a cidade fervilhava e ficou famosa. Muita coisa expressiva aconteceu por lá na educação, na cultura, na saúde pública, na infraestrutura urbana, na indústria e na política. A família do meu avô Chico Braga era uma das que movimentavam a vida da cidade. Ele foi primeiro prefeito, tabelião e um dos fundadores do Centro Operário e de Proteção Mútua. Dos tios, sei que Armando tinha um banco, Jerônymo um jornal, Newton, poeta de primeira, tinha agência de propaganda e programa de rádio, Carmosina foi a primeira mulher motorista e Rubem, que saiu cedo de lá, escreveu milhares de crônicas.

Também deve ser celebrado o que andaram fazendo as famílias Moreira, Gonçalves, Monteiro, Gomes, Baptista, Vivacqua, Rocha, Imperial, Freitas, Coelho, Lima, Casotti, Penedo, Marcondes, Secchin, Machado, Andrade, Silvan, Medeiros, Borelli, Mesquita, Silva, Mendes, Baião, Bermudes, Vianna, Mello, Valadão, Madureira, Vieira, Resende, Garambone, Athayde, Sampaio, Amorim, Franklin, Abreu, Leão, Moisés, Herkenhoff e muitas mais. Que a Casa dos Braga divulgue fatos e pessoas que ajudaram a transformar Cachoeiro em Capital Secreta quando Vitória, dizem, ainda era província,,,

Vitória, 03 de maio de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casa dos Braga

Na semana passada aconteceu um fato relevante pra muita gente por aqui. Firmou-se um termo de comodato com a Prefeitura de Cachoeiro, testemunhado pela Secretaria Estadual de Cultura, para cessão de bens que pertenceram a casa onde a família Braga viveu por mais de mais de cinco décadas. Aquela simpática casa em estilo de chalé, que abrigou a Biblioteca Municipal por muitos anos, era uma referência definitiva para mamãe. No fim da vida, ela costumava dizer que queria mesmo era voltar pra lá. Imagino que teria ficado feliz ao saber que a mobília original da sala de jantar e do quarto de vovó Neném, que estavam no seu apartamento em Vitória, voltarão ao seu lugar de origem, junto com objetos, pinturas, cartas e fotos de época, que guardou cuidadosamente.

A casa está inteiramente restaurada e adaptada para se transformar em um centro de informações sobre Cachoeiro na primeira metade do Século XX, quando a cidade fervilhava e ficou famosa. A família do meu avô Chico Braga era uma das que movimentavam a vida da cidade. Ele foi primeiro prefeito, tabelião e um dos fundadores do Centro Operário e de Proteção Mútua. Tio Armando tinha um banco, tio Jerônymo um jornal, tio Newton, poeta de primeira, tinha agência de propaganda e programa de rádio, tia Carmosina foi a primeira mulher motorista e tio Rubem escreveu milhares de crônicas.

Muita coisa expressiva aconteceu por lá na educação, nas artes, na saúde pública, na infraestrutura urbana, na indústria e na política. Vale a pena lembrar o que fizeram as famílias Moreira, Gonçalves, Monteiro, Gomes, Baptista, Vivacqua, Rocha, Imperial, Freitas, Coelho, Lima, Casotti, Penedo, Marcondes, Secchin, Machado, Andrade, Silvan, Medeiros, Borelli, Mesquita, Silva, Mendes, Baião, Bermudes, Vianna, Mello, Valadão, Madureira, Vieira, Resende, Garambone, Athayde, Sampaio, Amorim, Franklin, Abreu, Moisés, Leão, Herkenhoff e muitas mais. A ideia é que a Casa dos Braga divulgue acontecimentos e pessoas que contribuíram para consolidar Cachoeiro como Capital Secreta.

Muita coisa expressiva aconteceu por lá na educação, nas artes, na saúde pública, na infraestrutura urbana, na indústria e na política. Vale a pena lembrar o que fizeram as famílias Moreira, Gonçalves, Monteiro, Gomes, Baptista, Vivacqua, Rocha, Imperial, Freitas, Coelho, Lima, Casotti, Penedo, Marcondes, Secchin, Machado, Andrade, Silvan, Medeiros, Borelli, Mesquita, Silva, Mendes, Baião, Bermudes, Vianna, Mello, Valadão, Madureira, Vieira, Resende, Garambone, Athayde, Sampaio, Amorim, Franklin, Abreu, Moisés, Leão, Herkenhoff e muitas mais. Seria muito bom se a Casa dos Braga divulgasse acontecimentos e pessoas que contribuíram para consolidar Cachoeiro como Capital Secreta.

Vitória, 03 de maio de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casa dos Braga

Na semana passada aconteceu um fato relevante pra muita gente por aqui. Firmou-se um termo de comodato com a Prefeitura de Cachoeiro, testemunhado pela Secretaria Estadual de Cultura, para cessão de bens que pertenceram a casa onde viveu por cinco décadas a família Braga. Desapropriada em 1987, nela funcionou uma movimentada biblioteca pública.

Aquela simpática casa em estilo de chalé era uma referência definitiva para mamãe. No fim da vida, ela costumava dizer que queria mesmo era voltar pra lá. Imagino que teria ficado feliz ao saber que a mobília original da sala de jantar e do quarto de vovó Neném, que estavam no seu apartamento em Vitória, voltarão ao seu lugar de origem, junto com objetos, pinturas, cartas e fotos de época, que guardou cuidadosamente.

A casa está inteiramente restaurada e adaptada para se transformar em um centro de informações sobre Cachoeiro na primeira metade do Século XX, quando a cidade fervilhava e ficou famosa. A família do meu avô Chico Braga era uma das que movimentavam a vida da cidade. Ele foi primeiro prefeito, tabelião e um dos fundadores do Centro Operário e de Proteção Mútua. Tio Armando tinha um banco, tio Jerônymo um jornal, tio Newton, poeta de primeira, tinha agência de propaganda e programa de rádio, tia Carmosina foi a primeira mulher motorista da cidade e tio Rubem escreveu muita coisa boa e bonita.

Muita coisa expressiva aconteceu por lá na educação, nas artes, na saúde pública, na infraestrutura urbana, na indústria e na área da política. Vale lembrar o que também andaram fazendo as famílias Moreira, Gonçalves, Monteiro, Gomes, Baptista, Vivacqua, Rocha, Imperial, Freitas, Coelho, Lima, Casotti, Penedo, Marcondes, Machado, Secchin, Andrade, Silvan, Medeiros, Borelli, Mesquita, Silva, Mendes, Baião, Bermudes, Vianna, Mello, Valadão, Madureira, Vieira, Resende, Garambone, Athayde, Sampaio, Amorim, Franklin, Abreu, Moisés, Leão e Herkenhoff, só pra instigar a memória. A ideia é que a Casa dos Braga passe a expor fatos e personagens que contribuíram para consolidar a fama de Cachoeiro como Capital Secreta.

Vitória, 03 de maio de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Quem diria…

Quem diria…

A vida é um contínuo, uma sucessão de acontecimentos, muitos deles relacionados entre si, gerando consequências em cadeia, como a água da chuva que molha o solo, encharca a terra, escorre morro abaixo, abastece os córregos, enche os rios, suja o mar, impede a pesca de mergulho e acaba protegendo as lagostas. Nestes dias de vento sul bem fraquinho, a água do mar está espelhada e transparente como há muito não se via. No meu tempo de rapaz atlético, uma água dessas era motivo para matar aula e remar até as ilhas do Boi ou do Frade, em busca das lagostas. Hoje, há quem diga que as lagostas sumiram das redondezas, em função do minério de ferro que cai no mar o ano inteiro e da pesca desenfreada.

Em terra firme, fatos e pecados que misturam o mundo da política e o submundo dos negócios estão sendo revelados em larga escala pelos próprios atores, em dezenas de depoimentos de envergonhar mães de delatores e delatados. Denúncias graves e, possivelmente, comprováveis, são retrucadas com negativas cínicas e burocráticas. No tempo do Mensalão, apostei que caciques também seriam presos, além dos bagrinhos. Agora tenho visto manobras de políticos comprometidos até os dentes tentando aprovar leis que protejam seus interesses. Faz parte do jogo. Otimista, gosto de acreditar que o processo vai continuar se desdobrando, evoluindo, para ser mais exato. Se a morte de Teori aliviou alguns, a atuação de Fachin deve estar tirando o sono de muita gente. Acredito que a Lava Jato já tenha atingido o chamado ponto de não retorno.

Para além da sensação de impotência, da descrença e das teorias de conspiração, vejo que começam a brotar iniciativas individuais e de pequenos grupos orientadas para a busca de soluções para o descalabro nacional. Tem gente propondo, inclusive, uma Assembleia Constituinte, composta por brasileiros notáveis e de ficha-limpa, para rever a legislação que regula a atividade política, passar uma régua nas práticas e lideranças vigentes e, sobretudo, possibilitar um futuro mais animador.

Vitória, 19 de abril de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Noticiários

Noticiários

O mundo da política continua em chamas, com o fogo se alastrando. No noticiário da TV, logo cedo, uma apresentadora simpática confirmou o início do julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE e leu trechos da delação premiada de um ex-presidente do TCE do Rio de Janeiro, em que detalha falcatruas e achaques praticados pelos seus colegas de trabalho, por desembargadores vitalícios e bandidos de terno que atuam no governo estadual. Desliguei o som logo depois das notícias sobre a movimentação de políticos desesperados no Congresso tentando regulamentar a prática do caixa dois nas eleições, criminalizar o chamado abuso de autoridade e fazer reforma política, tudo em benefício próprio.

No mundo particular aqui de casa, vivemos mais um longo e animado encontro da família completa, algo que não acontecia há quase um ano. Estavam os cinco filhos, duas noras, dois genros (o outro ficou em São Paulo), seis netos, o casal que deu origem a tantos e também alguns amigos do peito com suas crias. Acontecimento pra ninguém botar defeito, desses próprios para matar saudades, exercitar afetos e guardar na lembrança. Para os adultos, comida gostosa, cerveja gelada e tempo de sobra para cada um contar vantagens sobre o que fez e está fazendo, falar com animação dos projetos e das próximas viagens.

Foi muito bom ver o corre-corre, a gritaria e as conversas entusiasmadas dos pequenos. Nesse reencontro, os primos deram milhares de chutes na bola de meia, passearam de carrinho de mão em volta da casa, fizeram muitas bolhas gigantes de sabão à base de baba de quiabo, balançaram em duas redes que se chocam, desenharam em pedaços enormes de papel craft, tomaram banhos de banheira, ouviram histórias contadas pela avó antes de dormir e muito, muito mais. Não se tem registro de brigas entre eles nem de manhas insuportáveis. Apenas uma ou outra choradeira com justa-causa. Depois de tanto, no silêncio da casa vazia, fiquei tentando imaginar as notícias que irão para o ar quando meus netos todos estiverem na idade de votar.

Vitória, 05 de abril de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Ai, ai…

Ai, ai …

Bem que pensei em escrever mais um pouco sobre estes tempos tão contaminados por inseguranças e incertezas mas, em favor do bom astral, preferi falar de amenidades próprias da vida de avô. Reconheço que sou meio sem jeito com criança e completamente sem paciência quando gritam ou fazem manha. Minha deficiência auditiva prejudica o entendimento do que estejam falando. Não consigo brincar de casinha com as meninas nem correr atrás de bola chutada por menino incansável. Levar a turma pra pescar no píer da Praia do Suá eu bem que levo. Até coloco isca no anzol dos que ainda têm dificuldade ou que não gostem de pegar no camarão descascado, que corto em pedacinhos para facilitar a brincadeira.

Neste último sábado a programação foi atípica. Logo cedo, ajudei a levar três netos pra tomar vacina contra a febre amarela lá no ginásio do Alvares Cabral. A fila se estendia por centenas de metros na direção do centro da cidade e o sol estava quentíssimo. Andava, parava, andava, parava, com os vendedores ambulantes fazendo a festa. Curiosamente, não vi ninguém reclamando do calor nem da espera. Pelo contrário: havia um traço de satisfação nos rostos das mães e avós, talvez por saberem que iriam conseguir proteger suas crianças contra algo ameaçador e traiçoeiro. Lá dentro, o serviço, bem organizado, contava com a colaboração atenciosa de voluntários, algo difícil de ver por aqui. Na hora da agulhada, nossas crianças fizeram carinha de medo mas ninguém chorou.

No meio da tarde fomos levar os dois moleques ao cinema para ver o Batman. Confesso que alienei algumas vezes, tamanhas eram as pancadarias e explosões lá na tela, que eles acompanhavam com olhos arregalados, comendo pipoca. Viemos correndo pra casa para assistir o segundo tempo da decisão do campeonato carioca. Para a alegria de Théo, deu pra ver o gol de empate do Flamengo e a disputa nos pênaltis vencida pelo meu glorioso Fluminense. Solidário, dei uma boa dose de dengo ao neto rubro negro, na tentativa de aplacar sua tristeza futebolística.

Vitória, 08 de março de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Mas pode piorar

Mas pode piorar

Ando meio saudoso dos meus tempos de rapaz folgado, de cidade pacata à beira mar. Esses dias de reclusão por causa da insegurança me fizeram lembrar da vida tranquila que a gente tinha aqui em Vitória há cinquenta anos. As emoções mais fortes aconteciam nas competições de barco a vela e mergulhos nas pedras da Ilha do Frade em busca de lagostas, nas raquetadas de frescobol na Praia do Barracão e subidas ao topo do Mestre Alvaro com gente animada, nas conversas calibradas para impressionar mocinha carioca em férias na casa de parentes, nas provas de natação dos Jogos Praianos e pescarias na Ilha das Caieiras, com o rosto colado ao som de Minha Namorada na FAFI e o corpo balançando ao som de Satisfaction na boate Boteco, show dos Mamíferos na Macumba e festivais de música que Tina Tirone e Chico Lessa sempre venciam, sem falar nos papos-cabeça na casa de Vitor e Branquinha Santos Neves, nos bate-bocas nas mesas do Britz Bar e nas risadas atrás do balcão do Miramar ou na varanda do Michel’s Bar. Os carros eram pouquíssimos, as lanchas bem pequenas e as festas de quinze anos aconteciam nas casas dos pais.

Essa saudade brotou logo que acordei com a chuva lá fora e aumentou bastante quando, em busca de inspiração para escrever, li no jornal: “Não vai ter carnaval em 29 cidades”. A falta de segurança é a principal justificativa dos prefeitos. As crises na segurança pública são resultados visíveis do que vem acontecendo com o país faz tempo. Mesmo que a daqui termine logo, haveremos de conviver com os impactos de seus desdobramentos.

Fico com a impressão de que a insensatez, a prepotência e a incompetência que correram frouxas por aqui vão nos fazer pagar um alto preço pela volta das condições mínimas de normalidade no Estado. Traumas, sensações de perda e ressentimentos de toda ordem deverão vigorar na alma de muita gente, por um bom tempo, influenciando comportamentos de indivíduos e grupos. Não quero nem pensar nas consequências potenciais das punições anunciadas, sobretudo das demissões.

Vitória, 22 de fevereiro de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vergonheira

Vergonheira

Saí de férias logo depois das prisões explodirem no norte e no nordeste do país, com relatos impressionantes de afronta à condição humana e à justiça. Bandidagem contra bandidagem, medindo força, delimitando território, mostrando que nem tudo está sob o controle do Estado. A ausência de notícias me fez bem. A alienação tem lá suas vantagens.

Ao chegar de volta, soube da greve do pessoal da polícia militar, com familiares portando faixas e cartazes, batendo panelas diante das câmeras, bloqueando a saída da tropa. No domingo à noite, me disseram que meus netos não retornariam às aulas na manhã seguinte porque as escolas estariam fechadas, por medida de segurança. Confesso que achei um tanto exagerado. Na manhã da segunda feira, fui trabalhar ouvindo no rádio notícias sobre saques de lojas, roubo de carros, assaltos à mão armada, muitas mortes, ruas vazias. Acabava assim minha desinformação sobre as dimensões do descalabro que se instalou por aqui, que aterroriza e faz pensar nos seus significados e desdobramentos. Mas ainda nada sei sobre as reais razões e interesses que o motivaram e o sustentam.

A falta de policiamento ostensivo nas ruas abre espaço para bandidos profissionais agirem livremente e, bem pior, cria ambiente para que pessoas comuns também se aventurem na atividade saqueadora, como ocorre quando um caminhão tomba na estrada e derrama a mercadoria no acostamento. Saqueia-se em ritmo frenético, livre de culpa. É o lado bestial orientando pernas e braços, estimulando a conquista de bens alheios, mesmo que ao preço de porções de vergonha e de honra de cada consciência.

Sabe-se como é difícil e demorado educar, civilizar, uma pessoa. O que dói e chateia é constatar que esse esforço de fixar valores sociais básicos pode ser aniquilado por esquemas que estimulam corrupção e por decisões que facilitam a prática de violências e crimes em larga escala. É fato que o ser humano precisa de leis e aparatos que o protejam de seus próprios instintos predatórios. Os homens responsáveis pela ordem pública jamais poderiam desconsiderar essa verdade.

Vitória, 08 de fevereiro de 2017

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA