Progresso
Depois de mais de 50 dias de seca, os primeiros pingos caíram às 10h10. Eu estava chegando em casa com 4 quilos de camarão graúdo fresquinho, comprados na Praia do Suá.
Terminado o período de defeso, os balcões da Colônia dos Pescadores estão repletos de um camarão meio marrom, com pequenos riscos na cauda, uma espécie rara no nosso mar, onde predominam o camarão sete barbas, o branco e o rosa, além do lameirão, acinzentado, que vive nas águas salobras do fundo da baía.
Tem explicação. Há alguns dias, eu estranhei os barcos de arrasto que voltavam da pesca, bem maiores e mais rápidos do que aqueles que sempre vejo passando, acompanhados por gaivotas interessadas nas sobras da catação, feita por um ou dois pescadores.
No atracadouro atrás do Hortomercado, soube que uns 5 ou 6 deles foram trazidos recentemente de São Tomé, no Estado do Rio. O desenho do casco é bem particular, com a boca grande e um anel de aço na quilha, para que eles possam ser rebocados por um trator, praia acima. Estrutura metálica, fixada no casario, permite arrastar uma rede balão de cada lado, o que pode triplicar o resultado da pescaria.
Na volta pra casa vi que fotografavam o navio de passageiros que atraca em Vitória toda quinta feira. Ele estava na boca da barra, navegando em mar de almirante e envolto em um cenário incomum. O mar e o céu formavam um fundo azul acinzentado contínuo, bem diferente do que se podia ver ao norte, onde nuvens espessas e negras anunciavam chuva torrencial. Fiquei com dó dos turistas. Deram azar. Depois de tanto tempo sem chover, haveriam de enfrentar os incômodos das águas para conhecer os encantos da ilha.
Foi só deixar o camarão em casa e a chuva engrossou. Dava gosto ver o limpador do vidro do carro funcionando em velocidade máxima. Fazia tempo que ele só era usado para limpar o pó preto com água do esguicho.
A chuvarada me fez lembrar que, na Paraíba, a notícia de chuva no sertão corre rápida, provocando uma alegria incontida na população da capital. As pessoas não se cansam de comentar a novidade. É que muitas delas têm parentes vivendo na roça e a chegada da chuva traz esperança de boa colheita e dias melhores. Lembrei-me também da espera pela Chuva do Caju que, quando chega na data certa, garante safra abundante.
No fim do expediente, fui levar um consultor paulista ao hotel, lá em Camburi. Notei que o mar continuava perfeitamente liso. Lavada pelas águas da chuva generosa, a atmosfera estava completamente limpa, livre das poeiras que embranquecem o ar e esmaecem os contrastes. Com o olhar de quem vê pela primeira vez, ele chamou minha atenção para uma cena de forte impacto turístico.
No horizonte, diante de todos, umas 15 chaminés soltavam fumaças de tons variados de marrom. Na falta total de vento que as espalhassem, as fumaças subiam em vertical perfeita, formando espécies de cogumelos. Uns mais claros e esguios, outros escuros, arredondados. Todos venenosos, certamente.
Imagino que naquele fim de tarde ensolarado, os turistas que viajavam a bordo daquele navio branco puderam conhecer o símbolo do progresso que se instalou por aqui. Uma imagem que se transforma com os humores de São Pedro, padroeiro dos pescadores.
Vitória, 19.02.2010
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
