Progresso

Progresso

Depois de mais de 50 dias de seca, os primeiros pingos caíram às 10h10. Eu estava chegando em casa com 4 quilos de camarão graúdo fresquinho, comprados na Praia do Suá.

Terminado o período de defeso, os balcões da Colônia dos Pescadores estão repletos de um camarão meio marrom, com pequenos riscos na cauda, uma espécie rara no nosso mar, onde predominam o camarão sete barbas, o branco e o rosa, além do lameirão, acinzentado, que vive nas águas salobras do fundo da baía.

Tem explicação. Há alguns dias, eu estranhei os barcos de arrasto que voltavam da pesca, bem maiores e mais rápidos do que aqueles que sempre vejo passando, acompanhados por gaivotas interessadas nas sobras da catação, feita por um ou dois pescadores.

No atracadouro atrás do Hortomercado, soube que uns 5 ou 6 deles foram trazidos recentemente de São Tomé, no Estado do Rio. O desenho do casco é bem particular, com a boca grande e um anel de aço na quilha, para que eles possam ser rebocados por um trator, praia acima. Estrutura metálica, fixada no casario, permite arrastar uma rede balão de cada lado, o que pode triplicar o resultado da pescaria.

Na volta pra casa vi que fotografavam o navio de passageiros que atraca em Vitória toda quinta feira. Ele estava na boca da barra, navegando em mar de almirante e envolto em um cenário incomum. O mar e o céu formavam um fundo azul acinzentado contínuo, bem diferente do que se podia ver ao norte, onde nuvens espessas e negras anunciavam chuva torrencial. Fiquei com dó dos turistas. Deram azar. Depois de tanto tempo sem chover, haveriam de enfrentar os incômodos das águas para conhecer os encantos da ilha.

Foi só deixar o camarão em casa e a chuva engrossou. Dava gosto ver o limpador do vidro do carro funcionando em velocidade máxima. Fazia tempo que ele só era usado para limpar o pó preto com água do esguicho.

A chuvarada me fez lembrar que, na Paraíba, a notícia de chuva no sertão corre rápida, provocando uma alegria incontida na população da capital. As pessoas não se cansam de comentar a novidade. É que muitas delas têm parentes vivendo na roça e a chegada da chuva traz esperança de boa colheita e dias melhores. Lembrei-me também da espera pela Chuva do Caju que, quando chega na data certa, garante safra abundante.

No fim do expediente, fui levar um consultor paulista ao hotel, lá em Camburi. Notei que o mar continuava perfeitamente liso. Lavada pelas águas da chuva generosa, a atmosfera estava completamente limpa, livre das poeiras que embranquecem o ar e esmaecem os contrastes. Com o olhar de quem vê pela primeira vez, ele chamou minha atenção para uma cena de forte impacto turístico.

No horizonte, diante de todos, umas 15 chaminés soltavam fumaças de tons variados de marrom. Na falta total de vento que as espalhassem, as fumaças subiam em vertical perfeita, formando espécies de cogumelos. Uns mais claros e esguios, outros escuros, arredondados. Todos venenosos, certamente.

Imagino que naquele fim de tarde ensolarado, os turistas que viajavam a bordo daquele navio branco puderam conhecer o símbolo do progresso que se instalou por aqui. Uma imagem que se transforma com os humores de São Pedro, padroeiro dos pescadores.

Vitória, 19.02.2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Ainda sobre goiabas

Ainda sobre goiabas

Com a volta dos últimos 3 netos pra São Paulo, demos por encerrada a edição 2019-2020 da colônia de férias dos Abreu. Foram quase 50 dias com pelo menos dois meninos por perto, correndo de um lado pra outro, pedindo coisas, disputando o controle da TV. Com isso, a casa volta ao ritmo normal e a vida à rotina.

Na falta de netos que tirassem as derradeiras goiabas dessa safra sensacional, tive que providenciar uma vara com uma cestinha na ponta, para que eu mesmo pudesse fazer o serviço. Sempre com os pés em terra firme ou nos primeiros degraus da escadinha de alumínio. Consegui 26 goiabas, tão bonitas quanto as anteriores e, agora munido de vasta experiência, parti para a derradeira compota de orelha. Desta vez, por sugestão de Diana, usei uma daquelas panelas elétricas que cozinham as coisas com preguiça. Deu muito certo.

A enxurrada de comentários que recebi sobre a crônica passada me fez pensar que o pessoal mais antigo adora doce de goiaba nas suas diversas configurações e morrem de saudades do quintal dos avós. Um meio parente disse que raspava o tacho com palha de milho, em Arantina. Uma amiga contou que suspirou, lá na Alemanha, só de lembrar do cheirinho gostoso do doce, e outra, do Rio, declarou saudades da goiaba branca, que não encontra mais. De São Carlos, perguntaram pela geleia transparente feita com os caroços e houve quem me pedisse pra mandar geleia com espátula de bambu pra Salvador. De Brasília, me enviaram ditado simpático: goiabada sem queijo é namoro sem beijo.

Recebi também, de gente experiente, dicas para evitar bichos, podar a goiabeira, ajudar a dar ponto no doce com casca de maracujá. Um paraibano arretado confessou que, durante as peladas na rua, comia qualquer goiaba, sem julgamento. Um goiano falou que viria aqui pra cair de boca na goiabada, se seu médico liberasse o açúcar.

Deu pra ver que muita gente tem grande estima pelas goiabeiras. Um cachoeirense disse que é árvore pra criança, porque enverga mas não quebra e, dois amigos gozadores, daqui de Vitória, disseram que ao lerem a tal crônica tinham se lembrado da dona Damares.

Vitória, 06 de fevereiro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Frescobol no Carnaval

Frescobol no Carnaval

Ao passar de bicicleta, num fim de tarde de dezembro, dei de cara com as duas, esquecidas ali. Estavam de lado, encostadas no meio-fio. Junto com elas, uma bolinha vermelha de borracha.

O formato, parecido com o de uma gota, era inovador. Elas eram diferentes das que eu conhecia, feitas de compensado, imitando raquetes de tênis. Eram inteiriças, recortadas em uma única peça de madeira maciça. A espessura ia diminuindo na direção da ponta. O desenho do cabo, sextavado e grosso, oferecia excelente pega.

Dava para ver que as duas tinham pesos ligeiramente diferentes e isso era muito bom. A mais leve poderia ser usada pelo jogador que jogasse defendendo e a mais pesada, pelo que gostasse de atacar. Por tudo isso, aquelas raquetes pareciam extremamente adequadas à prática do frescobol, típico esporte de demonstração, ou seja, esporte para os rapazes se mostrarem para as moças na praia.

Resolvemos pintar as raquetes com a tinta usada na reforma da lambreta de um amigo. Verde e cinza, em listras. Além de proteger a madeira, garantiria perfeita identificação como sendo as raquetes da Praia do Barracão.

Ficou comprovado dias depois que elas tinham sido trazidos por Ninica, um exímio jogador de frescobol que se divertia rebatendo com categoria todo e qualquer bola que fosse arremessada com máxima potência pelo adversário. De quebra, devolvia a bolinha em perfeitas condições para receber outra raquetada violenta.

Por anos a fio, o último a ir embora as levava pra casa e, no dia seguinte, as trazia de volta. Elas não eram de ninguém. Eram da praia, como tal qual a morena Teresa, cantada na época por Lúcio Alves e Dick Farney.

Tempos depois, fui passar o carnaval em Guarapari, com elas na bagagem.

– A raquete é sua? Podemos jogar um pouquinho?

Foi por mera condescendência que resolvi aceitar o convite daquela moça risonha, baixinha e de perna grossa. Em plena ressaca do baile de sábado do Siribeira, aquela não era hora para jogar frescobol e muito menos com uma mulher.

As primeiras raquetadas acabaram com o meu pouco caso. A gentileza deu lugar ao espanto que, rapidamente, cedeu vez ao pânico.

Eu estava diante de uma mulher com jeitinho de santa, mas com disposição e força suficientes para intimidar um homem com uma simples raquete de madeira e uma bolinha de borracha. Para complicar, a fúria com que jogava chamava a atenção de quem passava por perto.

Morrendo de rir, amigos e curiosos formaram uma torcida para incentivar os ataques da gordinha furiosa ao rapaz desconcertado.

– Dá-lhe carioca! Acaba com a pose desse cara!

– Aí, prega uma medalha no peito dele!

Eu sabia que se continuasse jogando seria irremediavelmente atingido por aquela bolinha maldita, fato incompatível com a minha fama de exímio jogador de frescobol. Melhor seria inventar um pé torcido ou lhe oferecer um copo de cerveja e acabar com aquele jogo perigoso.

Além de audaz, resoluta e exímia jogadora, ela era uma criatura discreta e amável. Tanto que aceitou meu pedido de trégua com naturalidade.

Na sombra, ela preferiu tomar água de coco, enquanto ouvia com atenção a história daquelas magníficas raquetes. Mostrou-se indulgente com minhas desculpas esfarrapadas e fez de conta que acreditou quando lhe disse que jogar na defesa não era o meu forte.

Dava para ver que ela se deliciava com a situação. A minha fragilidade a fazia feliz e, mais do que isso, poderosa. Tanto que acabou passando o resto do carnaval olhando pra mim com a mesma carinha de anjo com que me convidara para jogar.

Vitória, 03.02.2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vila de Itaúnas

VILA DE ITAÚNAS

Imagino que a maioria dos leitores nunca tenha ido a Itaúnas, embora saiba que fica no norte do estado, que tem dunas e que lá se dança forró até o dia clarear. Muitos devem ter ouvido dizer que é uma vila simpática, de ruas sem calçamento e calor infernal. Que é lugar freqüentado por hippies velhos e onde tem dança folclórica, dos pretos.

Conheci Itaúnas em 1988 em dia de festa, muita cachaça e música animada por tambores e pandeiros. Uma celebração entre moradores e aficionados pelas coisas do lugar. A varanda do bar de seu Manoel era pequena pra tanta gente cantando e dançando e o alvoroço se espalhou pelo largo da cabeça da ponte. O mergulho nas águas escuras do rio renovava as energias.

Só gente conhecida. Pessoal interessado em folclore, funcionários públicos da área de cultura, jornalistas convictos, uns poucos fotógrafos profissionais, professores universitários, moças assanhadas de todas as idades, cabeludos em geral e a quase totalidade dos que exerciam a resistência ecológica por conta própria, sem contracheque oficial. Abaixo o eucalipto, salve a tartaruga, demarquem as terras dos nossos índios.

Na volta do mar, comia-se prato feito ou um bom comercial que saciava dois esfomeados, a preços honestos. Peixe frito, bife de boi ou de frango, arroz, feijão, batata frita e rodelas de tomate. A farinha vinha na garrafa e a pimenta em vidro de maionese. De barriga cheia, era hora de descansar para dançar forró de raiz, de graça, que as moças aprendiam rápido com os nativos. A paulistada veio bem depois.

Estive lá neste fim de semana. Pousadas e restaurantes garantem a sobrevivência de freqüentadores de todo gosto. Lojas com cara de boutique mostram que a sofisticação pede passagem. A cerveja está gelada em qualquer bar e não se vê menino pedindo ou oferecendo coisas pelas ruas. O rio estava barrento e as águas do mar, mornas de amolecer. A alma do lugar continua a mesma.

Corriam as festas de São Benedito e São Sebastião. Grupos de ticumbi, reis de boi, alardo, jongo e bandas de congo brincavam pelas ruas no sol quente, debaixo do toldo de plástico diante da igreja e nas casas de quem convidasse. Na praça, dois jaraguás perseguiam crianças eufóricas e aflitas. Eram muitos brincantes da própria vila e de comunidades quilombolas do norte do estado, da Serra e de Barra do Riacho.

Solenes, os homens do ticumbi de Conceição da Barra brincam para si e para o santo, sem olhar para quem os observe e fotografe insistentemente. Vestem roupas brancas impecáveis, batas e saias enfeitadas de renda, chapéus floridos, fitas coloridas nas costas e cruzando o corpo. O violão faz a base da cantoria e o ritmo é marcado por pandeiros. São pandeiros toscos, belíssimos, feitos a mão, com couro de veado branco.

Quem me disse isso foi Rogério Medeiros, espécie de guardião das imagens, do espírito e dos segredos de Itaúnas, que desta vez tentei desvendar sentado em um banco de casco de canoa, observando visitantes que chegavam da praia leves e exaustos e moradores sorridentes que passavam a pé, de bicicleta, a cavalo e de trator. Personagens de uma mesma lenda, eles me fizeram crer que, em Itaúnas, cada um de nós retorna ao primitivo que é. Pelos esforços que faz, pelo sol que enfrenta, pelo que sente de bom estando ali.

Vitória, 19.01.2010.

Alvaro Abreu

Para A GAZETA

Ir e vir

IR E VIR

O fato de o aeroporto de Vitória ter ficado fechado por vários dias fez muita gente que depende de avião usar táxi, van e ônibus para chegar ou sair cidade. Alguns se lembraram do passado.

Mamãe contou histórias sobre as viagens de trem entre Cachoeiro e Rio de Janeiro, a única opção de transporte entre as duas cidades até o começo dos anos 50. Embarcava-se às 4 da tarde e chegava-se ao destino por volta das 8 da manhã.

O tempo de viagem era igual para ricos e pobres. Para estudantes, políticos ou fazendeiros, para quem viajasse de férias ou a serviço. Ela conta que vovó Neném fez uma viagem dessas para tirar uma espinha de peixe da garganta. Nem imagino o tamanho do incômodo, agravado pelos solavancos do vagão.

É bem verdade que existia a possibilidade de dormir durante um bom trecho da viagem, a partir de Campos. Isto, para quem conseguisse vaga no carro leito e pudesse pagar por um beliche com direito a roupa de cama em puro linho inglês.

A duração da viagem permitia pensar no encontro político, imaginar passeios, escrever discursos, estudar para a prova. Nas voltas pra casa, no começo das férias, os pensamentos ficavam por conta da retomada do namoro, do reencontro com amigos, do baile nos Caçadores.

A paisagem que corria pela janela, vista com olhar desatento, atestava a transição entre dois mundos diferentes. Partia-se para o Rio sabendo que haveria viagem de retorno e que a vida seria retomada no ponto exato em que fora suspensa na estação da Leopoldina. Pisava-se a plataforma da cidade maravilhosa com a esperança de encontrar boas oportunidades de trabalho, estudo e muita diversão.

De minha parte, lembrei-me do nosso vizinho de muro que, com ares de desbravador, levou a família até a Argentina numa valente kombi de luxo, ano 1967. Foram e voltaram montando barraca.

Talvez inspirado nessa aventura foi que, na condição de pai de cinco filhos e casado com mulher animada e corajosa, resolvi comprar um ônibus para podermos viajar juntos, para qualquer destino, sem depender de hotel.  Transformado em trailler mambembe, caseiro, com poltronas para 16 passageiros, camas para 12, toilet a bordo, duas mesas, cozinha completa e poleiro para a arara, o busante – como era chamado pelos meninos – rodou quase 30 mil quilômetros no asfalto e nas estradinhas de barro do planalto central, das terras mineiras, do sertão baiano, das praias do nordeste e do leste. Sem a menor pressa.

Era muito bom poder acordar com o barulho do mar, com o sino da igrejinha, com o mugido das vacas de um fazendeiro conhecido. O toldo armado na lateral daquele ônibus branco garantia a sensação de se estar na varanda, diante da paisagem escolhida a cada dia. Nos postos de gasolina, era comum ouvir alguém perguntar se era “ônibus de conjunto”. Muitas e muitas vezes ele seguiu levando parentes e amigos em viagens animadíssimas.

A pressa e a prontidão são marcas dos dias atuais. A mídia apregoa que a comunicação torna o mundo sem fronteiras e coisa e tal. Até aí, tudo bem.  O problema é o trânsito nas cidades, que avança na contramão desse processo radical de encurtar distâncias e otimizar o uso do tempo. Para quem não tem celular, como eu, só lhe resta ouvir música ou a Voz do Brasil.

Alvaro Abreu

Buenos Aires, 12 de novembro de 2009.

Escrita para A Gazeta

Resultados digitais

Resultados digitais

Demorei, mas o fato é que estou entrando, pouco a pouco, na era digital. Em outubro ganhei de presente de aniversário do meu filho mais velho uma conta do Instagram, para que pudesse mostrar pro mundo inteiro as colheres que faço com bambu. Agora, no Natal, ele inventou de fazer a edição digital do livro “Crônica do meu primeiro infarto”, onde relato passagens e emoções do evento coronariano que tive há exatos 25 anos.

Dois de seus argumentos eram irrefutáveis: o livro trata de assunto que interessa a muita gente e era coisa muito fácil de fazer. Seria, por assim dizer, uma edição comemorativa e com lançamento mundial. Bastaria revisar o texto, fazer uma capa chamativa e preparar a divulgação em massa via internet, a começar pelo envio de mensagens aos conhecidos e postagens nas redes. Dito e feito: a versão beta já está nas nuvens, sem qualquer dependência de editores, livrarias e tudo o mais. Em breve sai a versão definitiva a custo zero.

Tudo isso me fez lembrar do lançamento da versão impressa, no Iate Clube. Festa animada e inesquecível para mais de 1000 pessoas queridas, com direito a show da banda de rock dos meninos, apelidada de Artéria Entupida por meu irmão Afonso, vitrines com colheres bem na passagem da fila de autógrafos, muita conversa animada e beijos e abraços em profusão. Verdadeira comemoração por estarmos todos vivos e saudáveis. De quebra, um recorde espetacular: mais de 400 exemplares vendidos. Em escala menor, porém com as mesmas emoções, a festa se repetiu em Cachoeiro, no Rio, em Brasília e em João Pessoa, por onde deixamos muitos amigos. Preparar as respectivas listas de convidados deu trabalho mas foi um belo exercício de recomposição de memórias. Tive enorme satisfação em ver que muito pouca gente faltou.

Espero que a edição digital cumpra o seu papel, ao permitir que a leitura do livro seja feita por um número bem maior de interessados, de qualquer lugar. Na falta dos abraços, seria ótimo se, ao menos, ela gerasse uma boa quantidade de likes, compartilhamentos e comentários, coisas que fazem bem pra qualquer coração.

Vitória, 09 de janeiro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para  A GAZETA

Cartas, e-mails e encomendas

Cartas, e-mails e encomendas

A circulação das palavras escritas faz o mundo cada vez menor, mas nem sempre a logística ajuda. Conto duas histórias para reforçar essa teoria.

Conheci Malu em 1966 debaixo do sol de meio dia, no inverno de Curitiba. Na ocasião eu era nadador relativamente veloz que acabara de fracassar nas águas geladas da piscina. Corriam os Jogos Universitários Brasileiros e eu, já liberado de compromissos, buscava assunto em frente ao restaurante dos atletas. A conversa foi rápida e ela prometeu me mandar cartazes para completar a parede do meu quarto, mania da época. Cumpriu a palavra e, surpreso, escrevi agradecendo.

Nos anos seguintes escrevi muitas cartas para Malu na Lettera 22 lá de casa. Nunca além de uma única página. Suas respostas eram curtas e enigmáticas e jamais se referiam às missivas anteriores. Sem conexão de assuntos nem regularidade na correspondência, até hoje.

As cartas eram postadas lá no centro da cidade e demoravam mais de sete dias entre Vitória e Bragança Paulista. A espera fazia parte da brincadeira.

Em 2005 recebi e-mail de pessoa cautelosa e protegida por um endereço de hotmail. Disse ter tomado coragem de escrever após visitar meu site, curiosa em conhecer as colheres que faço com bambu. Assinava Sissi.

Disse que gostava de fazer trabalhos de mão utilizando corriola, uma fibra natural existente na terra em que vivia. Achei graça e tratei de informá-la que, por aqui, corriola é coisa que não convém a moças refinadas. Ela vivia em um ponto do arquipélago dos Açores, que consegui visitar com ajuda da internet.

Percebi se tratar de pessoa atenta e determinada. Completara o curso de zootecnia e começara a trabalhar em um matadouro público. Achei a ocupação meio estranha, mas acabou virando tema de conversa, ao lado dos sabores e das banalidades da vida.

Quem não vê cara, não vê coração. Durante meses, os e-mails vieram sem imagens da remetente. A única fotografia que anexou depois de muita insistência, não me permite identificá-la entre pessoas andando na rua ou comendo broa de milho em ilha oceânica.

Assim também havia sido com Malu. Tudo a que tive direito foi uma foto dela numa turma de estudantes. Uma seta apontava uma moça de saia escura e blusa clara. Dava para ver que era meio loira. Só.

Dela recebi estranhos presentes, dentre eles um grampeador e um cinzeiro de colocar em braço de sofá. De Sissi ganhei uma geléia feita com uma espécie rara de uva silvestre que colheu nos altos do Pico, que revela o arquipélago aos navegantes. O pote chegou às vésperas de um Natal, protegido por um cestinho de corriola trançado a mão. Em retribuição, mandei um pacote com o livro que escrevi e duas colheres de bambu de primeira. Demorou meses para chegar ao destino.

Em meados de novembro, Sissi escreveu dizendo que um precioso queijo de leite de ovelhas já estava a caminho de Vitória. Vinha como um presente atrasado de aniversário. Imediatamente comecei a esperar e a imaginar o gosto do produto.

No começo da semana, ao me ver de volta das férias, a senhora da portaria do prédio, a quem tantas vezes perguntei pela bendita encomenda, foi logo dizendo:

– Acho que Papai Noel comeu o queijo que o senhor estava esperando.

Vitória, 06 de Janeiro de 2010.

Alvaro Abreu

alvaro@bambuzau.com.br

Crônica para A Gazeta

Papai Noel

Papai Noel

Voltei a acreditar em Papai Noel e estou cheio de esperanças. Na medida em que vamos ficando mais velhos, nossas crenças vão se modificando. Começamos a vida acreditando na mãe, nos irmãos e nas babás, em seguida nas professoras, nos colegas, nos amigos, nos amigos dos amigos e mais adiante, nos chefes, nos candidatos, nos dirigentes, nos que doutrinam e, se bobearmos, até em impostores.

Cada vez mais somos induzidos a aceitar o que nos mostra a propaganda refinada e as jogadas feitas com marketing inteligente. Distraídos, passamos a acreditar no que querem que acreditemos. Que isso não trará problemas, que aquilo é que é bacana, que está na hora de trocar… Sempre tem quem queira nosso apoio para aprovar o que gostaria de ver aprovado, nosso voto para se reeleger, nossa boa vontade para deixar como está.

Percebo que o esforço para tentar convencer o cidadão comum vai ficando cada vez mais sofisticado, avançando para muito além da política e do comércio varejista. O aumento vertiginoso da concorrência por atenção e aprovação estimula e compensa a contratação de profissionais para cuidar da imagem e dos interesses de pessoas, empresas, entidades e governos. Uma prática que cresce mundo afora.

Aprendi na escola que os homens são motivados por seus próprios interesses e movidos por suas necessidades insatisfeitas. Um tal Maslow estudou as necessidades do homem e as classificou em cinco categorias: as de natureza fisiológica e as que se relacionam com segurança, associação, reconhecimento e auto-realização. Ele provou que elas são hierarquizadas e vão ganhando expressão ao longo de nossa existência, sem escapatória.

Há quem ache que, nesta altura da vida, tenho quase tudo que um homem poderia querer e precisar para se sentir feliz e realizado. Plantei árvores frutíferas, escrevi livros, tenho filhos, genros, noras e netos. Vivo há 37 anos com a mulher que adoro em uma casa confortável, perto do mar. Ledo engano, meu amigo. Em 2010, eu pretendo ver realizados desejos que, imagino, sejam também os de muita gente.

Poder sentar na minha cadeira de balanço preferida, que comprei na Paraíba em 1976, sem ter que limpá-la antes de usar. Poder ler um livro sem ter que passar um pano na capa e no dorso, antes de abri-lo. Poder apoiar os braços no tampo da mesa do computador sem sentir a gastura do contato com a sujeira. Poder andar descalço na minha própria casa, sentindo a diferença de tato e de temperatura de cada assoalho. Enfim, poder abrir as janelas dos quartos sem arrependimentos e sem sentir raiva do bom e inocente vento nordeste.

Como até hoje ninguém atendeu a essas minhas necessidades elementares, decidi pedir a Papai Noel que acabasse, de uma vez por todas, com tamanha quantidade de pó de minério, fuligem de carvão e todo tipo de partículas que se soltam do chão, se despregam das pilhas e saem das chaminés plantadas na antiga Ponta do Piraém. E, se não fosse pedir demais, que usasse seus poderes mágicos para matar de vergonha todos os que teimam em mandar dizer que está tudo dentro da mais perfeita normalidade.

Saibam que fiz tal pedido com a mesma esperança que tive quando quis ganhar um velocípede de presente de Natal, em 1951.

Alvaro Abreu

Vitória, 25 de Dezembro de 2009

Caderno Dois de A Gazeta

Pra lá e pra cá

Pra lá e pra cá

Correr durante 12 minutos e medir os metros percorridos. Quem não conseguisse correr, que marchasse ou andasse o mais rápido possível.

O resultado era levado para uma tabela de valores de referência, que denunciava o grau de incompetência física do cidadão naquele exato momento da sua vida. Edificante para os mais fortes, cruel para os mais debilitados. Independente de idade, sexo e variáveis afins, cada qual era colocado diante de si mesmo por uma métrica criada para avaliar o condicionamento físico dos soldados americanos.

Magro e com cara simpática, Cooper, esse era o nome do seu idealizador, conseguiu espalhar pelo mundo um método muito prático de auto-avaliação. Isso, num tempo em que muito pouca gente se preocupava com saúde e desempenho. No máximo, jogava-se pelada em campo de terra, frescobol na praia e vôlei no meio da rua. No final dos anos 60, academia era lugar de halterofilista, não se falava em meio ambiente, nem em taxas de colesterol. Morria-se bem mais cedo, por falta de hospitais decentes, boa medicina, remédios eficazes e, sobretudo, de cuidados pessoais.

Mente sã em corpo saudável, era a máxima que enaltecia cuca fresca e bem estar físico. Quase que um lema de escoteiros alertas. Trazida provavelmente da Grécia, era a referência maior para indicar pessoas de bem com a vida. Nos colégios, além de estudar a lição, todo aluno era obrigado a fazer flexões e muito polichinelo. Tudo muito simples, como a maioria das coisas de antigamente.

O teste de Cooper virou mania. Até jogadores de seleção foram endeusados e crucificados na Copa de 70, dentre os quais Brito, um incansável xerife da nossa defesa e Gerson, que tirava vantagem da pontaria para não precisar correr muito.

Acho que o bom senso fez os especialistas entenderem que correr pode ser perigoso e o mundo inteiro acreditar que quem caminha é mais feliz. Deu no que deu. Basta observar o bando de gente que enche as calçadas diariamente, nos começos de manhã e nos finais de tarde. Tem quem caminhe até mesmo debaixo de chuva de vento sul.

Saudáveis, animadinhos, comunicativos, esnobes, envergonhados, convictos, temerosos, oferecidos, distraídos, interessados, confiantes, lerdos, redondos. Atletas de todo porte, jovens empresários, técnicos especializadíssimos, vendedores de carros, ambulantes, bandidos veteranos, mocinhos joviais, políticos em geral, ex-poderosos, dirigentes senhoras assanhadas e totalmente sérias, mulheres musculosas, debutantes coloridas, donas de casa gordinhas e muitos mais. Cada qual ao seu modo, cada um em seu mundo pessoal, os brasileiros enchem calçadas em busca de satisfação, saúde, distração, oportunidades.

Vestindo roupas que refletem as intenções de cada dia e calçando tênis cada vez mais poderosos e aderentes às características do usuário e às condições das pistas, movimentam-se com estilo personalizado e em velocidade definida. Caminham de um lugar para outro por obrigação, hábito ou vício, sem ao menos pretender chegar a um lugar qualquer.

Acho que muita gente, como eu, já faça parte da paisagem urbana junto com os coqueiros, a areia da praia, os bancos da calçada, a fumaça das chaminés. Tanto que há quem nos cobre por ausências eventuais na cena diária.

Alvaro Abreu

alvaro@bambuzau.com.br

Vitória, 09.12.2009

Torcedor Tricolor

Torcedor Tricolor

O futebol anda pegando fogo nesses tempos de decisão. Os estádios estão repletos de torcidas animadas, que cantam e fazem coreografias sincronizadas para empurrar o time. A televisão mostra o espetáculo no gramado e nas arquibancadas coloridas e barulhentas. Não percebo fanatismo, mas constato entusiasmo e alegria. Os jornais andam cheios de notícias estimulantes. O faturamento aumenta e o dinheiro circula. Imagino que os jogadores se sintam valorizados por suas proezas, cobrados por suas falhas, pressionados a produzir bons resultados.

Sou tricolor, de coração. Desde muito pequeno torço pelo Fluminense. Na minha terra, torcia pelo Cachoeiro, time a que meu pai dedicava grandes atenções e pelo qual se indispunha com torcedores do Estrela. Aqui, escolhi o Vitória para sofrer, em época que o Rio Branco e a Desportiva não o deixavam ser campeão. Mas devo dizer que faz tempo que o futebol deixou de me emocionar e fez de mim um torcedor de Copa do Mundo. Nem gosto de lembrar Roberto Carlos arrumando o meião em momento crucial daquela decisão com a França.

Não sei se isso seria suficiente para que algum especialista – hoje em dia tem especialista em tudo – pudesse traçar meu perfil desporto-emocional. Mas se tentasse fazê-lo, seria prudente que considerasse que esta semana estive diante da televisão por três vezes, vendo jogo de futebol. A primeira, numa saleta de hospital, por falta de opção. A segunda, já tarde da noite, assistindo uma vitória suada do Fluminense a caminho de um título sul americano importantíssimo. Foi emocionante ver o empenho dos jogadores do meu time buscando o gol do empate, que só veio aos 47 minutos do segundo tempo, bem ao estilo flamenguista. Fizeram mais um gol, para não deixar qualquer dúvida.

Domingo foi a vez de ver o Sport de Recife dar a sua contribuição à histórica campanha do Fluminense em 2009. Um espetacular três a zero vai nos ajudar a ficar na primeira divisão. Pode parece pouco, mas não é. Fiquei sabendo pelo comentarista da TV que, na opinião de um experiente matemático, as probabilidades de rebaixamento rondavam a casa dos 99%. Exultante, ele lembrava que meu time não perdeu nenhuma das últimas 13 partidas. Um resultado estupendo, como se dizia, de alto desempenho, como se diz agora. Por mais decepcionado que esteja com o futebol, não há cidadão que resista a tamanha demonstração de amor à camisa tricolor.

Para ajudar a esclarecer o que ando sentindo, devo dizer que fui goleiro de futebol de salão, uma das mais ingratas funções que um homem pode exercer no mundo do esporte. A bola é pesada, os chutes são fortíssimos e de curta distância. O dedo médio da minha mão esquerda, quebrado na falange superior, num treino num primeiro dia de férias, é um testemunho que carrego até hoje.

Pois bem, essa reviravolta do Fluminense me fiz lembrar de uma partida disputada na quadra do Praia Tênis Club. Depois de sofrer 5 gols por falhas gritantes da nossa defesa, resolvi pedir para sair de campo logo no começo do segundo tempo. Saí xingando, direto pro chuveiro. Só fui entender a gritaria que chegava pela janela do banheiro quando soube que o nosso time tinha virado o placar para 6 a 5. Quem quiser que explique.

Alvaro Abreu

Vitória, 25.11.2009

A Gazeta