Ferramentas

Ferramentas

Os últimos dias foram de fortes emoções. Além de reunir o conselho da incubadora de empresas, dei palestra sobre sistemas avançados de gestão da produção para 140 empresários e aula sobre inovação de atitudes para mais de 15 professores. A Semana Estadual de Ciência e Tecnologia e o Salão do Inventor fizeram grande sucesso. Faltou cadeira e sobrou discurso sobre o futuro da cidade em solenidade para marcar o início da implantação do Parque Tecnológico e encaminhar o projeto de lei que institui o sistema municipal de apoio à inovação. Tendo feito 62 anos na sexta-feira, considerei o evento como festa de aniversário.

Inovar é coisa própria do bicho homem. Desde que se tornou racional, ele inventa para sobreviver, para facilitar a vida, para cuidar dos seus. As ferramentas são extensão das mãos, dos braços, da cabeça. Elas aumentam a potência, economizam o esforço, viabilizam o aperto, tornam possível muita coisa. O homem as cria por força da observação, experimentando, comparando, repetindo. Gosto de imaginar nossos ancestrais aprendendo a usar o porrete para golpear intrusos e abater animais, testando a cunha de pedra lascada para dividir a caça e se valendo de um galho como alavanca para tentar tirar pedras do interior da caverna.

Da minha parte, declaro admiração por instrumentos que o homem foi criando em função de suas necessidades prementes a cada etapa da sua existência. Tenho grande estima por minha foicinha paraibana, por uma goiva feita em Valadares e pelas faquinhas que uso para cortar bambu. Começo a usar pinças e ferrinhos de dentista, que feitos em aço muito resistente, são perfeitos para serviços de precisão.

Tenho duas caixas de ferramentas. Na primeira, guardo preventivamente parafusos e pregos de todo tamanho, molas, porcas, peças de metal e tudo o mais que possa ser utilizado para consertar alguma coisa, para fixar o que precisa ser fixado. Alicates, martelos, chaves de fenda, formões, chaves de grifo, punção, grosa, lima, torquês, serrinha de aço e chaves de boca ficam numa outra caixa menor, abarrotada.

Adoro ter por perto barbantes, cordas e cordinhas. De algodão, sisal, nylon e, sobretudo, de tucum. Tenho guardadas longas tiras de couro e linha encerada para costurar sapato. Sou usuário, desde sempre, de borracha de câmara de ar para prender quase tudo, inclusive molinete, toldos e cabo de barraca de praia. Com argumentos lógicos, consegui trazer meu armário de sobrevivência para a sala da televisão, deixando tudo bem ao alcance das mãos. É que sou fã do MacGyver da TV, aquele que faz avião com pedaços de lata, motor de geladeira velha e durex.

Em função disso tudo, e para evitar que continue aumentando perigosamente o contingente dos que não sabem pregar um prego, serrar uma tábua, colar duas madeiras, proponho que se inclua na tal lei da inovação, um artigo com a seguinte redação: “Toda criança de Vitória tem direito a receber dos pais, além de computador e ponto de internet, uma caixa onde possa guardar as ferramentas que usará para consertar o que estiver quebrado e inventar o que bem entender, para sua satisfação pessoal.”

Alvaro Abreu

Vitória, 28.10.2009

Self-Service

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SELF-SERVICE

Na semana passada, conheci mais um restaurante self-service. Na porta, uma moça elegante entregava o cartão de controle e, na balança, a dona da casa era toda sorrisos. Ambiente de fina decoração e cadeiras de boa forma garantiam conforto e bem estar. No balcão, estavam disponíveis 6 ou 7 tipos de salada, 3 opções de carnes, outras tantas de peixe e de frango, uma espécie de rocambole de frutos do mar, carpaccio derramado sobre tiras de alface, um risoles sofisticado e um penne muito atraente. A chef de cozinha circulava entre as mesas conferindo o próprio sucesso. Paguei 18 reais.

Contei mais de 20 restaurantes a quilo num raio de 300 metros de onde saio para almoçar nos dias úteis. Uma explosão de opções para uma clientela de cresce e engorda a olhos vistos. Invenção brasileira que vai se espalhar pelo mundo afora no rastro da sandália de dedo e da cachaça.

Sinal dos tempos, descoberta da pólvora, o self-service é a versão pret-a-porter da alta gastronomia. É o resultado da aplicação dos conceitos da engenharia de produção nas compras, na operação da cozinha, na organização do balcão, no layout do salão e no esquema de cobrança. Tudo isso para racionalizar processos, minimizar perdas e estoques, aprimorar controles e cortar os custos, visando oferecer alimentação de qualidade a preços justos para grandes contingentes de profissionais apressados, aposentados tranqüilos e estudantes famintos.

Lembro-me de ter ficado perplexo ao ouvir uma amiga dos meus filhos dizer para a família reunida à volta da mesa, que na casa dela não mais aconteciam momentos como aquele, pois o almoço havia sido definitivamente abolido. Práticos e eficientes, os restaurantes a quilo apenas começavam a atender os consumidores “sem cozinheira”, facilitando mudanças na vida da classe média das metrópoles.

O self-service decretou o fim do domínio do cozinheiro e da lerdeza do garçom, encerrando os tempos das incertezas em relação ao que viria lá da cozinha. Agora, a fartura e a diversificação da oferta abrem espaço para a criatividade e a gulodice na montagem da nossa refeição de cada dia. Noto que a educação do usuário está expressa na sua forma de comer e a personalidade, na composição do seu prato. O ideal é que não existissem televisões ligadas e fosse evitado o uso dos celulares durante o horário de atendimento.

Digo tudo isso porque fui criado almoçando e jantando diariamente, sem muito barulho. O cardápio era o trivial variado: arroz, feijão, salada de alface e tomate, uma verdura e carne assada, ensopada, moída, ou na forma dos disputadíssimos bifes. Macarronada só aos domingos. Nas Quintas Dançantes do Iate Clube a única opção era um inesquecível PF de arroz, farofa crocante e meio galeto assado, regado com o molho de Pedrinho. Naquela época, strogonoff era o prato de resistência nas festas mais chiques. De carne ou de frango? Era a pergunta de sempre.

No Rio, o sair de um self-service sofisticadíssimo, desses que oferecem comidas exuberantes e sabores refinados trazidos de todos os cantos do mundo, tive a plena certeza de que acabara de comer melhor do que imperadores romanos, príncipes de Gales e reis da Pérsia. Paguei 39 reais, 12 dos quais com vale-refeição.

Alvaro Abreu

Vitória, 15.10.2009

Voando na Ilha

Voando na Ilha

Dia desses uma família de corujas fez sucesso na primeira página deste jornal. Sérias e intrigadas, elas posaram para a foto diante da toca que cavaram na areia, perto da Curva da Jurema.

No início da Praia da Direita, daqui da Ilha do Boi, também tem uma família daquelas corujas, sempre atentas à movimentação de quem chega e que que já vai embora, depois de um bom banho de mar. Vez por outra, uma delas sai voando, por baixo e por perto, meio que querendo avaliar a situação.

Aliás, passarinho é o que não falta por aqui, dos bem pequenos aos mais taludos: juriti, pomba-rola, rolinha, anu branco e preto, bem-te-vi, cambaxirra, caga-sebo, cardeal, pica-pau, joão-de-barro, canário-da-terra, sabiá da mata, sabiá da praia, bombeirinho, coleiro, beija-flor, sanhaço, gavião, maçarico, andorinha-do-mar, gaivota, pardal e urubu, naturalmente.

Acompanho a evolução dessa turma desde que me mudei pra cá, em1987, quando os pardais dominavam o pedaço. A chegada dos bem-te-vis foi bem-vinda e determinante. Maiores e mais fortes, aos poucos foram tomando terreno. Faziam ninhos nos transformadores da rede elétrica e se alimentavam com ovos dos concorrentes.

Não tenho visto mais o bando de bombeirinhos que habitava a ilha desde sempre. Acho que se mudaram por falta de semente de capim colonhão (SIC), que a Prefeitura não mais permite cultivar nos terrenos baldios que restam.

Outro dia reparei o bando de maçaricos fazendo hora na laje de pedra em frente ao Village de Lille. Por alguma boa razão ancestral, eles descansam perfilados no contra-vento, num pé só, com o bico vermelho enfiado debaixo da asa direita. Para fugir da espuma das ondas, saltitam para a parte mais alta, sempre no mesmo pé. Há quem se queixe do barulho que fazem à noite.

Gosto de pensar que o mamoeiro que vejo da janela do meu quarto alimenta os sanhaços e que a moita de hibisco tenha virado uma espécie de restaurante self-service para cambaxirras, caga-sebos e beija-flor de todo tipo. Bem que merece denúncia a concorrência desleal praticada por passarinhos miúdos que bicam as frutas da nossa jabuticabeira desvairada, antes mesmo que amadureçam de todo.

Em dezembro passado apareceu um sabiá da praia, que adora passear pelos jardins da casa usando pulseira de alumínio na perna esquerda. Mansinha, acho deve ter sido solta da gaiola por insistente pressão dos filhos de quem a mantinha presa. Em compensação, nunca mais vi o único pica-pau que bicava por aqui.

Não sei bem os motivos, mas uma grande quantidade de andorinhas do mar resolveu se apossar, recentemente, da Galheta de Dentro, ilha pequena que existe pertinho da nossa, deixando a pedra toda branca e piando noites à dentro. Elas me fazem lembrar das garças carrapateiras que descem em caravana o rio Itapemirim nos fins de tarde para dormirem nas árvores perto da foz. Da varanda da casa de um amigo, parei de contar depois que haviam passado mais de 600 delas, e a tarde ainda estava bem clara.

Como muita gente da minha geração, fui criado com passarinho em volta, dentro de casa. Pouco antes de morrer, papai ganhou de presente de Augusto Ruschi, naturalista famoso lá de Santa Teresa, um bicudo dos bons, que viveu conosco por mais de 14 anos. Ele conhecia mamãe de longe. Seu canto, afinadíssimo e melodioso, era de fazer inveja a tio Cristalino, que tinha grande orgulho de seus bicudos e curiós.

Digo tudo isso com saudade da Aurora, nossa arara que vivia solta pelos muros, fazendo graça para quem passasse na rua. Temperamental, tinha ciúmes dos cachorros da casa. Interesseira, ela vinha tomar café da manhã comigo. Diariamente.

Vitória, 30 de setembro de 2009

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sandália de Dedo

Sandália de Dedo

Em Agosto, passei mais de dez dias sem usar sandália havaiana. Não foi nada fácil sair do chuveiro e não encontrar onde pisar com segurança e intimidade.

Venho usando sandália de dedo há mais de 40 anos, diariamente, com total convicção, mesmo no tempo em que matava filhos e filhas de vergonha.

Para ser honesto, acho que sou meio viciado em sandália. Um vício caseiro, inofensivo, é verdade. Basta entrar em casa para querer enfiar uma nos pés e começar a aproveitar a vida.

Bem que busquei alternativas para contornar o problema. A sandália indiana de couro que ganhei de presente há muitos anos é belíssima, mas escorrega no assoalho de madeira. Apelei para os sapatos velhos, mas eles nem de longe garantem a mesma sensação de liberdade. Não, não uso tênis.

Perdi o hábito de andar com o pé no chão porque o pó de minério deixa o dono da sola do pé morto de raiva. Descalço só mesmo na areia da praia.

Ao reclamar da situação numa roda de amigos, vi que não sou caso isolado de apego às sandálias de borracha. Bastou tocar no assunto para a conversa esquentar. Todo mundo queria falar ao mesmo tempo, comprovando que elas fazem parte da existência dos brasileiros.

Movidas a caldo de feijão e cachaça, foram feitas declarações saudosistas, confidentes, solenes, debochadas e polêmicas. Parece que carregamos na alma o trauma de uma ardência na pele da racha entre os dedos, lugar impiedosamente ralado pela alça da primeira sandália, de acabamento precário.

O design das sandálias evoluiu. O elástico no calcanhar, macete que sempre adotei para andar nas pedras, permite que crianças possam usá-las para dar os primeiros passos. As crianças de hoje já nascem geneticamente adaptadas para tanto.

Na ponta da mesa um industrial disse que inverte o lado da sola, porque virada pra cima, dura mais. Também por economia, disse que consertava a alça da frente com um prego, o que piorava bastante o incômodo entre os dedos. Essa técnica, que garantia sobrevida à sandália, foi confirmada por gente de confiança: um paraibano que vive em Frankfurt e um doutor em física, que utilizava clipes para não deixar a alça passar pelo buraco.

Um homem de boa memória lembrou as mil utilidades das sandálias: marcar a trave nas peladas, derrubar manga, frear carrinho de rolimã e servir como instrumento pedagógico. O pescador contou que coloca borracha do calcanhar no êmbolo da bomba de tirar corrupto na areia da praia, em tempo de maré baixa. Corrupto é um bicho com cabeça de tatuí, barriga de lagarta vermelha e rabo de camarão, a melhor isca que conheço.

Teve também quem garantisse que em 1962 já existir fábrica de sandália de dedo em Cachoeiro e quem dissesse ter enfrentado os preconceitos da época em que chinelo de dedo e sapato mocassim eram considerados “coisa de veado”.

A linha de evolução do produto foi mostrada por um professor nascido no interior: percata de couro cru, tamanco de madeira, alpargatas, chinelo de dedo, sandália de dedo, de borracha, de couro, japonesa, havaiana e, finalmente, as ilegítimas, genéricas. Digo que a palavra tamanco trouxe junto o som da madeira batendo no cimento das calçadas, lá em Marataizes.

Andando de tênis, na contramão, uma amiga paulista confessou que não consegue usar sandália de borracha porque trupica. Coitada!

Alvaro Abreu

Vitória, 16.09.2009

Escrita para A GAZETA

Bons Ventos

Bons Ventos

Por todos esses anos de conversas sobre pescarias, regatas, tempestades e, mais recentemente, sobre o aquecimento global, tenho visto que a imensa maioria das pessoas não distingue um sudeste fraco de uma generosa lestada. Pouca gente conhece os segredos de uma viração ou é capaz de perceber que vem vindo uma rajada, se é que sabe o que seja isso.

Predomina uma espécie de ignorância, perigosa por sinal, derivada da vida que se leva na cidade grande, onde o homem consegue sobreviver sem ao menos precisar saber se vai chover ou fazer sol na parte da tarde. Quase ninguém mais se orienta pelo que esteja se passando nos céus, sobretudo com a lua para, digamos, cortar o cabelo ou travar um namoro.

A iluminação feérica das avenidas, tão necessária para aumentar a visibilidade no asfalto e a segurança nas calçadas, acabou por esconder a lua e as estrelas dos homens apressados em chegar.

Pois saibam todos que caminhar cedinho na areia da praia, além de ser atividade terapêutica e prazerosa, permite acompanhar a sutileza da mudança dos ventos.

Naquela hora do dia, o Terral, que levava os barcos a vela para o mar do alto, é quem domina os ares. Aos poucos, com o calor do sol, ele vai se acalmando, até parar de soprar, instalando uma ligeira calmaria, até que a brisa que vem do nordeste comece a entrar.

Quase sempre o Nordeste chega calmo, com cara de quem não quer nada, como quem estuda cuidadosamente o ambiente. Na medida em que o sol vai subindo e ficando mais quente, ele vai tomando força, perdendo a condição de brisa matinal para se transformar em um vento pleno, maduro e senhor de si. Nessa condição ele agita o mar, levanta as ondas e nos traz o pó de minério de cada dia.

Isso vai assim até que no meio da noite, sem que se perceba com facilidade, uma outra calmaria se instale para que o Terral, que nasce no seco da terra, faça valer a sua vontade, natural e irresistível, de soprar mar adentro.

Essa peleja se repete até que surja uma ventania traiçoeira, vindo do sul, trazendo frio e chuva de muitos dias. Na televisão, a moça da meteorologia sempre demonstra reservas ao anunciar a chegada do mau tempo que se despregou lá da Antártida.

A friagem vem trazida por um vento que varre os pampas gaúchos com o nome de Minuano e vai ganhando apelidos ao longo da costa, sempre fazendo as pessoas rezarem para que cesse logo. Os pescadores não gostam do vento Sul, porque atrapalha a pescaria e vira as embarcações.

Nas vilas à beira mar, os pescadores controlam as fases da lua, o movimento das marés e o sentido dos ventos. Eles sabem que o resultado da pescaria depende disso e que da pescaria dependem o arroz, o feijão e a farinha. Nesses lugares, a vida, ainda que por linhas tênues, continua dependendo bastante da lua e dos ventos.

Como pescador que fui, sempre tive grande preferência pelo vento Leste, que acalma o mar, clareia as águas e embeleza as tardes. Como morador de Vitória, faz tempo que passei a torcer pela chegada do vento Sul, que além de não sujar as varandas, garante o ar puro que preciso respirar para continuar vivo.

Alvaro Abreu

Publicada na edição de 04.09.2009 de A GAZETA – Vitória ES

Frutas de Estação

Frutas de Estação

Não sei se repararam, mas dias desses estavam vendendo carambolas enormes nas esquinas da cidade. Carambola profissional, tipo exportação, especial para consumidores diferenciados, como dizem por aí.

Mais uma vitória dos pesquisadores que vivem de aprimorar e recriar frutas. Mais doces, mais coloridas, mais homogêneas, mais rentáveis. Coisas do chamado agro-bussines.

Da minha parte, fiz um excelente investimento no verão passado. Paguei R$ 5,00 por 15 mangas espadas da mangueira da calçada do prédio onde eu trabalho.

Durante anos acompanhei a vida daquela árvore, mas nunca havia tido o gostinho de experimentar uma de suas frutas. As mangas de vez sumiam de um dia para outro. No máximo, via gente tentando derrubar algumas delas, na base da pedrada.

Contratei os serviços do rapaz que se iniciava na carreira de flanelinha. Esperto, o danado subiu na árvore com facilidade, até as grimpas. Da janela da nossa sala, fui passando instruções para que ele alcançasse as mangas mais escondidas.

Ele me entregou dois sacos cheios de mangas, como se fossem troféus. Notei orgulho no seu gesto. Eram frutas perfeitas, sem um amassado sequer, porque tiradas a mão. Algumas tinham pintas pretas na casca, indicando que estavam prontas para o consumo. Outras davam tal indicação com um amarelo degradé, mais forte em volta do cabo. O cheiro forte completava o quadro de tentação.

Chupei duas delas com o caldo escorrendo pelos braços. Meu colega de sala escolheu uma bem grande para matar o desejo. Os outros, vejam só, agradeceram a oferta com cara de pouco caso. Imagino que eles devem gostar de pocan, fruta que parece inventada para agradar multidões, como esses cantores que surgem por aí, a cada semana.

Tenho birra de pocan, desde que a conheci. Confesso-me consumidor convicto das mexericas de casca lisa, azedinhas, cheias de caroço. Mexeria pequena, da roça. É que fui criado com frutas tiradas nos quintais da vizinhança. Esperava a chegada do tempo do cajá-manga, que via crescer e começar a amarelar. Acho que a impaciência me fez aprender a comer cajá com sal, com água na boca, achando uma delícia.

Mamãe costuma dizer que em Cachoeiro só se comia frutas e verduras que davam em cada estação, quase sempre trazidas de fazendas próximas. Comida não entrava nas despesas da casa. Nada vinha de muito longe.

No verão, em Marataízes, comprava-se a carga que cabia em balaios trazidos no lombo das éguas, puxadas por maratimbas, gente muito branca, de fala bem arrastada e meio cantada. Todos usavam de chapéu de palha. Os cargueiros vinham pela areia da praia lá da Ponta do Siri. O carregamento era quase sempre o mesmo: manguita redonda, cujo gosto não me sai da memória, abacaxi miúdo e muito doce, melancia comprida cheia de caroço e um melão perfumado, mas de pouco gosto, que se comia com vinho e açúcar.

Talvez por tudo isso, tenho certa dificuldade em comprar goiaba, carambola, beribá e abiu roxo. Em compensação, compro kiwi, morango e cereja sem qualquer problema psicológico. Uva também.

Alvaro Abreu

Vitória 19.08.2009

Crônica para a Gazeta

Morena do Ônibus

Morena do Ônibus

Na volta da cidade, em pleno horário do rush, dei de cara com os olhos de uma morena.

Estávamos, os dois, de pé no corredor, na traseira do ônibus. Menos de um metro de distância nos separava. Em volta, muitas caras cansadas, tristes, comuns em ônibus de dia útil. Expressões de tédio e desânimo. Ela destoava do conjunto e parecia saber disso.

Vi que ela também me viu. De relance, como se houvesse conectado alguma coisa. Sutil ligação. O olhar, firme, indicava pessoa segura de si, conhecedora do próprio valor.

Era bonita. Rosto meio quadrado, sobrancelhas negras, cabelos cacheados por cima dos ombros. Não dava para saber a roupa que usava. Só conseguia vê-la do pescoço pra cima. Teria uns 22 anos.

Não é que estivesse quente, mas a sensação de desconforto era grande. Motor acelerado, roncando alto nas retas. Como uma ilha, ela se destacava naquele mar de gente. O branco da sua pele contrastava com o tom encardido dos rostos em volta. Ela parecia sorrir.

Fingindo ler a placa de Reclamações, vi, pelo canto do olho, que ela olhava na minha direção. Ao tentar fixar os meus olhos nos dela, ela olhou para baixo, meio tímida, meio provocante.

Na entrada do Túnel Novo ela deu a impressão de querer me dizer alguma coisa. Algo doce, gentil, provavelmente. Aquele impulso pareceu se repetir quando o ônibus passou pela esquina da Rua República do Peru.

Estava chegando a minha vez de descer. Fui andando na direção da moça, por entre os passageiros. Senti que ela acompanhava meus movimentos.

– Com licença…

Foi tudo o que consegui dizer. Em silêncio, ela franziu ligeiramente a testa, contrariada.

De pé na calçada, vi o ônibus arrancar. Sorrindo, queixo apoiado no braço direito, cabeça pendendo para o lado, parecia me dizer algo bem objetivo:

– Bobão…

Um mero balançar de cabeça teria sido suficiente pra quebrar a cerimônia e abrir espaço para uma troca de impressões sobre o clima, o trânsito, a paisagem do Aterro do Flamengo. Tudo, menos aquele silêncio improdutivo.

Confesso que não me reconheci. Era como se alguma coisa tivesse se alojado na minha alma de rapaz folgado, estabelecendo um novo padrão de comportamento, bem mais sério e reprimido.

Aquilo parecia ser fruto do que se ouvia nas conversas de freqüentadores dos divãs de psicanalistas e das pregações diárias de Mário, colega de pós-graduação, defensor radical e intransigente do respeito total à individualidade e da plena garantia ao espaço alheio. Cada um na sua, custando o que custasse.

Mas Deus protege os oprimidos.

Semanas depois saí com Mário para procurar apartamento. O dinheiro era curto, mas ele precisava sair urgentemente da casa dos pais, em busca de privacidade.

Depois de muito rodar e de entrar e sair de edifícios, Mário resolveu estacionar o carro de frente para o mar, em Ipanema.

Sentada no banco de cimento, metida num short apertado e camiseta colorida, risonha como nunca, lá estava ela: a morena do ônibus.

Naquele final de tarde de sábado, cheio de razões e teorias, Mário poderia ter voltado sozinho para casa.

Vitória, 04. 08.2009

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casa de Avô

Casa de Avô

Soube, já no fim da tarde, da vinda de outra criança para chamar de neto. A notícia foi festejada em família com pizza regada a chopp e suco para a futura mãe, que confessava aumento da fome, mas ainda não apresentava barriga. Os celulares não pararam.

No meio do alvoroço, lembrei que, ao nascer, Manu ampliou o meu estado civil para o de avô. Mudança definitiva, de fazer rir e querer mais. Dito e feito, Theo nasceu, um ano e meio depois, presente da mesma norinha.

Com o casório dos meninos e duas filhas morando em São Paulo, ficamos com a caçula enamorada, vivendo em uma casa bem mais vazia.

Casa de família grande, a nossa foi sempre cheia, barulhenta e animada. Festas de raiar o dia na varanda, campeonatos de baralho, experimentações culinárias coletivas, preparação de gincana, churrascos intermináveis, caranguejadas homéricas, cozidos pra mais de 40. Houve até tempo de quarto transformado em estúdio para ensaio de banda de rock.

Depois de servir generosamente aos adolescentes, é animador vê-la se transformando em uma autêntica casa de avô, espaço para o pleno exercício da infância. Um ambiente próprio para criança ser picada por formiga, tropeçar no pau, jogar no chão prá ver se poca, cair de testa, ralar o braço, provar o gosto, sujar a cara, machucar o dedo, comer do chão, experimentar se dói, furar o pé, puxar o rabo, quebrar um dente, balançar na rede, andar na grama, escutar bem-te-vi, ver lagarta na folha.

Lugar de perigos iminentes, de escada proibida, de muitas portas e degraus. Uma verdadeira mina de objetos atraentes e coisas divertidas: sela de cavalo, bichos de madeira, rede, cadeiras de balanço, sino de bronze, pedrinhas coloridas, sementes do Pará, bancada de marceneiro, pedaços de bambu, orquídeas, cachorros, jabuticabeira, pé de romã, horta de manjericão, salsa, coentro e cebolinha. Cores, muitas cores, além de pó de minério farto para garantir o acabamento.

Para brincar no banho, a casa oferece atrações sensacionais. Além de chuveiros, tem banheira, tanque, mangueira de jardim, várias pias, chuveirão, bacia de plástico, cuia de cabaça, além de um potente lava-jato caseiro.

Nela há quem deseduque achando graça, descumpra normas de bons modos, chantageie com cocada, pendure menino pelos pés, desenhe relógio no pulso. Mas é bom que se diga que nela mora uma avó carinhosa e com muita experiência no trato com criança que rabisque, cante e requebre.

Na nossa casa de avô sempre tem alguém podando árvore, fazendo colher, varrendo varanda, pregando prego, desmontando caixa, fotografando bicho, molhando planta, limpando camarão, amolando faca.

Digo tudo isso com dó dos milhares de netos de avós que trabalham fora, compram pronto e cozinham pouco, gente que não têm tempo para ficar em casa inventando moda, fazendo bobagens.

É muito bom ver Manu andando por todos os cantos, exercitando a curiosidade, desvendando os segredos da casa. Uma sorridente desbravadora a serviço da penca de netos que vem vindo por aí.

Vitória, 08 de Julho de 2009

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cachoeirenses Talentosos

Cachoeirenses Talentosos

Cachoeirense adora se reencontrar. Lá na própria terra, no Rio de Janeiro, na Barra do Jucu, em Brasília, aqui em Vitória. É sempre festa de abraços, beijos e lembranças.

Rapazinho da capital, sempre que ia a Cachoeiro, percorria a 25 de Março bombardeado por senhoras debruçadas nas janelas, contentes em ver de volta um dos filhos de Bolivar e Gracinha.

– Aí, hein, veio ver a terrinha?

– Como você cresceu!

– Seu irmão mais velho veio também? E o mais novo?

Aprendemos a nos reencontrar com data marcada. Nas férias de Julho em Cachoeiro, com direito a desfile e baile de gala, e nas de verão, festejando a volta dos que saiam para estudar e trabalhar fora. E seguimos assim.

Dia desses praticamos o reencontro coletivo no centenário de Gentil Barreto, nordestino que optou por Cachoeiro. Almoço para mais de 200. As atitudes de sempre, por mera saudade de nós mesmos.

Soube pela imprensa que o show de Roberto Carlos foi pura emoção e que, diante dos súditos, o Rei entregou os pontos.

– Eu voltei, aqui é o meu lugar.

Uma amiga que ouviu a confissão bem de perto contou que foi realmente emocionante, sobretudo para ela que se declara errante no mundo, a procura de um lugar para chamar de seu.

– Nasci na Bahia, fui menina pro Rio, estudei na Rural, casei com alemão cachoeirense, vivi em Moçambique, fui para Cachu, moro em Vitória, tenho casa em Iriri…

– Vinho de solo determinado, cachaça de lugarejo definido. A origem é selo de qualidade que distingue e valoriza o produto.

No olhar dela, uma ponta de inveja da minha condição de bairrista convicto. É que nasci na Casa dos Braga. E isso já é muita coisa, hão de convir.

No andar da conversa, ela contou com muita empolgação a novidade que veio trazendo de lá.

– Vamos criar um Monumento ao Talento do Cachoeirense!

– Queridinha, isto é uma declaração de rendição incondicional. Justifica um título de cidadã cachoeirense. Por merecimento.

Entusiasmado e acreditando justa e cabível, sugeri pequena adequação na proposta original, o que ela aceitou, morrendo de rir: erguer um Monumento aos Mil Talentos de Cachoeiro.

A indicação dos talentosos seria democrática, feita por gente de lá, de boa memória.

Uma grande placa de mármore branco perfeitamente polido com o nome de quantos, a seu modo e a seu tempo, ajudaram a criar e a manter o orgulho de sermos de Cachoeiro. Nome e atividade, naturalmente.

Só para dar concretude à idéia, proponho incluir na placa: beque raçudo, médico parteiro, sanitarista animado, baliza da banda, orador oficial em qualquer solenidade, professora de artes, ilustradora modesta, sorveteiro da carrocinha, escalador do Itabira, roqueiro rebelde, fazedor de colher.

Se necessário, e imagino que o será, bastará encomendar mais placas do mesmo mármore branquinho, que lá tem muito e do melhor.

Gente talentosa é o que não faltará.

Alvaro Abreu

Publicada no Caderno 2 de A Gazeta, de Vitória em 26.06.2009

Supersônico Colorido

Supersônico Colorido

A praia de Copacabana estava mais cheia do que seria normal para uma tarde nublada de sábado. Nas calçadas as pessoas estavam irrequietas. Impacientes, pareciam esperar por algo muito importante.

Não resisti à tentação de escutar a conversa do casal sentado ao meu lado. O rapaz parecia seguro:

– Vai passar às quatro e vinte.

Sabido isso, só faltava descobrir o que passaria por ali, em horário tão exato.

Ao olhar para a areia, dei de cara com o sorriso de uma antiga namorada que tinha ido para a Índia, em busca da sabedoria oriental e de novos conhecimentos sobre o corpo e a mente.

Ela caminhava, displicentemente, com as sandálias nas mãos. Magérrima, usava um vestido longo de algodão, coloridíssimo. No braço direito argolas de metal e no outro, uma pulseira de rabo de elefante. Com cabelos encaracolados e sem maquiagem, formava uma figura bonita.

A sua fala era suave, como um cântico religioso. Vermelhos e quase fechados, os olhos mostravam um brilho incomum de quem acabara de descobrir algo fascinante. Vi que abolira o soutien e que já não raspava pernas e axilas. A própria estética da liberdade.

O abraço, apertado e carinhoso, me foi dado da cabeça aos pés.

Diante da minha surpresa, sempre sorrindo, declarou-se uma feliz praticante da alimentação macrobiótica, usuária da meditação transcendental e adepta convicta de uma medicina fundamentada na energia das cores.

Animada com a minha curiosidade, ela explicava os fundamentos. Cada cor possuía energias específicas e, conseqüentemente, uma função terapêutica bem determinada.

Em tom de segredo e como que querendo me proteger dos males cósmicos e das baixas energias, ela insistiu que eu evitasse a todo custo usar o marrom.

– É uma cor negativa, maior baixo astral.

Ao me confessar proprietário de muitas roupas marrom, demonstrando indulgência, tratou de evitar constrangimentos e encerrar o assunto. Talvez em consideração ao passado.

– Olha lá! Olha ele lá!

Voando baixo, o Concorde expunha suas formas arrojadas. Parecia uma águia metálica em preparação para pouso no ninho. Motores quadrados sob as asas em delta, ele voava com o bico inclinado em relação ao resto da fuselagem. Majestoso e brilhante, aquele avião era a própria imagem do futuro. Era a primeira vez que vinha ao Brasil.

Morar em cidade grande tinha lá suas vantagens, sobretudo para quem se preparava para a vida. Numa mesma tarde, em plena areia da praia, acabava de receber provas evidentes de que o mundo estava passando por mudanças radicais que, por certo, repercutiriam mais adiante.

Apresentado como algo maravilhoso e revolucionário, o Concorde não resistiu à lógica das avaliações econômicas, nem às críticas apaixonadas dos ecologistas.

Em compensação, saibam que passados quase 40 anos e sem ao menos lembrar do rosto daquela ex-namorada, não consigo usar uma simples camiseta marrom.

Vitória, 11.06.2009

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA