Casa de Avô

Casa de Avô

Soube, já no fim da tarde, da vinda de outra criança para chamar de neto. A notícia foi festejada em família com pizza regada a chopp e suco para a futura mãe, que confessava aumento da fome, mas ainda não apresentava barriga. Os celulares não pararam.

No meio do alvoroço, lembrei que, ao nascer, Manu ampliou o meu estado civil para o de avô. Mudança definitiva, de fazer rir e querer mais. Dito e feito, Theo nasceu, um ano e meio depois, presente da mesma norinha.

Com o casório dos meninos e duas filhas morando em São Paulo, ficamos com a caçula enamorada, vivendo em uma casa bem mais vazia.

Casa de família grande, a nossa foi sempre cheia, barulhenta e animada. Festas de raiar o dia na varanda, campeonatos de baralho, experimentações culinárias coletivas, preparação de gincana, churrascos intermináveis, caranguejadas homéricas, cozidos pra mais de 40. Houve até tempo de quarto transformado em estúdio para ensaio de banda de rock.

Depois de servir generosamente aos adolescentes, é animador vê-la se transformando em uma autêntica casa de avô, espaço para o pleno exercício da infância. Um ambiente próprio para criança ser picada por formiga, tropeçar no pau, jogar no chão prá ver se poca, cair de testa, ralar o braço, provar o gosto, sujar a cara, machucar o dedo, comer do chão, experimentar se dói, furar o pé, puxar o rabo, quebrar um dente, balançar na rede, andar na grama, escutar bem-te-vi, ver lagarta na folha.

Lugar de perigos iminentes, de escada proibida, de muitas portas e degraus. Uma verdadeira mina de objetos atraentes e coisas divertidas: sela de cavalo, bichos de madeira, rede, cadeiras de balanço, sino de bronze, pedrinhas coloridas, sementes do Pará, bancada de marceneiro, pedaços de bambu, orquídeas, cachorros, jabuticabeira, pé de romã, horta de manjericão, salsa, coentro e cebolinha. Cores, muitas cores, além de pó de minério farto para garantir o acabamento.

Para brincar no banho, a casa oferece atrações sensacionais. Além de chuveiros, tem banheira, tanque, mangueira de jardim, várias pias, chuveirão, bacia de plástico, cuia de cabaça, além de um potente lava-jato caseiro.

Nela há quem deseduque achando graça, descumpra normas de bons modos, chantageie com cocada, pendure menino pelos pés, desenhe relógio no pulso. Mas é bom que se diga que nela mora uma avó carinhosa e com muita experiência no trato com criança que rabisque, cante e requebre.

Na nossa casa de avô sempre tem alguém podando árvore, fazendo colher, varrendo varanda, pregando prego, desmontando caixa, fotografando bicho, molhando planta, limpando camarão, amolando faca.

Digo tudo isso com dó dos milhares de netos de avós que trabalham fora, compram pronto e cozinham pouco, gente que não têm tempo para ficar em casa inventando moda, fazendo bobagens.

É muito bom ver Manu andando por todos os cantos, exercitando a curiosidade, desvendando os segredos da casa. Uma sorridente desbravadora a serviço da penca de netos que vem vindo por aí.

Vitória, 08 de Julho de 2009

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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