Supersônico Colorido

Supersônico Colorido

A praia de Copacabana estava mais cheia do que seria normal para uma tarde nublada de sábado. Nas calçadas as pessoas estavam irrequietas. Impacientes, pareciam esperar por algo muito importante.

Não resisti à tentação de escutar a conversa do casal sentado ao meu lado. O rapaz parecia seguro:

– Vai passar às quatro e vinte.

Sabido isso, só faltava descobrir o que passaria por ali, em horário tão exato.

Ao olhar para a areia, dei de cara com o sorriso de uma antiga namorada que tinha ido para a Índia, em busca da sabedoria oriental e de novos conhecimentos sobre o corpo e a mente.

Ela caminhava, displicentemente, com as sandálias nas mãos. Magérrima, usava um vestido longo de algodão, coloridíssimo. No braço direito argolas de metal e no outro, uma pulseira de rabo de elefante. Com cabelos encaracolados e sem maquiagem, formava uma figura bonita.

A sua fala era suave, como um cântico religioso. Vermelhos e quase fechados, os olhos mostravam um brilho incomum de quem acabara de descobrir algo fascinante. Vi que abolira o soutien e que já não raspava pernas e axilas. A própria estética da liberdade.

O abraço, apertado e carinhoso, me foi dado da cabeça aos pés.

Diante da minha surpresa, sempre sorrindo, declarou-se uma feliz praticante da alimentação macrobiótica, usuária da meditação transcendental e adepta convicta de uma medicina fundamentada na energia das cores.

Animada com a minha curiosidade, ela explicava os fundamentos. Cada cor possuía energias específicas e, conseqüentemente, uma função terapêutica bem determinada.

Em tom de segredo e como que querendo me proteger dos males cósmicos e das baixas energias, ela insistiu que eu evitasse a todo custo usar o marrom.

– É uma cor negativa, maior baixo astral.

Ao me confessar proprietário de muitas roupas marrom, demonstrando indulgência, tratou de evitar constrangimentos e encerrar o assunto. Talvez em consideração ao passado.

– Olha lá! Olha ele lá!

Voando baixo, o Concorde expunha suas formas arrojadas. Parecia uma águia metálica em preparação para pouso no ninho. Motores quadrados sob as asas em delta, ele voava com o bico inclinado em relação ao resto da fuselagem. Majestoso e brilhante, aquele avião era a própria imagem do futuro. Era a primeira vez que vinha ao Brasil.

Morar em cidade grande tinha lá suas vantagens, sobretudo para quem se preparava para a vida. Numa mesma tarde, em plena areia da praia, acabava de receber provas evidentes de que o mundo estava passando por mudanças radicais que, por certo, repercutiriam mais adiante.

Apresentado como algo maravilhoso e revolucionário, o Concorde não resistiu à lógica das avaliações econômicas, nem às críticas apaixonadas dos ecologistas.

Em compensação, saibam que passados quase 40 anos e sem ao menos lembrar do rosto daquela ex-namorada, não consigo usar uma simples camiseta marrom.

Vitória, 11.06.2009

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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