Mais servicinho maneiro

Modéstia à parte, o servicinho de recuperação da cadeira de balanço está ficando uma maravilha. O homem que coloca a palhinha veio buscar as peças. Prometeu entregar na quinta-feira, o que vai me permitir conferir o texto desta crônica, balançando na fresca da varanda.

Devo confessar que subestimei o tempo que seria necessário para finalizar o serviço. Limpar a madeira é algo relativamente simples. Difícil mesmo é obter uma superfície plana, livre de defeitos, lisinha que nem bunda de anjo. Aprendi, faz tempo, que os defeitos vão diminuindo de expressão na medida em que o serviço vai avançando. Quando você acaba com um deles, logo aparece outro, até então menos visível. No caso da madeira, esse processo praticamente não tem fim. No início, o que está ruim pode ser visto a olho nu, mas depois é necessário contar com ajuda do tato, esse poderoso detector de imperfeições sutis. E foi exatamente isso o que andei fazendo durante muitas e muitas horas nesses últimos dez dias: procurar defeitos e tentar tirá-los, até não ter mais o que fazer.

Fomos ao antiquário que fica na beira do canal em busca de um pequeno aro de madeira, a peça que estava faltando. Minha caçula, a maior interessada, encontrou um numa pilha de pedaços de móveis, precisando de algum trabalho para deixá-lo em condições de uso.

Feito isso, foi preciso descobrir uma maneira de remontar a cadeira sem que ela ficasse troncha, fora de esquadro. Para tanto, o conjunto encosto-aro-assento teria que ser aparafusado nas duas partes laterais em uma posição tal, única talvez, que garantisse o alinhamento perfeito da cadeira.

Depois de muito matutar, lembrei-me das potencialidades funcionais das tirinhas de borracha de câmera de ar. Cortei umas tantas e fui amarrando com elas as peças, umas nas outras, ajustando as inclinações e alturas até conseguir encontrar a posição ideal para furar, com segurança, os novos buracos para os parafusos. Uma poderosa engenharia tupiniquim de montagem de cadeira de balanço, inteiramente fundamentada no bom senso.

Consultado, seu Manoel, o pintor e lustrador dos móveis da família há décadas, declarou dificuldade em encontrar cera de carnaúba, inclusive na Vila Rubim. Diante disso, fui procurar em uma venda antiga, de gente conhecida, na entrada do bairro Gurigica. Feliz da vida, paguei R$ 4,80 por um pedaço razoável de cera bem amarelinha. Ao ver aquele produto típico da sua terra, meu compadre piauiense fez cara de satisfação e se lembrou de ter visto, ainda menino, gente encerando a mobília da casa dele.

Fiz o serviço de polimento conforme o figurino: passar pouca cera e esfregar um pano com bastante força, até deixar a madeira brilhando. Pedaço, por pedaço, curva por curva. Deu gosto de ver o resultado, mas devo dizer que a cera realçou imperfeições deixadas pra trás, que precisei sanar. Quase um sem fim. Falando nisso, já tem gente dizendo que vai ser preciso fazer o serviço na outra cadeira de balanço, que agora está quase parecendo ter saído do lixo, de tão encardida que está. É a força do relativo arranjando trabalho pra mim.

É bom que se saiba que três pessoas amigas que leram a minha última crônica confessaram que usam cadeiras que encontraram na rua e, mais do que isso, que elas são as suas preferidas. Durante a abertura da exposição sobre Rubem Braga, no salão superlotado do Palácio Anchieta, fiquei com medo de ser abordado por alguém que se apresentasse como sendo o antigo dono da cadeira, inteiramente arrependido, querendo ela de volta.

Vitória, 02 de abril de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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