Newton Braga

Newton Braga

Na semana passada, uma comitiva oficial da Prefeitura de Cachoeiro veio especialmente a Vitória para comunicar a Dona Gracinha, minha mãe, que ela tinha sido escolhida para ser a Cachoeirense Ausente de 2011. O nome dela, Anna Graça Braga de Abreu, foi definido por aclamação em reunião convocada especialmente para tratar dos festejos do centenário de nascimento de seu irmão, o saudoso Newton Braga.

Durante a conversa, ela, que não cabia em si por se saber lembrada pela gente da sua terra, declarou disposição em participar de todos os eventos da programação. Para quem não sabe, a maratona começa no trevo da Safra, na BR 101, com a entrega da chave da cidade ao homenageado, que depois é levado em cortejo até o Centro Operário de Proteção Mútua, onde se reafirma a tradição de saudar pessoas honradas. Desta vez se lembrarão de seu pai, Chico Braga, primeiro prefeito de Cachoeiro e fundador daquela entidade centenária de ajuda às famílias mais carentes.

A Câmara de Vereadores se reunirá em sessão festiva para a entrega do título à Cachoeirense Ausente e de diplomas a outros conterrâneos, por seus feitos e méritos, tudo isso após os discursos de praxe. Na manhã seguinte haverá desfile escolar com a Banda do Liceu tocando alto para cadenciar a marcha dos alunos e o malabarismo das balizas que rodopiam à sua frente. O sol estará quente, mas ninguém arredará o pé do palanque montado perto da antiga Estação da Leopoldina. É bem provável que mamãe se emocione nessa hora, pois sempre se gaba de ter sido baliza do Liceu. É uma pena, mas este ano o tradicional baile de gala não será no Caçadores, onde ela dançava nas domingueiras e nos bailes de carnaval. Mesmo assim, ela encomendará um vestido longo, pois não pode perder a festa.

Soubemos que a escolha de seu nome provocou fortes emoções no poeta Athayr Cagnyn, seu amigo de infância. A sugestão fora dada por pessoa querida, que mora no Rio de Janeiro, como mais uma das muitas homenagens que serão prestadas a Newton Braga: reedição de seus livros, publicação de suas críticas literárias e de um livro novo feito por suas filhas, lançamento de selo comemorativo, concurso de poesia nas escolas, reinstalação de monumento na praça e uma nova sede da escola com seu nome.

Bem sei que pouca gente ouviu falar nesse irmão de Rubem Braga. É que tio Newton, que morreu em 1962, era pessoa muito reservada e modesta por convicção. Em Cachoeiro, ele criou fama de homem generoso e inteiramente dedicado aos assuntos de interesse coletivo. Poeta lírico, escritor refinado, crítico literário rigoroso, tabelião que não aceitou o terno obrigatório, pescador de robalos e piabas, letrista de marchinhas de carnaval, sócio da primeira agência de publicidade da cidade, Newton foi amigo de muitos e um valente beque central do Estrela FC.

Ele inventou a festa de Cachoeiro e a figura do Cachoeirense Ausente para animar o reencontro da cidade com os que haviam saído para estudar ou tentar a sorte. Atiçou o sentimento de pertencimento em tanta gente e de forma tão competente que a coisa se transformou no famoso bairrismo cachoeirense, que todos conhecem e alguns até admiram. Prova disso é o orgulho de sua irmã caçula em ter nascido no sobrado da família na Rua 25 de Março, na margem direita do rio Itapemirim, bem diante do Itabira.   

Vitória, 6 de Abril de 2011

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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